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Star 5

Sinfonia de Desejos e Sombras

O sol mal havia cruzado o topo das montanhas de Konoha quando o primeiro som de porcelana estilhaçada ecoou pelo distrito Uchiha. Sasuke estava parado na cozinha, a respiração curta e as mãos trêmulas, olhando para o prato de tomates com canela que, minutos antes, parecia a única coisa capaz de salvá-lo da insanidade. Agora, o cheiro doce e terroso o atingia como uma kunai envenenada.

— Naruto! — a voz de Sasuke saiu mais como um rosnado suplicante do que como um comando.

Naruto surgiu na porta em um borrão alaranjado, os olhos arregalados e um pedaço de torrada na boca. Ele engoliu a seco, vendo o estrago no chão e a palidez quase cadavérica do companheiro.

— Sasuke? O que houve? Eu achei que você amava essa esquisitice de tomate com canela!

— Eu amava há cinco minutos — sibilou Sasuke, cobrindo a boca com a mão e correndo para a pia. — Agora eu sinto que, se vir outro tomate na minha frente, vou usar o Susanoo para nivelar esta casa. Limpe isso. Agora.

Naruto suspirou, pegando um pano e começando a recolher os cacos. Ele estava sendo mais calmo do que qualquer um esperaria do ninja hiperativo. Talvez fosse a influência do Kurama, que parecia estar tirando sonecas mais longas ultimamente para "não lidar com os hormônios de dois idiotas", ou talvez fosse apenas o fato de que ver Sasuke vulnerável despertava nele um instinto protetor que superava sua própria vontade de revidar os insultos.

— Tá bom, tá bom — murmurou Naruto, mantendo o tom de voz baixo. — Eu vou limpar. Mas você precisa comer algo, Sasuke. A Sakura disse que o seu estoque de chakra está ficando instável porque você não segura nada no estômago.

— A culpa é sua — repetiu Sasuke, a voz abafada. — Você e esse seu DNA barulhento. Esse... esse ser aí dentro está exigindo coisas que não fazem sentido.

Naruto se levantou, aproximando-se com cuidado. Ele colocou a mão no ombro de Sasuke, sentindo a tensão nos músculos do Uchiha.

— Eu sei que é difícil, "teme". Mas olha pelo lado positivo: pelo menos você não está tendo desejos de comer argila, como o Deidara.

Sasuke soltou um suspiro longo, finalmente relaxando os ombros.

— Argila?

— É o que o Gaara me contou por pergaminho — Naruto riu baixinho. — Ele disse que teve que selar o estoque de argila explosiva do Deidara em um pergaminho de segurança máxima porque ele tentou dar uma mordida em um pássaro de C1 ontem à noite.

Sasuke permitiu que o canto de sua boca subisse um milímetro. A imagem do renegado da Akatsuki tentando comer a própria arte era, no mínimo, satisfatória.

Enquanto isso, no Hospital de Konoha, o ambiente era muito menos leve. Sai estava sentado na beira da maca, as pernas balançando no vazio. Ele segurava um pincel, mas não conseguia levar a ponta ao papel. Suas mãos estavam frias, e uma dor surda e constante em seu baixo ventre o lembrava de que sua fisiologia, alterada pelos anos de treinamento desumano na Raiz, estava lutando para sustentar a vida que crescia ali.

Shikamaru entrou no quarto carregando um copo de chá térmico. Ele parecia ter envelhecido cinco anos em três meses. O peso de ser o conselheiro do Hokage e o peso emocional de seu passado recente com Temari ainda o assombravam, mas ele estava tentando. Realmente tentando.

— Você não deveria estar sentado assim, Sai — disse Shikamaru, colocando o chá na mesa de cabeceira. — A enfermeira disse que você precisa de repouso absoluto hoje. Seu fluxo de chakra está... errático.

— Eu sinto que estou desaparecendo, Shikamaru — disse Sai, com sua honestidade desarmante. — É como se o bebê estivesse pintando um novo mundo dentro de mim, mas usando toda a minha tinta para isso. Não sobra nada para o "eu".

Shikamaru sentiu um aperto no peito. Ele se aproximou e, com uma hesitação que não era comum em um estrategista, pegou o pincel da mão de Sai e o colocou de lado.

— Você não vai desaparecer. Eu não vou deixar.

— Você diz isso porque é o seu dever? — Sai olhou para ele, os olhos negros buscando uma verdade que ele ainda não sabia ler completamente. — Porque eu sei que você ainda olha para as fotos de Suna quando acha que eu não estou vendo.

Shikamaru travou. Ele soltou um suspiro pesado, sentando-se na cadeira ao lado da maca.

— Eu sinto falta do que era simples, Sai. Sinto falta de quando os problemas eram apenas missões de Rank S. Mas... — ele hesitou, procurando as palavras certas — ...isso aqui, entre nós, não é um problema. É uma complicação que eu escolhi enfrentar. Eu não estou aqui por dever. Estou aqui porque, por mais que seja um "saco" admitir, eu me importo com o que acontece com você. Não apenas com o bebê. Com você.

Sai inclinou a cabeça, processando a informação.

— Isso é... uma declaração de afeto de nível 3? — perguntou ele, um pequeno e frágil sorriso surgindo.

— É o máximo que você vai conseguir de um Nara antes do meio-dia — resmungou Shikamaru, mas ele não soltou a mão de Sai.

Do outro lado da vila, na residência oficial dos hóspedes, o clima era de guerra.

— EU NÃO SOU UM VASO DE FLORES, GAARA! — Deidara gritou, chutando uma almofada que o Kazekage acabara de colocar em suas costas. — Pare de me olhar como se eu fosse quebrar! A arte é explosão, hm! E eu sinto que vou explodir a qualquer segundo!

Gaara permanecia imóvel, a expressão de serenidade absoluta servindo apenas para irritar ainda mais o loiro.

— Você está carregando dois novos seres, Deidara. O esforço físico é dobrado. Eu apenas quero garantir que você esteja confortável.

— Confortável? — Deidara riu, uma risada nervosa. — Eu tenho dois pequenos monstros chutando meus rins, meu estômago rejeita tudo que não seja picles com geleia de pimenta, e eu não consigo nem preparar meu C3 sem sentir tontura! Isso não é arte, é tortura!

Gaara deu um passo à frente. Ele não sabia como lidar com o temperamento explosivo de Deidara, mas sabia o que era ser um monstro aos olhos dos outros. Ele sabia o que era ter algo dentro de si que causava dor e medo.

— Eles não são monstros — disse Gaara, a voz baixa e firme. — Eles são uma extensão de você. De nós.

Deidara parou de gritar. Ele olhou para Gaara, para a marca de "Amor" na testa do ruivo, e sentiu uma pontada de algo que ele odiava admitir: segurança.

— Você fala como se fosse fácil — resmungou Deidara, sentando-se com dificuldade. — O que você sabe sobre isso?

— Eu sei que passei a vida toda querendo alguém que cuidasse de mim dessa forma — respondeu Gaara, estendendo a mão para tocar, com extrema cautela, a barriga de Deidara. — Deixe-me fazer isso por eles. E por você.

Deidara desviou o olhar, o rosto ficando vermelho.

— Tá, tanto faz... mas se você contar para o Tobi que eu deixei você me paparicar, eu juro que te transformo em pó de areia fina, hm.

Enquanto uns lutavam contra o temperamento, outros mergulhavam na mais pura e exagerada dedicação. Na casa de Iruka, o cheiro de incenso relaxante impregnava o ar. Kakashi estava ajoelhado no chão, organizando uma pilha de livros sobre "Como educar um prodígio sem traumatizá-lo".

— Kakashi, você já leu esse livro três vezes hoje — disse Iruka, rindo enquanto tentava dobrar algumas roupas.

— O conhecimento nunca é demais, Iruka-sensei — respondeu Kakashi, a voz abafada pela máscara, mas os olhos sorridentes. — E se ele herdar sua teimosia? Ou o meu hábito de chegar atrasado? Precisamos de um plano de contingência.

Iruka sentou-se no sofá, soltando um suspiro de cansaço feliz.

— Ele vai herdar o que tiver que herdar. O importante é que ele tenha um pai que não o deixe levantar um dedo sequer. Sério, Kakashi, eu tentei lavar a louça e você usou um Jutsu de Substituição para me tirar da frente da pia.

— A água estava muito quente — justificou o Sexto Hokage, levantando-se e indo sentar ao lado de Iruka. — Eu só quero que você aproveite. Você passou anos cuidando de todas as crianças da vila. Agora, deixe-me cuidar de você.

Iruka encostou a cabeça no ombro de Kakashi, fechando os olhos.

— Você vai ser um pai maravilhoso, Kakashi. Mas, por favor, pare de tentar ler "Icha Icha Paradise" para a minha barriga. Eu sei que você acha que é literatura clássica, mas não é apropriado.

Kakashi tossiu, levemente embaraçado.

— É uma história sobre... complexidades humanas, Iruka. Mas tudo bem, vou passar para os pergaminhos de história shinobi.

No campo de treinamento 7, o som de golpes rápidos contra troncos de madeira havia sido substituído pelo som de respirações compassadas. Neji Hyuuga estava sentado sob a sombra de uma árvore, os olhos fechados, enquanto Rock Lee fazia flexões de um braço só ao seu lado.

— Novecentos e noventa e oito... novecentos e noventa e nove... mil! Pela força da juventude! — Lee deu um salto, parando em pé com um sorriso radiante. — Neji! Você se sente revigorado pelo meu treino?

Neji abriu um dos olhos, observando o companheiro suado e cheio de energia.

— Lee, o fato de você treinar não me faz sentir revigorado. Na verdade, só de olhar para você, eu sinto que preciso de uma soneca de três dias.

— Oh! Mil perdões! — Lee ajoelhou-se ao lado de Neji, preocupado. — Eu devia ter focado na energia calmante! Quer que eu faça aquela massagem nos pés que o Guy-sensei recomendou?

Neji hesitou. Ele era um Hyuuga, um gênio, um homem que prezava pela postura e pelo orgulho. Mas seus tornozelos estavam inchados e a dor nas costas era um lembrete constante de que seu corpo não era mais apenas dele.

— Só se você prometer ficar quieto por cinco minutos — murmurou Neji.

— Promessa de sangue! — Lee disse, já tirando as sandálias de Neji com uma delicadeza que contrastava com sua força bruta.

Enquanto Lee massageava seus pés, Neji sentiu uma onda de tranquilidade percorrer seu corpo. Ele nunca admitiria em voz alta, mas a presença constante e barulhenta de Lee era a única coisa que impedia sua mente de entrar em espiral sobre as responsabilidades que viriam com o herdeiro do clã. Ele esticou a mão e tocou o topo da cabeça de Lee, os dedos se perdendo no cabelo tigelinha.

— Obrigado, Lee — sussurrou Neji.

Lee parou por um segundo, o rosto iluminando-se com uma alegria que poderia ofuscar o sol.

— Eu farei qualquer coisa por você, Neji! Por você e pelo nosso pequeno lótus!

A noite começou a cair sobre a Vila da Folha. Na casa dos Uchiha, o silêncio finalmente reinava. Naruto e Sasuke estavam deitados na cama, o quarto iluminado apenas pela luz da lua que entrava pela janela.

— Naruto? — chamou Sasuke, a voz rouca.

— Hum?

— Se esse bebê nascer com o seu cabelo... eu vou pedir o divórcio que nem chegamos a assinar.

Naruto soltou uma gargalhada alta, rolando para o lado e abraçando Sasuke por trás, colocando a mão sobre o ventre do Uchiha.

— Ah, admita, Sasuke. Você adoraria um pequeno Naruto correndo por aí e chamando você de "teme".

— Eu preferiria lutar contra o Madara novamente — resmungou Sasuke, mas ele não afastou a mão de Naruto. Pelo contrário, entrelaçou seus dedos nos dele. — Mas... se ele tiver os seus olhos... acho que eu posso tolerar.

Naruto sorriu, encostando o rosto nas costas de Sasuke.

— Ele vai ser incrível, Sasuke. Não importa com quem se pareça. Ele vai ser o nosso caminho para o futuro.

Sasuke não respondeu, mas o aperto em sua mão e a respiração que finalmente se tornou tranquila foram resposta o suficiente. O Jutsu do Lótus Carmesim pode ter começado como uma névoa de caos e manipulação, mas ali, no silêncio da noite, estava claro que o que ele havia plantado era algo muito mais real e duradouro do que qualquer ilusão.

Konoha dormia, mas dentro daquelas casas, cinco histórias diferentes se fundiam em uma só: a história de homens que, contra todas as leis da natureza e de suas próprias criações, estavam descobrindo que a maior missão de suas vidas não seria decidida com kunais ou jutsus, mas com paciência, tomates com canela e a coragem de amar o desconhecido.