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O Despertar dos Sentidos e o Aroma da Esperança

A luz da manhã em Konoha parecia particularmente insistente, filtrando-se pelas cortinas entreabertas do quarto de Naruto e Sasuke. Para o Uchiha, cada raio de sol parecia um insulto pessoal. Ele estava sentado na borda da cama, o rosto enterrado nas mãos, lutando contra a primeira onda de enjoo do dia. O cheiro de torrada que vinha da cozinha — algo que ele normalmente apreciaria — agora parecia um veneno volátil.

— Naruto... — a voz de Sasuke saiu rouca e carregada de uma irritação que beirava o desespero.

— Já estou indo, "teme"! — Naruto entrou no quarto equilibrando uma bandeja. Seu sorriso era largo, mas seus olhos mostravam uma paciência nova, uma calma que ele vinha cultivando desde que a realidade da gestação se instalara. — Trouxe chá de gengibre e aquelas fatias de limão que você disse que ajudavam ontem.

Sasuke levantou o olhar, as orbes escuras faiscando.

— Eu não disse que ajudavam. Eu disse que eram a única coisa que não me fazia querer incendiar a vila inteira. — Ele pegou o copo com rispidez, mas o tremor em suas mãos o traía. — Isso é ridículo. Eu sou um shinobi que enfrentou deuses, Naruto. Por que meu próprio corpo está me traindo por causa de um... de um "usuratonkachi" minúsculo?

Naruto sentou-se ao lado dele, ignorando o tom ríspido. Ele colocou a mão sobre o ventre de Sasuke, sentindo o calor do chakra que pulsava ali.

— Não é traição, Sasuke. É criação. O Kurama diz que seu corpo está apenas tentando ajustar o selo biológico que o jutsu criou. — Naruto riu baixinho. — E não chame ele de pequeno usuratonkachi. Ele pode ouvir e nascer com o seu temperamento difícil, e aí Konoha realmente estará em perigo.

Sasuke bufou, mas não afastou a mão de Naruto. Ele sorveu o chá amargo, sentindo o estômago se acalmar minimamente.

— Se ele nascer com o seu barulho, eu o entrego para o Orochimaru cuidar — resmungou, embora o aperto de seus dedos na mão de Naruto dissesse o contrário. — Agora saia. O cheiro desse seu sabonete de ramen está me matando.

— É de laranja, Sasuke! — Naruto protestou, levantando-se. — Mas tudo bem, vou ver como o Sai está. O Shikamaru me mandou uma mensagem dizendo que a noite foi difícil.

Enquanto Naruto se preparava para sair, no Hospital de Konoha, o silêncio era denso. Sai estava deitado, observando as sombras das árvores dançarem no teto do quarto. Sua pele parecia quase de porcelana, e as olheiras profundas denunciavam a exaustão. A gestação de Sai era a mais complexa; o uso constante de tintas e pergaminhos de chakra ao longo dos anos criara uma ressonância estranha com a nova vida.

Shikamaru estava sentado em uma poltrona ao lado da cama, com um livro de medicina aberto no colo, mas seus olhos estavam fixos em Sai. Ele se sentia um fracassado. O término com Temari ainda era uma névoa cinzenta em sua mente, e o descuido inicial com a situação de Sai pesava como chumbo em seu coração.

— Shikamaru? — a voz de Sai era um sussurro.

— Estou aqui. — Ele se inclinou para frente, fechando o livro. — Precisa de algo? Água? Mais cobertores?

— Por que você está se esforçando tanto? — perguntou Sai, virando o rosto para encará-lo. — Eu li em um livro sobre relacionamentos que, quando uma pessoa está triste por um amor passado, ela tende a negligenciar o presente. Você não precisa fingir que não está sofrendo por ela só para me manter estável.

Shikamaru soltou um suspiro longo, passando a mão pelo cabelo preso.

— É um saco, Sai... você ser tão observador. — Ele deu um sorriso triste. — Sim, dói. O que eu tive com a Temari foi real. Mas o que está acontecendo aqui... o que você está passando... isso é urgente. Eu fui um idiota por me distrair. Você está carregando um fardo que eu ajudei a criar, e eu quase deixei você carregar sozinho.

Sai estendeu a mão pálida, e Shikamaru a segurou imediatamente.

— Eu não queria chatear você — disse Sai. — Você já tinha problemas demais. Eu pensei que, se eu fizesse tudo sozinho, você poderia ter seu tempo para se curar.

— Não se cura uma ferida ignorando outra, Sai. — Shikamaru apertou os dedos dele. — Daqui para frente, não importa o quão complicado fique, nós vamos dividir o chakra, a dor e o que mais vier. É a minha nova estratégia. E eu nunca perco quando tenho uma estratégia.

Sai deu um sorriso pequeno, genuíno.

— Isso é... logicamente reconfortante.

Enquanto isso, na residência oficial do Hokage, o caos era de uma natureza diferente. Kakashi estava na cozinha, cercado por livros de receitas e pergaminhos de nutrição, enquanto Iruka tentava, sem sucesso, alcançar uma caneca na prateleira de cima.

— Iruka! O que você está fazendo? — Kakashi apareceu em um "shunshin", segurando o braço do professor com uma delicadeza exagerada.

— Eu estou pegando uma caneca, Kakashi. — Iruka suspirou, as mãos na cintura. — Eu não sou um inválido. Estou grávido, não com as pernas quebradas.

— Mas o esforço físico pode causar flutuações de chakra! — Kakashi disse, os olhos arregalados por trás da máscara. Ele parecia ter perdido toda a compostura de Sexto Hokage. — E se você cair? E se a pressão mudar? Eu li que, no segundo trimestre, o equilíbrio fica comprometido.

Iruka riu, o coração aquecido pela preocupação absurda do companheiro. Ele envolveu o pescoço de Kakashi com os braços, puxando-o para perto.

— Eu amo ver você assim, empolgado e babão. Mas você precisa respirar. O bebê está bem. Eu estou bem. E eu realmente quero aquele chá de ervas.

Kakashi relaxou os ombros, encostando a testa na de Iruka.

— Desculpe. É que... eu nunca imaginei que teria isso. Uma família. Eu sinto que, se eu piscar, tudo pode desaparecer.

— Não vai desaparecer — prometeu Iruka, dando um beijo suave na máscara de Kakashi. — Agora, vá fazer o chá antes que eu use um jutsu de restrição em você.

Longe da calmaria da vila, nos arredores de Suna, a tensão era palpável. Gaara caminhava pelo jardim do palácio, acompanhando Deidara, que parecia uma bomba prestes a detonar. O loiro chutava as pedras do caminho, resmungando insultos contra o vento, contra a areia e, principalmente, contra os dois seres que chutavam suas costelas sem piedade.

— EU VOU EXPLODIR VOCÊS! — gritou Deidara, apontando para o próprio ventre. — VOCÊS NÃO TÊM RESPEITO PELA ARTE? A ARTE É UM MOMENTO EFÊMERO, NÃO UMA TORTURA DE NOVE MESES, HM!

Gaara parou, observando-o com sua calma habitual, embora houvesse um brilho de incerteza em seus olhos claros.

— Deidara, gritar não vai acalmá-los. O médico disse que eles reagem ao seu estado emocional.

— Ah, claro! O Kazekage perfeito tem todas as respostas! — Deidara se virou para ele, o cabelo loiro bagunçado. — Por que você não tenta carregar dois pequenos terroristas que usam seu chakra para brincar de luta livre, hm? Eu nem consigo moldar minha argila direito! Minhas mãos estão inchadas!

Gaara aproximou-se lentamente. Ele ainda não sabia como se expressar com palavras doces, mas seus atos eram carregados de uma intenção pura. Ele estendeu a mão e, com um movimento sutil, a areia ao redor deles se elevou, criando um banco macio e confortável para Deidara se sentar.

— Eu não sei o que você está sentindo — disse Gaara, sentando-se ao lado dele. — Mas eu sei o que é ter algo dentro de si que parece fora de controle. Eu passei anos odiando o que carregava. Não quero que você sinta o mesmo por eles.

Deidara parou de reclamar por um momento. Ele olhou para Gaara, vendo a sinceridade desarmante no rosto do ruivo.

— Eles são barulhentos, Gaara. Como o Naruto. É irritante, hm.

— Eles são fortes — corrigiu Gaara, colocando a mão sobre a de Deidara. — Como você. Deixe-me cuidar da parte difícil. Apenas... tente respirar.

Deidara bufou, desviando o olhar para esconder o rubor nas bochechas.

— Tá... mas se um deles nascer com essa sua mania de ficar encarando as pessoas sem piscar, eu vou embora de Suna, hm.

Gaara permitiu-se um micro-sorriso, algo que poucos tinham o privilégio de ver.

De volta a Konoha, o sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e roxo. Neji Hyuuga estava sentado sob a árvore de cerejeira em seu quintal, tentando meditar. Era uma tarefa quase impossível com Rock Lee correndo em volta dele, fazendo flexões com um braço só enquanto recitava poemas sobre a "Juventude da Paternidade".

— Lee... — chamou Neji, sem abrir os olhos.

— Sim, Neji-san! — Lee parou instantaneamente, o suor brilhando em sua testa. — Você sentiu uma onda de energia juvenil? O bebê chutou com o poder de um furacão?

— Não. Eu só queria que você parasse de gritar. Minha cabeça está latejando e o Byakugan está ativado involuntariamente por causa do estresse.

Lee ficou imediatamente abatido, as orelhas parecendo murchar.

— Oh, mil perdões! Eu só quero que o nosso filho saiba que seu pai é um homem de ação e vitalidade! Eu li que o estímulo auditivo é fundamental!

Neji abriu os olhos e viu a expressão de cachorrinho abandonado de Lee. Ele soltou um suspiro, desfazendo a postura rígida de meditação.

— Venha aqui — ordenou Neji.

Lee aproximou-se rapidamente. Neji, fingindo uma indiferença que não sentia, puxou Lee para sentar ao seu lado e encostou a cabeça em seu ombro.

— Eu não preciso de vitalidade agora, Lee. Eu só preciso... disso.

Lee congelou por um segundo, o rosto ficando vermelho como um pimentão, antes de envolver Neji em um abraço protetor. O Hyuuga fechou os olhos, permitindo-se relaxar no calor do companheiro. Ele amava a energia de Lee, mesmo que nunca admitisse em voz alta, pois era essa energia que o ancorava quando o medo do futuro tentava obscurecer sua visão clara.

— Eu te protegeria de mil exércitos, Neji — sussurrou Lee, com uma seriedade incomum.

— Eu sei que protegeria, seu bobo — murmurou Neji, finalmente encontrando a paz que a meditação não lhe dera.

A noite caiu sobre as vilas, trazendo consigo uma calmaria temporária. Na casa de Naruto, Sasuke finalmente conseguira comer uma refeição completa sem passar mal. Ele estava deitado no sofá, com a cabeça no colo de Naruto, enquanto o loiro lia em voz alta um relatório de missão, apenas para manter o som de sua voz constante.

— Naruto? — interrompeu Sasuke.

— Sim?

— Se você contar para o Kakashi que eu deixei você fazer cafuné em mim enquanto eu estava com enjoo... eu te mato enquanto você dorme.

Naruto riu, inclinando-se para beijar a testa do Uchiha.

— Seu segredo está seguro comigo, Sasuke.

As lutas eram diárias. Os enjoos, os desejos por combinações bizarras de comida, as dores nas costas e as flutuações de humor testavam a paciência de todos. Mas, conforme as luzes de Konoha e Suna se apagavam, uma verdade permanecia inabalável: nenhum deles estava sozinho. O efeito do Lótus Carmesim fora um acidente, uma névoa de manipulação, mas o que nascera a partir dela — os laços, as preocupações e o amor nascente — era a força mais pura que o mundo shinobi já vira.

E, no silêncio da noite, os primeiros chutes de novas vidas eram a promessa de que, apesar de todo o caos, o futuro estava apenas começando.