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O Labirinto de Emoções e o Sal de Konoha

A manhã em Konoha não pedia licença; ela simplesmente invadia as janelas com um brilho dourado que, para Sasuke Uchiha, parecia ter a intensidade de um Amaterasu direcionado aos seus olhos. Ele estava sentado à mesa da cozinha, observando com um desprezo profundo uma tigela de tomates que Naruto havia cortado cuidadosamente.

— Eu já disse que não quero tomates hoje, Naruto — sibilou Sasuke, a voz carregada de uma frieza que escondia o fato de que seu estômago estava dando piruetas. — O cheiro deles está... ácido demais.

Naruto, que estava terminando de lavar a louça com uma calma atípica, virou-se com um sorriso que poderia iluminar o País do Fogo inteiro.

— Mas ontem você comeu três quilos deles, Sasuke! — Naruto aproximou-se, secando as mãos no avental. — O Kurama disse que é normal mudar de ideia, mas você precisa colocar algo no estômago antes do treino leve com o Kakashi-sensei.

— Não me venha com o que a raposa diz — Sasuke levantou-se abruptamente, mas uma tontura repentina o fez vacilar.

Naruto foi mais rápido, segurando-o pelos ombros com firmeza. O toque era quente, protetor, e isso irritava Sasuke mais do que qualquer enjoo.

— A culpa é sua — murmurou Sasuke, encostando a testa no ombro de Naruto por um breve segundo antes de se recompor. — Você me envolveu nisso. Sua energia é... barulhenta demais para um corpo só.

— Eu sei, eu sei — Naruto riu baixinho, passando a mão pelos cabelos negros de Sasuke. — Mas admita, você está adorando ter alguém para culpar por tudo, não está?

Sasuke apenas bufou, mas não se afastou. O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som da vila acordando lá fora, um contraste gritante com a tempestade de sentimentos novos que o Uchiha tentava, sem sucesso, suprimir.

Enquanto isso, no Hospital de Konoha, o clima era consideravelmente mais pesado. Sai estava sentado na beira da maca, observando suas próprias mãos pálidas. Sua gestação era, de longe, a mais complicada. O chakra das tintas que ele usava para seus desenhos parecia entrar em conflito com a nova vida, exigindo um repouso que sua mente inquieta não queria aceitar.

Shikamaru entrou no quarto carregando um copo de chá térmico. Ele parecia exausto; as olheiras sob seus olhos contavam a história de noites mal dormidas, divididas entre a melancolia pelo término com Temari e a preocupação crescente com Sai.

— Você deveria estar deitado, Sai — disse Shikamaru, sua voz saindo mais arrastada do que o normal. — Sakura disse que qualquer esforço agora é um risco desnecessário.

— Eu não queria ser um fardo, Shikamaru — respondeu Sai, sem olhar para ele. — Você já tem problemas demais com a papelada do Hokage e... com seus próprios sentimentos. Eu posso levar isso sozinho.

Shikamaru suspirou, colocando o chá na mesa e sentando-se na cadeira ao lado da maca. Ele pegou a mão de Sai, que estava gélida.

— Pare de dizer bobagens. Sim, as coisas estão um saco ultimamente. Sim, eu ainda estou processando tudo o que aconteceu. Mas isso não significa que você não seja importante. — Shikamaru apertou os dedos de Sai. — Eu descuidei de você no começo, e me arrependo disso. Mas não vou deixar você passar por essa complicação sozinho só porque você acha que eu estou "triste".

Sai finalmente olhou para ele. Seus olhos, geralmente vazios de emoção, brilharam com uma incerteza dolorosa.

— Eu não sei como lidar com o que estou sentindo, Shikamaru. Nos livros não dizia que o corpo dói tanto quando se tenta criar algo que não é um desenho.

— É a vida real, Sai — Shikamaru deu um sorriso triste. — Ela dói, mas a gente lida com ela juntos. Agora, deite-se. É uma ordem do seu estrategista.

Do outro lado da ala médica, Kakashi Hatake estava praticamente flutuando ao redor de Iruka Umino. O Sexto Hokage, conhecido por sua calma e desapego, havia se transformado no homem mais ansioso de Konoha.

— Iruka, não pegue esse livro! É pesado demais para a sua coluna agora — exclamou Kakashi, usando um Jutsu de Substituição apenas para pegar um pequeno volume de contos antes que Iruka o fizesse.

Iruka suspirou, mas havia um brilho de adoração em seus olhos.

— Kakashi, é um livro de poemas, não uma pedra de treinamento do Guy! — Iruka riu, sentando-se na poltrona enquanto Kakashi ajeitava três almofadas atrás de suas costas. — Você está exagerando.

— Não estou — Kakashi sentou-se aos pés dele, retirando a máscara por um momento para revelar um sorriso genuíno. — Eu passei a vida perdendo pessoas, Iruka. Agora que tenho a chance de ver algo novo nascer... eu não vou arriscar nada. Me deixe ser babão. É o único cargo que eu realmente quero exercer agora.

Iruka passou a mão pelos cabelos prateados de Kakashi, sentindo a paz que aquele momento trazia.

— Eu amo ver como você está empolgado. Só tente não assustar o bebê com tantos jutsus de proteção antes mesmo de ele nascer.

Enquanto a paz reinava entre os professores, o caos era o senhor absoluto nos alojamentos de hóspedes de Suna, onde Gaara tentava, de forma quase heróica, lidar com Deidara.

— EU JÁ DISSE QUE NÃO VOU COMER ESSA SOPA DE AREIA, HM! — gritou Deidara, arremessando uma colher em direção à parede.

Gaara permaneceu imóvel, sua areia interceptando o talher antes que ele fizesse qualquer barulho.

— Não é areia, Deidara. É um caldo nutritivo que os médicos recomendaram para... — Gaara hesitou, tentando encontrar a expressão certa — ...para o bem-estar dos gêmeos.

— Gêmeos! — Deidara bufou, cruzando os braços sobre a barriga que já começava a aparecer. — Dois deles! É um excesso de zelo da natureza, hm. Eu não sei lidar com um, imagine dois! Eles não param de chutar. Parece que estão tentando esculpir argila lá dentro!

Gaara aproximou-se lentamente, sentando-se na beira da cama. Ele não sabia como se expressar bem, mas sua presença era como um bálsamo de calma.

— Eles são artistas, como você — disse Gaara, arriscando-se a colocar a mão sobre a barriga de Deidara. — Estão apenas tentando encontrar o próprio espaço.

Deidara travou por um segundo, o rosto ficando vermelho. Ele queria discutir, queria explodir algo, mas o toque de Gaara era tão firme e seguro que ele acabou relaxando contra os travesseiros.

— Você é muito irritante com essa sua calma, sabia? — resmungou o loiro. — Mas... se eles chutarem de novo, você vai ter que contar uma daquelas histórias chatas de Kazekage para eles dormirem, hm.

Gaara deu um micro-sorriso.

— Eu contarei quantas histórias forem necessárias.

Longe dali, nos campos de treinamento de Konoha, Rock Lee estava em seu auge de energia. Ele corria em círculos ao redor de Neji Hyuuga, que tentava manter a dignidade enquanto sentia uma vontade incontrolável de comer canela com picles.

— Neji! Veja este movimento! É a Dança da Juventude Paterna! — Lee exclamou, fazendo uma pose dramática. — Eu li que exercícios leves ajudam na circulação e trazem vitalidade para o novo herdeiro do clã Hyuuga!

Neji suspirou, fechando os olhos e tentando ignorar a tontura.

— Lee, por favor, pare de girar. Você está me deixando enjoado e eu realmente não quero perder minha compostura na frente dos recrutas.

Lee parou instantaneamente, movendo-se com uma velocidade impressionante para o lado de Neji.

— Oh, mil perdões, Neji-san! Eu fui descuidado! — Lee envolveu Neji em um abraço lateral apertado. — Quer que eu o carregue? Eu posso fazer mil agachamentos com você nas costas até chegarmos em casa!

Neji tentou empurrá-lo, mas a verdade era que o calor de Lee era reconfortante. Ele acabou cedendo, encostando a cabeça no ombro do companheiro.

— Só... fique parado um pouco, Lee. — Neji murmurou, as pontas das orelhas vermelhas. — E não conte a ninguém que eu estou permitindo esse contato público.

— Seu segredo está seguro nas chamas da minha alma! — Lee sussurrou, apertando-o um pouco mais.

A tarde caía sobre a vila, e Naruto e Sasuke caminhavam lentamente em direção ao Memorial de Pedra. O silêncio entre eles era preenchido por uma nova compreensão. Sasuke parou por um momento, olhando para o horizonte.

— Naruto — chamou ele, a voz baixa.

— Fala, Sasuke.

— Se esse bebê nascer com o seu cabelo... eu vou pedir para o Orochimaru refazer meus genes — disse ele, mas havia um tom de brincadeira que Naruto raramente ouvia.

Naruto gargalhou, passando o braço pelos ombros de Sasuke e puxando-o para perto.

— Ah, admita, Sasuke! Você adoraria um pequeno Naruto correndo por aí chamando você de "teme"!

— Eu preferiria lutar contra o Madara novamente — resmungou o Uchiha, mas ele não se afastou. Pelo contrário, ele inclinou-se levemente para o toque de Naruto, sentindo que, apesar de todo o medo, dos enjoos e da confusão, aquele era o caminho que ele deveria seguir.

A noite em Konoha trouxe consigo o frescor da brisa e o som dos grilos. Nas casas e nos hospitais, dez almas lidavam com o impossível. Sai finalmente dormia, com Shikamaru segurando sua mão mesmo em sonho. Iruka e Kakashi compartilhavam um chá, planejando um futuro que antes parecia um sonho distante. Gaara observava Deidara dormir, admirando a força daquele homem que, mesmo reclamando, protegia com a vida o que carregava. Neji e Lee estavam abraçados sob o luar, unidos por uma promessa de proteção eterna.

E Naruto e Sasuke, deitados na escuridão do quarto, sentiram o primeiro movimento sutil, um pequeno chute que parecia uma faísca de chakra.

— Viu só? — sussurrou Naruto, emocionado. — Ele já está querendo lutar.

— Ele só quer que você cale a boca para ele poder dormir — respondeu Sasuke, mas sua mão estava firmemente pressionada contra a própria barriga, protegendo o pequeno milagre que, contra todas as probabilidades, havia unido seus destinos para sempre.

A gestação era um campo de batalha novo, cheio de armadilhas emocionais e desafios físicos, mas nenhum deles estava lutando sozinho. E em Konoha, onde o sal das lágrimas muitas vezes se misturava ao suor do treinamento, agora havia um novo ingrediente: a doce e aterrorizante esperança de uma nova geração.