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Stay Still

O Labirinto dos Uniformes e Raposas

O ensino médio é, por definição, um ecossistema de sobrevivência. Para Choi Jiah, era apenas mais um set de filmagens, exceto que o roteiro era mal escrito e a iluminação fluorescente das salas de aula era um insulto à sua pele. Ela não estava ali para fazer amigos; estava ali porque a lei exigia e porque, entre um ensaio de dublagem e uma aula de dança contemporânea, ela precisava de um diploma.

Ela caminhava pelos corredores com a postura de quem carregava uma coroa invisível, mas pesada. Seus óculos de descanso — que ela odiava, mas eram necessários após horas lendo roteiros sob luzes fortes — davam a ela um ar de intelectualidade fria.

— Com licença, Vossa Majestade, mas você está bloqueando o acesso ao bebedouro.

Jiah não precisou se virar para sentir a irritação subir pela nuca. Ela conhecia aquela voz. Era Yang Jeongin. Ele era o oposto dela: enquanto Jiah era sombras e intensidade, Jeongin parecia ter sido esculpido em luz solar e uma pitada de audácia juvenil.

— O corredor é público, metidinho — Jiah respondeu, ajustando os óculos com o dedo médio, um gesto que era sutilmente ofensivo. — E eu não estou bloqueando nada. Você apenas tem uma necessidade patológica de atenção.

— E você tem uma necessidade patológica de parecer que saiu de um filme de época — Jeongin rebateu, aproximando-se com aquele sorriso de raposa que fazia os olhos dele se transformarem em fendas. — Por que você usa esses óculos se nem está lendo nada? É para parecer mais inteligente do que o resto de nós, gremlin acadêmica?

Jiah estreitou os olhos.

— É para eu não ter que enxergar a sua cara com nitidez, raposinha. O desfoque ajuda a manter minha sanidade.

Eles se encararam por alguns segundos, um duelo silencioso de teimosia que já havia se tornado rotina. Eles eram como dois ímãs de mesma polaridade, constantemente se repelindo, mas incapazes de sair da órbita um do outro. Jeongin foi o primeiro a rir, um som curto e anasalado, antes de passar por ela, esbarrando propositalmente em seu ombro.

O que Jiah não esperava era que Jeongin fosse o portal para um caos muito maior.

Algumas semanas depois, ela se viu arrastada por ele para uma sala de música nos fundos da escola. Foi lá que ela conheceu o resto do que ele chamava de "a matilha".

— Pessoal, trouxe a quatro-olhos para ver se ela consegue produzir algo além de sarcasmo — anunciou Jeongin, jogando a mochila no chão.

Jiah cruzou os braços, analisando o grupo. Havia um garoto com um sorriso gentil e olhos cansados que parecia estar no comando, um produtor nato.

— Não ligue para ele, Jiah — disse o garoto, levantando-se. — Sou o Bang Chan. Ouvi dizer que você tem um ouvido absoluto para harmonias.

— Ouviu errado — ela mentiu por instinto, tentando manter a guarda. — Eu só vim porque o Jeongin prometeu que pararia de me seguir se eu desse uma olhada no que vocês estão fazendo.

— Mentira! — exclamou um garoto que parecia ter energia acumulada para três vidas. — Ele disse que você era um desafio e ele adora desafios. Eu sou o Han! Você quer discutir sobre por que o café da cafeteria da escola é tecnicamente um crime contra a humanidade ou prefere falar sobre como essa letra de música é profunda demais para o meio-dia?

Jiah piscou, atordoada pela velocidade das palavras de Han.

— Eu prefiro o silêncio — ela respondeu secamente.

— Ah, uma dramática! — Um garoto de beleza quase ofensiva se levantou, fazendo um gesto teatral com a mão no peito. — Prazer, Hyunjin. Finalmente alguém que entende o peso da existência neste lugar desolado. Vamos ser amigos e chorar sobre o destino trágico de personagens de livros?

— Eu não choro — Jiah afirmou, embora soubesse que já tinha chorado em pelo menos três audições naquela semana.

— Veremos — disse um garoto sentado em um canto, com um olhar afiado que rivalizava com o dela. — Sou o Lee Know. Você parece alguém que se irrita fácil. Isso vai ser divertido.

— Eu não me irrito — ela rebateu, já sentindo um tique nervoso na pálpebra. — Eu apenas tenho padrões.

— Padrões altos para alguém tão pequena — provocou um garoto extremamente musculoso que estava fazendo flexões em um canto da sala. — Sou o Changbin. Vamos ver se você aguenta uma competição de quem termina a lição de casa mais rápido. Valendo um lanche!

— Você vai perder — Jiah disse, a veia competitiva saltando antes que ela pudesse conter.

No meio daquela confusão, um garoto com sardas e um sorriso que parecia um abraço se aproximou. Ele estendeu uma pequena caixa de suco para ela.

— Oi, Jiah. Sou o Felix. Não liga para eles, eles são barulhentos, mas são legais. Se você quiser ficar no seu canto, tudo bem. Eu só achei que você parecia precisar de açúcar.

Jiah olhou para o suco e depois para Felix. A gentileza dele era desarmante, quase irritante. Ela queria afastar todo mundo, manter a bolha de perfeição e isolamento que a protegera desde a infância, mas havia algo naqueles olhares que não era de julgamento.

— Obrigada — ela murmurou, pegando o suco.

— E eu sou o Seungmin — disse o último, ajustando os próprios óculos com uma precisão cirúrgica. — Notei que você usa óculos de descanso. O design é medíocre, mas a funcionalidade parece aceitável. Vamos ver quem tem o sarcasmo mais refinado até o final do semestre?

— Você já começou perdendo, advogado irritante — Jiah respondeu, sentando-se em um banquinho vazio.

Sem que ela percebesse, as semanas se transformaram em meses. O ensino médio, que antes era apenas um intervalo entre suas ambições artísticas, tornou-se o palco de uma vida que ela não sabia que queria.

Ela se viu ajudando Chan com arranjos vocais, impressionada com a forma como ele conseguia ler a alma das pessoas através das notas.

— Jiah, essa parte precisa de mais... vulnerabilidade — Chan disse uma tarde, enquanto eles revisavam uma demo.

— Eu não faço vulnerabilidade, Chan. Eu faço técnica — ela respondeu, os dedos tamborilando na guitarra.

— Técnica é o que você usa para esconder o que sente — Chan disse, com aquele olhar de irmão mais velho que ela odiava e amava ao mesmo tempo. — Tente de novo. Mas desta vez, não seja a atriz. Seja a Jiah.

Ela tentou. E, pela primeira vez, a música doeu de um jeito bom.

Havia também os momentos de puro caos. Como no dia em que ela e Han passaram duas horas discutindo se alienígenas prefeririam k-pop ou rock clássico, até que Lee Know jogou uma almofada neles para que calassem a boca. Ou quando Hyunjin insistia em transformar qualquer interação simples, como devolver uma caneta, em uma cena de dorama de época.

— Oh, Lady Jiah! — Hyunjin declamou no meio do refeitório. — Minha tinta se esvaiu, assim como a esperança em meu coração. Conceda-me o instrumento da escrita!

— Pelo amor de Deus, Hyunjin, é só uma caneta esferográfica de dois reais — ela disse, jogando o objeto para ele, mas não conseguindo esconder o pequeno sorriso que surgia no canto dos lábios.

E havia Jeongin. A raposinha.

Eles ainda se insultavam diariamente, mas o tom havia mudado. Não era mais sobre afastar, era sobre convidar para o jogo.

— Você está estudando demais de novo, gremlin — Jeongin disse, sentando-se à mesa dela na biblioteca. — Seus olhos vão saltar da cara.

— E você está sendo um estorvo de novo, metidinho — ela rebateu, sem tirar os olhos do livro de biologia. — Vá incomodar o Seungmin.

— Ele está ocupado tentando provar que o professor de história está errado sobre uma data de 1800. Eu prefiro ficar aqui.

Jiah parou de ler e olhou para ele. Jeongin estava apoiando o queixo nas mãos, observando-a com uma curiosidade genuína.

— Por que você faz isso? — ela perguntou em voz baixa.

— O quê?

— Fica por perto. Eu tento afastar todo mundo. Eu sou intensa, sou estranha, e eu não sou exatamente a pessoa mais fácil de lidar.

Jeongin deu de ombros, um sorriso suave brincando em seus lábios.

— Talvez porque todo mundo lá fora só veja a "garota prodígio". A atriz que não erra. A dubladora perfeita. Mas aqui, com a gente... você é só a Jiah que usa óculos feios e fica brava quando perde no videogame para o Changbin. É mais divertido assim.

Jiah sentiu um aperto estranho no peito. Era a sensação de ser vista. Não a imagem que ela projetava, mas a pessoa que ela tentava enterrar sob camadas de perfeccionismo.

— Meus óculos não são feios — ela murmurou, voltando para o livro para esconder o rubor nas bochechas.

— São sim — ele riu. — Mas combinam com a sua cara de brava.

Aos poucos, o grupo de garotos se tornou o lugar onde Jiah não precisava atuar. Ela ainda era perfeccionista, ainda treinava até as pernas tremerem e ainda gravava cenas de terror com uma frieza assustadora, mas agora ela tinha para onde voltar.

Ela tinha Felix, que deixava brownies na mochila dela quando sabia que ela tinha pulado o almoço para ensaiar. Tinha Seungmin, que a desafiava intelectualmente e a impedia de se tornar arrogante. Tinha a proteção barulhenta de Changbin e as piadas sem sentido de Han.

E, acima de tudo, ela tinha a sensação de que, pela primeira vez em sua vida de luzes e câmeras, ela não estava sozinha no palco.

No final do último ano, enquanto todos se preparavam para os próximos passos — audições para empresas de entretenimento, faculdades, incertezas —, Jiah se viu sentada no chão da sala de música com os oito meninos.

— O que vai acontecer agora? — perguntou Felix, a voz suave carregada de uma ponta de ansiedade.

— Vamos dominar o mundo, obviamente — Han declarou, embora houvesse uma seriedade incomum em seus olhos.

— Vamos ficar juntos — Chan disse, com uma convicção que não admitia discussões. — Não importa para onde as empresas nos levem ou o que o destino decida. Somos uma matilha agora.

Jiah olhou para cada um deles. Ela pensou nos anos de solidão, na pressão de ser a melhor, na frieza dos sets de filmagem. E então olhou para Jeongin, que estava tentando equilibrar uma caneta no nariz.

— Eu não gosto de promessas — Jiah disse, atraindo a atenção de todos. — Elas costumam ser quebradas quando a vida fica difícil.

— Então não prometa — disse Lee Know, com um sorriso de lado. — Apenas fique.

Jiah respirou fundo, sentindo o peso do carinho deles, algo que ela ainda estava aprendendo a aceitar.

— Eu vou ficar — ela disse, e, pela primeira vez, não era uma fala decorada. — Mas se vocês ficarem sentimentais demais, eu vou embora.

— Tarde demais, gremlin! — Jeongin exclamou, pulando em cima dela para um abraço desajeitado, sendo seguido imediatamente por um Han e um Hyunjin entusiasmados.

— Socorro! — Jiah gritava, rindo enquanto tentava se desvencilhar do emaranhado de braços e pernas. — Eu odeio todos vocês!

— Mentira! — eles gritaram em coro.

E, no fundo do seu coração, Jiah sabia que eles tinham razão. Ela havia encontrado um lar entre os uivos e as risadas, um lugar onde a perfeição era opcional, mas a lealdade era absoluta. O colegial estava terminando, mas a história deles estava apenas começando a ser escrita nas partituras do futuro.