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Stay Still

Cinzas sob o Refletor

O prédio da JYP Entertainment sempre pareceu, para Jiah, um labirinto de vidro e promessas. O ar condicionado tinha um cheiro específico de carpete novo e ansiedade, um aroma que ela conhecia desde os sete anos, mas que agora, aos dezoito, parecia muito mais sufocante. Ela estava parada diante do espelho do banheiro, ajustando a alça da regata preta. Seus dedos, calosos pelas horas de guitarra, tremiam levemente.

— Você é Choi Jiah — sussurrou para o reflexo, os olhos fixos na própria imagem. — Você foi a noiva do Chucky. Você foi a voz de mil personagens. Você não erra.

Ela não estava ali para ser apenas mais uma trainee. Ela estava ali para consolidar o que todos esperavam dela. Os meninos — a sua matilha — já estavam praticamente confirmados para o projeto que Chan estava liderando. O "Stray Kids" não era apenas um grupo para ela; era a promessa de que ela finalmente pertenceria a algo permanente.

Ao entrar na sala de audição, o silêncio dos avaliadores foi imediato. Chan estava sentado em um canto, observando com uma expressão que tentava ser neutra, mas cujos olhos gritavam torcida. Jiah não olhou para ele por muito tempo. Ela precisava ser profissional.

Ela começou com a guitarra. Os acordes eram complexos, uma mistura de rock agressivo com transições melódicas que ela mesma havia composto. Depois, a dança. Cada movimento era uma lâmina, preciso e letal. Por fim, a voz. Ela cantou sobre a dualidade de crescer sob os holofotes, alcançando notas agudas com uma facilidade técnica que fez um dos produtores anotar algo freneticamente.

Quando terminou, o silêncio retornou.

— Técnica impecável, Jiah — disse um dos jurados, sem tirar os olhos dos papéis. — Realmente, você é uma performer absurda.

Jiah sentiu um calor no peito. O "quase" ainda não existia naquele momento.

— Mas — continuou o homem, e o calor evaporou instantaneamente — o projeto Stray Kids tem uma dinâmica de grupo muito específica. Sua energia é... individualista demais. Você brilha tanto que acaba ofuscando a coesão que buscamos para este time masculino.

O mundo pareceu inclinar.

— O que quer dizer com "individualista"? — Jiah perguntou, a voz saindo mais fria do que pretendia. — Eu treinei com eles. Eu ajudei nas composições. Eu conheço cada um deles melhor do que qualquer pessoa nesta sala.

— Exatamente — disse outro avaliador. — Você é uma solista nata, Jiah. Colocar você em um grupo, especialmente um grupo de garotos, criaria um desequilíbrio de imagem que a empresa não está disposta a arriscar agora. Sinto muito. Você não faz parte da formação final.

Ela não chorou. Choi Jiah não chorava na frente de câmeras ou de estranhos. Ela apenas fez uma reverência perfeita de noventa graus, pegou seu estojo de guitarra e saiu da sala.

O corredor parecia ter quilômetros de extensão. No final dele, os oito meninos esperavam. A alegria no rosto deles ao verem ela sair foi morrendo conforme notavam a rigidez de seus ombros.

— E aí? — Han foi o primeiro a correr em sua direção. — Você quebrou tudo lá dentro, não foi? Já podemos comemorar?

Jiah parou. Ela olhou para Han, depois para Felix, que segurava uma caixa de leite de morango para ela, e finalmente para Chan.

— Eu não entrei — disse ela, a voz plana, desprovida de qualquer emoção.

O silêncio que se seguiu foi pior do que o da sala de audição.

— O quê? — Changbin deu um passo à frente, o cenho franzido. — Isso é impossível. Você é melhor do que metade dos trainees veteranos daqui.

— Eles disseram que eu sou "individualista" — Jiah deu um sorriso amargo, ajustando a alça da guitarra. — Disseram que eu ofusco o grupo. Basicamente, eu sou boa demais para o que eles querem, ou ruim demais para me encaixar.

— Eu vou falar com eles — Chan disse imediatamente, já se virando para a porta da sala. — Isso não faz sentido. O projeto é meu, eu escolho quem...

— Não, Chan — Jiah o segurou pelo pulso. O aperto era forte, quase desesperado, embora seu rosto continuasse uma máscara de gelo. — Não estrague a sua chance por causa de um capricho meu. Você conseguiu. Todos vocês conseguiram.

— Não é um capricho, Jiah — Jeongin se aproximou, a expressão de raposa substituída por uma tristeza genuína. — A gente é um time. Você é parte da matilha.

— Aparentemente, a matilha não aceita lobas — ela soltou o pulso de Chan e começou a caminhar em direção à saída. — Eu estou bem. Sério. Eu já tive rejeições antes. É só mais um teste.

Mas não era.

Nas semanas que se seguiram, o Stray Kids mergulhou na preparação intensa para o debut. E, por insistência de Chan, Jiah continuou por perto. Ele se recusava a deixá-la sumir. Ele a chamava para o estúdio para "dar opiniões", pedia que ela ajudasse Felix com a pronúncia de certas letras ou que apenas estivesse lá durante os ensaios de madrugada.

Ela ia. Ela sorria. Ela fazia piadas ácidas com Seungmin e entrava nas cenas dramáticas de Hyunjin.

Mas, por dentro, algo estava apodrecendo.

Cada vez que ela via os oito dançando em perfeita sincronia, uma pergunta martelava em sua mente: *O que há de errado comigo?*

Ela começou a passar horas extras na sala de prática sozinha, às três da manhã, quando até os seguranças já estavam cochilando.

— Mais uma vez — ela sussurrava para si mesma, o suor ardendo nos olhos. — O movimento do braço foi dois milímetros mais baixo do que o do Hyunjin na gravação. De novo.

Seu perfeccionismo, que antes era uma ferramenta de trabalho, tornou-se uma arma de autodestruição. Ela começou a carregar um caderno onde anotava cada falha sua comparada aos membros. *Voz de Han é mais estável no high note. Rap de Changbin tem mais textura. Eu preciso ser melhor. Eu preciso ser perfeita para que eles nunca tenham uma desculpa para me deixar para trás de novo.*

Uma noite, Lee Know a encontrou caída no chão da sala de ensaio, os pés sangrando por causa das sapatilhas de dança gastas.

— Você vai se matar desse jeito — disse ele, sentando-se ao lado dela e jogando uma garrafa de água gelada em seu colo.

— Eu só estou treinando, Lee Know — Jiah respondeu, sem abrir os olhos. — Eu não tenho um grupo para me apoiar agora. Se eu falhar, não tem ninguém para cobrir meu erro.

— Jiah, olhe para mim — ele ordenou. Ela abriu os olhos. O olhar de Lee Know era afiado, desprovido da costumeira ironia. — Você não está treinando para melhorar. Você está treinando para se punir por algo que não foi culpa sua.

— Você não entende — ela se sentou, abraçando os joelhos. — Se eu fosse boa o suficiente, eles teriam dado um jeito. Eles teriam mudado o conceito. Eles teriam me colocado lá. Se eu não entrei, é porque eu falhei em ser indispensável.

— Você é indispensável para a gente — Lee Know rebateu. — Chan não consegue terminar uma letra sem perguntar o que você acharia da rima. O Lix fica procurando você na plateia toda vez que a gente faz um showcase interno. Você já está no grupo, Jiah. Só não está no contrato.

— No mundo real, Lee Know, o que não está no contrato não existe — ela se levantou com dificuldade, a dor nos pés sendo abafada pela dor muito mais profunda em seu ego. — Obrigada pela água.

O medo do abandono tornou-se uma sombra constante. Toda vez que os meninos saíam para gravar um conteúdo oficial onde ela não podia aparecer, Jiah sentia um pânico frio subir pela garganta. Ela sentia que, a qualquer momento, eles perceberiam que não precisavam mais da "garota estranha" por perto. Que a fama e o sucesso preencheriam o buraco que ela ocupava.

Por isso, ela se tornou obsessiva. Se tornava útil de todas as formas possíveis. Ela revisava as traduções de Felix, trazia comida para as gravações de madrugada, passava noites em claro ajudando Chan a organizar arquivos de áudio.

— Jiah, vai para casa dormir — Chan disse uma noite, tirando os fones de ouvido dela. — Você está aqui há dezoito horas.

— Eu estou bem, Capitão — ela forçou um sorriso, aquele que ela aprendera a fazer aos sete anos. — Eu só quero garantir que essa ponte da música esteja perfeita.

— A música está perfeita. Quem não está bem é você — Chan virou a cadeira para encará-la. — Por que você está fazendo isso consigo mesma?

— Fazendo o quê? Sendo produtiva? — ela tentou desviar o olhar, mas Chan a segurou pelos ombros.

— Você está tentando comprar o seu lugar aqui — ele disse, a voz cheia de uma tristeza que a atingiu como um soco. — Você acha que, se parar de ser útil por um segundo, a gente vai te esquecer. É isso?

Jiah sentiu os olhos arderem. Ela engoliu em seco, a garganta doendo.

— As pessoas sempre vão embora, Chan. Elas batem palmas enquanto você é útil, enquanto você é o prodígio, enquanto você é a estrela. Mas quando as luzes apagam e você é só... você... elas percebem que não há motivo para ficar.

— Nós não somos "as pessoas", Jiah — Chan puxou-a para um abraço apertado.

Por um momento, ela quis desabar. Quis chorar e dizer o quanto doía ver os pôsteres deles nas paredes da empresa enquanto ela continuava sendo apenas uma sombra nos bastidores. Quis dizer que cada elogio que eles recebiam era um lembrete do que ela quase teve.

Mas ela não podia. Se ela mostrasse aquela fraqueza, ela seria um fardo. E fardos são descartados.

— Eu sei — ela mentiu, afastando-se suavemente. — Eu só sou perfeccionista, você sabe disso. É o meu jeito.

A rejeição da JYP não apenas destruiu a autoestima de Jiah; ela criou uma versão dela que vivia em estado de alerta permanente. Ela começou a se comparar com cada trainee feminina que cruzava os corredores, analisando o peso, o tom de voz, a forma como sorriam para os instrutores.

"Ela é mais carismática", Jiah pensava. "Ela tem o visual que eles preferem. Talvez se eu mudar meu cabelo. Talvez se eu perder mais três quilos. Talvez se eu parar de ser tão... eu."

Os meninos percebiam. I.N, que a conhecia desde o colegial, era quem mais sofria ao ver a "gremlin acadêmica" se transformar em um robô de produtividade.

— Jiah-noona — ele a chamou um dia, enquanto comiam lámen em uma loja de conveniência perto da empresa. — Você se lembra de quando a gente competia para ver quem fazia a cara mais feia para o professor de matemática?

Jiah olhou para o pote de lámen, mal tendo tocado na comida.

— Lembro, Innie. Por quê?

— Sinto falta dessa Jiah — ele disse, simples e direto. — Essa Jiah de agora parece que está sempre esperando ser demitida da vida. Você não precisa ser a melhor do mundo o tempo todo para a gente gostar de você.

— O mundo não funciona assim, raposinha — ela disse, bagunçando o cabelo dele com um gesto automático, mas os olhos permaneciam distantes. — No mundo, você é o que você entrega. E eu preciso entregar o impossível.

A obsessão por melhorar a levou a explorar novos caminhos. Se ela não servia para o grupo da JYP, ela seria tão grande que eles se arrependeriam de não ter mudado as regras por ela. Ela começou a estudar produção musical com uma ferocidade assustadora, devorando tutoriais, livros e observando cada movimento de Chan no Pro Tools. Ela voltou para a dublagem, aceitando papéis exaustivos para manter sua voz afiada.

Mas o vazio continuava lá.

A rejeição tinha aberto uma ferida que o sucesso individual não conseguia fechar. Porque o sucesso era solitário, e o que ela queria — o que ela secretamente implorava em suas orações silenciosas — era o barulho. O barulho das risadas de Han, das discussões de Changbin, do conforto silencioso de Felix.

Ela continuava sendo a "nona integrante" não oficial, a sombra que protegia a matilha, mas cada vez que o Stray Kids subia no palco e ela ficava nos bastidores, segurando os casacos ou as garrafas de água, uma parte de Choi Jiah morria.

— Você vai conseguir o seu lugar, Jiah — disse Hyunjin uma vez, após um show, enquanto ela ajudava a tirar o excesso de maquiagem dele. — O mundo ainda não está pronto para o que você é.

— Ou talvez — ela disse, limpando o rastro de glitter no rosto dele — eu seja apenas um rascunho que nunca vai virar a obra final.

— Rascunhos são onde os artistas colocam a verdade — Hyunjin segurou a mão dela, interrompendo o movimento. — A obra final é para o público. O rascunho é para quem a gente ama.

Jiah sorriu, mas naquela noite, ao chegar em seu apartamento vazio, ela ligou o computador e abriu um novo projeto de música. O título do arquivo era apenas uma data e uma palavra: *Quase.*

Ela treinou até o sol nascer. Ela cantou até a voz falhar. Ela dançou até os joelhos cederem.

Porque na cabeça de Choi Jiah, o amor era condicional à perfeição. E se ela não era perfeita o suficiente para estar no palco com eles, ela treinaria até que o próprio destino não tivesse outra escolha a não ser se curvar.

Ela não sabia que, em breve, uma nova porta se abriria na YG Entertainment. Mas ela também não sabia que a dor de ser "quase" a acompanharia como um fantasma, moldando a estrela intensa e quebradiça que ela estava prestes a se tornar.

Por enquanto, ela era apenas uma garota no escuro, uivando para uma lua que parecia sempre fora de alcance, sem perceber que a matilha já estava respondendo ao seu chamado, mesmo que ela ainda não conseguisse ouvir.