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Stay Still

Sombras de Plástico e Risadas de Vidro

O silêncio do sótão do novo apartamento de Jiah era diferente do silêncio de seus camarins. Não era um silêncio carregado de expectativa ou de exaustão, mas um silêncio empoeirado, cheio de fantasmas de uma infância que ela nunca teve permissão para viver plenamente. Entre caixas de prêmios, figurinos de doramas e partituras esquecidas, Jiah procurava por algo que nem ela mesma sabia descrever.

Seus dedos tocaram uma caixa de madeira escura, pesada, escondida atrás de um cabideiro de metal. Ao abrir a tampa, o cheiro de mofo e vinil atingiu suas narinas. Lá estava ele.

O boneco.

Não era uma réplica de loja. Era *o* original. O mesmo que ela encarara durante meses no set de filmagem quando ainda era uma criança "estranha e talentosa demais". Chucky. Com seu macacão jeans, cabelo ruivo espetado e as cicatrizes que Jiah conhecia por cada milímetro de látex.

Ela o tirou da caixa. O peso era familiar. Ela se lembrou de Brad Dourif, o homem por trás da voz icônica, que havia se afeiçoado à pequena Jiah durante as gravações. Ele sempre dizia que ela tinha um olhar "cinematográfico demais" para uma criança. Antes de se despedirem, ele havia lhe dado aquele boneco, mencionando com um piscar de olhos que havia feito algumas "modificações especiais" para que ela nunca se sentisse sozinha nos sets de filmagem.

Jiah sentou-se no chão empoeirado, colocando o boneco no colo. Ela encontrou o pequeno interruptor oculto sob a nuca, camuflado pelo cabelo sintético.

— Olá, Jiah. Sentiu saudades?

A voz saiu rouca, mecânica, mas com aquela entonação perversamente alegre que Brad imortalizou. Jiah deu um pulo, o coração disparando. Não era uma gravação aleatória.

— Chucky? — sussurrou ela, sentindo-se ridícula por falar com um objeto.

— Quem mais seria? O coelhinho da páscoa? — A cabeça do boneco girou levemente para a esquerda, os olhos de vidro parecendo focar nela. — Você cresceu. E, pelo que ando ouvindo através desse sistema de áudio que o velho Brad instalou, você anda precisando de um pouco de caos na sua vida de princesa.

Jiah riu, uma risada nervosa. Ela se lembrou das especificações: Brad havia instalado uma câmera de alta definição nos olhos, um sistema de áudio bidirecional e uma conexão privada que, tecnicamente, estava ligada a um servidor que ele mantinha por diversão técnica. Era uma relíquia de engenharia e humor ácido.

— Você não tem ideia — disse ela, abraçando o boneco. — O mundo é muito barulhento agora.

— Então vamos fazer ele gritar um pouco mais — respondeu o boneco, a voz de Brad soando nítida através dos alto-falantes internos. — Leve-me para baixo. Quero conhecer seus "amiguinhos".

A introdução de Chucky ao dormitório do Stray Kids foi, para dizer o mínimo, traumática para alguns.

Jiah colocou o boneco sentado na poltrona da sala, em uma posição casual, enquanto os meninos chegavam para a "reunião da matilha" semanal. O primeiro a entrar foi Han, saltitando com um saco de salgadinhos na mão.

— Jiah! Onde você... — Han parou abruptamente. Seus olhos se fixaram no boneco. — O que... que porra é essa?

— É o meu antigo colega de elenco — explicou Jiah, sentada no sofá com uma expressão neutra. — O nome dele é Chucky.

Han deu um passo cauteloso para trás.

— Eu sei quem ele é, Jiah. Eu tive pesadelos com esse bicho por três anos seguidos. Por que ele está aqui? E por que ele parece estar olhando para a minha alma?

— Eu não estou olhando para a sua alma, garoto — disse o boneco, a voz de Brad Dourif ecoando pela sala com uma nitidez aterrorizante. — Estou olhando para esse salgadinho de quinta categoria. Você não tem nada melhor para oferecer a um ícone do cinema?

Han soltou um grito que desafiou as leis da física e pulou para trás do sofá, derrubando o saco de salgadinhos no processo.

— ELE FALOU! JIAH, O BONECO FALOU! ELE ESTÁ POSSUÍDO!

— Não seja dramático, Jisung — disse Lee Know, entrando na sala logo atrás, carregando o Leebit. Ele parou diante da poltrona e inclinou a cabeça, analisando o boneco. — É um sistema de áudio remoto. Muito bem feito, por sinal.

— Um sistema de áudio? — Chucky retrucou, girando a cabeça 180 graus para encarar Lee Know. — Eu sou uma obra de arte, seu projeto de dançarino. E esse coelho que você carrega parece que foi atropelado por um caminhão de marshmallow.

Lee Know soltou uma gargalhada genuína. Ele se sentou no braço da poltrona, cutucando a bochecha de plástico do boneco.

— Gostei dele. Ele tem mais personalidade do que metade dos nossos staffs.

— Tire a mão de mim antes que eu decida que seus dedos seriam ótimos palitos de dente — rosnou o boneco.

Aos poucos, o resto do grupo foi chegando, e as reações variaram do pavor absoluto ao fascínio cauteloso. Felix se recusava a ficar no mesmo cômodo que o boneco sem estar a pelo menos dois metros de distância. Hyunjin achou "artisticamente perturbador", mas tentou manter a pose de príncipe, até que Chucky comentou que seu cabelo parecia "uma peruca de comercial de shampoo barato", o que fez Hyunjin se retirar para o quarto para conferir o espelho, ofendido.

Changbin tentou intimidar o boneco com seus músculos.

— Você não me assusta, coisa pequena — disse Changbin, cruzando os braços.

— Tamanho não é documento, grandalhão — respondeu Chucky. — Eu já derrubei caras três vezes maiores que você usando apenas um fio de nylon e muita força de vontade. Além disso, por que você está usando uma regata tão apertada? Está tentando estrangular seus próprios bíceps?

Changbin ficou em silêncio por cinco segundos antes de murmurar algo sobre "respeito aos veteranos" e se afastar.

Mas, para Jiah, o boneco tornou-se algo mais do que uma brincadeira para assustar os meninos. Nas madrugadas em que a insônia a atacava e o peso da fama parecia esmagador, Chucky era seu confidente. Através da tecnologia de Brad, o boneco falava com ela de uma forma que ninguém mais ousava.

— Eles não entendem, não é? — perguntou o boneco em uma noite silenciosa, enquanto Jiah bebia um chá na cozinha.

— O quê? — perguntou ela, olhando para os olhos de vidro que brilhavam sob a luz fraca.

— A necessidade de ser o monstro para que ninguém veja o quanto você está assustada — disse a voz de Brad, agora sem o tom de piada, soando quase paternal. — Eu vi você no set, Jiah. Você era a única criança que não chorava quando o sangue falso espirrava. Você era a única que entendia que o terror é apenas uma forma de controle.

— Às vezes eu sinto que ainda estou naquele set — confessou Jiah, abraçando as próprias pernas. — Como se eu estivesse apenas esperando o diretor gritar "corta" para eu poder parar de fingir que sou essa performer perfeita.

— Por que parar? — Chucky inclinou a cabeça. — O mundo quer o show. Dê o show a eles. Mas guarde a faca para quem tentar chegar perto demais do que é real. E lembre-se: bonecos de plástico não sentem dor. Se você agir como um, eles não podem te machucar.

— Mas eu não sou de plástico, Chucky.

— É por isso que você tem a matilha, não é? Aqueles idiotas barulhentos. Eles são o seu enchimento de algodão. Sem eles, você seria apenas uma casca vazia.

Jiah sorriu, encostando a cabeça na mesa.

— Você é um conselheiro terrível.

— Eu sou um assassino em série de ficção, o que você esperava? Conselhos de autoajuda e abraços grátis? Vá dormir, garota. Você tem um palco para incendiar amanhã.

A presença de Chucky no dia a dia do grupo criou situações absurdas. Bang Chan, inicialmente preocupado com a saúde mental de Jiah por carregar um boneco de terror para todo lado, acabou se acostumando. Ele até começou a usar o sistema de áudio do boneco para dar avisos ao grupo quando estava no estúdio.

— Se o Han não lavar a louça em cinco minutos, eu vou pessoalmente esconder o videogame dele no freezer — disse a voz de Chan através do boneco.

— Viu só? — gritou Han da sala. — Até o boneco está contra mim!

Mas ninguém se divertia mais do que Lee Know. Ele e Chucky — ou melhor, a consciência de Brad Dourif por trás do boneco — desenvolveram uma rivalidade sarcástica que era o entretenimento oficial dos ensaios.

— Ei, orelhudo! — gritou o boneco da mesa de som. — Seu passo de dança no segundo refrão está parecendo um siri com cãibra.

Lee Know parou a coreografia, suado e ofegante, e caminhou até o boneco com um sorriso diabólico.

— Pelo menos eu tenho pernas para dançar, seu tronco de vinil. Quer que eu te coloque em cima do ar-condicionado para você ver o ensaio de um ângulo mais... alto?

— Tente a sorte, gatinho. Eu conheço três formas de te fazer tropeçar usando apenas o seu cadarço.

Jiah observava tudo isso com um sentimento de gratidão silenciosa. O boneco, com seu humor ácido e aparência grotesca, havia se tornado uma ponte. Ele falava as verdades que os meninos tinham medo de dizer para não magoá-la, e ele servia como um para-raios para o estresse dela.

Em um dia particularmente difícil, após uma sessão de fotos exaustiva onde Jiah foi criticada por não parecer "doce o suficiente", ela voltou para o dormitório e encontrou o boneco sentado no sofá, com um dos SKZOOs — o PuppyM de Seungmin — pendurado pelo pescoço em sua mão de plástico.

— O que você está fazendo, Chucky? — perguntou ela, jogando a bolsa no chão.

— Esse cachorro estava me olhando de um jeito sarcástico — respondeu o boneco. — Decidi dar uma lição de etiqueta a ele.

Seungmin, que estava sentado na poltrona ao lado, apenas suspirou.

— Eu tentei recuperar o PuppyM, Jiah. Mas o boneco começou a recitar versos de Shakespeare com uma voz de filme de terror e eu decidi que não valia a pena o esforço.

Jiah riu, sentando-se entre os dois. Ela pegou o PuppyM da mão do boneco e o devolveu a Seungmin.

— Ele só está mal-humorado porque a poeira do sótão atacou o sistema dele — disse ela.

— O que atacou meu sistema foi a falta de entretenimento — retrucou Chucky. — Jiah, diga para esse aspirante a advogado que, se ele não mudar de canal, eu vou contar para todo mundo o que ele faz quando acha que ninguém está olhando.

Seungmin arregalou os olhos e mudou de canal instantaneamente.

— O que ele sabe? — sussurrou Seungmin para Jiah.

— Nada — Jiah piscou. — Mas ele é ótimo em blefar.

A relação de Jiah com o boneco era uma mistura de nostalgia e terapia de choque. Chucky representava a parte dela que se recusava a ser "fofa" ou "perfeita". Ele era o lembrete de que ela vinha do terror, da intensidade e da técnica bruta. E, de alguma forma, ver os meninos interagindo com aquela parte "assustadora" dela através do boneco fazia com que Jiah se sentisse mais aceita.

Eles não tinham medo do Chucky. Eles implicavam com ele, brincavam com ele e, às vezes, até o usavam como suporte para seus próprios desabafos quando Jiah não estava por perto.

Uma noite, Jiah passou pelo corredor e ouviu Felix falando baixinho na sala. Ela espiou e viu Felix sentado no chão, diante do boneco.

— Sabe, Chucky... — dizia Felix, a voz doce e baixa — eu me preocupo com ela. Ela trabalha tanto que às vezes parece que vai quebrar. Você cuida dela quando a gente não está por perto, né?

Houve um longo silêncio. Jiah esperou que a voz de Brad fizesse alguma piada ácida ou um comentário sarcástico. Mas, para sua surpresa, a resposta foi diferente.

— Ela é feita de um material mais forte do que você imagina, Sunshine — disse o boneco, a voz suavizada, quase humana. — Mas sim. Eu fico de olho. E se você contar para alguém que eu fui legal, eu corto as suas cordas vocais enquanto você dorme.

Felix riu e deu um tapinha na cabeça do boneco.

— Combinado.

Jiah voltou para o quarto com o coração leve. Ela percebeu que Chucky não era apenas um brinquedo ou um sistema de comunicação. Ele era uma extensão da sua própria armadura, uma que agora tinha brechas por onde a luz da matilha conseguia entrar.

Com o tempo, o boneco tornou-se um membro honorário e bizarro do grupo. Ele aparecia em lives (escondido ao fundo para não causar problemas com a censura), tinha suas próprias "roupinhas" que Hyunjin insistia em desenhar para ele (todas pretas e com correntes), e era o único que conseguia calar o Han durante uma discussão sobre teorias da conspiração.

Naquela madrugada, Jiah deitou-se na cama, olhando para o Chucky sentado na sua escrivaninha.

— Ei, Chucky — chamou ela.

— O que é agora? Estou tentando planejar meu próximo massacre imaginário.

— Obrigada.

— Pelo quê? Por ser o único ser sã nesta casa cheia de garotos que gritam?

— Por ficar.

O boneco ficou em silêncio por um momento. As luzes vermelhas em seus olhos brilharam fracamente.

— Eu não tenho para onde ir, garota. E, além disso... o show ainda não acabou. E eu quero ver você ganhar todos os prêmios daquela prateleira só para eu poder dizer que ensinei tudo o que você sabe.

Jiah fechou os olhos, um sorriso nos lábios. Ela sabia que a fama continuaria sendo difícil, que as regressões continuariam vindo e que o mundo continuaria exigindo perfeição. Mas agora, entre o uivo da matilha e a risada rouca de um boneco de filme de terror, ela tinha tudo o que precisava.

Ela tinha uma família que não tinha medo das suas sombras. E isso era o maior ato de coragem que ela já tinha visto.

— Boa noite, Chucky.

— Boa noite, Jiah. Tente não babar no travesseiro. É pouco cinematográfico.

O silêncio do quarto foi preenchido pelo som suave da respiração de Jiah. Na escrivaninha, o boneco continuou vigiando, uma pequena sentinela de plástico e memórias, pronta para assustar qualquer pesadelo que ousasse se aproximar da sua princesa favorita. Porque no mundo de Choi Jiah, até os monstros sabiam a quem deviam lealdade. E a matilha, de carne ou de vinil, nunca deixava um dos seus para trás.