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Stay Still

O Silêncio dos Lobos Solitários

A luz branca do camarim da YG Entertainment parecia mais agressiva do que o normal. Choi Jiah encarava o próprio reflexo no espelho, mas a imagem que via era a de uma estranha. Seus olhos estavam fundos, a pele pálida demais sob a base de alta cobertura, e as costelas começavam a marcar o tecido fino do vestido que usaria na performance de abertura do MAMA Awards.

Ela não se lembrava da última vez que tinha dormido mais de três horas seguidas. O sucesso era um monstro faminto. Quanto mais ela entregava — hits no topo das paradas, atuações premiadas, capas de revistas internacionais —, mais o monstro pedia. E Jiah, movida pelo medo visceral de ser esquecida ou considerada "substituível", nunca dizia não.

O problema era que, no processo de se tornar a performer perfeita, ela tinha sumido emocionalmente.

A distância entre ela e os meninos do Stray Kids não tinha acontecido de uma vez. Foi uma erosão lenta. Primeiro, foram as mensagens não respondidas por causa de gravações que duravam madrugadas inteiras. Depois, foram os convites recusados para jantares no dormitório porque ela estava exausta demais para socializar. E, por fim, houve a barreira da própria indústria. A mídia começou a criar rumores sobre sua vida pessoal, e a pressão das empresas para que eles não fossem vistos juntos com tanta frequência para evitar escândalos acabou criando um abismo.

Os meninos, sobrecarregados com suas próprias turnês e o peso de serem um dos maiores grupos do mundo, também falharam. Eles hesitaram em invadir o espaço dela, com medo de serem um fardo em sua agenda lotada. Eles viram as fotos dela nos jornais, cada vez mais magra e séria, e comentaram entre si, mas a coragem de derrubar a porta da fortaleza que Jiah construiu ao redor de si mesma parecia ter se dissipado.

Até aquela noite. O MAMA Awards. O ápice do ano para qualquer artista de K-pop.

Jiah estava sentada em um banco de couro, sentindo o frio do ar-condicionado arrepiar sua pele. Ela estava sozinha. Sua equipe de maquiagem tinha saído para um intervalo, e o silêncio do camarim era ensurdecedor. Ela tentou ensaiar sua expressão de "rainha do palco" no espelho, mas seus lábios tremeram. Ela se sentia oca. Uma casca dourada e brilhante sem nada dentro.

Ela tateou a bolsa em busca do chaveiro do Wolf Chan, mas percebeu que o tinha deixado em casa. O pânico começou a subir. Ela precisava do ritual. Precisava do uivo. Mas como poderia uivar se não havia ninguém para responder?

Uma batida rítmica na porta a fez pular. Antes que ela pudesse dizer "entre", a porta se abriu.

Não era sua assistente. Eram oito sombras familiares.

Bang Chan entrou primeiro. Ele não usava o figurino de palco ainda; estava com um casaco largo, mas suas mãos não estavam vazias. Ele segurava o Wolf Chan contra o peito. Atrás dele, Hyunjin trazia o Jiniret; Lee Know, o Leebit; e assim por diante. Todos os oito membros do Stray Kids estavam ali, cada um segurando seu respectivo SKZOO.

Jiah ficou paralisada. Ela queria se levantar, queria agir como a solista poderosa que todos esperavam, mas suas pernas pareciam feitas de gelatina.

— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou ela, a voz saindo como um sussurro quebrado. — O corredor está cheio de câmeras. Se alguém vir vocês entrando no meu camarim individual...

— Que se danem as câmeras, Jiah — disse Chan, fechando a porta com o pé e trancando-a. — A gente tentou respeitar seu espaço. Tentamos seguir as regras da empresa e da mídia. Mas a gente viu você no tapete vermelho agora pouco.

— Você parecia um fantasma, noona — disse I.N, dando um passo à frente. A raposinha do grupo não estava sorrindo. Seus olhos estavam cheios de uma mágoa preocupada. — Você nem olhou para a gente quando passamos por você.

— Eu não podia — Jiah desviou o olhar, as mãos apertando o tecido do vestido. — Eu tinha que manter a imagem. Eu tinha que ser profissional.

— Profissionalismo não exige que você pare de respirar — rebateu Lee Know, sua voz afiada como sempre, mas desprovida de qualquer malícia. — Olhe para as suas mãos, Jiah. Elas estão tremendo tanto que você mal consegue segurar o próprio peso.

Hyunjin aproximou-se e colocou o Jiniret sobre a mesa de maquiagem, bem na frente dela.

— A corte não se reúne há três meses — disse ele, sem o tom teatral de costume. — O reino está em ruínas, Jiah. E a nossa rainha está desaparecendo.

Jiah sentiu um nó doloroso se formar em sua garganta. Ela queria dizer que estava bem, que era apenas o cansaço do final de ano, que ela tinha tudo sob controle. Mas então, Chan fez algo que quebrou a última barreira de sua resistência.

Ele levou o Wolf Chan perto do rosto dela e soltou um uivo baixo, rouco e cheio de saudade.

— Auuuuuuu.

O som ecoou no camarim pequeno, atingindo Jiah como uma descarga elétrica. Era o chamado da matilha. O sinal de que o tempo de fingir tinha acabado.

— Reunião da matilha — anunciou Chan, sua voz firme. — Agora.

Sem dizer uma palavra, os meninos se organizaram ao redor dela. Eles não pediram permissão. Felix a puxou suavemente para o chão, onde eles costumavam se sentar no dormitório, ignorando o fato de que ela estava usando um vestido que custava milhares de dólares. Eles formaram um círculo fechado, um muro de carne, osso e pelúcia que bloqueava o resto do mundo.

— Eu... eu tenho que me apresentar em vinte minutos — gaguejou Jiah, as lágrimas começando a transbordar. — A abertura... o ensaio...

— O mundo pode esperar vinte minutos — disse Changbin, colocando o Dwaekki no colo dela. — O General da Guarda decretou um cessar-fogo. Ninguém entra, ninguém sai.

Jiah olhou para o boneco de porco-coelho em seu colo e depois para os rostos ao seu redor. Ela viu a exaustão nos olhos deles também, mas viu algo mais forte: a permanência. Eles tinham falhado em estar presentes fisicamente nos últimos meses, mas o elo nunca tinha se rompido. Eles estavam ali agora, arriscando escândalos e broncas de gerentes, apenas porque perceberam que ela estava no limite.

— Eu sinto tanta falta de vocês — ela finalmente admitiu, e a primeira lágrima caiu, abrindo um rastro na maquiagem perfeita.

— A gente sabe — disse Han, apertando o ombro dela. — A gente foi idiota, Jiah. Achamos que você queria espaço para brilhar sozinha. Não percebemos que você estava ficando no escuro.

— Eu achei que vocês tinham me deixado para trás — soluçou ela, e então o represamento se rompeu.

Jiah desabou. Não foi um choro bonito de dorama; foi um colapso feio, barulhento e desesperado. Ela se inclinou para frente, escondendo o rosto nas mãos, e chorou por todos os meses de solidão, por todas as refeições que pulou, por todas as horas de sono que trocou por técnica, e pelo medo constante de que, se ela parasse de correr, o amor de todos sumiria.

Chan a puxou para o peito, envolvendo-a em um abraço esmagador. Os outros se aproximaram mais, tocando seus braços, suas pernas, criando um casulo de calor humano.

— Eu não consigo mais fazer isso — ela soluçava contra o casaco de Chan. — Eu não quero ser a "performer absurda" hoje. Eu só quero... eu só quero ir para casa. Eu quero ser pequena.

— Shhh — sussurrou Chan, balançando-a suavemente. — Você não precisa ser nada agora. Só a nossa Jiah.

— O PuppyM diz que as notas altas não importam se o seu coração está em silêncio — disse Seungmin, colocando o boneco de cachorro contra a bochecha dela para secar uma lágrima.

Eles ficaram ali, no chão do camarim, enquanto o barulho do evento lá fora — os gritos dos fãs, a música alta, a correria dos staffs — parecia pertencer a outro planeta. Naquele pequeno espaço, o tempo tinha parado.

Aos poucos, o choro de Jiah diminuiu para soluços baixos. Ela se sentia exausta, mas, pela primeira vez em meses, a pressão em seu peito tinha aliviado. Ela olhou para a bagunça que tinha se tornado: a maquiagem borrada, o cabelo bagunçado, o vestido amassado.

— Eu destruí minha imagem de abertura — murmurou ela, com uma risada triste e rouca.

— Você está linda — disse Felix, limpando o rosto dela com a ponta da manga de sua camisa. — Você parece humana de novo.

— Jiah — disse Chan, segurando o rosto dela entre as mãos para que ela o olhasse nos olhos —, escute bem. A gente não vai mais deixar isso acontecer. Não importa o que a mídia diga, não importa o quão ocupados estejamos. Se você precisar uivar, a gente vai responder de qualquer lugar do mundo. Entendeu?

Jiah assentiu, sentindo-se protegida pela primeira vez em muito tempo.

— Entendi, Capitão.

Uma batida forte na porta interrompeu o momento. Era a voz da assistente de Jiah, soando histérica.

— Jiah-si! Cinco minutos para a subida ao palco! Os técnicos estão chamando! Por que a porta está trancada?

Os meninos se levantaram rapidamente, ajudando Jiah a ficar de pé. Lee Know pegou um lenço umedecido da mesa e, com uma habilidade cirúrgica, limpou os borrões pretos sob os olhos dela.

— Use isso a seu favor — disse Lee Know. — O conceito da música é sobre dor e poder, não é? Pois bem. Vá lá e mostre a eles o poder de alguém que tem uma matilha inteira nas costas.

Hyunjin pegou a coroa de papelão que, por algum motivo, ele tinha trazido escondida na jaqueta e a colocou na cabeça de Jiah por um segundo antes de tirá-la.

— A corte deu permissão para você conquistar aquele palco, Vossa Alteza. Mas depois... você vem com a gente. Sem discussões.

Jiah respirou fundo. Ela olhou para os oito SKZOOs alinhados na mesa e depois para os oito garotos que eram seu verdadeiro lar. O medo não tinha sumido completamente, mas ele não era mais o mestre dela.

— Eu vou — disse ela, endireitando os ombros. — Mas eu quero que vocês fiquem na lateral do palco. Eu preciso ouvir vocês.

— A gente vai estar lá — prometeu Chan. — E Jiah?

— Sim?

— Se você se perder no meio da música, apenas ouça o eco. A gente vai estar uivando por você.

Jiah abriu a porta. Sua assistente quase caiu para dentro do camarim, arregalando os olhos ao ver os membros do Stray Kids saindo um por um, com expressões sérias e protetoras. Eles não disseram nada aos staffs; apenas passaram como uma guarda real, abrindo caminho para que Jiah caminhasse até o elevador que a levaria para o palco.

Quando as luzes se apagaram e a introdução da música começou a tocar, Jiah sentiu o frio de sempre. Mas, ao olhar para a escuridão da lateral do palco, ela viu oito pequenas silhuetas. E, pouco antes de o primeiro holofote a atingir, um som suave e uníssono viajou pelo ar, audível apenas para ela.

O uivo da matilha.

Jiah sorriu para as câmeras, mas não era o sorriso treinado de antes. Era o sorriso de alguém que tinha acabado de ser resgatado. Ela cantou como nunca tinha cantado antes, não para provar que era a melhor, mas para celebrar que não estava mais sozinha.

Naquela noite, Choi Jiah ganhou o prêmio de Melhor Artista Solo. Mas, enquanto segurava o troféu de ouro sob a chuva de papel picado, seus olhos procuravam apenas uma coisa na plateia: oito garotos segurando bichinhos de pelúcia, uivando de alegria por ela.

A fama ainda tentaria esmagá-la, a indústria ainda seria cruel e o cansaço voltaria. Mas agora, Jiah sabia que a reunião da matilha nunca terminava. Ela tinha um lugar para onde voltar, um reino para governar e oito lobos que jamais a deixariam caminhar no silêncio novamente. Ela finalmente tinha desabado, e nos braços deles, descobriu que cair era apenas o primeiro passo para aprender a voar de verdade.