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Suiça

O Alvorecer da Liberdade e a Promessa de um Novo Mundo

A luz da manhã na Suíça tinha uma qualidade diferente de qualquer outra que eu já tivesse visto. Não era o brilho agressivo e tropical do Brasil, mas uma claridade suave, quase etérea, que parecia purificar tudo o que tocava. Acordei sentindo o peso reconfortante do corpo de Giovanna ao meu lado. Estávamos de volta à cama, depois de termos passado parte da noite no tapete da sala. Ela dormia com um braço jogado sobre os olhos, a expressão tão desarmada que meu peito doeu de ternura.

Eu a observei por alguns minutos, traçando mentalmente as linhas de seu rosto. Giovanna Torres, a mulher que o mercado financeiro temia, a mulher que tinha enfrentado minha mãe sem piscar, agora era apenas minha. E, pela primeira vez na vida, eu não sentia que pertencia a alguém como uma posse, mas como uma escolha.

Levantei-me devagar, sentindo meus músculos protestarem levemente pelo esforço da noite anterior, e fui até a janela. A neve tinha caído mansamente durante a madrugada, cobrindo os rastros do dia anterior. Era um recomeço perfeito.

— Você tem esse hábito de fugir da cama antes de eu acordar — a voz de Giovanna soou baixa, vinda de trás de mim.

Senti suas mãos envolverem minha cintura, seus lábios pressionando o ponto sensível entre meu pescoço e meu ombro.

— Eu não estava fugindo — respondi, inclinando a cabeça para dar mais acesso a ela. — Só estava admirando a vista.

— A vista sou eu, Maya — brincou ela, virando-me para ficarmos de frente. — O resto é apenas cenário.

Eu ri, passando os braços pelo pescoço dela.

— Convencida.

— Apenas realista — ela selou nossos lábios em um beijo calmo, que carregava o gosto de café e de promessas cumpridas. — O que quer fazer hoje? O convite para o esqui ainda está de pé, embora eu suspeite que você prefira algo menos... atlético.

— Eu quero ver o vilarejo — eu disse, depois de pensar um pouco. — Quero andar entre as pessoas sem sentir que estou sendo vigiada. Quero tomar um chocolate quente em uma daquelas mesas na calçada e fingir que somos apenas um casal comum em férias.

Giovanna arqueou uma sobrancelha, um brilho divertido nos olhos.

— "Um casal comum"? Maya, olhe para nós. Nada em você é comum. E eu certamente não sei como fingir que não quero comprar a cafeteria inteira só para garantir que ninguém te atenda mal.

— Gi, por favor — pedi, fazendo um biquinho que eu sabia que ela não conseguia resistir. — Só por hoje. Sem seguranças ostensivos, sem telefonemas de negócios. Apenas nós duas.

Ela suspirou, derrotada, mas com um sorriso satisfeito.

— Está bem. Apenas nós duas. Mas se alguém olhar demais para você, não prometo que não vou ter um ataque de ciúmes possessivo.

— Eu lidarei com isso — prometi, dando-lhe um último beijo antes de correr para o banho.

Duas horas depois, estávamos caminhando pelas ruas de paralelepípedos de Zermatt. O ar estava gelado, fazendo nossas faces ficarem coradas, mas a sensação de liberdade era um isolante térmico potente. Giovanna usava um casaco de lã cinza-chumbo e óculos escuros, mantendo uma postura elegante que ainda atraía olhares, mas ela cumpriu a promessa: não havia carros pretos nos seguindo de perto, apenas o motorista que nos deixou na entrada da zona pedonal.

Entramos em uma pequena loja de chocolates artesanais. O cheiro era inebriante — uma mistura de cacau, avelãs e especiarias.

— Escolha o que quiser — disse Giovanna, observando-me com um olhar que dizia que ela compraria a loja inteira se eu pedisse.

— Quero aqueles ali — apontei para umas trufas decoradas com folhas de ouro comestível. — Parecem luxuosas demais para serem comidas, combinam com você.

— Engraçadinha — ela murmurou, mas comprou uma caixa generosa.

Sentamos em um pequeno café de esquina, protegidas por mantas de lã que o estabelecimento oferecia aos clientes. O chocolate quente era espesso e rico, exatamente como eu imaginara. Por um momento, o silêncio entre nós não era carregado de tensão ou desejo, mas de uma paz sólida.

— No que está pensando? — perguntou ela, retirando os óculos e fixando seus olhos intensos nos meus.

— No Brasil — admiti, e vi a mandíbula dela tensionar levemente. — Não de um jeito ruim. Só estava pensando que, pela primeira vez, eu não tenho medo de voltar.

Giovanna pegou minha mão sobre a mesa, apertando-a com firmeza.

— Você não tem por que ter medo. A empresa da sua mãe está sendo liquidada e integrada a uma das minhas holdings de fachada. Ela tem o dinheiro dela, mas não tem mais poder. E Bárbara... bem, Bárbara entendeu que se aproximar de você é o caminho mais rápido para a ruína financeira dela.

— Você realmente pensou em tudo, não foi?

— Eu passei a vida antecipando os movimentos dos meus inimigos, Maya. Mas proteger você não é um negócio. É a minha prioridade absoluta.

Eu olhei para ela, sentindo aquela onda de gratidão que sempre me atingia quando ela falava assim.

— Às vezes eu me pergunto por que eu — confessei, a voz um pouco mais baixa. — Você poderia ter qualquer pessoa. Alguém mais forte, alguém que já nasceu nesse mundo de tubarões.

Giovanna soltou um suspiro curto, inclinando-se para frente.

— Porque você é a única que não me olha como se eu fosse um degrau para o poder, Maya. Você me olha e vê a Giovanna. A mulher que gosta de silêncio, que se sente sozinha em salas cheias, que precisava de alguém que a desafiasse a ser humana. Você não é minha fraqueza, você é a minha redenção.

Aquelas palavras pairaram no ar gelado, aquecendo meu coração mais do que qualquer bebida poderia fazer. Ficamos ali por mais algum tempo, apenas observando o movimento dos turistas e dos moradores locais. Era estranho e maravilhoso ser apenas mais uma pessoa na multidão.

Quando o sol começou a baixar, pintando o Matterhorn de um dourado radiante, decidimos voltar. O frio estava ficando mais cortante, e a promessa da lareira e da intimidade do chalé era tentadora demais para ignorar.

No caminho de volta, dentro do carro, Giovanna parecia pensativa. Ela olhava pela janela, mas sua mão não soltava a minha.

— O que foi? — perguntei.

— Estava pensando sobre o que você disse — ela começou, voltando-se para mim. — Sobre o trono. Sobre você ser a rainha.

— Eu estava apenas provocando você, Gi.

— Eu sei. Mas há verdade nas suas provocações. Quando voltarmos, quero que você assuma um papel na fundação. Não porque eu precise, mas porque eu quero que o mundo veja quem você é. Quero que você tenha seu próprio império sob o meu guarda-chuva.

— Gi, eu não sei se estou pronta para o mundo corporativo.

— Não é corporativo, meu amor. É filantropia e artes. O que você ama. Eu só vou te dar o palco. Você é quem vai brilhar.

Chegamos ao chalé e o calor nos recebeu como um abraço familiar. Dalva já havia deixado tudo preparado — um jantar leve e vinho. Mas, antes de comermos, Giovanna me puxou para a varanda envidraçada. As estrelas estavam começando a aparecer, brilhando com uma intensidade que só o ar da montanha permitia.

— Maya — ela disse, a voz subitamente séria.

Ela enfiou a mão no bolso do casaco e retirou uma pequena caixa de veludo azul-marinho. Meu coração deu um salto, batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado.

— Gi... o que é isso?

— Não é um pedido de casamento. Ainda não — ela sorriu, mas seus olhos estavam úmidos. — É uma promessa.

Ela abriu a caixa, revelando um anel de platina com uma safira central cercada por pequenos diamantes. Era uma peça de uma elegância discreta, mas poderosa.

— Esta safira é da cor dos seus olhos quando você está feliz — ela continuou, pegando minha mão esquerda. — Este anel é para te lembrar, todos os dias, que você nunca mais estará sozinha. Que, não importa o quão frio o mundo lá fora se torne, você sempre terá um lugar quente para voltar. Você é a minha casa, Maya Garcia.

Eu senti as lágrimas escorrerem, quentes e libertadoras.

— Eu não sei o que dizer — sussurrei, enquanto ela deslizava o anel pelo meu dedo. Serviu perfeitamente.

— Não diga nada. Apenas continue sendo minha.

Eu a puxei para um beijo desesperado, um beijo que carregava toda a dor do meu passado e toda a esperança do meu futuro. Entramos no quarto, a urgência substituindo a calma do dia. Havia algo de sagrado na forma como nos despíamos agora, como se cada peça de roupa fosse uma barreira removida entre nossas verdades.

Giovanna me deitou na cama, seu corpo cobrindo o meu com uma firmeza que me fazia sentir segura e desejada ao mesmo tempo. Suas mãos, sempre tão seguras, tremiam levemente enquanto exploravam as curvas do meu corpo.

— Você é tão perfeita — ela murmurou contra a minha pele, os beijos descendo do meu pescoço para os meus seios.

Eu arqueei o corpo, sentindo a eletricidade percorrer cada nervo.

— Eu sou sua — respondi, as mãos enterradas nos cabelos dela. — Sempre sua.

O ato de amor naquela noite foi diferente. Não foi sobre poder ou controle, embora esses elementos estivessem presentes como tempero. Foi sobre pertencimento. Quando Giovanna se uniu a mim, o encaixe foi tão perfeito que parecia que nossos corpos haviam sido desenhados um para o outro desde o início dos tempos.

Eu a envolvi com minhas pernas, puxando-a para mais perto, querendo absorver cada sensação, cada batida de seu coração. O prazer construiu-se de forma lenta e inexorável, como a neve que se acumula até se tornar uma avalanche.

— Maya... olhe para mim — pediu ela, a voz quebrada pelo desejo.

Abri os olhos e encontrei os dela. Havia uma vulnerabilidade ali que me tirou o fôlego. Giovanna Torres estava completamente exposta para mim, sem defesas, sem máscaras.

— Eu te amo — eu disse, e foi a primeira vez que as palavras saíram com tanta clareza, sem o peso da dúvida.

— Eu te amo — ela respondeu, e então o mundo explodiu.

O clímax nos atingiu simultaneamente, uma onda de êxtase que nos deixou sem ar, agarradas uma à outra como se fôssemos o único ponto firme em um universo em constante mudança. Ficamos ali, emaranhadas nos lençóis de seda, enquanto o suor esfriava e a respiração voltava ao normal.

— Acho que agora eu entendo — sussurrei, depois de um longo tempo, com a cabeça apoiada no ombro dela.

— Entende o quê?

— Por que você me trouxe para cá. Não foi só para fugir da minha mãe ou dos problemas. Foi para me mostrar que o mundo pode ser bonito se você tiver a pessoa certa ao seu lado.

Giovanna beijou minha têmpora, o braço apertando-me contra si.

— O mundo é apenas um lugar, Maya. O que importa é o que construímos dentro dele. E o que temos aqui... — ela gesticulou para o espaço entre nós — ...é o meu maior sucesso.

Adormecemos com o brilho da safira no meu dedo refletindo a luz da lua. O amanhã traria o Brasil, traria reuniões, traria o olhar julgador da sociedade e os desafios de uma vida pública. Mas, enquanto eu estivesse nos braços de Giovanna, eu sabia que não era apenas uma rainha em um tabuleiro de xadrez. Eu era a dona do meu próprio destino, e o meu destino tinha o nome e o sobrenome da mulher que agora dormia pacificamente ao meu lado.

A neve continuava a cair lá fora, silenciosa e constante, protegendo o nosso pequeno santuário no topo do mundo. E eu, finalmente, estava em casa.