Suiça
O Despertar da Rainha no Gelo
O sol da manhã seguinte refletia na neve acumulada do lado de fora, criando um clarão tão branco que chegava a arder nos olhos se eu olhasse diretamente. Mas eu não queria olhar para fora. Eu estava ocupada demais sentindo o calor do corpo de Giovanna, que ainda me envolvia como se eu fosse o seu tesouro mais precioso. Ela ainda dormia, a respiração pesada e rítmica contra a minha nuca, um braço possessivo jogado sobre a minha cintura.
A noite anterior tinha sido uma revelação. Eu não era mais a menina assustada que Soraya tentava manipular. Eu tinha tomado as rédeas, tinha guiado Giovanna, e a sensação de poder — de ser amada e desejada naquela intensidade — tinha mudado algo dentro de mim.
Senti Giovanna se mexer. O aperto em minha cintura aumentou por um segundo antes de ela relaxar e depositar um beijo preguiçoso no meu ombro.
— Bom dia, minha soberana — a voz dela saiu rouca, carregada pelo sono e por uma satisfação evidente.
Virei-me no abraço dela, encontrando olhos que brilhavam com uma ternura que ela raramente mostrava ao mundo.
— Bom dia, Gi. Dormiu bem?
— Como uma mulher que finalmente encontrou a paz — ela respondeu, afastando uma mecha de cabelo do meu rosto. — E você? Parece pronta para conquistar o resto da Europa hoje.
— Talvez só o resto deste chalé por enquanto — brinquei, puxando o edredom para mais perto. — O ar está gelado hoje.
— Vou pedir para Dalva trazer o café aqui para cima — disse ela, já esticando o braço para o telefone de cabeceira. — Quero que você não precise colocar os pés nesse chão frio até estar devidamente alimentada.
— Você me mima demais — comentei, observando-a dar as instruções rápidas e precisas pelo telefone.
Mesmo nua e despenteada, Giovanna exalava uma autoridade natural. Mas quando desligou o aparelho e voltou sua atenção para mim, aquela aura de empresária implacável derreteu-se completamente.
— Eu não te mimo, Maya. Eu te dou o que você merece. Depois de tudo o que aquela mulher fez você passar... depois de toda a pressão para ser o que eles queriam... eu só quero que você seja você. E se "você" quiser passar o dia inteiro na cama sendo servida, assim será.
O café da manhã chegou pouco depois: croissants frescos, queijos suíços, frutas colhidas em algum lugar onde o inverno não era tão rigoroso e um café tão forte que o aroma preencheu cada canto do quarto. Comemos entre risos e trocas de carinhos, planejando o que faríamos nos dias restantes da viagem.
— Quero te levar para ver o lago hoje à tarde — disse Giovanna, limpando uma migalha de pão do canto da minha boca com o polegar. — Dizem que, nesta época do ano, a água fica tão cristalina que parece um espelho de prata.
— Parece perfeito — respondi, sentindo uma paz que eu nunca julguei ser possível.
Passamos a tarde caminhando pelas margens do lago, protegidas por casacos pesados e pelo calor de nossas mãos entrelaçadas. O cenário era exatamente como ela descrevera: um espelho de prata cercado por gigantes brancos. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som das nossas botas na neve e pelo vento uivante que soprava do topo das montanhas.
— Sabe — comecei, parando para observar o horizonte —, eu nunca imaginei que a liberdade tivesse esse cheiro.
— Cheiro de neve e pinheiros? — perguntou Giovanna, abraçando-me por trás e apoiando o queixo no meu ombro.
— Não. Cheiro de ausência de medo.
Giovanna apertou o abraço.
— O medo não tem mais lugar na sua vida, Maya. Eu queimei todas as pontas que ligavam você ao seu passado. Soraya agora é apenas uma lembrança amarga, e o dinheiro que dei a ela foi o preço da nossa paz. Um investimento barato, se você quer saber a minha opinião.
— Você realmente não teme que ela tente voltar? — olhei-a de soslaio. — Ela é persistente quando quer dinheiro.
— Ela é persistente, mas não é burra — Giovanna sorriu, um sorriso que teria feito qualquer um de seus competidores tremer. — Ela sabe que, se der um passo em falso, eu não vou apenas retirar o dinheiro. Eu vou destruir o que restou do nome dela. Eu tenho dossiês, Maya. Coisas que fariam a empresa dela ser fechada pelo governo em vinte e quatro horas. Ela assinou o contrato de silêncio porque sabia que eu tinha a corda e o pescoço dela nas minhas mãos.
Senti um arrepio, mas não de medo. Era uma segurança profunda saber que alguém lutaria por mim com tanta ferocidade.
— Você é implacável, Gi.
— Por você, eu seria muito pior — ela admitiu, virando-me para que eu ficasse de frente para ela. — Agora, chega de falar de negócios e de pessoas insignificantes. O sol está começando a baixar e eu não quero que você pegue um resfriado.
O retorno para o chalé foi marcado por uma conversa mais leve sobre o futuro. Falamos sobre redecorar a nossa casa no Brasil, sobre os projetos de arte que eu queria retomar e sobre como conciliaríamos nossas rotinas. Pela primeira vez, o futuro não parecia um labirinto, mas um caminho aberto.
Ao chegarmos, a lareira já estava acesa, e o ambiente estava envolto em uma luz âmbar acolhedora. Giovanna preparou dois drinques e sentamos no tapete de pele, observando as chamas dançarem.
— Você ainda está com aquela expressão — observou ela, entregando-me a taça.
— Que expressão?
— A de quem está tramando algo — ela riu, sentando-se atrás de mim e me puxando para apoiar as costas em seu peito. — O que essa rainha está planejando agora?
— Estava pensando na noite passada — confessei, sentindo meu rosto esquentar um pouco, apesar do frio lá fora. — No quanto eu gostei de ver você... vulnerável.
Senti o peito de Giovanna vibrar com uma risada baixa.
— Vulnerável, é? — ela murmurou no meu ouvido, sua mão começando a traçar o contorno do meu pescoço, descendo para a gola do meu suéter de lã. — Você tem um talento natural para encontrar as minhas fraquezas, Maya.
— Eu não acho que sejam fraquezas — corrigi, virando o rosto para encontrar o dela. — Acho que é confiança. Você confia em mim o suficiente para soltar o controle. E eu amo isso.
— Eu confio em você com a minha vida — disse ela, a seriedade voltando à sua voz. — E se você quiser o controle novamente esta noite... ele é todo seu.
Eu me virei por completo, ficando de joelhos no tapete, de frente para ela. O contraste entre a luz do fogo e as sombras do quarto realçava as linhas fortes do rosto de Giovanna e a intensidade do seu olhar.
— Eu quero — sussurrei, deixando a taça de lado. — Mas desta vez, quero que seja diferente.
— Diferente como? — ela arqueou uma sobrancelha, visivelmente intrigada.
— Sem pressa. Quero que você sinta cada segundo. Quero que você entenda que, embora você me proteja do mundo, aqui dentro, eu sou quem te sustenta.
Comecei a desabotoar a camisa de Giovanna, um botão por vez, mantendo o contato visual. O silêncio era preenchido apenas pelo estalar da madeira na lareira. Quando a camisa caiu, revelei a pele bronzeada e os músculos firmes que eu tanto admirava. Minhas mãos subiram pelo seu abdômen, sentindo a tensão que se formava ali.
— Maya... — ela suspirou, as mãos indo em direção à minha cintura, mas eu as segurei.
— Não — eu disse, com uma autoridade suave. — Mãos para trás. Apoie-se no sofá.
Giovanna obedeceu, um brilho de excitação pura cruzando seus olhos. Ela se inclinou para trás, os braços esticados, expondo-se completamente a mim. Eu me aproximei, distribuindo beijos lentos pela sua clavícula, descendo pelo peito, sentindo o calor que emanava dela.
Eu a explorei com a língua, traçando círculos ao redor de seus mamilos, sentindo-os endurecer sob meu toque. Os gemidos de Giovanna começaram baixos, mas foram ganhando volume à medida que minhas mãos desciam para o cós de sua calça.
— Você é tão linda sob a luz do fogo — murmurei, antes de me concentrar em libertá-la de suas roupas.
Quando ela estava nua diante de mim, a visão era de tirar o fôlego. O volume entre suas pernas era um testemunho silencioso do quanto ela me desejava. Eu não perdi tempo. Usei minhas mãos e minha boca para levá-la ao limite, sentindo cada tremor que percorria seu corpo. Giovanna tentava manter o controle, mas eu via que suas defesas estavam caindo uma a uma.
— Por favor, Maya... — ela implorou, a voz rouca, os dedos enterrando-se no tecido do sofá.
— O que você quer, Gi? — perguntei, parando por um segundo e olhando para cima, vendo-a em um estado de entrega total.
— Eu quero você. Agora. Por favor.
Eu sorri, sentindo uma onda de triunfo e amor. Levantei-me, retirei minhas próprias roupas com movimentos fluidos e me posicionei sobre ela. O contato de nossas peles nuas foi como uma descarga elétrica.
— Lembra-se do que eu disse? — sussurrei, enquanto me alinhava a ela. — Eu sou a sua rainha. E você é o meu império.
Quando nos unimos, o mundo exterior deixou de existir. Não havia Suíça, não havia neve, não havia passado. Havia apenas o ritmo frenético de nossos corpos, o som de nossas respirações misturadas e a certeza absoluta de que pertencíamos uma à outra.
Giovanna me segurou com força, seus quadris subindo para encontrar os meus, cada estocada sendo uma afirmação de posse e desejo. Eu me movia com uma confiança que nunca soube que possuía, ditando o compasso da nossa música particular.
— Isso... sim... — ela arfava, os olhos fechados, a testa encostada na minha. — Maya, você está me matando...
— Eu estou te trazendo à vida, Gi — respondi, aumentando a velocidade, sentindo o clímax se aproximar como uma tempestade.
Quando o ápice veio, foi devastador. Eu me agarrei a ela, sentindo os jatos quentes me preencherem enquanto meu próprio corpo explodia em mil pedaços de luz e prazer. Desabamos juntas no tapete, suadas e exaustas, envolvidas pelo calor da lareira e pelo cheiro uma da outra.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, apenas sentindo os batimentos cardíacos voltarem ao normal. Giovanna me puxou para cima dela, envolvendo-me em seus braços protetores.
— Você tinha razão — disse ela, a voz ainda trêmula. — Eu precisava disso. Precisava saber que posso cair, porque você vai estar lá para me segurar.
— Eu sempre vou estar aqui, Gi.
— Eu sei. E é por isso que eu nunca vou deixar nada te acontecer.
Ela beijou minha testa e ficamos ali, observando as brasas da lareira morrerem lentamente. Naquela noite, sob o céu estrelado dos Alpes, eu entendi que o jogo de poder que jogávamos não era sobre quem mandava em quem. Era sobre o equilíbrio perfeito entre duas almas que tinham encontrado seu lugar no mundo.
— Maya? — chamou ela, já quase adormecendo.
— Hum?
— Amanhã... amanhã eu quero te levar para esquiar. Mas só se você prometer que não vai tentar me derrubar na neve de propósito.
Eu ri, aconchegando-me mais a ela.
— Não prometo nada, Torres. Afinal, a rainha faz as regras.
Giovanna sorriu, fechando os olhos, finalmente em paz.
— É — murmurou ela. — E eu não mudaria nada nisso.
Adormecemos ali mesmo, no tapete da sala, protegidas pelo calor do nosso amor e pela imensidão silenciosa das montanhas. O futuro era incerto, o mundo lá fora era cruel, mas ali, dentro daquelas quatro paredes de madeira e pedra, éramos invencíveis. E eu sabia, com cada fibra do meu ser, que aquele era apenas o começo da nossa verdadeira história.