Sultan
O Pacto das Safiras e do Sangue
O ar nos aposentos de Hurrem Sultana estava pesado, carregado com o aroma doce de jasmim e o cheiro metálico de uma guerra que ainda não havia sido declarada nas ruas, mas que já fervilhava nas sombras do divã. Bloom, a Sultana que outrora fora uma escrava ruiva e agora era a bússola do império, caminhava de um lado para o outro. Seus olhos azuis, geralmente uma fonte de conforto para o Sultão Jim, agora eram duas brasas ardentes de estratégia e desespero materno.
Ela sabia que a rede de Mahidevran e Mustafa estava se fechando. O exército estava inquieto, e os vizires olhavam para Marymard com desconfiança, vendo nele o "filho da estrangeira". O império precisava de uma âncora, uma aliança que trouxesse força bruta e novas rotas comerciais para financiar a lealdade dos Janízaros. E essa âncora tinha um nome: Puma.
— Você entende os termos, Príncipe Puma? — perguntou Bloom, parando diante do jovem nativo.
Puma estava em pé, a postura ereta, vestindo uma túnica de seda escura que o Sultão lhe dera, mas mantendo o colar de dentes de lobo que simbolizava sua linhagem. Ele olhava para Bloom não com a submissão de um súdito, mas com o respeito de um igual.
— Eu entendo, Sultana — respondeu Puma, sua voz ecoando com a gravidade das montanhas. — Você quer a minha força e a lealdade do meu povo para proteger o trono do seu filho. Em troca, você me oferece o que eu mais desejo neste mundo de mármore: Luna.
— Com uma condição inegociável — Bloom deu um passo à frente, o dedo apontado para o peito dele. — Você viverá aqui. Você será um general do império. Luna não será levada para além-mar para viver em florestas onde eu não possa alcançá-la. Ela é o coração do Sultão. Se ela partir, Jim perderá a vontade de governar, e este palácio cairá.
Puma silenciou por um longo momento. Ele pensou nas vastas planícies de sua terra, no cheiro da terra molhada após a chuva e na liberdade que estava prestes a trocar por corredores de pedra e protocolos sufocantes. Mas então, ele pensou em Luna — na sua fúria, na sua inteligência e no brilho de seus cabelos negros.
— Pela Sultana Luna, eu aceito as correntes deste palácio — declarou Puma. — Minha terra será uma lembrança, e ela será o meu novo horizonte.
— Ótimo — disse Bloom, embora uma pontada de culpa lhe atravessasse o peito. — O contrato será assinado hoje. O casamento será em três dias.
Enquanto o acordo era selado, Luna estava no terraço, alheia à transação de seu próprio destino. O choque veio como um balde de água gelada quando a mãe a chamou aos seus aposentos privados.
— Um tratado? — A voz de Luna falhou, algo raro para a princesa implacável. — Você me vendeu como se eu fosse um cavalo de raça ou uma província conquistada?
— Eu garanti o seu futuro e a segurança do seu irmão, Luna! — Bloom tentou segurar as mãos da filha, mas Luna recuou como se tivesse sido queimada.
— Você sempre me disse que eu encontraria o amor! — gritou Luna, as lágrimas de traição brilhando em seus olhos. — Você me contou histórias de como o papai a libertou, de como o amor de vocês derrubou as leis do império! E agora você me usa como moeda de troca?
— Eu sou uma Sultana, Luna, e você também é! — Bloom rugiu, sua própria dor transparecendo. — Eu fui escrava para que você nascesse livre. E agora, para que você permaneça viva e Marymard suba ao trono, você deve se casar. O amor é um luxo que o trono raramente permite, e eu tive a sorte de tê-lo, mas não posso arriscar a sua vida esperando que o destino seja gentil com você.
— Sou Luna, Luna Sultana, e eu não perdoo — sussurrou a jovem, a frase que costumava ser sua força agora soando como uma sentença de morte para sua própria felicidade. — Especialmente você, mãe.
Luna saiu do quarto sem olhar para trás. Durante os três dias seguintes, o palácio transformou-se em um formigueiro de preparativos. O Sultão Jim, embora relutante em entregar sua "joia", sabia que Bloom estava certa. Ele via a sombra de Mustafa crescer e sabia que o exército de Puma, aliado aos Janízaros leais, era a única garantia de paz.
O dia do casamento amanheceu com um céu cor de chumbo, como se o próprio Bósforo estivesse de luto. O Palácio de Topkapi estava decorado com tapeçarias de ouro e seda azul, as cores da linhagem de Jim e da nova aliança.
Nos aposentos de Luna, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo tilintar das joias sendo colocadas pelas servas trêmulas. Luna estava parada diante do grande espelho de bronze. Ela não parecia uma noiva; parecia uma guerreira se preparando para a execução. Seu vestido era de um azul tão escuro que beirava o preto, bordado com safiras que pareciam gotas de sangue congelado. Um véu da mesma cor, pesado e impenetrável, cobria sua cabeça, escondendo a palidez de seu rosto.
— A Sultana está pronta — anunciou a serva principal.
Luna caminhou pelos corredores, o som de sua cauda de seda arrastando-se pelo mármore soando como um suspiro longo e doloroso. Ela via as irmãs de Jim e as outras concubinas observando-a, algumas com inveja, outras com uma satisfação cruel por verem a orgulhosa Luna sendo domada por um casamento de conveniência.
Ao chegar ao grande salão, onde o Sultão Jim e o Príncipe Marymard a esperavam, Luna manteve a cabeça erguida. Ela viu seu pai, o homem que ela adorava, e percebeu o cansaço em seus olhos. Jim parecia mais velho naquele dia, o peso da coroa finalmente cobrando seu preço. Por ele, ela pensou. Por Marymard.
Puma esperava diante do altar improvisado. Ele estava deslumbrante em trajes otomanos de gala, mas seus olhos, quando encontraram os de Luna através do véu fino, não tinham a arrogância do conquistador. Havia uma tristeza compartilhada ali, uma compreensão de que ambos haviam sido sacrificados no altar da política.
A cerimônia seguiu os ritos tradicionais. O Sultão Jim uniu as mãos dos dois, sua voz falhando levemente ao pronunciar as bênçãos.
— Que esta união seja a rocha sobre a qual o meu império resistirá — disse Jim, embora seu coração estivesse partido.
Após os ritos, o palácio explodiu em festividades, mas Luna e Puma permaneceram como estátuas de gelo no centro do caos. Quando a noite caiu e o protocolo exigiu que eles fossem conduzidos aos aposentos nupciais, o silêncio entre eles tornou-se ensurdecedor.
As servas retiraram o véu de Luna e saíram, fechando as pesadas portas de carvalho. Puma permaneceu perto da janela, observando as luzes de Istambul refletidas na água.
— Você me odeia — disse Puma, sem se virar. Não era uma pergunta.
— Eu odeio o fato de que você aceitou — respondeu Luna, sua voz fria e cortante. — Você, que falava de liberdade e de sentir o vento, aceitou se tornar um carcereiro em troca de um título e de uma mulher que não o quer.
Puma virou-se lentamente. Ele caminhou até ela, parando a uma distância respeitosa, mas seus olhos brilhavam com a mesma intensidade que Luna vira no jardim.
— Eu não aceitei pelo título, Luna — disse ele, sua voz baixa e rouca. — E eu não sou seu carcereiro. Eu sou o único homem neste império que está disposto a ser o seu escudo, mesmo que você use a sua espada contra mim.
— Minha mãe me traiu — disse Luna, as lágrimas finalmente transbordando, quentes e furiosas. — Ela usou o amor como uma armadilha.
— Sua mãe agiu como uma rainha que teme pelo seu povo — Puma deu um passo cauteloso para mais perto. — E você está agindo como uma princesa que teme o próprio coração. Você disse que não perdoa, Luna. Mas talvez a pessoa que você precise perdoar agora seja a si mesma, por sentir que este casamento não é apenas um sacrifício.
Luna olhou para ele, a raiva lutando contra a atração magnética que Puma sempre exercera sobre ela. Ela se lembrou do toque dele no jardim, da forma como ele a protegera dos assassinos, e de como, em seus braços, ela se sentira, pela primeira vez, apenas Luna.
— Eu não serei uma esposa submissa, Puma — avisou ela, secando as lágrimas com um gesto brusco. — Eu sou Luna Sultana. Eu governo, eu não sou governada.
Puma sorriu, o mesmo sorriso de canto que a irritava e a fascinava.
— Eu não esperaria nada menos da mulher que capturou a minha alma. Eu não quero uma súdita, Luna. Eu quero uma parceira. O império pode ter o nosso contrato, mas o que acontece entre nós... isso pertence apenas ao vento.
Ele estendeu a mão, não como uma ordem, mas como um convite. Luna olhou para a mão calejada do guerreiro e depois para o rosto do homem que agora era seu marido. A dor da traição de Bloom ainda estava lá, uma ferida aberta que levaria anos para cicatrizar, mas a necessidade de sobrevivência e a centelha de um desejo proibido falaram mais alto.
Luna colocou sua mão sobre a dele.
— O império está em perigo, Puma — disse ela, sua determinação voltando. — Mustafa não vai parar. Minha mãe fez este acordo para nos proteger, mas agora somos nós que teremos que lutar.
— Então lutaremos juntos — prometeu Puma, puxando-a para mais perto. — A onça e a lua. Deixe que eles tentem nos derrubar. Eles descobrirão que o fogo de Hurrem e a força das minhas terras criaram algo que nenhum sultão ou traidor pode destruir.
Naquela noite, enquanto o Palácio de Topkapi celebrava uma paz frágil, um novo poder nascia. Luna Sultana não havia sido domada; ela havia encontrado seu igual. E enquanto Bloom observava a lua da sacada de seus aposentos, rezando para que sua filha um dia a perdoasse, ela sabia que o sacrifício fora necessário. A dinastia de Jim estava segura por enquanto, mas o preço fora a inocência de Luna.
A princesa que não perdoava agora tinha um exército à sua disposição e um rei nativo ao seu lado. A guerra interna estava apenas começando, e Luna estava pronta para mostrar ao mundo que, embora pudesse ter sido usada como moeda de troca, ela era quem ditaria o valor de cada vida no Império Otomano.
— Por meu pai, por meu irmão e por mim — sussurrou Luna contra o peito de Puma, enquanto o véu azul escuro jazia esquecido no chão, um símbolo de um passado que ela acabara de deixar para trás. — Que comecem os jogos de sangue.