Sultan
O Sussurro da Víbora e o Escudo do Guerreiro
O quarto nupcial estava mergulhado em uma penumbra dourada, iluminado apenas pelas chamas vacilantes das lamparinas de óleo que exalavam um perfume denso de âmbar e almíscar. Luna Sultana permanecia imóvel perto da janela, observando o reflexo das estrelas nas águas escuras do Bósforo. O peso das joias e das camadas de seda azul parecia sufocá-la, mas nada era tão pesado quanto o silêncio que a separava de Puma.
— O silêncio é uma arma perigosa, Luna — disse Puma, sua voz vindo das sombras atrás dela. — Ele permite que a mente crie inimigos onde deveria haver apenas um aliado.
Luna virou-se lentamente, a expressão endurecida pela determinação que herdara de sua mãe.
— Não somos aliados por escolha, Puma. Somos um pacto selado em papel e sangue. Minha mãe sacrificou minha liberdade para proteger o trono de Marymard, e você aceitou ser o meu carcereiro de luxo.
Puma caminhou até ela com a calma de um predador que não precisa de pressa. Ele parou a poucos centímetros, o calor de seu corpo emanando através da túnica fina.
— Eu não sou seu carcereiro — ele repetiu, a voz baixa e vibrante. — E se este é um acordo físico, que seja um acordo de forças iguais. Você não se curvará a mim, e eu não me curvarei a você. Mas esta noite... esta noite o império fica do lado de fora dessas portas.
Luna sentiu o desafio no olhar dele. Não havia submissão ali, nem a adoração cega que os nobres costumavam fingir. Havia uma verdade crua. Ela estendeu a mão e tocou a cicatriz no ombro dele, um mapa de batalhas que ela ainda não conhecia.
— Que assim seja — sussurrou Luna, puxando-o para mais perto. — Um acordo de sangue e fogo.
A noite de núpcias não foi um conto de fadas de romance delicado, mas uma colisão de vontades. Foi um ato de posse mútua, onde Luna descobriu que, sob a pele do guerreiro estrangeiro, batia um coração que a entendia melhor do que qualquer um no palácio. Entre beijos que sabiam a urgência e toques que reivindicavam territórios, eles forjaram uma união física que era, na verdade, a fundação de um exército privado. Luna não entregou seu coração, mas entregou sua confiança táctica; Puma não entregou sua liberdade, mas entregou sua lealdade absoluta.
Ao amanhecer, enquanto o sol começava a tingir as cúpulas de Istambul de um rosa pálido, Luna já estava de pé, vestindo uma caftã de seda escarlate. A vulnerabilidade da noite havia sido guardada em uma caixa de ferro. Ela tinha assuntos urgentes.
— Aonde você vai tão cedo? — perguntou Puma, observando-a do divã, o peito nu coberto apenas pelos lençóis de linho.
— Marcar território — respondeu Luna, prendendo uma adaga de prata na cintura, oculta pelas dobras do vestido. — Mustafa e Mahidevran acham que o meu casamento foi um sinal de fraqueza. Vou mostrar a eles que agora eu tenho duas espadas: a do meu pai e a sua.
Ela saiu dos aposentos com passos que faziam os guardas se empertigarem. No grande corredor que levava aos jardins internos, ela encontrou seu meio-irmão, Mustafa. Ele estava cercado por dois oficiais janízaros, discutindo algo em voz baixa que cessou imediatamente quando Luna apareceu.
— A noiva parece revigorada — comentou Mustafa com um sorriso cínico, inclinando levemente a cabeça. — Ouvi dizer que o seu selvagem se comporta bem entre paredes de mármore.
Luna parou diante dele, a postura tão rígida quanto a de um carrasco.
— O "selvagem", como você o chama, Mustafa, tem mais honra em um único dedo do que você em todo o seu corpo manchado por conspirações — Luna deu um passo à frente, diminuindo a distância. — Eu sei o que você e sua mãe tramam nas sombras. Ouça bem: Marymard é o herdeiro legítimo. Se você tentar roubar o que pertence ao meu pai ou tocar em um fio de cabelo do meu irmão mais velho, eu não esperarei pelo julgamento do Sultão. Eu mesma farei o seu funeral.
— Você está muito ousada, Luna — rosnou Mustafa, a mão indo instintivamente para o punho de sua espada. — O exército não aceitará um herdeiro criado sob as saias de uma escrava russa.
— O exército aceita a força — retrucou ela, os olhos brilhando com um ódio frio. — E eu sou Luna Sultana. Eu não perdoo traidores. Considere este o seu único aviso.
Ela deu as costas a ele, deixando o príncipe fervendo de raiva silenciosa. Mas o dia de Luna estava longe de terminar. Ao retornar para a ala das mulheres, um anúncio inesperado a aguardava.
— Sultana, sua tia, a Sultana Hatice, acaba de chegar ao palácio — informou uma serva, visivelmente nervosa. — Ela exige vê-la imediatamente no salão de recepção.
Luna franziu a testa. Hatice, uma das irmãs de seu pai, passara anos em uma província distante. Luna mal se lembrava dela, a não ser por relatos de sua rigidez e do desprezo que nutria por Bloom.
Ao entrar no salão, Luna encontrou uma mulher vestida com a opulência sombria das antigas sultanas. Hatice tinha o rosto marcado por linhas de severidade e olhos que pareciam julgar tudo o que viam.
— Luna — disse Hatice, sua voz sendo um sussurro seco. — A última vez que a vi, você era uma criança que mal conseguia segurar uma colher. Agora, vejo que se tornou uma cópia fiel daquela mulher que enfeitiçou meu irmão.
Luna caminhou até o centro da sala, recusando-se a fazer a reverência profunda que a etiqueta exigiria.
— Tia Hatice. O tempo parece ter endurecido seu coração, mas não sua língua — disse Luna com uma cortesia gélida.
Hatice levantou-se, caminhando ao redor de Luna como se inspecionasse uma mercadoria.
— Ouvi histórias sobre sua insolência, mas ver isso pessoalmente é deplorável. Você se casou com um bárbaro, veste-se como uma guerreira e fala como se o trono fosse seu. Bloom realmente destruiu a linhagem desta família.
— Minha mãe construiu este império ao lado do meu pai enquanto vocês se escondiam em províncias, esperando por migalhas de poder — rebateu Luna, a voz elevando-se. — E quanto ao meu marido, ele é um príncipe de sua própria nação, algo que nenhum dos seus aliados de conveniência jamais será.
— Cale-se! — Hatice bateu a mão na mesa de apoio. — Eu sou a irmã do Sultão! Eu dou as ordens nesta ala do palácio. Você vai se desculpar por esse tom e começará a agir como uma sultana otomana, ou eu farei com que meu irmão a mande para o exílio junto com seu selvagem.
Luna soltou uma risada curta e sem humor, um som que ecoou pelas paredes.
— Você acha que tem poder aqui? — Luna aproximou-se de Hatice, seus olhos azuis faiscando. — Eu não sou como as outras sultanas que você conheceu. Eu não sou um pássaro em uma gaiola de ouro. Sou Luna Sultana, e eu aviso uma única vez: se eu descobrir que você está mancomunada com Mustafa ou que está tramando contra minha mãe, eu a expulsarei deste palácio com as minhas próprias mãos. Você voltará para a sua província em uma carroça de carga e nunca mais verá os portões de Istambul.
Hatice ficou pálida de fúria. Ela fez um sinal rápido para um de seus servos pessoais, um homem alto e robusto que a acompanhara na viagem.
— Ensine a esta menina o respeito que ela deve à família real — ordenou a tia, a voz trêmula de ódio.
O servo avançou, a mão estendida para agarrar o braço de Luna. A Sultana não recuou; sua mão já buscava a adaga oculta.
No entanto, antes que o homem pudesse tocá-la, uma sombra cruzou o salão. Um som de impacto seco ecoou quando Puma interceptou o braço do servo no ar. Com um movimento fluido e brutal, Puma torceu o pulso do homem, forçando-o a cair de joelhos com um grito de dor.
— Ninguém toca na Sultana — disse Puma, sua voz sendo um rosnado baixo que fez o sangue de Hatice gelar.
Puma empurrou o servo para longe com desprezo e colocou-se à frente de Luna, seu corpo largo servindo de escudo. Ele não desembainhou uma arma; sua presença física era ameaça suficiente.
— Quem é este... este animal? — gaguejou Hatice, recuando até bater no divã.
— Este é o meu marido — disse Luna, saindo de trás de Puma, mas mantendo a mão em seu ombro. — E ele não segue as leis de etiqueta que você tanto preza. Ele segue as minhas ordens.
Luna olhou para o servo caído e depois para a tia, que tremia de indignação e medo.
— Fora da minha vista, Hatice — ordenou Luna, o tom absoluto. — Leve seu lixo com você. Se eu ouvir um único sussurro de conspiração vindo dos seus aposentos, a próxima vez que nos falarmos será diante do carrasco.
Hatice, percebendo que perdera a batalha de vontades, fez um sinal para o servo ferido e saiu do salão a passos rápidos, a dignidade em farrapos.
Puma relaxou os ombros apenas quando a porta se fechou. Ele se virou para Luna, um brilho de admiração em seus olhos escuros.
— Você é muito mais perigosa do que eu imaginava, Luna Sultana — comentou ele com um leve sorriso.
— Eu avisei que não perdoava — respondeu ela, sentindo a adrenalina diminuir. — Eles acham que podem nos quebrar um por um. Primeiro minha mãe, depois eu, depois Marymard.
— Eles não contavam comigo — Puma pegou a mão dela, apertando-a com firmeza. — E eles certamente não contavam com o que você se tornou.
Luna olhou para a porta por onde a tia saíra, sabendo que a guerra estava apenas começando. Mustafa, Hatice e os vizires corruptos eram como serpentes no jardim, mas agora ela tinha o rugido da onça ao seu lado.
— Vamos encontrar meu pai — disse Luna, a determinação renovada. — O império precisa saber que a Fênix e o Lobo agora caçam juntos. E qualquer um que tentar apagar nosso fogo será transformado em cinzas.
Puma assentiu, e juntos eles caminharam pelos corredores de Topkapi, não mais como dois estranhos unidos pelo dever, mas como uma força da natureza pronta para reivindicar o seu destino. O trono de Jim estava seguro, não apenas pelo poder do Sultão, mas pela fúria implacável da filha que se recusava a ser apenas um tesouro, tornando-se, em vez disso, a arma mais letal do império.