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Tf is This???

Labirintos de Neon e Curtidas Amargas

A noite de quinta-feira parecia ter sido dividida em dois universos paralelos. No primeiro, o brilho das luzes de um cinema de shopping iluminava o rosto de Mizi e Ryle. Mizi, sentindo uma liberdade que nunca experimentara com Kael, deixou-se levar pelo momento. Ryle era divertida, direta e não tentava impressioná-la com futilidades.

Enquanto isso, no segundo universo, a luz era a dos postes pálidos de um parque local. Sua caminhava ao lado de Acorn, ouvindo-o falar sobre as diferentes técnicas de sombreamento que ele queria testar. Ele era um doce, era gentil, e cada palavra dele era como um lembrete constante para Sua de que ela estava no lugar errado, com a pessoa errada, sentindo a coisa errada.

— Você está muito quieta, Sua. — Acorn parou de andar, olhando para ela com preocupação. — Eu estou sendo chato?

— Não! — Sua forçou um sorriso, as mãos escondidas nos bolsos do blazer. — Só estou... cansada. Foi um dia longo na escola, sabe?

— Entendo. — Ele sorriu, voltando a caminhar. — Mas fico feliz que tenha aceitado vir.

Sua assentiu, sentindo o estômago dar um nó. Ela queria estar em casa. Ela queria estar em qualquer lugar onde não tivesse que fingir que estava aproveitando aquele encontro.

Mais tarde, já em seu quarto, o silêncio da casa era interrompido apenas pelo som rítmico da chuva batendo na janela. Sua estava jogada na cama, ainda com a roupa do encontro, encarando o teto. Com um suspiro, ela pegou o celular. O vício de checar as redes sociais era autodestrutivo, mas ela não conseguia evitar.

O primeiro post no topo do feed foi como um soco no estômago.

Era uma foto de Mizi e Ryle. Mizi estava fazendo um biquinho brincalhão para a câmera, enquanto usava as mãos para apertar as bochechas de Ryle, que fazia uma careta engraçada e feliz. A legenda era curta, grossa e cheia de significado: *"Bem melhor do que um homem. #wlw"*

Sua sentiu os olhos arderem. A confirmação pública, a felicidade estampada no rosto de Mizi, a legenda... tudo aquilo gritava que o mundo de Mizi agora tinha cores que Sua nunca poderia oferecer. Ela desligou a tela do celular com força, jogando-o no travesseiro ao lado, e simplesmente começou a chorar. Eram soluços silenciosos, carregados de uma frustração que vinha se acumulando há meses.

Enquanto isso, no outro lado da cidade, Mizi terminava de tirar a maquiagem. Ela estava de bom humor. Ryle tinha sido uma ótima companhia e a sensação de não ter que performar para um namorado escroto era revigorante. Seu celular vibrou na bancada da pia.

— "Chegou bem em casa, Mizi?" — era uma mensagem de Ryle.

— "Sim, acabei de chegar. A noite foi ótima, Ryle. Sério." — Mizi respondeu, sorrindo para o espelho.

No quarto de Sua, o choro foi interrompido pelo toque estridente do celular. Ela limpou o rosto com as costas das mãos e viu o nome de Hyuna na tela.

— Oi... — Sua atendeu, a voz rouca.

— Amiga, você viu o post?! — Hyuna nem esperou um "alô" formal. — A Mizi não está para brincadeira. "Bem melhor do que um homem"! Eu quase caí da cadeira.

— Eu vi, Hyuna. — Sua tentou manter a voz firme. — Ela parece feliz.

— Você está chorando? — A voz de Hyuna suavizou instantaneamente. — Sua, escuta... eu sei que dói ver isso. Mas a Mizi se assumir é algo enorme. Talvez agora você tenha uma chance de verdade, se conseguir falar com ela.

— Chance? — Sua soltou uma risada amarga. — Ela está com a Ryle, Hyuna. A Ryle é corajosa, ela chegou nela na frente de todo mundo. Eu sou só a garota que passa mal no banheiro e não consegue dizer um "oi" sem gaguejar.

As duas ficaram conversando por quase uma hora, com Hyuna tentando levantar o moral de Sua, mas a melancolia da garota de olhos roxos era um poço profundo demais para ser esvaziado com palavras de conforto.

Na manhã seguinte, o clima na escola era de pura fofoca. Sua estava sentada com Ivan e Hyuna perto da escadaria, esperando o sinal. Luka tinha acabado de chegar e Hyuna estava atualizando-o sobre os eventos bombásticos do dia anterior.

— ...e então ela simplesmente disse que gostava de garotas e saiu andando! — Hyuna gesticulava, empolgada.

Luka limpou os óculos, processando a informação.

— Estatisticamente, a probabilidade de uma figura de alto status social como a Mizi romper com o padrão heteronormativo de forma tão abrupta é baixa, mas o impacto cultural na escola é fascinante — comentou Luka, embora seus olhos estivessem fixos em Hyuna.

Nesse momento, Acorn apareceu, caminhando em direção a eles com um sorriso tímido.

— Oi, Sua. — Ele parou na frente dela. — Você quer dar uma volta comigo no intervalo? Queria te mostrar uns esboços que fiz ontem à noite depois que cheguei em casa.

Sua olhou para os amigos. Ivan fez um sinal de positivo com o polegar, claramente achando graça da situação. Hyuna deu um olhar encorajador.

— Pode ser, Acorn. — Sua suspirou. — A gente se vê no intervalo.

Enquanto Acorn se afastava, Mizi e Ryle apareceram no corredor, caminhando de braços dados. Elas pararam perto do grupo para que Mizi pudesse trocar algumas palavras com Hyuna.

— E aí, piranhas? — Mizi saudou, com seu tom sarcástico de sempre. — O mundo já parou de girar por causa da minha sexualidade ou ainda tem gente em choque?

— O Kael faltou hoje, então acho que o drama diminuiu 50% — riu Hyuna.

Enquanto Mizi e Hyuna fofocavam sobre as reações dos professores, Ryle observava o grupo. Seus olhos rosa encontraram os olhos roxos de Sua. A intensidade do olhar de Sua fez Ryle recuar um passo imperceptível. Não era apenas tristeza; era um ódio frio e indescritível, uma faísca de ressentimento que parecia queimar o ar entre elas.

Sua, percebendo que estava encarando, revirou os olhos com desprezo e voltou sua atenção para Luka, fingindo estar interessadíssima em sua explicação sobre termodinâmica.

— O que foi, Ryle? — Mizi perguntou, percebendo a distração da garota.

— Nada... — Ryle balançou a cabeça, ainda um pouco assustada. — Vamos para a sala?

Quando as duas se afastaram, Ryle comentou em voz baixa:

— Mizi, aquela garota, a Sua... ela me olhou de um jeito bizarro. Tipo, se olhar matasse, eu estaria enterrada agora.

Mizi franziu a testa, olhando para trás por um segundo.

— A Sua? — Ela riu. — Imagina, Ryle. Ela é só... esquisita. Vive no mundo da lua. Ela provavelmente estava pensando em algum corvo morto que quer desenhar e você só estava na linha de visão dela.

— Não sei não, pareceu bem pessoal — insistiu Ryle.

— Esquece isso. Ela é gente boa, só é... intensa — Mizi deu de ombros, embora a observação de Ryle tivesse plantado uma semente de dúvida em sua mente.

O dia passou em um borrão. Na hora da saída, Sua já estava quase no portão quando percebeu que havia esquecido o celular no armário. "Que droga", resmungou, voltando pelos corredores agora quase vazios.

Ao chegar ao setor dos armários, ela estacou. Mizi estava lá, sozinha, mexendo em suas coisas. O armário de Mizi era exatamente ao lado do de Sua. O silêncio do corredor era quebrado apenas pelo som metálico das portas batendo.

Sua caminhou lentamente, tentando não fazer barulho, mas Mizi notou sua presença.

— Ah, oi de novo, Sua — Mizi disse, sem olhar para trás. — Esqueceu algo?

— Meu celular — Sua respondeu, a voz curta.

Ela abriu seu armário e pegou o aparelho, mas não conseguiu evitar a pergunta que queimava em sua garganta.

— E aí? — Sua começou, tentando parecer casual, mas falhando miseravelmente no tom de voz carregado de amargura. — Como está sendo com a Ryle?

Mizi parou o que estava fazendo e se virou, encostando-se no armário. Ela observou Sua por um momento, notando a tensão nos ombros da garota.

— Ela é legal — Mizi deu de ombros. — É atenciosa, sabe conversar... é uma mudança bem vinda depois do Kael. Ela é fofa, sabe?

Cada elogio era como um soco no estômago de Sua.

— É, ela parece... bem legal — Sua murmurou, fechando a porta do armário com um pouco mais de força do que o necessário.

Mizi soltou um suspiro, cruzando os braços.

— Mas, sendo sincera... — Mizi abaixou o tom de voz, olhando para os lados para garantir que estavam sozinhas. — Eu não sei se curti tanto assim.

Sua congelou, a mão ainda na maçaneta do armário.

— Como assim?

— Ah, não sei. — Mizi fez uma careta. — Ela é legal demais. Falante demais. Sabe quando você gosta da pessoa, mas sente que falta um... tempero? Um mistério? Ela é como um livro aberto escrito em letras garrafais. Não é muito o meu tipo, eu acho.

Sua sentiu uma faísca de esperança, mas tentou disfarçar.

— Mas ela parecia perfeita para você. Todos estão dizendo isso.

— O que "todos" dizem raramente me importa, Sua. — Mizi deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas. O corredor vazio parecia subitamente menor. — Talvez o meu tipo seja algo mais... complicado. Alguém mais silencioso. Alguém que desenha corvos e olha para as pessoas como se quisesse matá-las ou beijá-las, eu ainda não decidi qual dos dois.

O coração de Sua parou. Literalmente parou por um milésimo de segundo antes de disparar a uma velocidade perigosa.

— O que você está dizendo, Mizi? — A voz de Sua era um sussurro trêmulo.

Mizi não respondeu com palavras. Em um movimento rápido e fluido, ela avançou, prensando Sua contra o metal frio do armário. Suas mãos espalmaram-se na superfície metálica, uma de cada lado da cabeça de Sua.

Mizi queria testar. Na cabeça dela, o ódio que Ryle descrevera era real. Ela queria ver até onde Sua iria para demonstrar que a detestava. Ela queria ver a reação daquela garota que sempre parecia fugir dela.

— Eu estou dizendo... — Mizi inclinou o rosto, seus lábios a centímetros dos de Sua — ...que talvez eu tenha passado tempo demais olhando para o lado errado do corredor.

Sua não se moveu. Ela não empurrou, não gritou, não desviou o olhar. Ela estava paralisada, os olhos roxos dilatados, observando a boca de Mizi com uma fome que ela não conseguia mais esconder.

Mizi, vendo que não houve resistência, decidiu aprofundar o teste. Ela eliminou a distância restante, colando seus lábios nos de Sua.

O beijo não foi calmo. Foi uma erupção de tudo o que estava guardado. A língua de Mizi invadiu a boca de Sua com uma urgência possessiva, devorando a garota mais baixa. Sua soltou um arquejo abafado contra os lábios de Mizi, sentindo o mundo desaparecer.

Mizi, entregue ao momento, ergueu o joelho, posicionando-o firmemente entre as pernas de Sua. Ela pressionou para cima, contra a intimidade da garota, forçando Sua a tentar fechar as pernas, mas o movimento de Mizi era firme, prendendo-a ali, criando um atrito que fez Sua soltar um gemido involuntário entre o beijo.

Mizi esperava o empurrão a qualquer momento. Ela esperava que Sua a xingasse, que deixasse claro o quanto a odiava por ser tão invasiva. Mas, quando sentiu as mãos de Sua subirem, elas não foram para o seu peito para afastá-la.

As mãos de Sua agarraram os ombros de Mizi com força, puxando-a para mais perto, enquanto sua língua retribuía o beijo com a mesma intensidade desesperada. Sua deu passagem, entregando-se completamente ao toque, ao cheiro e ao sabor de Mizi.

Mizi, sentindo a aceitação, apertou a cintura de Sua com uma mão, enquanto a outra subiu para a nuca da garota, aprofundando o contato. O joelho de Mizi continuava a pressionar, fazendo Sua arfar e perder o fôlego.

Elas se separaram por um segundo, os rostos a milímetros de distância, ambas com a respiração pesada. O rosto de Sua estava violentamente vermelho, os olhos nublados de desejo e choque. Ela parecia uma pessoa que acabara de ser atingida por um raio e ainda estava tentando entender por que não tinha morrido.

Mizi, agindo puramente por instinto e pela adrenalina do momento, soltou um sorriso de canto, a voz rouca:

— Quer continuar lá em casa?

O pânico atingiu Sua como uma onda gelada. A realidade da situação — a escola, o armário, a Ryle, o fato de que Mizi era Mizi — colidiu com o seu cérebro. Ela não sabia o que dizer. Ela não sabia como agir. Sua mente simplesmente travou.

Sem dizer uma única palavra, Sua se desvencilhou dos braços de Mizi, pegou sua mochila no chão e saiu andando pelo corredor em passos rápidos, quase correndo.

Mizi ficou parada ali, encostada no armário, olhando para o vácuo.

— Mas que porra...? — Mizi murmurou, passando a mão nos lábios, ainda sentindo o gosto de Sua. — Ela me beija daquele jeito e depois foge? Garota maluca.

Sua chegou em casa correndo, subiu as escadas e se trancou no quarto. Ela se jogou na cama, o coração ainda martelando.

— O que foi isso?! — Ela gritou contra o travesseiro. — O que foi que eu fiz?! Mizi me beijou! Mizi me prensou no armário! E eu fugi! Por que eu fugi, sua idiota?!

Ela começou a ter uma crise de ansiedade misturada com euforia. Ela lembrava da sensação do joelho de Mizi, do sabor da língua dela, do convite... "Quer continuar lá em casa?".

— Eu sou a pessoa mais burra do planeta! — Sua chutou o ar, rolando na cama. — Eu podia estar lá agora! Eu podia estar com ela!

Nesse momento, a porta do quarto se abriu sem bater. Ivan entrou, com um fone de ouvido no pescoço.

— Ei, Sua, você viu meu... — Ele parou, olhando para a irmã que parecia estar tendo um colapso nervoso no meio dos lençóis. — Menina, você é muito esquisita. Tá possuída, é?

— Sai daqui, Ivan! — Sua agarrou um travesseiro e jogou nele com toda a força. — Sai! Agora!

— Tá bom, tá bom! Credo, que mau humor! — Ivan saiu, fechando a porta.

Sua correu e trancou a porta com a chave. Ela voltou para a cama, cobrindo o rosto com as mãos. O silêncio do quarto parecia ecoar a pergunta de Mizi. O arrependimento de ter fugido era uma dor física, mas a memória do beijo... aquela memória ela guardaria trancada a sete chaves, como o segredo mais precioso e caótico de sua vida.

Ela não sabia o que aconteceria na segunda-feira. Ela não sabia como olharia para Mizi. Mas de uma coisa ela tinha certeza: o ódio que Ryle vira em seus olhos tinha morrido no momento em que os lábios de Mizi tocaram os seus, dando lugar a algo muito mais perigoso e viciante.

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