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Tf is This???

Tinta Fresca e Pulsações Interrompidas

O silêncio na sala de artes era tão espesso que parecia uma camada de tinta a óleo secando sobre a pele delas. Sua ainda sentia o corpo vibrar, uma ressonância elétrica que subia pelas pernas e se perdia na base da coluna. Mizi, com uma calma que beirava o desconcertante, começou a ajudar a baixinha a se recompor. Seus dedos, antes tão urgentes, agora moviam-se com uma delicadeza técnica, abotoando a blusa branca de Sua.

Sua, no entanto, era um feixe de nervos expostos. Suas mãos não paravam quietas; ela as esfregava nas coxas, entrelaçava os dedos e os soltava logo em seguida, um tique nervoso que denunciava o caos interno. Seus olhos roxos evitavam os dourados de Mizi a qualquer custo, focando-se obsessivamente em uma mancha de tinta azul no chão ou no brilho dos próprios sapatos.

Percebendo a agitação, Mizi parou de abotoar a blusa e envolveu as mãos de Sua com as suas. O calor da pele de Mizi era reconfortante, mas o contato fez Sua sobressaltar-se.

— Ei — sussurrou Mizi, forçando Sua a olhar para ela. — Respira. Tá tudo bem, tá? Eu não mordo... bom, não agora.

Mizi soltou um risinho sarcástico, tentando aliviar o peso da atmosfera. Ela terminou de ajeitar o uniforme de Sua, deu um tapinha leve em seu ombro e caminhou até a porta.

— Preciso ir, o sinal já vai bater e eu não quero o inspetor fungando no meu cangote. A gente se fala, Sua.

A porta se abriu e fechou com um clique metálico. Sua ficou ali, sentada na mesa do professor, sentindo-se subitamente pequena e, de certa forma, largada. O contraste entre a intensidade de minutos atrás e a vacuidade do agora era doloroso. Ela se vestiu completamente, sentindo o peso da mochila como se carregasse pedras, e saiu da sala com a sensação de que o chão sob seus pés era feito de vidro fino.

As aulas seguintes foram um borrão. Sua não conseguia processar uma única palavra sobre história ou química. Ela só conseguia pensar se aquilo tinha sido apenas um impulso de Mizi, uma forma de extravasar o término com Kael.

Na hora da saída, Sua caminhava em direção ao portão com a cabeça baixa, os fones de ouvido desligados apenas para fingir que não queria conversa. Ela esperava que Acorn aparecesse para cobrar o passeio prometido, e já estava ensaiando uma desculpa sobre uma dor de cabeça fulminante, quando sentiu um puxão firme em seu pulso.

Ela parou de chofre, o coração dando um solavanco.

— Porra, você anda rápido para alguém com pernas tão curtas — disse Mizi, surgindo ao lado dela.

Ela não parecia a Mizi predatória da sala de artes. Estava com um sorriso aberto, genuinamente feliz, os olhos dourados brilhando sob a luz da tarde.

— Mizi? Eu achei que você já tinha ido.

— E perder a chance de te levar para tomar um sorvete? Nem morta — Mizi entrelaçou seu braço no de Sua, ignorando os olhares curiosos dos poucos alunos que ainda circulavam. — Vamos, tem uma sorveteria aqui perto que serve um gelato de pistache que é quase tão bom quanto... bom, você sabe.

Sua aceitou, confusa e com as bochechas queimando. O trajeto até a sorveteria foi estranho. Mizi falava sobre como o professor de matemática era um porre, mas Sua mal conseguia responder mais do que monossílabos.

Ao chegarem e se sentarem em uma mesa de canto, o clima pesou. O som das colheres batendo nos potes de plástico era o único ruído entre elas. Sua cutucava seu sorvete de baunilha, sentindo o olhar de Mizi a examinando.

— Foi demais? — Mizi perguntou de repente, a voz perdendo o tom brincalhão.

Sua levantou os olhos, confusa.

— O quê?

— O que aconteceu na sala de artes — Mizi inclinou-se para frente, baixando o tom de voz para que as mesas vizinhas não ouvissem. — Você está esquisita desde então. Você estava tremendo, Sua. E depois ficou com essa cara de quem viu um fantasma. Eu te machuquei ou algo assim?

Sua sentiu o rosto atingir uma temperatura que desafiava as leis da física. Ela olhou para o lado, sentindo a garganta seca.

— Não... não foi isso. — Sua suspirou, ganhando coragem. — É que... foi inesperado, Mizi. E, porra, é claro que eu ia tremer. Foi a minha primeira vez.

Mizi arregalou os olhos, a colher parando no meio do caminho.

— Sua primeira vez? Sério?

— Sim — Sua disse, a voz subindo um tom por causa do nervosismo. — E foi com você. Com a pessoa que eu... que eu mais queria. O nervosismo, a sensação de ser... de ser fudida daquele jeito... foi demais para o meu cérebro processar de uma vez.

Sua cobriu o rosto com as mãos assim que as palavras saíram. Ela não acreditava que tinha dito aquilo em voz alta, em público, para Mizi.

Mizi soltou um riso curto, uma mistura de surpresa e satisfação.

— Caramba, Sua... Você não brinca em serviço quando decide falar, né? — Mizi esticou a mão sobre a mesa e tocou os dedos de Sua. — Eu não sabia. Se soubesse, teria sido mais... bom, talvez eu não tivesse sido mais calma, porque você é viciante, mas eu teria te avisado.

Mizi pagou a conta e elas saíram da sorveteria. O sol estava começando a se pôr, tingindo o céu de laranja e rosa, combinando com o cabelo de Mizi. Elas caminharam por alguns quarteirões em um silêncio mais confortável, até que Mizi parou de repente no meio de uma esquina.

— Puta merda, eu esqueci! — Mizi olhou para o relógio de pulso. — Eu tinha combinado de ajudar a Hyuna com um negócio hoje. Ela vai me matar se eu me atrasar mais.

Sua sentiu aquela pontada de insegurança voltar. "Lá vai ela de novo", pensou.

— Ah, tudo bem. Eu consigo ir daqui sozinha.

Mizi notou a mudança imediata na postura de Sua. Ela viu os ombros da baixinha caírem e o brilho nos olhos roxos diminuir. Mizi suspirou, sentindo um aperto estranho no peito que não era tédio.

— Ei, olha para mim — Mizi segurou o rosto de Sua com as duas mãos. — Não faz essa cara. Eu realmente esqueci, não estou fugindo.

Mizi inclinou-se e deu um beijo rápido no nariz de Sua, seguido por outro na bochecha. Por fim, ela enterrou o rosto no pescoço de Sua, inspirando o cheiro de sabonete e papel que a garota exalava.

— Não se preocupa com nada, tá? — Mizi sussurrou contra a pele dela, fazendo Sua arrepiar-se inteira. — Amanhã, se você quiser, eu fico com você o dia todo. A gente mata aula, vai para o telhado, faz o que você quiser. Só não fica achando que isso foi um erro.

Mizi se afastou, deu uma piscadela e saiu correndo na direção oposta, acenando sem olhar para trás.

Sua ficou parada no meio da calçada por alguns minutos, processando o "cheirinho" no pescoço e a promessa. Ela caminhou o resto do trajeto para casa como se estivesse flutuando. Assim que entrou, ignorou os gritos de Ivan sobre onde estava o controle do videogame e correu para o banheiro.

O banho foi longo. Ela deixou a água quente escorrer, tentando lavar a sensação de irrealidade, mas a memória do toque de Mizi parecia tatuada em sua pele.

Assim que se vestiu com um pijama largo, Sua jogou-se na cama e discou o número de Hyuna.

— Ela me contou! — Hyuna atendeu antes mesmo do primeiro toque terminar. — Mizi me mandou mensagem dizendo que ia atrasar porque estava com "a pessoa mais fofa do mundo". Sua, o que aconteceu?!

Sua soltou um suspiro longo, sentindo o coração finalmente desacelerar para um ritmo humano.

— Hyuna... eu não sei por onde começar. A gente... a gente fez na sala de artes.

Houve um silêncio mortal do outro lado da linha, seguido por um grito agudo de Hyuna que provavelmente acordou os vizinhos.

— NA SALA DE ARTES?! Sua, sua danada! E o Acorn? E o Kael? E a Ryle?

— Eu não sei, Hyuna. Só sei que a Mizi me beijou no nariz e disse que amanhã vai ficar comigo o dia todo. — Sua sorriu para o teto, as lágrimas de felicidade finalmente vencendo a melancolia. — Eu acho que... eu acho que não sou mais invisível para ela.

— Invisível? — Hyuna riu. — Amiga, depois do que a Mizi me falou, acho que você é a única coisa que ela está enxergando agora.

Sua desligou o telefone e abraçou o travesseiro. Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio do seu quarto não era solitário. Tinha o eco da risada de Mizi e a promessa de um amanhã que, finalmente, não seria apenas mais um borrão cinzento no calendário escolar.

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