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The new ghostface

Teatro de Cordas Quebradas

A fumaça que vinha da lavanderia não era preta e densa como a de um incêndio descontrolado; era esbranquiçada, espessa, com o cheiro ácido de solvente e panos embebidos em querosene. Um estalo seco de vidro sendo esmagado sob solas de borracha ecoou do final do corredor, pontuando a respiração truncada de cinco pessoas que haviam acabado de perceber que a porta de entrada não era mais uma rota de fuga segura.

Josh soltou um ganido estrangulado, caindo de joelhos ao lado do piano antes de se levantar aos tropeços, os braços agitados no ar como se tentasse espantar um enxame invisível.

— Ele tá lá dentro! Ele tá na porra da casa! — Josh agarrou o colarinho da própria camisa, os olhos esbugalhados fixos no corredor escuro. — A gente vai morrer aqui! Victor, ele sabe da chave, ele sabe de tudo, a gente tem que pular a janela da frente agora!

Sophia tentou se erguer do sofá, mas a dor aguda na clavícula a fez dobrar o corpo para a frente com um chiado de agonia. O curativo improvisado começou a manchar de vermelho fresco mais uma vez.

— Victor... — A voz de Kael não era mais apenas protetora; era um rosnado tenso, carregado de uma suspeita tóxica que corroía cada músculo de sua postura imponente. Ele deu dois passos pesados, parando a centímetros do rosto de Victor, a mão direita descendo com força bruta sobre o ombro do rapaz mais magro. — Que história é essa de chave? Você mandou fazer a cópia da tetra da Letícia na quarta-feira? Fala!

Victor não se encolheu sob o peso da mão de Kael. Seus olhos escuros e afiados sequer piscaram diante da proximidade ameaçadora. Havia uma rigidez glacial em suas feições, mas seus lábios mantinham aquele contorno zombeteiro, quase imperceptível, de quem acabara de encontrar um erro crasso no plano do oponente.

— Tira a mão de mim, Kael — disse Victor, a voz assustadoramente serena, cortando o caos como uma lâmina fria.

— Responde a porra da pergunta! — rugiu Kael, os nós dos dedos esfolados tremendo de raiva contida.

— Se eu quisesse a Letícia morta — disparou Victor, inclinando o queixo milímetros para a frente, sustentando o olhar feroz de Kael sem um átomo de hesitação —, eu não teria pago dez reais para o velho Osvaldo fazer uma cópia de chave no centro comercial à luz do dia, na frente de três viaturas e de meia dúzia de fofoqueiros da paróquia. Eu teria arrombado a fechadura com um pé de cabra em trinta segundos, como qualquer criminoso com meio cérebro faria.

Noah, que permanecia imóvel ao lado do telefone mudo, ergueu o olhar subitamente, os olhos brilhando por trás das lentes dos óculos.

— O Osvaldo... — murmurou Noah, com a mente trabalhando em marcha acelerada. — O chaveiro da praça foi internado com pneumonia na terça de manhã. A loja fechou. Não abriu na quarta.

Um silêncio súbito cortou a histeria de Josh.

Kael franziu o cenho, o aperto no casaco de Victor vacilando ligeiramente.

— O quê?

— O assassino mentiu — disse Victor, afastando o braço de Kael com um movimento seco e elegante de desdém. Ele ajeitou a gola da jaqueta com a tranquilidade de quem está prestes a entrar em um café. — Ele construiu uma mentira plausível o suficiente para fazer você, no auge do seu temperamento de primata assustado, quebrar o meu pescoço antes de pensarmos no próximo passo. Ele não quer apenas nos matar, Kael. Ele quer que a gente faça o trabalho sujo por ele.

Outro estrondo ecoou na lavanderia: uma bacia de metal caindo no piso, seguida pelo estalo nítido de madeira sendo lascada.

Josh cobriu a cabeça com as mãos.

— Foda-se quem mente e quem não mente! Ele tá vindo!

— Não, Josh — disse Victor, virando-se na direção do corredor escuro com os braços relaxados ao lado do corpo. — Ele não está vindo.

— Você enlouqueceu? — chiou Sophia do sofá, o suor frio escorrendo pelas têmporas enquanto ela segurava o ferimento. — Ele me cortou há menos de uma hora! Ele está armado!

— Pensem um pouco, pelo amor de Deus — zombou Victor, dando passos lentos e deliberados em direção ao foco de fumaça, ignorando o puxão desesperado que Kael tentou dar em sua manga. — Um predador silencioso não quebra vidros deliberadamente se quer emboscar cinco pessoas em uma sala fechada. Ele quer que a gente saia em debandada pela porta da frente. Noah, o que tem no seu jardim da frente?

Noah engoliu em seco, as mãos empalidecendo.

— A vala da drenagem pluvial... e a cerca viva de hibiscos. Não tem saída lateral. Se corrermos pelo portão, ficamos encurralados em um funil de três metros até a calçada.

— Exatamente — concluiu Victor, os olhos cintilando na penumbra. — O espetáculo nos fundos é só fumaça e barulho. Uma isca teatral barata para direcionar o gado para o matadouro. Ele nos quer na chuva, no escuro, tropeçando uns nos outros enquanto ele espera no ponto cego do portão.

Victor parou diante da porta entreaberta da lavanderia. O cheiro de querosene era forte, mas o fogo se resumia a um balde de ferro no centro do piso molhado, onde duas toalhas velhas ardiam em chamas baixas e fumegantes. A janela basculante estava estilhaçada, mas os cacos de vidro haviam sido jogados *de fora para dentro* com uma pedra pesada que repousava no chão.

Não havia ninguém ali dentro. Apenas o vento da tempestade uivando pelo vão quebrado e agitando as cortinas de plástico.

Kael se aproximou por trás de Victor, segurando o canivete de caça aberto, o peito arfando pesadamente ao constatar a ausência física do agressor.

— Era um truque... — sussurrou Kael, atordoado.

— Claro que era — desdenhou Victor, chutando o balde fumegante com a ponta da bota em direção ao ralo, sufocando as chamas com o jato de água da torneira do tanque que ele abriu com uma volta rápida. — Ele é um covarde que precisa de um palco bem iluminado para se sentir grandioso.

Nesse exato instante, o telefone preto no corredor começou a tocar novamente.

*Trimmmmmmmmm.*

O som estridente reverberou pelas paredes da casa, fazendo Josh soltar um soluço involuntário.

Noah recuou dois passos, esbarrando na parede.

— Não atende, Victor... por favor, não atende — implorou Sophia, a voz entrecortada pelo desespero.

Victor não hesitou. Ele caminhou com passos firmes até o aparador, ignorando o olhar angustiado de Kael que tentava bloquear sua passagem. Victor estendeu a mão pálida, tirou o fone do gancho e o levou ao ouvido, pressionando simultaneamente o botão de viva-voz para que a sala inteira pudesse testemunhar o duelo.

— Você é previsível demais — disparou Victor antes que o outro lado pudesse respirar. — Um balde de querosene, uma pedra na vidraça e uma fofoca mal inventada sobre um chaveiro que está entubado na Santa Casa desde terça-feira? Sério? Eu esperava um pouco mais de sofisticação para alguém que usa capa preta e anda na chuva fingindo ser a encarnação do destino.

Do outro lado da linha, o silêncio durou uma fração de segundo a mais do que nas chamadas anteriores. A respiração ritmada parou abruptamente, traindo a quebra de ritmo que o assassino não previra.

Quando a voz respondeu, ela mantinha o tom rouco e elegante, mas havia uma vibração metálica subterrânea, um atrito novo e perigoso na cadência.

— Você fala com muita segurança para quem está preso em uma caixa de fósforos, Victor. Acha que desmascarar pequenos detalhes muda o desfecho da peça?

Victor soltou uma risada genuína, fria e cortante, apoiando o cotovelo na parede com a pose descontraída de um crítico avaliando uma comédia ruim.

— Muda tudo, meu caro — rebateu Victor, saboreando cada sílaba com sarcasmo aristocrático. — Você precisa de rituais porque é vazio. Precisa dessa voz calculada, dessas charadas de almanaque de banca de jornal e desse disfarce patético porque, sem eles, você é só mais um fracassado irrelevante de Santa Cruz do Pinhal. Alguém que assistiu a filmes de terror demais nos anos noventa e achou que citar clichês compensaria a sua falta de imaginação.

Josh prendeu a respiração, horrorizado. Sophia arregalou os olhos, incrédula diante da ousadia suicida de Victor.

Kael deu um passo à frente, os olhos fixos em Victor com uma mistura febril de admiração e pânico.

— Cuidado com as palavras, garoto prodígio — sibilou a voz do outro lado, a serenidade começando a trincar em bordas afiadas de irritação. — A Letícia também achava que tinha o controle da situação. Até sentir o ferro rasgando os tendões da garganta. Você sangra da mesma cor que ela.

— A Letícia era uma menina assustada que você pegou desarmada e pelas costas em uma casa isolada — contra-atacou Victor, sem perder a compostura por um milésimo de segundo. — E a Sophia só foi ferida porque você hesitou. Você tremeu, não tremeu? Um banco de madeira empurrado por uma garota de cinquenta quilos foi o bastante para fazer o grande monstro de máscara perder o equilíbrio e quase quebrar o nariz azulejado. Que cena constrangedora. Se eu estivesse no seu lugar, teria vergonha de ligar de novo.

— Você acha que ela escapou por mérito próprio? — rosnou o homem, a voz subindo de tom pela primeira vez, perdendo aquela modulação quase teatral. — Eu deixei ela sair! Eu queria vocês reunidos! Queria vocês exatamente onde estão agora!

— Mentira — interrompeu Victor, categórico, a voz caindo em um registro sussurrado e implacável que fez até as lâmpadas parecerem tremer. — Você não planejou que ela corresse até o meu carro. Você não sabia que eu estaria esperando na saída do pátio. Você improvisa, comete erros grotescos e agora está do lado de fora, na lama, ensopado como um rato de bueiro, tentando desesperadamente recuperar a autoridade que perdeu no momento em que eu atendi esse telefone.

Um silêncio pesado caiu na linha. Pelo alto-falante, o grupo pôde ouvir o ruído nítido da tempestade batendo contra o que parecia ser a lataria de um veículo ou o telhado de zinco de uma garagem próxima.

— Onde você está, seu covarde? — continuou Victor, aproveitando a brecha como um predador encurralando a presa. — Está no posto abandonado da esquina? Ou está escondido na caçamba velha atrás do muro do Noah, esperando alguém abrir a porta da frente para você tentar um ataque desesperado? Entra aqui. A porta dos fundos está aberta. O querosene apagou. Vem me mostrar como a sua lâmina é afiada na presença de alguém que não está chorando.

— Victor, cala a boca! — sussurrou Josh em pânico absoluto, caindo sentado no chão com as mãos na cabeça.

Do outro lado da fiação, um som áspero de respiração pesada rompeu o vácuo. O assassino não ria mais.

— Você tem uma boca muito grande para quem tem tanto a esconder, Victor — disse a voz, agora despida de qualquer elegância, soando crua, rancorosa e visceral. — Você acha que conhece todo mundo. Acha que pode manipular o tabuleiro inteiro. Mas o seu erro é acreditar que é a torre... quando na verdade não passa do peão que vai ser sacrificado para salvar o rei.

— Metáforas de xadrez? — zombou Victor, os olhos faiscando em puro deboche intelectual. — Que falta de criatividade constrangedora. Se você quer me assustar, vai ter que se esforçar muito mais do que isso.

— Olhe para o seu amigo, Victor.

A frase caiu como gelo moído na sala.

Victor não se virou, mas sua postura congelou por uma fração de batimento cardíaco.

— Olhe para o Kael — repetiu a voz, recuperando uma ponta de veneno mórbido. — Pergunte onde ele conseguiu a jaqueta de couro que está usando esta noite. A jaqueta que não era dele até a última quarta-feira. A jaqueta que pertencia ao vigia que apareceu boiando no rio em março.

Kael deu um salto para trás como se tivesse sido eletrocutado. Suas mãos desceram imediatamente para a gola da jaqueta gasta e escura que ele vestia. O rosto dele perdeu toda a cor, tornando-se de uma palidez cinzenta sob a luz fluorescente.

Sophia ergueu o rosto devagar, os olhos arregalados cravados em Kael com um terror renovado e paralisante.

— Kael...? — murmurou ela, a voz sumindo.

— Não escuta ele! — gritou Kael, a respiração saindo em jatos desordenados. — Essa jaqueta é do meu tio! Ele me deu ano passado!

Pelo viva-voz, o assassino soltou uma última risada zombeteira, triunfante por ter conseguido fincar a semente da discórdia antes de encerrar o jogo.

— O tempo acabou, Victor. Vamos ver se o seu sarcasmo continua intacto quando você tiver que dormir no mesmo quarto que o seu carrasco.

*Click.*

A linha morreu. O zumbido monótono do tom de ocupado voltou a ecoar: *tu... tu... tu... tu...*

Victor baixou o fone lentamente, colocando-o de volta no gancho de baquelite com um estalo perfeito e medido. Ele não tremia, mas suas narinas estavam dilatadas e a veia em sua têmpora esquerda pulsava com uma força violenta.

A sala de estar se transformou em um campo minado.

Noah se afastou lentamente em direção à estante de livros, os olhos fixos na jaqueta de Kael. Josh permanecia encolhido no chão, as mãos arranhando o assoalho de taco. Sophia olhava alternadamente de Kael para Victor, incapaz de decidir qual dos dois representava uma ameaça mais iminente.

— Victor — chamou Kael, a voz embargada por uma mistura perigosa de desespero e fúria primitiva. Ele deu um passo na direção de Victor, os braços abertos em um gesto defensivo que parecia quase um pedido de clemência. — Você não vai acreditar nele, vai? O cara acabou de dizer que inventou a história da chave! Ele tá tentando virar a gente um contra o outro! Você mesmo disse isso!

Victor se virou devagar. Seus olhos escuros e impenetráveis varreram o corpo de Kael, descendo do colarinho surrado da jaqueta de couro até as botas enlameadas e os nós dos dedos esfolados.

Por três segundos intermináveis, Victor manteve aquele silêncio gélido, cirúrgico, que fazia o ar parecer irrespirável. Ele permitiu que a dúvida pairasse como uma lâmina suspensa sobre o pescoço de Kael.

Então, Victor soltou um suspiro curto pelo nariz e tirou a carteira de cigarros do bolso da jaqueta jeans.

— Claro que ele está tentando virar você contra mim, Kael — disse Victor, acendendo o cigarro com o isqueiro de prata, a chama iluminando as sombras afiadas de seu rosto. — A diferença é que ele falhou comigo... e você quase caiu na armadilha dele três minutos atrás.

Victor soprou a fumaça azulada na direção do teto, caminhando até a janela da sala. Com a ponta do indicador, ele afastou uma fresta minúscula da cortina pesada, espiando a escuridão da rua sob o temporal.

— Ele não está mais aqui — anunciou Victor, com a autoridade fria que ninguém na sala tinha forças para contestar. — O carro que estava no posto desativado acabou de ligar os faróis e descer a estrada velha da represa. O show acabou por hoje.

Josh desabou deitado no chão de madeira, soltando um pranto rouco e descontrolado de alívio temporário. Sophia encostou a cabeça no sofá, fechando os olhos enquanto as lágrimas silenciosas lavavam a maquiagem manchada de fuligem e sangue.

Noah ajeitou os óculos com os dedos trêmulos, encarando as costas de Victor com uma expressão que não era de alívio, mas de um assombro quase científico.

— Como você conseguiu fazer aquilo? — sussurrou Noah, quebrando a estática do ambiente.

Victor não se virou imediatamente. Ele observou as gotas de chuva escorrendo pelo vidro frio da janela, formando caminhos tortuosos que distorciam a pouca luz dos postes da rua deserta de Santa Cruz do Pinhal.

— Fazer o quê, Noah?

— Desmontar o discurso dele — disse Noah, a voz oscilando. — Ninguém fala daquele jeito com alguém que acabou de cometer um massacre. Você não sentiu medo. Você provocou ele como se estivesse numa mesa de debate do grêmio.

Victor deu uma última tragada, apagando a ponta incandescente do cigarro no parapeito de madeira antes de se virar para o grupo. Seu semblante exibia aquele meio sorriso arrogante e magnético que parecia imune ao próprio inferno, mas quem olhasse de perto — quem realmente conhecesse Victor — notaria a rigidez cadavérica em torno de seus olhos.

— O medo é uma resposta biológica para quem não tem cartas para jogar — respondeu Victor, o tom suave e desdenhoso ecoando pela sala em ruínas. — E enquanto eu tiver as melhores cartas, esse desgraçado vai ter que dançar conforme a minha música.

Ele olhou diretamente para Kael, cujo peito ainda subia e descia em um ritmo descompassado. O contato visual durou apenas um instante, mas foi carregado de um pacto silencioso e perturbador que nenhum dos outros presentes pôde decifrar.

Lá fora, a tempestade começava a perder força, deixando para trás o gotejar persistente nos beirais e a certeza inescapável de que a trégua duraria apenas até a próxima ligação.

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