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The new ghostface

Pactos de Carne e Sombra

O cheiro de querosene queimado ainda impregnava o corredor, misturado ao vapor úmido da chuva que batia ritmicamente contra as janelas trancadas. Na casa de Noah, o silêncio que se seguiu à ameaça telefônica não trouxe alívio; apenas transformou o pânico histérico em uma claustrofobia cinzenta. Ninguém ousou sugerir ir embora. Com o toque de recolher decretado na cidade e as viaturas patrulhando as poças de lama da rodovia, sair à rua depois daquele cerco equivaleria a andar com um alvo pintado na testa.

Noah havia passado a chave tetra em todas as portas e bloqueado a entrada dos fundos com uma cantoneira de ferro pesado retirada da despensa.

— Não temos como manter guarda a noite inteira se continuarmos amontoados aqui na sala — disse Victor, quebrando a estática do ambiente. Ele estava encostado no batente que dividia a copa da cozinha, observando os outros como um general entediado diante de tropas à beira de um motim. — Sophia precisa de repouso antes que o ombro dela infeccione. E o resto de vocês precisa de algumas horas de sono para parar de parecer um bando de zumbis histéricos.

— Dormir? — soltou Josh, encolhido no canto do tapete, a voz fina e trêmula de exaustão nervosa. — Quem caralhos dorme sabendo que tem um maníaco de capa passeando pelo quintal com uma faca de desossar boi?

— Quem quer continuar vivo para ver o amanhecer — rebateu Victor, sem elevar a voz. — Noah, onde ficam os quartos?

Noah ajeitou os óculos, os dedos compridos roçando a armação com um tique mecânico.

— O quarto dos meus pais fica no final do corredor à direita. Minha mãe trancou a porta antes de ir para o plantão, então só temos o meu quarto e o de hóspedes no andar de cima. Tem um sofá-cama no escritório aqui embaixo.

— Sophia fica com a cama do seu quarto — determinou Victor, o tom imperioso não admitindo discussão. — É o cômodo mais ventilado e fica longe do acesso aos fundos. Noah, você cuida daquele corte antes que a hemorragia reabra. Josh, você e o Kael podem ficar no quarto de hóspedes. Eu fico no sofá do escritório.

Kael, que estivera calado desde o fim da ligação, ergueu os olhos escuros na direção de Victor. Havia um ressentimento febril em sua expressão, uma ferida aberta pela forma como Victor havia desmontado a acusação do assassino sem sequer oferecer a Kael um olhar de conforto.

— Você não vai subir? — perguntou Kael, a voz soando rouca, áspera pelo nó na garganta.

Victor sequer piscou.

— Alguém precisa ficar perto da porta da frente caso o delegado resolva bater, ou caso o nosso admirador secreto decida tentar a sorte mais uma vez. E você sabe que o seu sono é pesado demais para reagir a tempo, Kael.

O comentário, dito com um desdém polido, fez a mandíbula de Kael estalar. Ele não disse mais nada; apenas virou as costas e subiu os degraus de madeira com passadas pesadas, sumindo na escuridão do piso superior.

***

No andar de cima, o banheiro da suíte de Noah cheirava a sabonete de glicerina e iodo. A luz amarela sobre o espelho refletia as olheiras profundas de Sophia, cuja palidez fazia o hematoma ao redor do corte da clavícula parecer quase negro. Ela estava sentada na beirada da banheira branca, com o casaco ensanguentado jogado no cesto de roupas e uma toalha limpa cobrindo seu busto.

Noah aproximou uma cadeira de madeira e sentou-se diante dela. Com cuidado cirúrgico, abriu um pacote estéril de gaze e um frasco de antisséptico hospitalar que trouxera da maleta médica da mãe.

— Vai arder um pouco — avisou ele, a voz calma contrastando com o tremor fino em seus pulsos.

— Eu aguento — murmurou Sophia, mordendo o lábio inferior antes mesmo de o algodão molhado tocar a carne rasgada.

Quando o líquido tocou a ferida aberta, ela sugou o ar com força pelos dentes, fechando os punhos sobre o tecido da toalha. Uma lágrima solitária escapou pelo canto do olho esquerdo, traçando uma linha limpa através da poeira que cobria sua bochecha.

— O Victor está blefando — disse ela em um sussurro engasgado, os olhos fixos na maçaneta trancada do banheiro. — Você viu como ele reagiu ao telefone. Ele não estava tentando nos salvar, Noah. Estava medindo o assassino. Ele trata a morte da Letícia e o meu ataque como se fossem rodadas de um jogo de cartas.

Noah continuou limpando as bordas do ferimento, aplicando pressão constante para conter o exsudato.

— O Victor sempre funcionou assim, Sophia. Para ele, tudo é uma disputa de dominância intelectual. Ele não suporta a ideia de que alguém possa estar um passo à frente dele.

— Mas e se o assassino for o Kael? — insistiu ela, a respiração vacilante enquanto Noah pegava tiras de sutura adesiva para aproximar as bordas da pele. — Aquele olhar dele no colégio... as mãos machucadas. Ele obedece ao Victor como um cão de briga. Se o Victor mandar o Kael cortar a garganta de qualquer um de nós para se salvar, você acha que ele hesitaria por um segundo sequer?

Noah parou o movimento por um instante, fitando a garota. Havia um vazio gélido nos olhos dela, o colapso de alguém acostumada a ter o controle absoluto da própria vida e que agora se via à mercê da violência bruta.

— O Kael é impulsivo e perigoso — admitiu Noah, colando a primeira tira sobre o corte com precisão milimétrica. — Mas ele é transparente demais. Ele explode, quebra portas, ameaça em voz alta. Quem atacou você no vestiário agiu com premeditação, cortou as linhas certas, trancou as saídas com antecedência. Não é o estilo dele.

— Então quem é? — choramingou ela, a armadura de superioridade finalmente se desfazendo. — Se não é ele, se não é o Victor... quem na porra dessa cidade sabe tanto sobre a minha família?

— É alguém que nos observa há meses — respondeu Noah, fixando o curativo com esparadrapo largo e respirando fundo. — Alguém que não precisa forçar fechaduras porque nós mesmos deixamos as janelas abertas. Agora deite naquela cama e tente fechar os olhos. Eu vou trancar a porta do quarto por fora e ficar com a chave. Ninguém sobe aqui sem passar por mim.

Sophia assentiu devagar, os ombros ainda curvados sob o peso do terror, e deixou que Noah a guiasse até os lençóis frios do quarto.

***

No quarto de hóspedes, no fim do corredor oposto, a escuridão era cortada apenas pela réstia de luz azulada que vinha da tempestade do lado de fora.

Josh estava sentado na beirada da cama de casal, esfregando os braços freneticamente para afastar os arrepios que não paravam de subir por sua espinha. O quarto parecia pequeno demais, o ar condicionado desligado tornava o ar pesado e o rangido do vento contra a calha soava como passos furtivos no telhado.

— Cara... a gente devia ter ido para a delegacia — balbuciou Josh para o vazio, balançando a perna em um ritmo maníaco. — A gente devia ter entrado na viatura e pedido cela de custódia. Pelo menos lá tem grades. Grades de verdade.

Kael estava de pé junto à janela, com as cortinas entreabertas apenas o suficiente para que pudesse vigiar a rua escura. A jaqueta de couro estava jogada sobre uma poltrona; ele vestia apenas uma camiseta preta desbotada que deixava à mostra os músculos rígidos dos braços e as veias saltadas pelo estresse contínuo.

— A polícia não ia nos proteger de nada, Josh — respondeu Kael, a voz baixa, sombria. — O delegado Souza é um inútil que só sabe multar carroceiro. Se a gente ficasse lá, o cara colocava fogo no prédio com todo mundo dentro.

Josh soltou uma risada quebrada, que morreu em um soluço seco.

— Você fala como se estivesse no controle. Mas suas mãos estavam tremendo quando o telefone tocou, Kael. Eu vi. Você tá cagado de medo que nem eu.

Kael se virou devagar. Na penumbra, sua silhueta parecia enorme, uma massa de tensão concentrada prestes a se romper. Ele deu dois passos lentos na direção da cama.

— Cala essa boca, Josh.

— Não calo! — retrucou Josh, as lágrimas de exaustão finalmente brotando nos cantos dos olhos, embora ele tentasse manter o tom de bravata. — O Victor te trata que nem lixo! Ele usou você para subir a serra, usou você na represa e agora jogou na sua cara que você é um gorila burro que dorme demais! E você continua aí, pronto para levar uma facada por ele! O que ele tem que você não consegue largar, hein? Ele é mágico por acaso?

Kael parou diante de Josh. A respiração do garoto maior estava pesada, quente no ar gelado do quarto. Por um segundo, Josh achou que levaria um soco no rosto; ele encolheu o queixo por reflexo defensivo, esperando o impacto.

Em vez de punhos fechados, Kael estendeu as duas mãos e agarrou o colarinho da camiseta de Josh com força bruta, puxando-o para cima até que seus rostos ficassem a poucos centímetros de distância.

— Você não sabe nada sobre mim e o Victor — rosnou Kael, os olhos brilhando em uma mistura doentia de ódio, frustração e vulnerabilidade crua. — Nada.

— Então me bate! — gritou Josh em um sussurro desesperado, encarando-o nos olhos, o peito subindo e descendo em descompasso. — Me bate, porra! É melhor do que esperar aquela coisa entrar pela porta e rasgar o meu peito! Me faz sentir alguma coisa que não seja essa merda desse medo!

O ar entre eles pareceu sugar todo o oxigênio do quarto.

A respiração descontrolada de Josh bateu contra os lábios de Kael. O terror que corroía a mente dos dois colidiu em um curto-circuito violento de pura adrenalina e desespero animal. Kael não recuou; seus dedos desceram da gola para a nuca de Josh, puxando-o para a frente em um movimento brusco e faminto.

Quando as bocas se chocaram, não houve gentileza. Foi um beijo seco, desesperado, com gosto de salitre e café frio, impulsionado pela urgência claustrofóbica de quem temia que aquela fosse a última noite de suas vidas. Josh soltou um gemido abafado contra os lábios de Kael, as mãos trêmulas agarrando os ombros largos do outro, cravando as unhas no tecido áspero da camiseta em busca de sustentação.

Kael empurrou Josh de volta contra o colchão com o peso do próprio corpo, calando qualquer hesitação remanescente. As roupas foram arrancadas aos trancos, com a pressa desajeitada e sufocada de dois animais acuados em uma toca durante a tempestade. Cada toque, cada atrito de pele contra pele na penumbra fria do quarto funcionava como uma barreira precária contra a presença da morte que rondava o lado de fora — uma tentativa violenta de reafirmar a própria existência através da carne, da dor e do suor.

O silêncio do cômodo foi engolido por respirações entrecortadas, lençóis amarrotados e suspiros sufocados contra travesseiros, até que o cansaço absoluto finalmente abateu os dois corpos sobre o colchão desarrumado.

***

Passava das três da madrugada quando Josh abriu os olhos.

A garganta dele ardia como lixa seca. Kael dormia de bruços ao seu lado, o braço pesado jogado sobre o lençol, a respiração finalmente ritmada em um sono profundo de puro esgotamento físico.

Josh sentou-se na cama devagar, com cuidado para não fazer as molas rangerem. Seu corpo doía, mas a sensação aguda de alerta havia retornado com força total. O silêncio da casa era quase sepulcral agora; a chuva havia diminuído para um gotejar fraco nos canos de descida do telhado.

Ele vestiu a calça jeans e a camiseta às cegas, sentindo uma necessidade urgente de beber água para acalmar a taquicardia que voltava a martelar em seus ouvidos.

Com passos cautelosos, Josh abriu a porta do quarto de hóspedes. O corredor do andar superior estava em completo breu. Ele desceu a escadaria pé ante pé, segurando-se no corrimão de madeira para evitar os degraus que ele sabia que rangiam.

Ao alcançar o térreo, notou que a porta do escritório — onde Victor deveria estar dormindo no sofá-cama — estava entreaberta. Uma fresta estreita revelava o cômodo vazio. O cobertor repousava dobrado no chão; ninguém havia se deitado ali.

Josh congelou na base da escada, o coração disparando contra as costelas.

Um ruído abafado veio da cozinha. Não parecia o barulho de um intruso; era o som ritmado de uma voz humana falando em tom sussurrado e controlado.

Guiado por um pressentimento mórbido, Josh deslizou rente à parede da sala de jantar, os pés descalços colados ao granilite gelado. Ele se escondeu atrás do armário embutido da copa, esticando o pescoço apenas o suficiente para espiar pela porta de vaivém entreaberta.

Victor estava encostado na pia de mármore, envolto pela penumbra da cozinha iluminada apenas pela luz verde do mostrador digital do micro-ondas. Ele segurava um telefone celular pequeno — um aparelho pré-pago, simples, de teclado emborrachado, que Josh nunca o vira usar na escola.

Victor mantinha o fone colado ao ouvido, os olhos escuros fitando a escuridão do quintal através da janela basculante.

— Eu já disse para não me ligar nessa linha — sussurrou Victor, a voz fria, cortante como vidro afiado, desprovida de qualquer vestígio do sarcasmo habitual. — A cidade está cercada por policiais de Belo Horizonte. Se alguém interceptar esse sinal, nós dois estamos fodidos.

Josh prendeu a respiração, recuando milímetros para as sombras da copa, as mãos tremendo descontroladamente contra a madeira do móvel.

Victor fez uma pausa, escutando a resposta do outro lado. Ele passou a mão pelos cabelos escuros, soltando um estalo irritado com a língua.

— Não me interessa o que o seu contato na delegacia falou — continuou Victor, o tom descendo a um nível quase inaudível, carregado de uma autoridade sombria. — O carro do meu irmão já está guardado no galpão da serra. Ninguém vai encontrar nada lá. O problema agora é o grupo. A garota começou a fazer perguntas demais antes do corte no ombro... e o Noah está montando uma linha do tempo com os desaparecimentos desde março.

Mais alguns segundos de silêncio na linha. Victor olhou furtivamente para a porta da cozinha, fazendo Josh prender o ar a ponto de seus pulmões arderem.

— Não precisa se preocupar com eles — disse Victor, os lábios se curvando em uma linha cruel e calculista. — O Kael faz exatamente o que eu mandar, como sempre. E quanto ao Noah e ao Josh... são dois idiotas assustados. Eles não têm a menor ideia do que realmente aconteceu naquela estrada. Mantenha a sua parte limpa e suma com as notas fiscais até segunda-feira de manhã. Quando essa tempestade passar, a gente encerra o assunto. Entendeu?

Victor encerrou a chamada com um estalo seco na carcaça de plástico do telefone. Ele removeu a bateria do aparelho em dois movimentos mecânicos, guardando as peças separadas nos bolsos internos de sua jaqueta, antes de abrir a geladeira com a calma impassível de quem acabara de encomendar um café.

Apoiado na parede escura da copa, Josh sentiu o sangue sumir completamente de seu rosto. As palavras ecoavam em sua mente como pancadas de marreta: *o carro guardado no galpão... o que realmente aconteceu na estrada... o Kael faz o que eu mandar...*

A máscara. A faca. As ligações. A frieza com que Victor havia desarmado o assassino ao telefone mais cedo não tinha sido coragem.

Tinha sido encenação.

As pernas de Josh vacilaram. O terror primitivo que ele sentira diante da figura mascarada no vestiário e na sala de estar não era nada comparado à percepção aterradora que acabara de se abater sobre ele.

O monstro não estava lá fora, na chuva, esperando por uma brecha para invadir.

O monstro estava dentro da casa, bebendo um copo de leite frio na cozinha, enquanto orquestrava a matança de todos eles sob a luz fosca do micro-ondas.

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