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The new ghostface

Reflexos de Aço e Paranoia

O piso de madeira do corredor superior pareceu queimar sob as solas descalças de Josh quando ele alcançou o topo da escada. Seu peito subia e descia em arfadas curtas e silenciosas, o ar entrando rasgado pela garganta enquanto a bile ácida subia pelo esôfago. As palavras sussurradas por Victor na cozinha ainda zumbiam em seus ouvidos com a violência de estilhaços: *o carro guardado no galpão... o que realmente aconteceu na estrada... o Kael faz o que eu mandar...*

Ele se escorou na parede do quarto de hóspedes, com os olhos fixos na escuridão. Ao lado da porta, sobre a cômoda de mogno, descansava uma pesada tesoura cirúrgica de ponta reta que Noah havia esquecido ao lado de algumas ataduras extras. O metal fosco reluziu tenuemente sob a luz prateada que entrava pela janela molhada.

Sem pensar, guiado apenas pelo reflexo visceral da sobrevivência, Josh estendeu os dedos trêmulos e fechou a mão ao redor do cabo de aço. O peso frio da lâmina ancorou sua loucura. Ele voltou a olhar para a cama; Kael continuava adormecido, afundado no colchão em um cansaço de chumbo.

"Ele também é uma vítima", pensou Josh, com as lágrimas embaçando sua visão. "Ou é cúmplice. Os dois. Sempre foram os dois."

***

No andar térreo, Victor continuava na cozinha, alheio aos passos furtivos que haviam escapado escada acima.

Ele jogou o resto do copo de água na pia e apoiou as duas mãos na borda da bancada de granito, soltando uma expiração longa e pesada. A frieza cínica que ele ostentava diante dos outros havia cedido lugar a uma exaustão tensa. Seus dedos foram até o bolso interno da jaqueta, onde o chip pré-pago jazia desativado ao lado da bateria.

A chamada de minutos atrás não tinha sido com um comparsa sádico. Tinha sido com Rafael, seu irmão mais velho, que morava em Belo Horizonte. Rafael mantinha há dois anos um relacionamento com Matheus, um perito-chefe da Divisão de Homicídios da Polícia Civil da capital — o homem que conseguira, de maneira totalmente clandestina e arriscada, vazar os laudos preliminares das mortes em Santa Cruz do Pinhal para Victor.

Victor não confiava na delegacia local. O delegado Souza era um incompetente corrupto, mais preocupado em abafar escândalos que envolvessem os fazendeiros da região do que em prender um assassino em série. Para piorar, Victor guardava seu próprio segredo: o Opala que dirigia pela cidade estava registrado em nome do irmão e carregava adulterações graves no chassi, além de ter sido flagrado perto da fábrica desativada na noite em que o vigia fora jogado no rio. Se a polícia comum colocasse as mãos no veículo ou nas anotações fiscais que ligavam a prefeitura ao desvio de verbas de medicamentos, Rafael perderia a carreira pública e Victor acabaria em uma cela antes que pudessem provar que nada tinham a ver com os assassinatos.

Victor sabia que o psicopata mascarado usava os podres da cidade como combustível moral. Para pegar o homem, Victor precisava manter suas próprias mãos no tabuleiro, ditando o ritmo, sem deixar que o medo burro de Noah, o desespero de Sophia ou a impulsividade animalesca de Kael jogassem tudo pelos ares. Era a sua arrogância habitual, polida como vidro: a crença absoluta de que sua mente era a única capaz de antecipar a próxima jogada do monstro.

Ele só não contava com o relógio.

Eram exatamente quatro e doze da madrugada quando a linha telefônica da casa de Noah ganhou vida mais uma vez.

*TRRRRIIIIIMMMMMMM.*

O som metálico e ensurdecedor da campainha daquele aparelho antigo de parede atravessou o silêncio da casa como uma detonação de arma de fogo.

Victor ergueu a cabeça imediatamente, os músculos travando sob o casaco.

No andar de cima, o estalo do trinco de uma porta ecoou.

— Victor? — A voz de Kael soou lá de cima, áspera, rouca pelo despertar abrupto, carregada de alarme.

*TRRRRIIIIIMMMMMMM.*

— Que barulho é esse? — A porta do quarto de Noah abriu com força, revelando Sophia, pálida como um espectro, segurando o braço machucado contra as costelas. Noah surgiu logo atrás dela, com uma lanterna tática na mão e a respiração entrecortada pelo susto.

— O telefone... — balbuciou Noah, congelando no patamar da escada. — Eu cortei a fiação externa da caixa de distribuição antes de subir! Não tem como essa linha estar recebendo sinal da central!

A frase de Noah caiu na escuridão como uma sentença de morte.

Se o cabo externo estava rompido, a linha não estava recebendo uma chamada da rua. Estava sendo ativada por uma ligação em série. Por um ramal.

*Dentro da casa.*

Victor percebeu o perigo uma fração de segundo antes de todos. Ele deu um passo largo em direção à copa para alcançar o corredor principal e desligar o aparelho da parede, gritando para o vão da escada com autoridade implacável:

— Fiquem onde estão! Não desçam!

Mas Josh já estava no corredor escuro do primeiro andar.

Ele havia descido as escadas antes que o segundo toque terminasse, escorregando pelos cantos como uma sombra trêmula, segurando a tesoura cirúrgica com as duas mãos contra o peito. O som do telefone tocando sem parar dentro de sua cabeça parecia estourar seus tímpanos: *TRRRRIIIIIMMMMMMM*. Na penumbra da sala, iluminada apenas pelos clarões foscos dos relâmpagos que morriam na janela, a figura esguia de Victor surgiu na entrada da copa, movendo-se com aquela rapidez calculada que Josh agora via como a marcha de um carrasco.

— Ele tá vindo nos matar! — gritou Josh, um berro agudo, rasgado, desprovido de qualquer racionalidade.

— Josh, abaixa a voz e sai da frente! — rebateu Victor, a voz dura, dando um passo rápido na direção dele para tentar conter a histeria e alcançar o gancho do telefone no corredor. — Ele está no porão ou no sótão, seu imbecil!

Mas Josh não escutou. Sob a descarga violenta de terror e adrenalina pura, ele só enxergou o "mentiroso", o homem que prometera sumir com evidências, o estrategista frio que falara em "encerrar o assunto" enquanto todos dormiam.

Quando Victor estendeu o braço esquerdo para empurrar Josh para trás da parede, Josh avançou em um espasmo desesperado.

O metal da tesoura cirúrgica cortou a penumbra.

O som foi abafado: o rasgar seco do tecido jeans da jaqueta, seguido pelo estalo macio de lâminas de aço afundando entre as costelas e a carne macia do flanco direito de Victor.

— Ah! — Victor soltou um arquejo sufocado, os olhos arregalando-se em choque absoluto.

O ar foi expelido de seus pulmões em uma golfada dolorosa. Seus joelhos cederam imediatamente, a força sumindo de suas pernas com a brutalidade de um golpe na nuca. Ele colidiu contra a parede do corredor, derrubando o aparador de madeira onde repousava o telefone de baquelite. O aparelho caiu no chão com um estrépito oco de plástico quebrado, a campainha soltando um último ganido metálico antes de silenciar por completo.

Josh deu dois passos trôpegos para trás, as mãos manchadas de sangue quente e viscoso.

— Eu peguei... eu peguei ele... — Josh soluçava, rindo e chorando ao mesmo tempo, as pernas bambas batendo contra o corrimão. — Ele ia nos entregar... ele falou no celular... ele ia matar a gente!

— VICTOR! — O berro de Kael ecoou com uma fúria tão ensurdecedora que pareceu sacudir as vigas do teto.

Kael desceu os últimos seis degraus em um único salto, aterrissando no granilite como um touro desgovernado. Seus olhos se cravaram no sangue que começava a formar uma poça escura sob o corpo curvado de Victor. Sem pensar, Kael desferiu um empurrão brutal com as duas mãos no peito de Josh, arremessando o garoto com tanta violência que as costas dele colidiram contra o vidro da janela da sala, rachando a vidraça em uma teia estaladiça.

— O que você fez, seu filho da puta?! — rugiu Kael, caindo de joelhos ao lado de Victor, as mãos cegas tateando o tecido empapado da jaqueta. — Victor... olha para mim. Fala comigo!

Victor estava deitado de lado, os dedos pálidos pressionando o corte profundo no abdômen. O sangue borbulhava entre suas articulações, quente e escuro. Seus lábios mantinham um tremor involuntário, mas quando seus olhos encontraram os de Kael, havia neles uma raiva lúcida, entrecortada pela dor aguda que roubava sua respiração.

— Josh... — Victor tentou falar, a voz saindo em um sussurro engasgado, com um filete fino de sangue escorrendo pelo canto de sua boca perfeitamente delineada. — Josh... seu... idiota do caralho...

Noah desceu correndo com a lanterna, Sophia logo atrás, tropeçando nos degraus enquanto tentava não cair. O facho de luz branca varreu o corredor, revelando o chão pintado de vermelho, Josh encolhido no canto em posição fetal arfando em choque, e Kael rasgando a própria camiseta preta para tentar comprimir o ferimento que jorrava entre as costelas de Victor.

— Josh, o que foi que você fez?! — gritou Noah, horrorizado, jogando a caixa de primeiros socorros no chão e se ajoelhando no sangue ao lado de Kael. — A perfuração foi profunda! Pegou a musculatura oblíqua, talvez o fígado! Kael, faz pressão aqui, não deixa o sangue escapar!

— Ele tava falando com alguém na cozinha! — berrava Josh do canto da parede, puxando os próprios cabelos com as mãos ainda ensanguentadas. — Ele tava armando com o assassino! Ele escondeu o carro na serra! Ele disse que o Kael fazia o que ele mandasse! Eu ouvi, Noah! Eu juro que ouvi!

Victor apertou os dentes com tanta força que o som do atrito ósseo foi audível. Com um esforço titânico, ele ergueu a mão ensanguentada e agarrou o colarinho de Kael, puxando o rosto do rapaz maior para perto do seu.

— Não era ele... — Victor sibilou contra o ouvido de Kael, a respiração quente e entrecortada cheirando a ferro. — Era o Rafael... meu irmão... o contato da civil. Ele estava nos ajudando a armar o cerco. O assassino... o desgraçado não sou eu...

Kael sentiu um frio sepulcral atravessar sua espinha. Ele olhou para o rosto pálido de Victor, para o sangue que não parava de escorrer, e a compreensão caiu sobre a sala como uma avalanche.

— Ele não é o assassino — sussurrou Kael, virando o rosto lentamente na direção de Josh com uma expressão que não pertencia a um ser humano, mas a um predador pronto para despedaçar a presa.

— Mas... mas o telefone... — balbuciou Sophia, com os olhos vidrados no aparelho esmagado no chão.

O telefone estava quebrado.

O fio espiralado estava solto na poça de sangue.

E, no entanto, do fundo escuro da despensa, bem atrás da porta entreaberta da cozinha, o som de um fone fora do gancho começou a ecoar em um clique rítmico, baixo e paciente:

*Tu... tu... tu...*

Um arrepio paralisou até mesmo a respiração de Kael.

Noah levantou o facho da lanterna devagar.

A luz cortou o corredor, passou pela mesa de centro tombada e incidiu diretamente sobre a entrada da cozinha.

A porta de vaivém estava aberta apenas cinco centímetros.

Na fresta escura, imóvel como uma estátua esculpida em gelo, havia uma presença. O tecido pesado da capa preta caía reto até o chão, engolindo os contornos dos ombros. E no topo, destacando-se na penumbra com uma palidez cadavérica e inumana, a máscara branca encarava os cinco jovens. Os orifícios escuros dos olhos pareciam absorver a luz da lanterna de Noah sem devolver nada além de um vazio absoluto.

Na mão enluvada de couro, a lâmina longa de caça brilhava, perfeitamente limpa, esperando pelo início da sua própria colheita.

A voz veio de trás da resina plástica — calma, rouca, modulada com aquela mesma polidez aristocrática e doentia que eles ouviram pelas linhas telefônicas:

— É fascinante como a paranoia humana é eficiente — disse o homem, empurrando a porta de vaivém com a ponta da bota pesada, revelando-se por inteiro. — Eu sequer precisei dar o primeiro golpe. Vocês mesmos se destripam no escuro.

Josh soltou um grito histérico, tentando se enfiar mais contra o canto da parede. Sophia recuou até bater as costas no primeiro degrau da escada, sem ar.

Kael não hesitou. Toda a dor, a culpa e a fúria acumuladas explodiram em um rugido gutural. Ele puxou o canivete de caça do bolso com a mão direita, colocando-se de pé entre o monstro e o corpo ensanguentado de Victor.

— Dá mais um passo — rosnou Kael, a lâmina apontada para a máscara branca, os olhos faiscando na escuridão. — Dá mais um passo para eu arrancar essa sua máscara junto com a sua cara.

A figura não recuou. Ela inclinou a cabeça suavemente para o lado, zombando da ameaça, e deu o primeiro passo calmo em direção à luz.

O jogo havia acabado.

A caçada, enfim, começara.

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