Voltar ao resumo

Theo new girl

O Espectro entre o Rosa e o Roxo

A sexta-feira amanheceu com aquele ar de expectativa que só o último dia da semana escolar consegue proporcionar. O céu estava de um azul pálido, quase murcho, mas para Mizi, cada segundo que passava era um passo a mais em direção ao plano que ela havia traçado com a confiança de quem não tem nada a perder.

Na sala de aula, o clima era o habitual caos controlado. Ivan passara a manhã inteira tentando, sem sucesso, roubar o estojo de Till, que reagia com a agressividade de um animal encurralado.

— Se você encostar na minha lapiseira de novo, Ivan, eu juro que enfio ela no seu olho — Till sibilou, os olhos verdes faiscando de puro ódio.

— Quanta violência, Tillzinho. Eu só queria ver se você tinha bom gosto para papelaria — Ivan respondeu, encostando-se na cadeira de Mizi e dando um sorriso de lado para a novata. — E aí, vizinha? Algum plano emocionante para hoje ou vai ficar só admirando a beleza do meu "amigo" aqui?

Mizi, que estava rabiscando o canto de um caderno, olhou para Ivan com um sorriso travesso.

— Tenho planos sim, mas você não foi convidado, projeto de vilão.

Ivan arqueou uma sobrancelha, fingindo-se ofendido, mas logo voltou a importunar Till. Enquanto isso, na fileira ao lado, Sua evitava olhar para trás. Ela sentia o olhar de Mizi em suas costas como se fosse um toque físico. Hyuna, que percebia tudo, cutucou Sua com o cotovelo.

— A Mizi não para de olhar pra você, sabia? — sussurrou Hyuna, com um brilho cúmplice nos olhos azuis. — Se eu fosse você, já estaria planejando o nome dos gatos que vocês vão ter.

— Hyuna, para com isso — Sua murmurou, o rosto ganhando aquele tom rosado que Mizi tanto adorava. — É só um encontro de estudos... ou sei lá o quê.

— Sei, sei. "Estudos" — Hyuna riu baixo. — Fica tranquila, vou tirar o Ivan e o Till do seu pé na saída. O Luka eu levo pra biblioteca pra ele me explicar termodinâmica pela décima vez.

Quando o sinal finalmente bateu, anunciando a liberdade, Hyuna agiu rápido. Ela praticamente arrastou Ivan e Till pelos braços, enquanto Luka seguia atrás, protestando sobre a pressa desnecessária que afetava seu ritmo de caminhada.

— Vamos, meninos! O Till precisa comprar cordas novas pro baixo e o Ivan precisa de uma terapia urgente! — gritou Hyuna, acenando discretamente para Mizi antes de desaparecer pelo corredor.

A sala esvaziou rapidamente, restando apenas o silêncio e as duas garotas. Mizi levantou-se com uma energia contagiante e caminhou até a carteira de Sua, que ainda guardava seus lápis com movimentos lentos e hesitantes.

— E aí, pronta? — Mizi perguntou, parando ao lado dela.

— Pronta — Sua respondeu, levantando-se.

Antes que Sua pudesse protestar, Mizi pegou a mochila dela e a jogou sobre o outro ombro, carregando as duas bolsas com uma facilidade impressionante.

— Mizi, não precisa... eu posso carregar — Sua disse, estendendo a mão.

— Relaxa, Sua. Você é tão pequenininha, parece que a mochila vai te engolir — Mizi brincou, piscando para ela. — Deixa que a musculosa aqui cuida do peso. Vamos?

Elas caminharam juntas para fora da escola. O trajeto até a casa de Mizi não era longo, mas para Sua, cada passo parecia carregado de um significado novo. Mizi falava sobre as músicas que gostava, reclamava do professor de física e contava histórias engraçadas de quando tentou pintar o cabelo sozinha pela primeira vez e quase ficou careca. Sua apenas ouvia, ocasionalmente soltando uma risada tímida, sentindo-se cada vez mais à vontade.

Quando chegaram ao condomínio, Sua ficou surpresa. A casa de Mizi era imponente, com uma arquitetura moderna e janelas amplas. Por fora, exalava uma aura de "família rica e organizada", mas assim que atravessaram a porta, a realidade era outra.

O interior da casa era o santuário de uma adolescente que vivia sob suas próprias regras. Tinha pôsteres de bandas de rock colados nas paredes de forma aleatória, algumas roupas jogadas no braço do sofá, e uma prateleira cheia de bonecos colecionáveis e luzes de LED coloridas.

— Bem-vinda ao meu cafofo — Mizi anunciou, jogando as mochilas no chão perto da entrada. — Fica à vontade. A casa é grande, mas sou só eu, então não precisa ter vergonha de nada.

Sua olhou ao redor, sentindo uma pontada de tristeza ao lembrar que Mizi morava sozinha desde pequena. A casa era bonita, mas parecia silenciosa demais para alguém tão vibrante.

— É linda, Mizi — Sua disse sinceramente.

— É, dá pro gasto. Mas vamos ao que interessa: conforto — Mizi se aproximou de Sua e tocou levemente em seu ombro. — Você deve estar cansada desse uniforme apertado. Vou te emprestar umas roupas minhas. Toma um banho pra relaxar enquanto eu peço a pizza.

Mizi guiou Sua até o andar de cima. Ela entregou uma toalha macia e um conjunto de roupas: uma camiseta preta de uma banda que Sua não conhecia e um short de moletom cinza.

— Pode usar o banheiro do corredor, eu vou usar o do meu quarto — disse Mizi. — Se precisar de qualquer coisa, é só gritar.

Minutos depois, Sua saiu do banho. As roupas de Mizi ficaram enormes nela; a camiseta descia quase até o meio das coxas e o short precisou ter o cordão muito apertado para não cair. Ela se olhou no espelho, vendo-se envolta no cheiro de Mizi — uma mistura de baunilha e algo cítrico.

Ao descer as escadas, encontrou Mizi já trocada, vestindo um pijama largo de estampa de estrelas, sentada no enorme sofá em frente a uma TV que parecia de cinema.

— Caraca, você ficou muito fofa com as minhas roupas! — Mizi exclamou, batendo no lugar ao lado dela no sofá. — Vem cá, escolhe o que a gente vai ver. Tem de tudo nessas plataformas aí.

Sua sentou-se, sentindo o estofado macio afundar. Mizi desapareceu na cozinha e voltou minutos depois carregando uma bandeja improvisada com pacotes de Fini, barras de chocolate, duas latas de refrigerante e, logo em seguida, a campainha tocou: a pizza havia chegado.

— Banquete servido! — Mizi anunciou, colocando as caixas de pizza sobre a mesa de centro.

Elas começaram a assistir a um filme de animação qualquer, mas a atenção de ambas estava longe da tela. Mizi devorava uma fatia de pizza enquanto olhava para Sua pelo canto do olho.

— Então... — Mizi começou, limpando o canto da boca com o polegar. — O Ivan é muito chato em casa também ou ele guarda o estoque de chatice só pra escola?

Sua suspirou, abraçando os próprios joelhos no sofá.

— Ele é... difícil. A gente quase não se fala. Meus pais exigem muito dele por ele ser o mais velho, e ele desconta em todo mundo. É como se a gente vivesse em campos de guerra diferentes na mesma casa.

— Deve ser um saco — Mizi comentou, a voz mais suave. — Eu sinto falta de ter gente em casa às vezes, mas aí eu lembro que família pode ser uma bagunça e me sinto aliviada de ter meu espaço.

— Você não se sente sozinha? — Sua perguntou, olhando nos olhos amarelos de Mizi.

Mizi deu de ombros, pegando um ursinho de goma.

— Às vezes. Mas aprendi a gostar da minha própria companhia. E agora que eu conheci esse grupo maluco... e você... a casa parece menos vazia.

Sua sentiu o coração acelerar. Ela pegou um pedaço de chocolate, tentando disfarçar o nervosismo.

— O grupo gostou muito de você. Até o Till, embora ele seja orgulhoso demais pra admitir.

— O Till é um fofo, ele só precisa de um abraço e de alguém que tire o Ivan de perto dele por cinco minutos — Mizi riu. — Mas e você, Sua? O que você achou de mim? De verdade? Sem o filtro da "novata legal".

Sua hesitou, olhando para a pizza esfriando. Ela respirou fundo.

— Eu achei que você era um furacão. Tudo em você é intenso, Mizi. O jeito que você fala, o jeito que você se move... você não tem medo de ser vista. Eu passo a maior parte do tempo tentando desaparecer, então ver alguém como você é... intimidador. Mas de um jeito bom.

Mizi deixou o refrigerante de lado e se inclinou para mais perto. A luz da TV refletia cores neon no rosto dela.

— Eu não quero que você desapareça, Sua. Eu quero que você apareça pra mim.

O silêncio que se seguiu não era melancólico como os que Sua estava acostumada. Era um silêncio carregado, elétrico, onde o som da respiração de ambas parecia preencher toda a sala. Mizi estendeu a mão e tocou a ponta dos dedos de Sua, que estavam gelados.

— Você está tremendo — Mizi observou, a voz rouca.

— É que... eu nunca fiz isso antes — confessou Sua, a voz quase sumindo. — Vir na casa de alguém, conversar assim... sentir isso.

— "Isso" o quê? — Mizi provocou suavemente, reduzindo a distância entre os rostos.

— Esse frio na barriga que não passa desde o dia que você entrou na sala — Sua disse, finalmente criando coragem para sustentar o olhar.

Mizi sorriu, um sorriso que não tinha nada de "hetero" ou de "zoeira". Era um sorriso de pura afeição.

— Eu também sinto, sabia? Eu posso parecer toda confiante, mas quando você me olha com esses olhos roxos, eu sinto que vou esquecer como se fala.

Mizi aproximou-se mais um pouco, o suficiente para que Sua sentisse o calor vindo dela. Ela não apressou o momento. Deixou que Sua decidisse. E Sua, pela primeira vez em sua vida, decidiu não recuar. Ela fechou os olhos e inclinou a cabeça levemente.

O beijo foi calmo, um encontro suave de lábios que experimentavam um território novo. Tinha gosto de refrigerante e chocolate, e a sensação era a de que todas as peças de um quebra-cabeça finalmente haviam se encaixado. Mizi levou a mão à nuca de Sua, puxando-a gentilmente para mais perto, enquanto Sua se apoiava nos ombros de Mizi, sentindo-se finalmente segura.

Quando se separaram, ambas estavam um pouco sem fôlego. Mizi encostou sua testa na de Sua, soltando uma risadinha baixa.

— É... a pizza definitivamente vai esfriar agora.

Sua riu também, escondendo o rosto no ombro de Mizi.

— Eu não me importo.

Elas passaram o resto da noite assim, emboladas no sofá. O filme terminou e outro começou automaticamente, mas elas quase não olhavam para a tela. Mizi contava sobre seus planos de viajar depois que o colégio acabasse, e Sua, pela primeira vez, começou a se incluir nesses planos, mesmo que apenas em pensamento.

— Mizi? — Sua chamou, enquanto sentia os dedos da outra brincando com seu cabelo curto.

— Oi, estrela.

— Obrigada por me convidar. Eu... eu não sabia que podia me sentir assim. Tipo, feliz de verdade.

Mizi apertou-a um pouco mais forte no abraço.

— Você pode se sentir assim todos os dias, se quiser. Eu não pretendo ir a lugar nenhum.

O relógio na parede marcava quase meia-noite quando o sono começou a vencer a conversa. A casa grande e luxuosa de Mizi, que antes parecia um monumento à solidão, agora abrigava algo novo e vibrante. Entre pacotes de doces vazios e o brilho da TV, o rosa e o roxo haviam se misturado, criando uma cor que nenhuma das duas sabia nomear, mas que ambas queriam carregar para o resto da vida.

Naquela noite, Sua não sonhou com sombras ou silêncios. Ela sonhou com olhos dourados e com a certeza de que, na segunda-feira, ela não precisaria mais se esconder no fundo da sala. Ela tinha um lugar ao sol, e esse sol tinha cabelos cor-de-rosa e um sorriso que era só dela.