Theo new girl
O Gosto do Impulso e o Silêncio da Segunda
O sábado na casa de Mizi tinha um ritmo completamente diferente da agitação escolar. Sem o sinal estridente para marcar o tempo ou os gritos de Ivan e Till ecoando pelos corredores, o apartamento parecia um refúgio suspenso no espaço. Sua havia decidido ficar mais uma noite, um convite que Mizi fizera com um brilho nos olhos que tornava impossível dizer não.
No início da noite, a cozinha — que geralmente servia apenas para Mizi abrir caixas de cereais ou pacotes de salgadinhos — tornou-se o palco de uma cena doméstica inusitada. Sua estava à frente do fogão, os cabelos pretos presos por uma presilha improvisada, concentrada no preparo de um jantar de verdade.
— Mizi, onde você guarda as espátulas? — perguntou Sua, mexendo uma panela de onde subia um aroma delicioso de molho caseiro.
— Espátulas? — Mizi, sentada na bancada com as pernas balançando, franziu a testa como se Sua estivesse falando latim. — Ah! Aquelas colheres retas de plástico? Acho que estão na gaveta embaixo do pano de prato... ou talvez dentro do forno. Eu guardo umas tralhas lá.
Mizi pulou da bancada e começou a abrir gavetas freneticamente, entregando os utensílios para Sua conforme ela pedia. Mizi não sabia fritar um ovo sem queimar a gema, mas era uma excelente assistente de palco, observando com fascinação a habilidade de Sua.
— Caraca, você parece uma profissional — comentou Mizi, admirando a precisão com que Sua picava os temperos. — Eu juro que se tentasse fazer isso, a cozinha estaria pegando fogo e a gente estaria jantando fumaça.
— É relaxante — Sua deu um sorriso pequeno, sentindo-se útil. — Na minha casa, cozinhar é o único momento em que ninguém me incomoda. O Ivan odeia o cheiro de cebola, então ele passa longe da cozinha.
Quando o jantar finalmente ficou pronto, Mizi não apenas gostou; ela devorou.
— Meu Deus, Sua! Isso está bom demais! — Mizi exclamou, já servindo o segundo prato. — Esquece a pizza de ontem. Se você quiser morar aqui e cozinhar pra mim pra sempre, eu te dou a chave agora mesmo.
Sua riu, sentindo o peito aquecer. A sensação de ser apreciada, não apenas pelo seu silêncio ou seus desenhos, mas por algo tão simples, era viciante.
Após a janta, o cenário mudou para o quarto de Mizi. Era um ambiente que exalava a personalidade da dona: luzes de LED roxas contornando o teto, um computador potente cheio de adesivos e uma cama bagunçada com lençóis escuros. Sua se acomodou no canto da cama com seu caderno, os traços fluindo com mais leveza do que nunca.
Mizi, sentindo-se elétrica após a refeição, ligou o computador.
— Vou só jogar uma partida rápida de um FPS, tá? — disse ela, colocando os fones de ouvido neon. — Não consigo ficar parada por muito tempo, o TDAH não deixa.
Sua assentiu, mas conforme os minutos passavam e o som dos cliques do mouse e os gritos de comemoração de Mizi preenchiam o quarto, ela começou a se sentir um pouco... deixada de lado. O foco de Mizi estava totalmente na tela, os olhos amarelos refletindo as luzes do jogo. Sua olhou para o próprio desenho — um esboço de Mizi, claro — e sentiu uma pontada de insegurança. Talvez ela fosse calma demais para alguém como Mizi.
De repente, o som do computador desligando ecoou. Mizi girou a cadeira de rodinhas, tirando os fones e jogando-os de qualquer jeito na mesa. Ela olhou para Sua, que tentava fingir concentração absoluta no papel.
— Cansou de me ignorar? — provocou Sua, sem levantar a cabeça.
— Jamais — Mizi levantou-se e caminhou até a cama, sentando-se bem próxima a Sua, fazendo o colchão afundar. — Só percebi que o que está acontecendo aqui fora é muito mais interessante do que o que está na tela. O que você está desenhando?
Sua tentou fechar o caderno, mas Mizi foi mais rápida, segurando a borda da capa.
— Deixa eu ver... — Mizi murmurou, a voz ficando subitamente mais baixa.
Ela não olhou para o desenho. Olhou para Sua. A proximidade era perigosa. O cheiro de Mizi, aquele perfume cítrico misturado com o calor da pele, preencheu os sentidos de Sua.
O beijo começou como o da noite anterior: suave, quase uma pergunta. Sua esperava aquele carinho terno, aquela exploração lenta que trazia um frio na barriga confortável. Mas Mizi estava em outra frequência.
O beijo mudou de ritmo em um segundo. Mizi avançou com uma fome que Sua não conhecia. A língua de Mizi invadiu a boca de Sua com uma urgência possessiva, enquanto uma de suas mãos subia para a nuca de Sua, puxando-a para mais perto, eliminando qualquer espaço entre elas. Sua soltou um arquejo de surpresa que foi abafado pelos lábios de Mizi.
Mizi mordeu o lábio inferior de Sua, um puxão curto que fez um arrepio elétrico percorrer a espinha da garota pálida. Era um beijo de ataque, intenso e cru. Sua sentiu as costas tocarem o colchão conforme Mizi se inclinava sobre ela, o peso do corpo da outra garota sendo uma âncora no meio daquele turbilhão.
Quando finalmente se separaram para buscar ar, os lábios de Sua estavam inchados e o peito de Mizi subia e descia rapidamente. Os olhos amarelos de Mizi estavam escuros, brilhando com um desejo que ela estava lutando visivelmente para controlar. Ela olhou para o pescoço de Sua, depois de volta para os olhos roxos, que estavam arregalados e anuviados.
Mizi fechou os olhos por um momento, encostando a testa no ombro de Sua. Ela queria mais. O instinto gritava para que ela continuasse, para que as mãos explorassem além do que era seguro, mas o lampejo de vulnerabilidade no rosto de Sua a fez frear. Ela não queria assustá-la. Não queria que o primeiro "momento" delas fosse algo que Sua sentisse que não podia acompanhar.
— A gente... — Mizi começou, a voz falhando, rouca — ... a gente devia dormir.
Sua piscou, tentando processar o que acabara de acontecer. O calor em seu corpo ainda não havia dissipado.
— Dormir? — repetiu Sua, em um sussurro.
— É. Se eu ficar aqui em cima de você por mais cinco minutos, eu não vou conseguir parar — Mizi confessou, levantando-se da cama com um movimento brusco, tentando dissipar a tensão. — Vou pegar o colchão inflável. Você dorme na cama, é mais confortável.
Sua observou Mizi encher o colchão no chão com uma agitação nervosa. O clima no quarto havia mudado de "aconchegante" para "incendiário" e, em seguida, para um silêncio carregado de coisas não ditas. Elas se deitaram em níveis diferentes, Mizi no chão e Sua na cama, mas nenhuma das duas pregou o olho por um longo tempo.
No domingo de manhã, a despedida foi rápida. Mizi levou Sua até a porta, deu um beijo rápido e estalado em sua bochecha — um contraste gritante com a intensidade da noite anterior — e prometeu se ver na escola.
— Até segunda, Sua — disse Mizi, com seu sorriso de costume.
— Até segunda.
Quando a segunda-feira chegou, o prédio da escola parecia o mesmo de sempre: cinzento, barulhento e exaustivo. Sua caminhou pelos corredores sentindo-se como se estivesse carregando um segredo que brilhava sob sua pele. Ela esperava que, ao ver Mizi, algo fosse diferente. Que o mundo soubesse, ou que pelo menos o grupo percebesse que a dinâmica havia mudado drasticamente.
Mas, ao entrar na sala 3-B, a cena era uma reprise de todas as outras segundas-feiras.
Mizi estava sentada em sua mesa, com os pés sobre a cadeira de Ivan, rindo de algo que Hyuna contava. Till estava em seu canto, com fones de ouvido, parecendo mais mal-humorado do que o normal, e Luka estava revisando algumas notas de biologia.
— Bom dia, flor do dia! — Hyuna exclamou quando viu Sua entrar. — E aí, como foi o fim de semana de "estudos"? Sobreviveu à bagunça da Mizi?
Sua sentiu o coração disparar. Ela olhou para Mizi.
— Foi... tranquilo — respondeu Sua, sentando-se em seu lugar habitual à frente de Luka.
— Tranquilo é apelido — Mizi interveio, sem tirar os pés da cadeira de Ivan, que acabara de chegar e tentava empurrá-la. — A Sua cozinha melhor do que qualquer restaurante, galera. Eu quase não deixei ela ir embora só por causa do molho de tomate.
Ivan soltou um bufo, sentando-se com força.
— Pelo menos serviu pra alguma coisa além de ficar desenhando num canto — resmungou Ivan, lançando um olhar gélido para a irmã. — O pai perguntou por que você demorou tanto pra chegar ontem, Sua. Vê se não vira um encosto na casa dos outros.
— Cala a boca, Ivan — Mizi disse, mas o tom era o mesmo de sempre, o tom de quem defende um amigo, não de quem passou a noite morrendo de desejo pela pessoa.
Sua abriu o caderno. O silêncio entre elas era o mesmo de antes. Mizi não mencionou o beijo. Não mencionou a intensidade no quarto. Era como se as noites de sábado e domingo tivessem sido deletadas da existência de Mizi assim que ela cruzou os portões da escola.
Till, que até então parecia alheio, olhou para as duas. Ele percebeu que Sua estava mais quieta que o normal, e que Mizi estava... forçando um pouco a barra na animação. Mas ele não disse nada. O clima entre Ivan e ele já era tenso o suficiente.
— Luka, você terminou o relatório de química? — perguntou Mizi, virando-se para o loiro, ignorando a nuca de Sua que estava a poucos centímetros dela.
— Certamente. Embora eu acredite que a conclusão sobre a entalpia da reação poderia ser mais detalhada — Luka respondeu, ajustando os óculos.
O intervalo chegou e o grupo se reuniu na mesa de sempre. Lexy passou por eles, lançando um olhar de interesse para Mizi, que retribuiu com um aceno casual e um sorriso charmoso. Sua sentiu uma pontada de ciúme que a sufocou.
— A Lexy ainda está na sua cola, hein, Mizi? — Hyuna provocou, dando uma cotovelada na amiga.
— Ela é persistente, eu respeito isso — Mizi deu de ombros, roubando uma batata frita da bandeja de Till.
— Tira a mão, sua morta de fome! — Till gritou, começando a briga de sempre com Mizi e Ivan.
Sua observava a cena, sentindo-se invisível. Ela olhou para Mizi, esperando um sinal, um olhar secreto, um toque por baixo da mesa. Mas Mizi estava ocupada demais tentando irritar Till e rir das piadas de Hyuna. Era como se o "nós" que existiu no quarto de luzes roxas tivesse sido apenas uma alucinação de Sua.
Mizi, por dentro, estava um caos. Cada vez que ela olhava para Sua, a lembrança do beijo — do gosto de Sua, da maneira como ela se encaixava em seus braços — voltava como uma onda. Mas ela tinha medo. Medo de que, se demonstrasse algo na frente de Ivan, a vida de Sua se tornasse um inferno ainda maior em casa. Medo de que, se rotulasse o que tinham ali, a leveza de sua nova amizade com o grupo desaparecesse. Então, ela vestia a máscara de "Mizi, a novata gente boa e hétero de fachada".
— Ei, Sua — chamou Mizi, de repente, no meio da confusão da mesa.
Sua levantou os olhos, esperançosa.
— Você me empresta aquela caneta azul depois? A minha acabou — pediu Mizi, o tom de voz perfeitamente casual.
— Claro — respondeu Sua, a voz carregada de uma decepção que ela esperava que ninguém notasse.
O dia seguiu assim. Um jogo de espelhos onde o que era real ficava escondido atrás de palavras triviais e risadas grupais. Para o resto da escola, elas eram apenas duas amigas improváveis. Para o grupo, eram a novata extrovertida e a veterana melancólica que se deram bem.
Mas, no fundo do caderno de Sua, escondido atrás de uma folha de exercícios de biologia, havia um pequeno pedaço de papel que Mizi havia colocado na mochila dela antes de saírem de casa no domingo.
"O molho estava incrível, mas o beijo foi melhor. Não fica brava se eu agir como idiota na escola, eu só não sei como ser eu mesma perto de você com tanta gente olhando. — M."
Sua tocou o papel por cima do bolso do estojo, sentindo o relevo da escrita de Mizi. O silêncio da segunda-feira ainda doía, e a frieza aparente de Mizi a deixava insegura, mas aquele bilhete era a prova de que o incêndio ainda estava aceso.
Enquanto o professor explicava algo sobre a Guerra Fria, Mizi chutou de leve o pé de Sua por baixo da carteira. Foi um toque rápido, quase imperceptível, mas que carregava todo o peso do sábado à noite. Sua não olhou para trás, mas um sorriso minúsculo e triste surgiu em seus lábios.
O rosa e o roxo continuavam lá, mas no palco da escola, eles ainda eram obrigados a fingir que eram apenas cores primárias, esperando pelo próximo pôr do sol onde pudessem, finalmente, se misturar sem medo.