Theo new girl
O Labirinto entre o Orgulho e o Desejo
A semana havia passado como um borrão de cores desbotadas e sentimentos sufocados. Para Sua, cada dia na escola era um exercício de resistência. Ela observava Mizi de longe, ou mesmo de perto, sentindo o peso daquele silêncio ensaiado que a outra mantinha entre as paredes da instituição. O bilhete que Mizi deixara em sua mochila era a única coisa que a impedia de desmoronar, mas, conforme os dias avançavam e a frieza pública de Mizi persistia, a dúvida começou a corroer sua confiança.
"Talvez ela tenha se arrependido", pensava Sua, enquanto traçava linhas nervosas em seu caderno. "Talvez eu seja calma demais, sem graça demais... Talvez o fogo da Mizi precise de algo que eu não consigo dar."
Na sexta-feira, Sua sentia-se uma idiota completa. Cada risada que Mizi dava com Hyuna, cada provocação que trocava com Ivan, parecia um prego a mais no caixão da esperança de Sua. Ela se sentia descartável, como se tivesse sido um experimento de fim de semana que Mizi decidira encerrar sem aviso prévio.
No sábado, o grupo se reuniu na casa de Hyuna. Era para ser uma tarde de bobeiras, jogos e fofocas. Hyuna, sempre a anfitriã descolada, espalhou almofadas pelo chão e colocou música alta. Eles jogaram "Cidade Dorme" por horas, entre gritos de acusação de Ivan e as deduções lógicas e irritantes de Luka. Mizi estava lá, vibrante como sempre, mas Sua permanecia na periferia do círculo, o coração pesado como chumbo.
— Galera, a comida acabou e o estoque de energético tá no fim — anunciou Hyuna, levantando-se e batendo a poeira da calça jeans. — Ivan, Luka, vocês vêm comigo até o mercado aqui na esquina.
— Eu não sou seu carregador, Hyuna — resmungou Ivan, embora já estivesse se levantando.
— Você é o mais alto, então suas mãos servem pra alguma coisa além de irritar o Till — rebateu Hyuna, empurrando-o em direção à porta. — Luka, você vem pra garantir que a gente não compre só porcaria.
— A análise nutricional é fundamental para manter a homeostase durante uma noite de vigília — concordou Luka, ajeitando os óculos e seguindo-os.
Till, que estava encostado na parede, guardou o celular no bolso.
— Vou aproveitar e passar em casa pra pegar minha caixa de som. O som da Hyuna é uma porcaria, não dá pra ouvir o baixo direito — disse ele, saindo logo atrás dos outros.
Em questão de segundos, o apartamento, antes barulhento, mergulhou em um silêncio denso. Mizi e Sua ficaram sozinhas na sala. Mizi estava sentada no sofá, enquanto Sua permanecia no chão, fingindo estar muito interessada em um fio solto no tapete.
Mizi observou a garota pálida por um tempo. Ela percebia a tensão nos ombros de Sua, a maneira como ela evitava qualquer contato visual. A culpa, que Mizi vinha tentando ignorar durante toda a semana, finalmente transbordou.
— Sua? — chamou Mizi, a voz suave, desprovida daquela energia forçada da escola.
Sua não respondeu. Ela apenas continuou encarando o chão.
— Ei, olha pra mim — Mizi deslizou do sofá para o tapete, sentando-se de frente para ela. — Você está estranha desde segunda-feira. Mal falou comigo no grupo hoje. O que rolou?
Sua sentiu uma onda de indignação subir pelo peito. Ela finalmente levantou os olhos roxos, que estavam marejados e carregados de uma mágoa profunda.
— O que rolou? — Sua repetiu, a voz trêmula. — Você me ignora a semana inteira, finge que aquele sábado nunca aconteceu, age como se eu fosse apenas "a irmã do Ivan que faz um molho de tomate bom", e me pergunta o que rolou?
Mizi abriu a boca para interromper, mas Sua continuou, as palavras saindo em um fluxo desesperado.
— Eu me senti uma idiota, Mizi! Achei que você tinha enjoado de mim porque eu sou parada demais, ou melancólica demais... Eu achei que o beijo tinha sido um erro pra você.
Mizi sentiu um aperto no coração. Ela estendeu a mão e segurou o rosto de Sua, forçando-a a manter o contato visual.
— Sua, me escuta. Me desculpa, de verdade — disse Mizi, a expressão cheia de um arrependimento genuíno. — Eu sou uma idiota, tá? Eu fiquei com medo. Medo de como o Ivan ia reagir, medo de estragar o que a gente tem no grupo... Eu achei que sendo "normal" na escola eu estaria te protegendo, mas eu acabei te machucando.
Mizi aproximou o rosto, encostando a testa na de Sua.
— Eu nunca enjoaria de você. Você é a coisa mais interessante que já aconteceu na minha vida. Aquela semana foi um inferno pra mim também, querendo te beijar a cada cinco minutos e tendo que fingir que só queria uma caneta emprestada.
Sua soltou um suspiro trêmulo, a raiva se esvaindo para dar lugar ao alívio. Mizi não esperou mais. Ela selou os lábios nos de Sua com um carinho imenso, um beijo lento que pedia perdão em cada movimento. Ela repetiu o gesto, um segundo beijo mais profundo, sentindo Sua relaxar em seus braços.
Mas a ternura logo deu lugar a uma urgência que Mizi vinha reprimindo há dias. Ela afastou o beijo por um segundo, os olhos dourados descendo para o pescoço pálido e exposto de Sua. A vontade venceu a razão. Mizi inclinou a cabeça e começou a beijar a pele macia da base da orelha de Sua, descendo lentamente.
— Mizi... — Sua arquejou, fechando os olhos enquanto sentia o calor da outra garota.
Mizi não deixou marcas, mas mordeu de leve a pele sensível do pescoço, um gesto que fez Sua estremecer da cabeça aos pés. Em seguida, Mizi voltou a atacar a boca de Sua com uma fome renovada. Enquanto o beijo se tornava mais intenso e úmido, a mão de Mizi deslizou por baixo do moletom largo de Sua.
A pele de Sua era fria, mas o toque de Mizi era puro fogo. Quando os dedos de Mizi subiram em direção aos seios de Sua, a sensação foi tão intensa que Mizi pareceu se queimar no próprio impulso. Ela se afastou bruscamente, as mãos tremendo, o rosto corado.
— Merda... desculpa — Mizi arfou, passando a mão pelo cabelo rosa bagunçado. — Eu... eu fui rápido demais. Desculpa, Sua. Eu não queria...
Sua estava ofegante, o rosto em chamas, mas não parecia brava. Antes que pudesse dizer qualquer coisa para confortar Mizi, o som da chave girando na porta ecoou pelo apartamento.
— Chegamos com as provisões! — Hyuna anunciou, entrando com duas sacolas cheias.
Mizi levantou-se num salto, recuperando a naturalidade com uma velocidade impressionante, embora sua respiração ainda estivesse um pouco descompassada.
— Demoraram, hein? Achei que tivessem ido fabricar o energético — brincou Mizi, caminhando até a cozinha para ajudar a descarregar as coisas.
Sua permaneceu no chão por mais alguns segundos, ajeitando o moletom e tentando controlar as batidas do coração. Logo depois, Till chegou com sua caixa de som e a casa voltou a ser um caos.
Uma hora depois, o grupo estava espalhado pela sala. A música estava alta, restos de salgadinhos cobriam a mesa de centro e o clima estava relaxado — ou quase. Ivan, que vinha bebendo energético atrás de energético e parecia mais irritadiço que o normal, fixou o olhar em Sua, que estava sentada em um canto, quieta.
— Sabe o que eu não entendo? — Ivan disparou, a voz cortando a música. — Como a Mizi consegue ter paciência com você, Sua.
O silêncio caiu sobre a sala. Till parou de mexer nos cabos do som, Hyuna e Luka olharam para Ivan com reprovação.
— Ivan, não começa — avisou Hyuna.
— Não, é sério — continuou Ivan, o olhar gélido direcionado à irmã. — Você é patética. Fica aí, nesse silêncio de mártir, sem conseguir demonstrar nada. A Mizi é toda cheia de vida e você é... isso. Um vácuo. Você nem consegue admitir o que sente por ela, fica aí esperando que o mundo gire ao seu redor. É um peso morto, Sua.
Sua sentiu o impacto das palavras como se fossem tapas físicos. Ela baixou a cabeça, as lágrimas começando a arder nos olhos.
Mas Mizi não ficou calada. Ela se levantou, a expressão de "gente boa" desaparecendo para dar lugar a uma fúria que ninguém ali tinha visto antes.
— Já chega, Ivan! — Mizi gritou, a voz vibrando de ódio. Ela caminhou até ele, parando a poucos centímetros do seu rosto. — Você não tem o direito de falar assim com ela. Você não sabe de nada! A Sua é mil vezes melhor do que você jamais vai ser. Ela tem um mundo inteiro dentro dela que você, com essa sua arrogância e essa obsessão idiota pelo Till, nunca vai conseguir entender!
Ivan recuou um passo, surpreso com a agressividade de Mizi.
— Você defende ela como se... — começou Ivan.
— Eu defendo ela porque eu a amo, seu imbecil! — Mizi disparou, sem pensar nas consequências. — E se você abrir a boca pra falar mais uma palavra ofensiva contra ela, eu juro que você vai descobrir que meu cabelo não é a única coisa elétrica em mim.
Mizi virou as costas, pegou sua jaqueta e bateu a porta da frente com tanta força que os quadros na parede de Hyuna tremeram.
Houve um segundo de silêncio absoluto. Sua levantou-se, limpando as lágrimas do rosto com as costas das mãos. Ela olhou para o irmão com um desprezo que nunca sentira antes e, sem dizer uma palavra, correu em direção à porta.
Pela janela da sala, o grupo — Hyuna, Luka, Till e um Ivan atônito — observou a cena lá embaixo, na calçada iluminada pelos postes da rua.
Mizi estava caminhando a passos largos, chutando uma pedrinha, quando Sua a alcançou. Sua segurou o braço de Mizi, forçando-a a parar. Elas trocaram algumas palavras que quem estava lá em cima não conseguia ouvir, mas a linguagem corporal dizia tudo.
Lá embaixo, Mizi envolveu a cintura de Sua e a puxou para um beijo. Não foi um beijo escondido, nem um beijo de "estudos". Foi um beijo público, intenso, uma declaração de guerra contra o silêncio e contra as expectativas de qualquer um. As pontas azuis do cabelo de Mizi brilhavam sob a luz da rua, misturando-se à silhueta escura de Sua.
— Caraca... — murmurou Hyuna, encostada no vidro da janela. — A Mizi realmente não faz nada pela metade.
Luka ajeitou os óculos, observando as duas garotas se afastarem de mãos dadas pela calçada.
— A probabilidade de o Ivan ter estragado o clima do grupo é de cem por cento — comentou Luka —, mas a probabilidade de a Sua estar feliz pela primeira vez na vida parece ser igualmente alta.
Till, ao lado deles, apenas observava o vazio onde as duas estavam segundos antes. Ele sentiu uma pontada de inveja da coragem de Mizi, mas também um alívio estranho.
Lá fora, Mizi parou de caminhar por um segundo e olhou para Sua, que ainda estava um pouco trêmula, mas sorria.
— Você ouviu o que eu disse lá dentro? — perguntou Mizi, o tom de voz subitamente tímido.
— A parte em que você disse que me ama? — Sua perguntou, com um brilho travesso nos olhos roxos.
— É. Eu... eu não planejava dizer isso na frente do seu irmão idiota.
Sua se aproximou, enterrando o rosto no peito de Mizi, sentindo o coração da outra bater forte e rápido.
— Foi a melhor coisa que eu já ouvi — sussurrou Sua. — E, pra constar... eu também amo você, furacão cor-de-rosa.
Mizi riu, beijando o topo da cabeça de Sua. O sábado ainda era jovem, e embora tivessem deixado o caos para trás na casa de Hyuna, elas finalmente estavam caminhando na mesma direção, sem máscaras, sem silêncios e sem medo das cores que escolhiam ser.