Theo new girl
O Brilho da Pele e o Caos do Desejo
Após o turbilhão de emoções na casa de Hyuna, o trajeto até o apartamento de Mizi foi preenchido por um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som dos passos ritmados no asfalto e pelo calor das mãos entrelaçadas. A declaração de Mizi diante de Ivan ainda ecoava na mente de Sua como uma melodia de libertação. Pela primeira vez, o peso da melancolia parecia ter sido substituído por uma leveza desconhecida, quase assustadora.
Assim que cruzaram a porta, Mizi jogou a jaqueta no sofá e soltou um suspiro exagerado, jogando os braços para o alto.
— Finalmente! Longe daquele bando de malucos. Eu adoro a Hyuna, mas o clima lá estava mais tenso que corda de baixo do Till — Mizi riu, virando-se para Sua com os olhos dourados brilhando. — Hoje a noite é nossa, artista. Sem drama, sem Ivan, só a gente.
Sua sorriu, sentindo o rosto esquentar.
— O que você tem em mente?
— Tudo! — Mizi exclamou, pegando dois travesseiros grandes do sofá. — Primeiro, vamos desestressar.
Sem aviso, Mizi arremessou um dos travesseiros contra Sua. O impacto foi leve, mas o suficiente para tirar a garota pálida de seu estado contemplativo.
— Ei! — Sua protestou, tentando segurar o riso enquanto recuperava o travesseiro.
— É uma guerra, Sua! Defenda-se ou sofra as consequências! — Mizi gritou, correndo para trás da poltrona.
O que se seguiu foi uma sucessão de risadas e penas sintéticas voando pelo ar. Mizi se movia com a agilidade de um felino, saltando sobre os móveis, enquanto Sua, embora mais contida, revelou uma mira surpreendente. Elas acabaram caídas no tapete da sala, ofegantes e com os cabelos bagunçados. Mizi estava por cima de Sua, os braços apoiados de cada lado da cabeça da menor, observando-a com uma intensidade que fazia o coração de Sua martelar.
— Você fica tão linda quando está rindo — sussurrou Mizi, antes de deixar um beijo rápido na ponta do nariz de Sua.
Depois da bagunça, a energia mudou para algo mais calmo. Sua insistiu em tentar ensinar Mizi a desenhar. Elas se sentaram à mesa da cozinha com folhas de papel e lápis grafite.
— É simples, Mizi. Não tente desenhar o que você acha que vê, desenhe as formas — explicou Sua, guiando a mão de Mizi sobre o papel.
— Formas? Sua, eu só vejo rabiscos — Mizi reclamou, fazendo um bico adorável. — Olha isso, eu tentei desenhar um gato e parece um pneu murcho com orelhas.
Sua riu, a voz doce preenchendo o ambiente.
— Você está colocando muita força no traço. Tente ser mais... fluida.
— Eu não sou boa com coisas fluidas, eu sou direta — Mizi suspirou, largando o lápis e olhando para o desenho impecável que Sua estava começando. — Quer saber? Desisto da arte. Vamos para o meu terreno.
Mizi arrastou Sua para o quarto e ligou o console. O desafio agora era um jogo de luta frenético.
— É só apertar esses botões aqui? — perguntou Sua, olhando confusa para o controle cheio de gatilhos.
— Basicamente. Mas se você apertar tudo de uma vez, faz um combo — explicou Mizi, já concentrada na tela. — Vai, Sua! Me bate!
Sua, que nunca tinha segurado um controle na vida, começou a apertar os botões aleatoriamente. Para a surpresa de Mizi, a personagem de Sua desferiu uma sequência de golpes que quase zerou a barra de vida da campeã da escola.
— Não! Como você fez isso?! — Mizi gritou, rindo desesperada. — Isso é sorte de principiante!
— Acho que estou começando a gostar disso — disse Sua, com um brilho travesso nos olhos, vencendo a partida no último segundo.
Mizi jogou o controle na cama, fingindo indignação.
— Chega. Fui humilhada na minha própria casa. Vou tomar um banho para lavar a minha honra.
Mizi desapareceu no banheiro, deixando Sua sozinha com seus pensamentos. O relógio marcava quase duas da manhã quando Mizi saiu, já vestindo um pijama largo, com os cabelos rosa e azul úmidos e cheirando a shampoo de frutas.
— Sua vez, artista. Vai lá, que eu vou preparar um chocolate quente para a gente — disse Mizi, dando um tapinha encorajador no ombro de Sua.
Sua pegou sua bolsa e entrou no banheiro. A água quente ajudou a relaxar os músculos ainda tensos pela adrenalina da noite. Ela se demorou sob o chuveiro, deixando que o vapor limpasse não apenas a pele, mas a alma. Contudo, ao terminar de se secar, percebeu o erro fatal: na pressa e na confusão emocional, ela havia esquecido de pegar a muda de roupas limpas que Mizi prometera emprestar. Sua toalha estava pendurada no box, mas o armário de Mizi ficava do lado de fora.
Ela olhou para a porta, sentindo o rosto queimar.
— Mizi? — chamou ela, a voz um pouco abafada pelo som do exaustor.
Não houve resposta.
— Mizi! — chamou um pouco mais alto. — Você esqueceu de me dar a roupa!
Do lado de fora, Mizi, que estava distraída trocando a playlist no celular, ouviu apenas o chamado abafado. Com sua habitual falta de cerimônia e a mente voando em mil direções, ela presumiu que Sua já estava pronta e apenas precisava de ajuda com algo.
— Já vai, já vai! Não precisa gritar — Mizi disse, caminhando até o banheiro.
Sem bater, Mizi girou a maçaneta e empurrou a porta com tudo.
— O que foi, esquec...
A frase morreu na garganta de Mizi. O tempo pareceu congelar.
Sua estava parada no meio do banheiro, de costas para a porta. Ela tinha acabado de soltar a toalha para começar a se secar melhor, e o tecido ainda estava caindo em direção ao chão. A luz clara do banheiro refletia-se na pele pálida e impecável de Sua, destacando a curva delicada de sua coluna e a fragilidade de seus ombros.
Sua soltou um ganido de susto e girou rapidamente, tentando cobrir o corpo com as mãos, mas era tarde demais. Mizi estava estática, com os olhos amarelos arregalados, absorvendo cada detalhe da cena à sua frente. A vulnerabilidade de Sua, a pele alva contrastando com o vapor que ainda flutuava no ar, e a nudez completa eram mais do que os sentidos de Mizi podiam processar.
— Mizi! — Sua exclamou, o rosto atingindo um tom de vermelho que faria o cabelo de Mizi parecer pálido.
Mizi, finalmente saindo do transe, sentiu o sangue subir para o rosto com uma violência avassaladora.
— Meu Deus! Desculpa! Eu... eu achei que você já... — Mizi gaguejou, tropeçando nos próprios pés enquanto tentava fechar a porta. — Eu sou uma idiota! Mil desculpas, Sua!
A porta bateu com força. Sua encostou-se na parede fria do banheiro, o coração disparado, sentindo uma mistura de vergonha mortal e algo que ela não conseguia identificar. Ela não estava brava. O olhar de Mizi não tinha sido de escárnio, mas de uma admiração tão profunda que a deixara sem fôlego.
Do lado de fora, Mizi estava encostada na porta fechada, com as mãos cobrindo o rosto, tentando desesperadamente apagar a imagem que agora estava queimada em sua retina.
— Por que eu sou assim? Por que eu simplesmente não bati? — Mizi murmurava para si mesma, sentindo o coração martelar contra as costelas.
Alguns minutos depois, a porta do banheiro abriu-se apenas uma fresta. Uma mão pálida apareceu.
— Mizi... a roupa — a voz de Sua era pequena, quase um sussurro.
Mizi, ainda vermelha, correu até o armário, pegou a camiseta mais larga e o short mais confortável que encontrou e entregou a Sua sem ousar olhar para dentro do banheiro.
Quando Sua finalmente saiu, vestida com as roupas de Mizi que ficavam enormes nela, o clima no quarto era eletrizante. Nenhuma das duas conseguia olhar diretamente para a outra. Mizi estava sentada na beira da cama, mexendo nervosamente em uma mecha do cabelo.
— Sua... eu juro pela minha vida que não foi por querer — Mizi começou, a voz trêmula. — Eu sou uma songa monga, eu desligo o cérebro às vezes. Eu não queria te deixar desconfortável.
Sua caminhou lentamente até a cama e sentou-se ao lado de Mizi. Ela ainda estava corada, mas havia uma estranha calma nela.
— Eu sei que não foi por querer, Mizi.
Mizi finalmente levantou o olhar, encontrando os olhos roxos de Sua.
— É que... — Mizi hesitou, engolindo em seco. — Você é tão linda, Sua. De verdade. Eu já achava você a garota mais incrível do mundo, mas agora... eu sinto que meu coração vai explodir.
Sua sentiu um arrepio percorrer seu corpo. A honestidade brutal de Mizi era sempre o que a desarmava.
— Você não ficou... com nojo ou algo assim? — perguntou Sua, a insegurança de anos de melancolia aflorando.
Mizi arregalou os olhos, segurando as mãos de Sua com firmeza.
— Nojo? Você está brincando? Sua, você é perfeita. Cada pedacinho. Eu fiquei em choque porque eu nunca vi nada tão bonito na minha vida. Eu... eu só não queria que a primeira vez que eu te visse assim fosse um acidente.
Sua relaxou os ombros, deixando a cabeça cair no ombro de Mizi.
— Talvez os acidentes sejam a nossa especialidade — comentou Sua, soltando uma risadinha nervosa.
Mizi sorriu, sentindo a tensão começar a dissipar. Ela abraçou Sua por trás, enterrando o rosto em seu pescoço, que ainda cheirava a sabonete.
— Prometo que, da próxima vez, eu bato na porta. Ou melhor, você me convida.
Sua virou o rosto, ficando a poucos centímetros dos lábios de Mizi.
— E quem disse que precisa ter uma próxima vez no banheiro?
Mizi sentiu o desafio na voz de Sua. Ela não esperou. Selou seus lábios nos de Sua em um beijo que carregava todo o desejo reprimido da semana, toda a frustração da briga com Ivan e todo o encantamento do que acabara de presenciar. O beijo era profundo, urgente, uma conversa sem palavras sobre o quanto elas se pertenciam.
Elas caíram para trás na cama, emaranhadas nos lençóis e nas roupas largas de Mizi. O silêncio da noite era preenchido apenas pelo som da respiração descompassada e pelo sussurro das confissões.
— Eu te amo, Sua — Mizi disse, entre um beijo e outro.
— Eu também te amo, Mizi. Mesmo você sendo uma songa monga.
Mizi riu, puxando o edredom sobre as duas. O incidente no banheiro, que poderia ter sido um desastre, tornou-se apenas mais uma cor na paleta vibrante que elas estavam pintando juntas. Naquela noite, sob o brilho das luzes de LED e o calor do afeto, o rosa, o azul e o roxo finalmente encontraram o equilíbrio perfeito, transformando o caos de um tropeço no brilho de uma descoberta.