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Theo new girl

Entre Lençóis e Confissões Escarlates

O silêncio do quarto de Mizi era profundo, quebrado apenas pelo zumbido quase imperceptível do computador em modo de espera e pela respiração ritmada das duas garotas. Após a montanha-russa emocional da noite, o cansaço venceu a adrenalina. Elas haviam se acomodado na cama grande por volta das sete da noite, apenas para um "descanso rápido", mas o calor do corpo uma da outra e a sensação de segurança fizeram com que o sono as levasse sem aviso.

Sua mergulhou em um abismo de sonhos que não tinham nada da melancolia cinzenta de sua vida cotidiana.

No sonho, o quarto de Mizi parecia banhado por uma luz neon mais intensa, um roxo elétrico que pulsava como um coração. Ela sentia o peso de Mizi sobre si, mas não era um peso desconfortável; era uma âncora de desejo. Mizi, com seus cabelos rosa e azul espalhados como uma aura, a olhava com uma fome que era, ao mesmo tempo, avassaladora e infinitamente carinhosa.

As mãos de Mizi no sonho eram firmes, mapeando cada centímetro da pele pálida de Sua com uma possessividade que a fazia arfar. No sonho, Sua era um território sendo descoberto, uma passividade que não vinha da submissão, mas da entrega total. Mizi a beijava com uma urgência que tirava o ar, as mãos deslizando sob a camiseta, encontrando curvas que Sua sempre tentara esconder. O toque era quente, elétrico, e cada vez que Mizi sussurrava seu nome entre um beijo e outro, Sua sentia que ia se desintegrar. Mizi era a força ativa, o furacão que a guiava, mas havia uma doçura em seus olhos amarelos, um cuidado em cada toque mais ousado que fazia Sua se sentir a pessoa mais preciosa do universo.

O sonho escalou. O contato das peles, o ritmo dos corpos, a sensação de que o mundo lá fora não passava de um rascunho mal feito comparado àquela realidade vibrante. Mizi a conduzia por um labirinto de sensações novas, onde o prazer era uma cor que Sua nunca tinha visto.

Sua acordou com um solavanco, o coração batendo tão forte contra as costelas que chegava a doer.

Ela piscou, a visão ainda turva pelo sono, tentando separar a ficção da realidade. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelo brilho suave dos LEDs e pelo monitor do computador no canto. Ela olhou para o lado. A cama estava vazia.

Um pânico momentâneo a atingiu até que ela ouviu o som familiar de cliques rápidos de teclado e mouse. Ela se sentou devagar, sentindo o rosto queimar de uma forma que nunca sentira antes. A lembrança do sonho — de Mizi sobre ela, das mãos dela, do calor — atingiu sua mente como um trem de carga.

Ela olhou para o relógio digital na mesa de cabeceira: 21:24.

Mizi estava de costas, concentrada em um jogo de tiro, os fones de ouvido neon brilhando. Ela parecia tão... normal. Tão diferente da versão ativa e sedutora do sonho que Sua sentiu uma vertigem.

Percebendo movimento pelo canto do olho, Mizi girou a cadeira de rodinhas rapidamente.

— Opa! Acordou, bela adormecida? — Mizi disse, tirando os fones e deixando-os pendurados no pescoço. Ela exibiu aquele sorriso de canto que sempre desarmava Sua. — Você apagou legal. Eu tentei ficar deitada, mas eu tenho a energia de um esquilo com overdose de café, então vim jogar um pouco.

Mizi se levantou e caminhou até a cama. Conforme ela se aproximava, Sua sentia que ia entrar em combustão espontânea. Seus olhos roxos estavam arregalados e seu rosto estava em um tom de escarlate tão profundo que parecia que ela estava com febre.

— Caraca, Sua! — Mizi parou na beira da cama, franzindo a testa com preocupação genuína. — Você está bem? Você está mais vermelha que o meu cabelo! Tá sentindo dor? Tá com febre?

Mizi estendeu a mão para tocar a testa de Sua, mas a garota pálida recuou instintivamente, como se o toque fosse queimar.

— Eu... eu estou bem — gaguejou Sua, a voz saindo uma oitava mais alta que o normal.

— Bem? Você parece uma pimenta malagueta humana! — Mizi insistiu, sentando-se na beira do colchão. — O que foi? Teve um pesadelo? O Ivan apareceu no seu sonho pra te dar aula de álgebra?

Sua negou com a cabeça, desviando o olhar. Ela não conseguia encarar Mizi sem ver as cenas do sonho se sobrepondo à realidade. A imagem de Mizi sendo carinhosa e ativa no sonho era vívida demais.

— Foi só... um sonho estranho — murmurou Sua, puxando o edredom até o queixo.

Mizi estreitou os olhos amarelos, um brilho de curiosidade zombeteira surgindo.

— Um sonho estranho, é? — Mizi inclinou-se para frente, invadindo o espaço pessoal de Sua. — Pela sua cor, ou você sonhou que estava sendo perseguida por um monstro de queijo, ou... foi algo bem mais interessante. Conta aí, artista. Eu não vou te zoar. Bom, talvez só um pouco.

— Não é nada, Mizi. Esquece — Sua tentou se encolher ainda mais, mas Mizi não era do tipo que desistia fácil.

— Ah, qual é! A gente já passou da fase de segredos, não? Eu te defendi do seu irmão, a gente se beijou, eu te vi... bom, você sabe. — Mizi deu uma piscadela travessa. — Fala logo. Você sonhou com o quê? Com o Till cantando ópera? Com o Luka virando um rapper?

Sua sentiu que, se não falasse, Mizi continuaria chutando coisas absurdas até o amanhecer. O constrangimento era tanto que ela sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Num movimento súbito, Sua mergulhou completamente debaixo da coberta, criando uma pequena cabana de tecido escuro.

— Mizi, para! É vergonhoso! — a voz de Sua saiu abafada pelo edredom.

Mizi riu baixo, uma risada rouca e quente que fez os pelos dos braços de Sua se arrepiarem. Mizi se deitou por cima da coberta, abraçando o "pacote" que era Sua.

— Agora eu não saio daqui enquanto você não falar. Eu sou persistente, Sua. E eu moro sozinha, tenho todo o tempo do mundo.

Houve um longo silêncio dentro da cabana de edredom. Sua conseguia ouvir a própria respiração acelerada e sentir o peso reconfortante de Mizi sobre ela. Finalmente, a voz de Sua surgiu, bem baixinha, quase um sussurro confessional.

— Eu... eu sonhei com você.

Mizi parou de se mexer. O tom de zoeira sumiu de sua voz.

— Comigo? E por que isso te deixou parecendo um tomate? Eu estava fazendo algo ruim? Tipo... te obrigando a ouvir rock progressivo por dez horas?

— Não — disse Sua, a voz falhando. — Você estava sendo... carinhosa. Mas de um jeito... diferente.

Mizi começou a entender. Um sorriso lento e malicioso, mas cheio de afeto, espalhou-se por seu rosto. Ela puxou a ponta do edredom para cima, revelando apenas os olhos roxos e brilhantes de Sua, que pareciam querer desaparecer no travesseiro.

— Diferente como, estrela? — Mizi perguntou, a voz caindo para um tom aveludado.

Sua fechou os olhos com força, as palavras saindo em um atropelo, como se ela precisasse expulsá-las antes que a coragem acabasse.

— A gente estava... você sabe. Fazendo aquilo. E você era a... a ativa. Você estava por cima de mim, e era tão carinhosa, e você me tocava e dizia coisas... e era tão real, Mizi! Eu acordei e parecia que eu ainda conseguia sentir suas mãos.

Mizi ficou em silêncio por um momento, processando a confissão. Ela sentiu um calor súbito percorrer seu próprio corpo. A ideia de Sua sonhando com elas daquela maneira, com aquela intensidade, era mais do que ela esperava.

— E você gostou? — Mizi perguntou, a voz quase um sopro contra o tecido do edredom.

Sua abriu os olhos, encontrando o dourado intenso de Mizi. Ela não conseguia mentir, não para aqueles olhos.

— Eu amei — confessou Sua, a voz trêmula. — Foi o sonho mais bonito e assustador que eu já tive. Eu nunca tinha me sentido tão... desejada.

Mizi sentiu algo se romper dentro de si. Toda a zoeira, toda a pose de "aluna nova descolada" caiu por terra. Ela puxou o edredom completamente, expondo Sua, que tentou esconder o rosto com as mãos. Mizi segurou os pulsos dela gentilmente, afastando-os e prendendo-os contra o colchão, ficando exatamente na posição que Sua descrevera no sonho.

— Sabe, Sua... — Mizi começou, o rosto a centímetros do de Sua. — Eu posso não ter os poderes de entrar nos sonhos das pessoas, mas eu sou muito boa em transformar sonhos em realidade.

— Mizi... — Sua arquejou, o coração dando um salto.

— Se você gostou tanto da Mizi do sonho — continuou Mizi, beijando a ponta da orelha de Sua, fazendo-a estremecer —, eu acho que você vai adorar a Mizi da vida real. Porque eu garanto que eu sou muito mais carinhosa do que qualquer versão da sua imaginação.

Mizi soltou os pulsos de Sua e envolveu o rosto dela com as duas mãos, iniciando um beijo que não tinha nada de sonolento. Era um beijo que confirmava tudo o que Sua sentira no sonho: a liderança, o calor, a proteção.

Sua envolveu o pescoço de Mizi, puxando-a para mais perto, sentindo que o limite entre o que ela desejara e o que estava vivendo estava finalmente desaparecendo. A melancolia de Sua parecia uma memória distante, algo que não pertencia àquele quarto cheio de cores e batidas de coração aceleradas.

— Você é incrível, sabia? — Mizi sussurrou contra os lábios de Sua, após se separarem por um breve momento. — Mesmo quando está morrendo de vergonha.

— E você é uma convencida — Sua respondeu, com um sorriso tímido, mas genuíno.

— Sou mesmo. Mas sou a convencida que é louca por você — Mizi deitou-se ao lado dela, puxando-a para um abraço apertado. — Agora, chega de jogar. Acho que a gente tem muita coisa para "conversar" sobre esse seu sonho.

Sua escondeu o rosto no peito de Mizi, sentindo-se, pela primeira vez na vida, exatamente onde deveria estar. O relógio continuava marcando as horas, o mundo lá fora continuava com seus problemas e antagonistas, mas ali, entre lençóis e confissões escarlates, o rosa e o roxo criavam uma harmonia que nenhum sonho, por mais vívido que fosse, conseguiria superar.

— Mizi? — chamou Sua, já quase pegando no sono novamente, mas desta vez com um sorriso nos lábios.

— Oi?

— Não conta pro Ivan.

Mizi soltou uma gargalhada alta, que ecoou pelo quarto silencioso.

— Pode deixar, artista. Esse sonho é só nosso. E a continuação dele também.