Time bomb
O Labirinto de Porcelana
O sol da tarde de quarta-feira em Piltover era impiedoso. O calor refletia no asfalto limpo da cidade alta, criando aquela ilusão de ótica onde o ar parece vibrar. Jinx caminhava com passos incertos, sentindo o peso da mochila em seus ombros como se estivesse carregando pedras. As vitaminas que a mãe a obrigara a tomar pela manhã cumpriam o seu papel técnico: seu coração batia em um ritmo constante e ela não sentia mais aquele desfalecimento iminente, mas seus músculos pareciam feitos de gelatina. Ela tinha a coordenação de uma marionete com os fios frouxos.
Ela precisava de silêncio. Precisava fugir do burburinho constante do refeitório, onde as risadas de Lux e as piadas de Ezreal pareciam marteladas em sua cabeça. Jinx atravessou os portões do colégio e caminhou dois quarteirões até um estacionamento quase abandonado, um anexo de um prédio comercial em reforma. Era o seu refúgio particular. Entre o concreto cinza e o cheiro de óleo de motor, ela sentia que podia respirar sem o filtro sufocante da perfeição de Piltover.
Ela se sentou em um banco de madeira descascada, escondido atrás de uma coluna de concreto. Tirou um livro de sua mochila e tentou ler, mas seus dedos não paravam de tamborilar contra a capa. Seus olhos azuis, com as pupilas ainda dilatadas pelo coquetel de remédios, vagavam pelo pátio vazio.
O que ela não esperava era ver o SUV preto, robusto e impecavelmente limpo, estacionado a poucos metros dali. Era o carro de Ekko. Ele preferia estacionar ali justamente pelo isolamento; odiava o trânsito e a confusão da entrada principal do colégio.
Jinx não o viu se aproximar. Ela estava perdida no labirinto de seus próprios pensamentos até que uma sombra se projetou sobre as páginas do livro.
— Você tem o hábito de se esconder em lugares estranhos, sabia?
O susto foi tão violento que o livro escorregou das mãos de Jinx e caiu no chão. Ela deu um solavanco, encolhendo os ombros e puxando as mangas do casaco até esconder as pontas dos dedos, os olhos arregalados e fixos no rapaz à sua frente.
— Caramba, Jinx! — Ekko deu um passo para trás, as mãos levantadas em sinal de paz. — De novo? O que tem de errado com você hoje? Parece que eu sou um monstro pronto para te devorar.
Jinx tentou controlar a respiração, mas seus pulmões pareciam apertados. Ela se abaixou rapidamente para pegar o livro, evitando olhar para ele.
— Você caminha como um fantasma, Ekko. — Sua voz saiu aguda e trêmula. — O que está fazendo aqui? Este lugar é... é meu.
— O estacionamento é público — disse ele, aproximando-se e sentando-se na outra extremidade do banco, mantendo uma distância cautelosa. — E o meu carro é aquele ali. Eu que deveria perguntar o que você está fazendo aqui sozinha, com essa cara de quem viu o ceifador.
Ekko a observou de soslaio. A luz do sol realçava a palidez doentia de sua pele e o brilho artificial em suas pupilas. A Jinx que ele conhecia — ou a Jinx que ela fingia ser nos últimos anos — era barulhenta, caótica e desafiadora. Mas a figura sentada ali parecia uma boneca de porcelana que alguém havia colado às pressas após um tombo feio. Havia uma vulnerabilidade nela que o incomodava profundamente. Não era a fraqueza de alguém doente, era o medo de alguém acuado.
— Eu só queria ler — mentiu ela, apertando o livro contra o peito. — Em paz.
— Você está tremendo, Jinx. E suas pupilas... — Ele se inclinou um pouco mais, tentando ver o rosto dela sob o capuz. — Você tomou alguma coisa? Está drogada?
— Não seja idiota! — Ela tentou soar ríspida, mas a agressividade não tinha sustentação. — São só vitaminas. Minha mãe... ela se preocupa.
— Vitaminas não deixam ninguém nesse estado de pânico constante. — Ekko estreitou os olhos, focando no jeito que ela agarrava o próprio casaco, como se sua vida dependesse daquele tecido. — E por que você está com esse casaco nesse calor? Ontem na enfermaria eu vi aquelas bandagens.
— Eu já disse que caí! — Jinx levantou-se bruscamente, mas a tontura a atingiu como uma onda. Ela cambaleou e teve que se apoiar na coluna de concreto para não cair.
Ekko levantou-se num salto e parou diante dela. Ele estava cansado de desviar do elefante na sala. Aquela richa entre eles, as brigas e as provocações... tudo parecia insignificante diante do que ele estava sentindo agora: uma urgência visceral de descobrir quem estava machucando a menina que ele um dia amou.
— Desculpa — murmurou ele, o olhar fixo no braço dela.
— Pelo quê? — perguntou ela, confusa.
Antes que ela pudesse reagir, Ekko foi mais rápido. Com uma mão, ele segurou os dois pulsos de Jinx, prendendo-os com firmeza, mas sem usar toda a sua força. Com a outra, ele segurou o tecido do casaco e o puxou para baixo, expondo o antebraço esquerdo.
— Ekko, não! Para! — O grito de Jinx foi abafado, um som de puro desespero.
Ele ignorou os protestos. Com os dedos ágeis, ele deslizou a borda da bandagem branca que envolvia o pulso dela. O que ele viu fez seu sangue congelar. Sob a gaze, não havia um simples ralado de queda. Havia marcas lineares, hematomas em tons de roxo e amarelo que claramente não tinham sido causados por um chão de ginásio. Eram marcas de impacto. Marcas de chicotadas.
— O que é isso? — a voz de Ekko saiu rouca, carregada de horror. — Jinx, quem fez isso com você?
— Me solta! Por favor, Ekko, me solta! — Jinx começou a se debater, mas sua força era patética comparada à dele. Ela estava usando toda a energia que tinha, mas seus movimentos eram lentos, como se ela estivesse lutando debaixo d'água. — Ela vai saber... ela vai descobrir que você viu... para!
Ao perceber que não conseguiria se libertar, Jinx simplesmente desistiu. Seus ombros caíram e ela desabou de volta no banco, escondendo o rosto entre os braços, debruçada sobre os próprios joelhos. Foi um movimento de rendição total, o gesto de alguém que não tem mais para onde fugir.
E então, o choro veio. Não era o choro dramático de Jinx, era o soluço convulsivo e silencioso de Powder.
Ekko ficou parado por um momento, sentindo um peso insuportável no peito. O pânico dela era tão real que ele podia senti-lo no ar. Ele percebeu que, ao tentar ajudá-la, ele tinha se tornado mais um agressor aos olhos dela.
— Jinx... eu não vou te machucar. Eu juro. — Ele se ajoelhou na frente dela, mas ela se encolheu ainda mais, tentando se tornar invisível.
O choro dela começou a ficar mais forte, uma hiperventilação perigosa. Ela parecia não conseguir puxar o ar, o peito subindo e descendo em espasmos. Ekko sabia que não podiam ficar ali, expostos no estacionamento, se alguém passasse.
Sem dizer uma palavra, ele a pegou no colo. Jinx não ofereceu resistência; ela estava exausta demais, sua mente entregue ao choque. Ele a carregou até o seu carro, abriu a porta traseira e a colocou no banco de couro escuro, entrando logo em seguida e fechando a porta para criar um refúgio privado e silencioso.
Lá dentro, o cheiro de carro novo e o ar-condicionado desligado criavam uma bolha de isolamento. Jinx estava encolhida no canto do banco, o rosto ainda escondido, os soluços diminuindo para pequenos gemidos de angústia.
— Respira, Jinx. Só respira — disse ele, sentando-se ao lado dela, mas sem tocá-la de imediato. — Ninguém está vendo. Ninguém vai saber.
Ela levou um longo tempo para levantar a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, e o cabelo azul estava bagunçado, colado ao rosto pelas lágrimas.
— Você não entende... — ela sussurrou, a voz falhando. — Se eu não for perfeita... se eu der trabalho... ela precisa me consertar.
— Consertar? — Ekko sentiu uma onda de fúria atingir seu estômago ao pensar na mãe de Jinx. — Aquilo nos seus braços... foi ela? No seu quarto, ontem?
Jinx desviou o olhar imediatamente, o terror voltando a brilhar em seus olhos.
— Eu não posso falar. Se eu falar, eu estou sendo desobediente. E desobediência atrai a dor. — Ela abraçou as próprias pernas, balançando o corpo levemente para frente e para trás.
— Você não precisa ter medo de mim — disse Ekko, estendendo a mão e, desta vez, tocando o ombro dela com uma delicadeza extrema, como se ela fosse feita de vidro soprado. — Eu nunca, jamais, faria algo para te ferir. Você sabe disso, não sabe? No fundo, você lembra de quem eu sou.
Jinx olhou para a mão dele em seu ombro. Por um momento, a máscara da "Jinx" de Piltover rachou completamente, deixando transparecer apenas a criança perdida que ainda vivia dentro dela.
— Eu lembro — murmurou ela. — Mas tudo dói tanto, Ekko. O tempo todo. Minha cabeça parece cheia de nuvens e meu corpo... meu corpo não parece mais meu.
— É o que ela te dá, não é? O leite, as vitaminas... — Ekko estava conectando os pontos. — Ela te mantém dopada para você não reagir. Para você ser a bonequinha de porcelana que ela quer mostrar para a sociedade.
Jinx não confirmou, mas o silêncio dela foi a resposta mais clara que ele poderia receber. Ela estava com medo de confirmar, medo de que as paredes tivessem ouvidos e que sua mãe aparecesse com aquele sorriso gélido e o cinto de couro.
— Escuta — disse Ekko, aproximando-se um pouco mais —, nós vamos dar um jeito nisso. Você não pode voltar para aquela casa hoje.
— Eu tenho que ir! — Jinx se sobressaltou, o pânico voltando. — Se eu não chegar na hora, vai ser pior. Powder é uma menina boazinha, Powder não se atrasa...
— Para de me chamar assim, por favor! — O grito de Jinx, embora sem força física, cortou o ar do carro. Foi a primeira vez que ela demonstrou uma faísca da sua antiga personalidade, mas era uma faísca de dor.
Ekko recuou, surpreso.
— Desculpa. Eu não quis... eu não chamo mais você assim se você não gosta. — Ele suspirou, sentindo-se impotente. — Eu só quero te ajudar, Jinx.
— Ninguém pode me ajudar — disse ela, voltando a esconder o rosto. — O veneno já está na minha pele. Eu já estou quebrada.
— Você não está quebrada — afirmou ele, sua voz firme e cheia de uma convicção que Jinx não sentia há anos. — Você só está escondida. E eu vou ficar aqui até você se sentir segura o suficiente para sair.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo. O sol começou a baixar no horizonte, tingindo o interior do carro de tons alaranjados. Jinx, exausta pela descarga de adrenalina e pelo efeito dos remédios, começou a pender a cabeça para o lado. Ekko a segurou suavemente, deixando que ela apoiasse a cabeça em seu ombro.
Ali, naquele estacionamento vazio, a richa entre o "garoto prodígio" e a "garota problema" de Piltover não existia. Havia apenas dois jovens marcados pelo passado, um tentando desesperadamente segurar os pedaços do outro antes que o vento os levasse para sempre. Jinx fechou os olhos, sentindo o calor do corpo de Ekko, e por um breve momento, o som do cinto batendo no chão foi substituído pelo batimento cardíaco calmo de alguém que realmente se importava. Mas, no fundo de sua mente, ela sabia que o relógio estava correndo, e que a perfeição de Piltover exigia seu retorno, com ou sem as marcas sob o casaco.