Time bomb
O Silêncio das Bonecas de Vidro
O painel do carro de Ekko marcava o fim da tarde. O brilho digital dos números parecia zombar da urgência que começava a emanar de Jinx. Ela se empertigou no banco, os olhos azuis disparando em direção à janela, observando o movimento dos outros alunos que começavam a deixar o campus.
— Eu preciso ir. — A voz dela saiu estrangulada, um sussurro carregado de uma ansiedade que beirava o pânico. Ela avançou a mão trêmula em direção à maçaneta da porta. — Agora, Ekko. Abre a porta.
— Não, espera um pouco. — Ekko agiu por instinto, segurando o pulso dela antes que ela pudesse destravar o veículo. — Jinx, olha para mim. Você não pode simplesmente sair daqui depois do que eu vi e fingir que está tudo bem.
— Mas está tudo bem! — Ela começou a lutar contra o aperto dele, tentando alcançar a trava com a outra mão, mas o espaço confinado do carro jogava contra ela. — Você não entende! Se eu me atrasar, se ela chegar e eu não estiver lá... vai ser pior!
— Como eu vou saber que você vai ficar bem se eu te deixar ir para aquela casa? — Ekko aumentou o tom de voz, não por raiva dela, mas pela frustração de se sentir impotente. — Aquelas marcas... aquilo não é normal, Jinx! É loucura!
Jinx continuou a medir forças com ele por alguns segundos, mas a energia que as "vitaminas" da manhã lhe deram tinha se esgotado completamente. O esforço físico drenou o que restava de sua resistência. Subitamente, o corpo dela cedeu. Ela parou de lutar e desabou, ficando mole sobre o peito de Ekko, a cabeça pendendo sem forças contra o ombro dele.
Ekko a envolveu com os braços, sentindo o quão pequena e frágil ela parecia sob aquele casaco pesado. O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pela respiração errática da garota.
— Ela só fez aquilo porque eu fui fraca — murmurou Jinx contra o tecido da camiseta dele. — Eu desmaiei na frente de todo mundo. Eu mostrei vulnerabilidade, Ekko. Piltover não aceita isso. Minha mãe não aceita isso.
— Isso é doentio — sibilou Ekko, apertando-a um pouco mais. — Ninguém merece ser punido por passar mal.
— Eu preciso ir — repetiu ela, agora sem lutar, apenas pedindo. — Ela vai chegar em uma hora. Eu preciso estar esperando na calçada, impecável. Se eu não estiver lá, ela vai achar que eu estou escondendo algo. E quando ela acha que eu escondo algo, ela... ela "investiga".
Ekko fechou os olhos com força, sentindo uma queimação de revolta no peito. Ele queria levá-la para longe, para o esconderijo dos Fogolumes, para qualquer lugar onde aquela mulher não pudesse alcançá-la. Mas ele olhou para o estado de Jinx e soube que, se a forçasse a ficar, o terror psicológico a destruiria antes mesmo da mãe chegar.
— Tudo bem — cedeu ele, soltando-a lentamente e destravando as portas. — Mas eu vou com você até o portão.
Eles saíram do carro e caminharam lado a lado pelo estacionamento agora mais vazio. Jinx mantinha o capuz erguido, as mãos escondidas nos bolsos profundos. O contraste entre eles era gritante: Ekko, com sua postura atlética e olhar vigilante, e Jinx, que parecia uma sombra tentando se fundir ao asfalto.
— Você me odeia? — perguntou ela de repente, sem olhar para ele.
Ekko parou por um instante, pego de surpresa pela pergunta.
— O quê? Por que eu te odiaria?
— Por causa desses últimos anos — disse ela, a voz carregada de uma melancolia antiga. — Eu mudei. Eu virei essa... coisa estranha. Você sempre me olhou como se eu fosse uma decepção. E agora você me viu assim... toda quebrada. É mais fácil odiar do que sentir pena, não é?
— Eu nunca senti pena de você, Jinx — respondeu Ekko, voltando a caminhar e forçando-a a olhar para ele. — E eu nunca te odiei. Eu estava com raiva, sim. Raiva porque eu achei que você tinha escolhido nos esquecer. Mas agora eu vejo que você não escolheu nada. Você foi silenciada.
Jinx parou diante do portão principal da escola, onde os carros de luxo começavam a formar uma fila organizada.
— Ekko... o que você viu no estacionamento... — Ela hesitou, mordendo o lábio inferior. — Você tem que esquecer. Por favor. Se você contar para o diretor ou para a Lux, ela vai descobrir. E se ela for questionada, ela vai descontar em mim dobrado.
— Eu não posso esquecer, Jinx — disse ele, a voz firme. — Mas eu não vou fazer nada que te coloque em perigo imediato. Só... me diz que isso vai parar.
— Minha irmã mais velha, Vi, está voltando de uma viagem de intercâmbio da universidade — contou Jinx, um pequeno brilho de esperança cruzando seus olhos azuis pela primeira vez. — Ela chega em uns três dias e vai ficar um mês em casa. Quando a Vi está lá, a mamãe não faz nada. Ela é... perfeita. A Vi é a favorita, a forte. Com ela por perto, eu fico em paz.
Ekko sentiu uma pontada de revolta ainda maior.
— Então ela só faz isso com você? — perguntou ele, os punhos cerrados. — Ela usa a Vi como escudo de moralidade e você como saco de pancadas para as frustrações dela? Como se você fosse um objeto de vulnerabilidade que ela precisa esmagar?
Jinx não respondeu, mas o modo como ela desviou o olhar foi a confirmação mais dolorosa que Ekko poderia receber. Ele queria gritar, queria denunciar aquela farsa, mas viu o medo genuíno no rosto de Jinx e engoliu as palavras ácidas. Ele não queria deixá-la ainda pior.
— Eu estou aqui, Jinx — disse ele, segurando a mão dela por um breve segundo antes de soltar. — Se precisar de qualquer coisa... se as coisas ficarem ruins antes da sua irmã chegar... você sabe onde me encontrar.
— Obrigada, Ekko.
Ela se afastou, assumindo uma postura mais ereta conforme se aproximava da calçada. Em questão de segundos, o SUV preto da mãe de Jinx encostou suavemente junto ao meio-fio. A janela se abaixou, revelando o rosto perfeitamente esculpido da mulher, que ostentava um sorriso radiante e acolhedor.
— Pontual como sempre, minha querida Powder! — exclamou a mãe, a voz doce como mel. — Entre, o ar-condicionado está delicioso.
Jinx entrou no carro e fechou a porta. Ekko observou de longe, sentindo um calafrio ao ver a mãe de Jinx acariciar o rosto da filha com uma ternura que ele agora sabia ser puramente performática. O carro partiu silenciosamente, sumindo no tráfego de Piltover.
Dentro do veículo, a atmosfera era de uma calma surreal.
— Você se comportou maravilhosamente hoje, meu anjo — disse a mãe, sem tirar os olhos da estrada. — Fiquei sabendo que foi uma aluna exemplar nas aulas teóricas. É assim que eu gosto. Sem escândalos, sem fraquezas.
— Sim, mamãe — respondeu Jinx, as mãos postas sobre o colo, exatamente como fora ensinada.
Ao chegarem em casa, a rotina de "manutenção" começou. A mãe não permitiu que Jinx subisse para o quarto sozinha. No banheiro principal, com suas paredes de mármore e luzes quentes, a mulher despejou óleos essenciais na banheira.
— Vamos lavar esse cabelo, querida. Você cheira a suor e a... — a mulher farejou o ar com desdém — ...subferiferia. Aquele cheiro de óleo e metal que você insiste em buscar.
Jinx não disse nada enquanto a mãe a despia com dedos ágeis. Ela se sentia como um manequim. A mãe lavou seu cabelo com movimentos rítmicos, massageando o couro cabeludo de Jinx de uma forma que deveria ser relaxante, mas que para a garota parecia uma demonstração de controle absoluto. Cada escolha — a temperatura da água, o shampoo usado, a hora de sair — pertencia à mãe. Jinx era apenas o corpo que habitava aquele espaço.
Depois do banho, a mãe a vestiu com uma camisola de seda azul-clara e penteou seus cabelos ondulados até que brilhassem sob a luz do abajur.
— Viu só como você fica linda quando me obedece? — a mulher sorriu, beijando o topo da cabeça de Jinx. — Você é a minha bonequinha mais preciosa.
A noite caiu sobre a mansão, trazendo consigo o silêncio opressor das casas ricas. Jinx estava deitada em sua cama, os lençóis esticados sem uma única dobra. A porta se abriu e a mãe entrou, carregando o habitual copo de leite morno em uma bandeja de prata.
— Aqui está, querida. Para garantir que você tenha sonhos tranquilos e acorde renovada para ser a sua melhor versão amanhã.
Jinx pegou o copo. Ela sentia o calor do líquido através do vidro. Ela sabia que, minutos depois de beber, seus pensamentos começariam a flutuar e que a dor em suas costas se tornaria um eco distante. Ela não sabia exatamente o que havia ali — a mãe sempre dizia serem "sedativos leves para ansiedade" —, mas a dosagem daquela noite parecia menor. A mãe estava satisfeita com o comportamento de Jinx, então a "coleira" química estava um pouco mais frouxa.
— Boa noite, Powder — sussurrou a mãe, apagando a luz principal e deixando apenas o brilho fraco de uma luz noturna na tomada.
— Boa noite, mamãe — respondeu Jinx mecanicamente.
O som da porta se fechando e o clique da tranca externa — um detalhe que a mãe jurava ser "para a segurança dela" — marcaram o início do isolamento noturno. Jinx bebeu o leite, sentindo o gosto metálico familiar.
Enquanto a sonolência começava a envolvê-la, ela olhou para as unhas pintadas de rosa e azul, escondidas sob o cobertor. Na penumbra, aquelas cores eram as únicas coisas que a lembravam de quem ela era de verdade. Ela pensou em Ekko, na força do aperto dele no carro e na promessa de que ele não a odiava.
Pela primeira vez em muito tempo, antes que o remédio apagasse sua consciência, Jinx não pensou em como ser a boneca perfeita. Ela pensou em como seria a sensação de quebrar o vidro daquela caixa de porcelana e, pela primeira vez, simplesmente respirar.