Voltar ao resumo

Time bomb

O Batismo de Cinzas e Seda

A manhã de quinta-feira nasceu sob um céu pálido, quase desbotado, combinando com a brancura das cortinas no quarto de Jinx. O despertador não precisou tocar; o organismo dela já estava programado para despertar no exato momento em que a luz começava a ferir seus olhos. A rotina era um ritual sagrado de ocultação.

A mãe de Jinx entrou no quarto com a elegância de uma divindade intocável. Seus movimentos eram precisos enquanto ela ajudava a filha a se levantar. Não havia agressividade naquela manhã, apenas uma dedicação obsessiva. Ela aplicou uma nova camada da pomada fria nas costas de Jinx, cujas marcas ontem haviam sido reabertas pelo atrito, e depois cobriu tudo com bandagens frescas e adesivos que prometiam não deixar resíduos.

— Hoje você usará a blusa de gola alta, Powder — disse a mãe, alisando o tecido de algodão egípcio sobre o corpo da menina. — O azul combina com seus olhos e esconde qualquer palidez desnecessária. Você deve parecer radiante.

Jinx engoliu as vitaminas e o estimulante matinal sob o olhar vigilante da mulher. Ela sentiu o coração acelerar gradualmente, uma batida artificial que tentava expulsar a letargia do sedativo noturno. Enquanto a mãe trançava parte de seu cabelo ondulado, Jinx olhava para o espelho, mas não via a si mesma. Via apenas o projeto de perfeição que aquela mulher construía todos os dias.

***

O Colégio de Piltover fervilhava com a energia do final da semana. No pátio central, os alunos se dividiam em grupos, mas Jinx caminhava como se estivesse em uma bolha de isolamento. Seus olhos buscavam uma única figura entre os dreads brancos e as jaquetas esportivas.

Ela o viu perto da entrada da biblioteca. Ekko estava encostado na parede, conversando com alguns amigos, mas seu olhar estava atento, varrendo o corredor como se esperasse por algo. Quando seus olhos encontraram os dela, ele se despediu apressadamente do grupo e caminhou em sua direção.

Antes que ele pudesse dizer uma palavra, antes mesmo que ele pudesse perguntar como ela havia passado a noite ou formular qualquer saudação sarcástica, Jinx fez algo que rompeu todos os seus protocolos de segurança.

Ela se lançou para frente e o abraçou.

Foi um abraço desajeitado, o máximo de força que seus braços debilitados conseguiam exercer, mas carregado de uma urgência que fez o coração de Ekko falhar uma batida. Ele sentiu o corpo dela trêmulo contra o seu, o cheiro de sabonete caro e o leve odor metálico dos remédios que pareciam emanar de seus poros.

— Jinx? — Ekko retribuiu o abraço, envolvendo-a com seus braços fortes, tentando oferecer a estabilidade que ela claramente não possuía. — Está tudo bem? O que aconteceu?

Ela afundou o rosto no ombro dele por um segundo, permitindo-se sentir o calor humano real, tão diferente do toque frio e calculista de sua mãe.

— Ficou tudo bem — sussurrou ela, embora a voz soasse pequena. — Eu só... eu precisava saber que você ainda estava aqui. Que ontem não foi um sonho.

Ekko a afastou suavemente, apenas o suficiente para olhar em seu rosto. Ele notou que ela parecia mais "montada" do que o normal; a maquiagem escondia as olheiras, mas não o vazio no fundo das pupilas.

— Eu não vou a lugar nenhum — afirmou ele, mantendo as mãos nos ombros dela. — Como foi em casa? Ela fez algo?

— Não. — Jinx forçou um pequeno sorriso. — Ela estava... feliz. Disse que eu me comportei bem. Ela até me deu um banho de óleos.

Ekko sentiu um calafrio. Para qualquer outra pessoa, aquela frase soaria como um gesto de carinho materno, mas vindo de Jinx, soava como a descrição de um ritual de posse.

— A Vi chega em dois dias — continuou Jinx, os olhos brilhando levemente. — Eu só preciso aguentar mais um pouco. Quando ela chegar, tudo para.

— Eu espero que sim, Jinx. — Ekko suspirou, olhando ao redor para garantir que ninguém estava prestando atenção demais. — Se algo mudar, se você sentir que não consegue aguentar... me avisa. Eu dou um jeito de te tirar de lá, nem que eu tenha que derrubar aquela porta.

— Você é um idiota, Ekko — disse ela, com um traço da antiga Jinx voltando à voz. — Mas obrigada.

Eles conversaram por mais alguns minutos sobre coisas triviais — as notas de química, o projeto de mecânica, as fofocas de Lux e Ezreal. Por um breve momento, Jinx sentiu que poderia pertencer àquele mundo, que a boneca de porcelana poderia ganhar vida e fugir da prateleira.

***

O final do dia chegou com uma rapidez cruel. Quando o SUV preto estacionou em frente ao colégio, Jinx sentiu a máscara de Powder se ajustar automaticamente ao seu rosto. Ela se despediu de Ekko com um olhar rápido e entrou no carro.

O trajeto para casa foi silencioso, mas o silêncio era diferente. A mãe de Jinx não estava ouvindo música clássica, nem comentando sobre os eventos sociais de Piltover. Ela mantinha as mãos firmes no volante, os nós dos dedos brancos de tensão, e um sorriso estranho, quase imperceptível, brincava em seus lábios.

— Você parecia muito próxima daquele rapaz hoje, Powder — disse a mãe, a voz suave demais, calma demais.

O estômago de Jinx despencou.

— Ele é só um amigo de infância, mamãe. Estávamos falando sobre o projeto de ciências.

— Amigos são distrações — respondeu a mulher, parando o carro diante da garagem da mansão. — E distrações levam a erros. E erros... bem, você sabe o que acontece com erros nesta casa.

Ao entrarem na residência, a atmosfera mudou drasticamente. O ar parecia mais pesado, carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos do braço de Jinx se arrepiarem.

— Vamos para o banho, querida — anunciou a mãe, subindo as escadas sem olhar para trás. — Você precisa estar impecável para a chegada da sua irmã. Não queremos que ela veja você... desleixada.

No banheiro, o vapor da água quente já preenchia o ambiente. Jinx despiu-se mecanicamente, sentindo o frio do mármore sob os pés descalços. Ela entrou na banheira, deixando que a água quente envolvesse seu corpo dolorido. A mãe sentou-se no banco atrás dela, começando a ensaboar seus ombros com uma esponja macia.

O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som da água. Jinx fechou os olhos, tentando se concentrar na respiração, mas sentiu quando a massagem no couro cabeludo parou subitamente.

O toque suave transformou-se em uma garra de aço. A mãe de Jinx fechou a mão direita na raiz do cabelo azul da filha, puxando sua cabeça para trás com uma força brutal.

— Mãe? — Jinx gemeu, os olhos se abrindo em choque, tentando olhar para cima, para o rosto da mulher.

A expressão da mãe não era de raiva. Era de uma retidão gélida, como a de um juiz executando uma sentença necessária.

— Você está ficando indisciplinada, Powder. O mundo exterior está te contaminando.

Antes que Jinx pudesse formular um pedido de desculpas ou uma explicação, a mão da mãe desceu como um martelo. Ela empurrou a cabeça de Jinx para baixo, afundando-a completamente na água quente da banheira.

O pânico foi instantâneo. Jinx sentiu a água invadir seus ouvidos e o calor sufocante envolver seu rosto. Seus braços dispararam, batendo contra as laterais da banheira e contra os braços da mãe, mas ela não tinha força. O efeito dos remédios, a falta de alimentação adequada e o choque a tornavam inútil contra o domínio da mulher.

Um segundo. Dois segundos. Três segundos.

A mãe a puxou de volta para a superfície pela raiz do cabelo. Jinx emergiu tossindo, a água escorrendo pelo rosto, os olhos vermelhos e ardendo.

— Por favor... eu não... — Jinx tentou falar, mas o ar mal tinha chegado aos seus pulmões quando a mão da mãe a atingiu novamente.

Desta vez, o mergulho foi mais profundo e duradouro. Jinx sentiu o oxigênio queimar em seu peito. Seus pulmões gritavam por ar, e ela começou a se debater com um desespero animal, mas a mão da mãe era uma prensa inabalável. O corpo de Jinx, enfraquecido pela dependência química que a própria mãe alimentava, começou a perder a luta contra a água.

Dez segundos. Doze segundos. Quinze segundos.

Quando a mãe finalmente a puxou para cima, Jinx desabou contra a borda da banheira, expelindo água e ar em soluços violentos e ruidosos. Ela tremia tanto que o som de seus dentes batendo era audível no banheiro silencioso.

— Olhe para mim — ordenou a mãe, segurando o queixo de Jinx com uma força que deixaria marcas.

Jinx levantou o olhar, as lágrimas se misturando à água do banho.

— Sua irmã chega esta semana — disse a mulher, a voz agora sussurrada, perigosamente perto do ouvido de Jinx. — Se você ousar falar uma única palavra sobre os nossos "cuidados", se você ousar manchar a imagem desta família com suas mentiras de menina carente... eu farei com que você deseje nunca ter saído debaixo daquela água. Entendeu?

Jinx apenas assentiu, um movimento fraco e submisso. Ela não conseguia falar; sua garganta parecia cheia de espinhos.

— Ótimo. — A mãe sorriu e, como se nada tivesse acontecido, voltou a pegar a esponja. — Agora vamos terminar. Você precisa estar cheirosa para o jantar.

O restante do banho foi realizado com uma ternura aterrorizante. A mãe secou o corpo de Jinx com toalhas felpudas, aplicou loções hidratantes e vestiu-a com uma camisola de seda branca, imaculada. Jinx era novamente a boneca perfeita, embora seus pulmões ainda doessem e sua mente estivesse em pedaços.

No quarto, a mãe trouxe a bandeja de prata. O copo de leite estava lá, mas o cheiro metálico era muito mais forte do que nas noites anteriores.

— Beba tudo, meu anjo. Você teve um dia emocionante. Precisa descansar profundamente.

Jinx olhou para o líquido branco. Ela sabia o que aquilo significava. Uma dose forte. Um apagão que duraria até a manhã seguinte, garantindo que ela não tivesse pesadelos ruidosos ou pensamentos de fuga. Ela bebeu tudo, sentindo a língua ficar entorpecida quase instantaneamente.

A mãe a cobriu, beijou sua bochecha e apagou a luz.

— Eu te amo, Powder. Tudo o que eu faço é para o seu bem.

Quando a porta se trancou, Jinx sentiu o mundo começar a girar. O efeito da droga era como uma maré negra subindo rapidamente. Ela tentou pensar em Ekko, no abraço daquela manhã, mas a imagem dele parecia estar sendo puxada para o fundo de uma banheira escura e infinita.

"Três dias", ela pensou, enquanto a consciência se esvaía. "Só mais três dias até a Vi chegar."

Mas, no fundo de sua mente dopada, uma voz pequena e aterrorizada perguntava se sobraria algo dela para ser salvo quando a irmã finalmente cruzasse aquela porta. Jinx fechou os olhos e entregou-se ao esquecimento químico, enquanto o silêncio da mansão de Piltover voltava a reinar, inquebrável e mortal.