um recomeço
O Enigma de Kuu e o Segredo do Nikujaga
O escritório do Presidente da LME, Lory Takarada, nunca fora um lugar para conversas mundanas. Entre as decorações extravagantes e o mobiliário que parecia saído de um palácio europeu, Lory observava as telas à sua frente com um brilho astuto nos olhos. Ele não era apenas um mestre do entretenimento; ele era um mestre em ler as pessoas. E, nos últimos meses, o comportamento de seu "filho" adotivo e ator número um, Ren Tsuruga, e de sua nova estrela em ascensão, Kyoko Mogami, tinha saído de qualquer roteiro previsível.
— Sebastian — chamou Lory, ajustando sua capa de seda —, você percebeu como as sombras de Ren e Kyoko parecem se fundir mesmo quando eles estão em lados opostos de uma sala?
— O senhor se refere à química inegável entre eles, senhor? — respondeu o mordomo, mantendo a face impassível.
— Não é apenas química, meu caro. É... sincronia. Como se eles estivessem vivendo uma vida que ninguém mais conhece.
Lory pegou o telefone. Ele sabia que havia apenas uma pessoa no mundo cujos instintos eram tão aguçados quanto os dele para entender o que estava acontecendo com Ren. Cruzando o oceano com uma simples ligação, ele entrou em contato com Kuu Hizuri.
***
Três dias depois, o Aeroporto de Narita recebia um homem que exalava uma aura de realeza de Hollywood. Kuu Hizuri, disfarçado com óculos escuros e um chapéu elegante, caminhava pelo saguão com a energia de quem estava prestes a desvendar um mistério. Lory o havia alertado: "Ren está diferente. Ele está protetor, possessivo e, ouso dizer, feliz de uma forma que nunca vi. E a razão parece ser uma garota de dezesseis anos com o talento de uma veterana."
Kuu decidiu que não iria direto ao apartamento do filho. Ele queria ver Tóquio primeiro, sentir o ar da cidade que agora abrigava o coração de Ren. No entanto, o destino — ou talvez a sorte que sempre acompanhava os Tsuruga — tinha outros planos.
Enquanto caminhava por uma área residencial tranquila perto dos estúdios da LME, Kuu sentiu um aroma que o fez parar instantaneamente. Era o cheiro de dashi, gengibre e carne cozida lentamente. Um aroma que evocava memórias de sua própria casa, mas com um toque de perfeccionismo que ele raramente encontrava.
Seguindo o cheiro, ele chegou a uma pequena praça onde uma jovem estava sentada em um banco, cercada por várias marmitas cuidadosamente organizadas. Ela parecia estar esperando por alguém, mas aproveitava o tempo para conferir os temperos de um dos potes.
Kuu, agindo por puro instinto e uma fome súbita, aproximou-se.
— Com licença, jovem senhorita — disse ele, usando seu melhor japonês polido, embora com um leve sotaque. — Eu não pude evitar... esse aroma é absolutamente celestial. Você é uma chef profissional?
Kyoko Mogami levantou os olhos dourados, e por um momento, Kuu sentiu um choque. Aqueles olhos não eram os de uma adolescente comum. Havia neles uma profundidade, uma sabedoria e um brilho de determinação que ele só vira em grandes mestres da atuação.
— Oh! — Kyoko corou levemente, levantando-se e fazendo uma mesura. — Não, senhor. Eu sou apenas uma entusiasta da culinária. Eu estava preparando o almoço para um... um colega de trabalho que tem tido dias muito cansativos.
— Pois esse colega é um homem de muita sorte — comentou Kuu, sorrindo de forma encantadora. — Eu sou um viajante que acaba de chegar ao Japão e, confesso, meu estômago ainda não se ajustou ao fuso horário, mas clama por algo autêntico.
Kyoko, cujo coração sempre amolecia diante de alguém que apreciava comida feita com carinho, não hesitou. Ela pegou uma marmita extra que sempre carregava — por precaução, caso Ren estivesse com mais fome do que o normal.
— Por favor, senhor. Se não se importar em aceitar algo simples de uma desconhecida, eu ficaria honrada se provasse meu *nikujaga*.
Kuu aceitou o palitinho e provou uma pequena porção. Seus olhos se arregalaram. O sabor era equilibrado, profundo e carregado de uma intenção que ele só podia descrever como... amor.
— Isso é incrível — exclamou ele, genuinamente impressionado. — Você tem um dom, senhorita...
— Mogami. Kyoko Mogami — respondeu ela, sorrindo docemente.
— Pois bem, Mogami-san. Você restaurou minha fé na culinária japonesa moderna. É uma pena que os jovens de hoje não tenham mais esse tipo de dedicação.
Kyoko soltou uma risadinha.
— O senhor fala como se o mundo estivesse perdido. Mas o amor é a melhor linguagem para se comunicar, não acha? Através da comida, podemos proteger e cuidar daqueles que amamos.
Kuu assentiu, mas então seu rosto escureceu levemente, lembrando-se do motivo de sua viagem.
— Você tem razão. Infelizmente, meu filho parece ter se envolvido com alguém que me preocupa. Meu amigo em Tóquio diz que ele está agindo de forma estranha por causa de uma garota. Eu temo que seja apenas uma dessas jovens oportunistas que buscam brilho fácil à custa do sucesso alheio. Meu filho é um homem muito sério e protetor, ele pode ser facilmente enganado por um rosto bonito e um pouco de talento.
Kyoko sentiu um aperto no peito, sem saber que estava falando com o pai de Ren.
— Sinto muito por ouvir isso, senhor — disse ela, o tom de voz tornando-se sério. — Mas, às vezes, as pessoas mudam para melhor quando encontram alguém que as entende de verdade. Talvez essa garota não seja o que o senhor imagina. Se ela realmente o ama, ela faria qualquer coisa para protegê-lo também, não apenas o contrário.
Kuu suspirou, olhando para a marmita vazia.
— Talvez você tenha razão. Você é uma jovem muito sensata, Mogami-san. Se a namorada do meu filho fosse metade do que você é, eu voltaria para os Estados Unidos hoje mesmo sem preocupações.
Eles conversaram por mais alguns minutos sobre técnicas de cozimento e a importância de escolher os ingredientes certos. Kuu ficou encantado com a paixão de Kyoko. Antes de se despedir, ele agradeceu novamente.
— Espero que nos encontremos de novo, Mogami-san. Tóquio parece muito mais acolhedora agora.
***
A noite caiu sobre Tóquio, e Ren Tsuruga finalmente abriu a porta de seu apartamento. Ele estava exausto após um dia de filmagens intensas para "O Labirinto de Vidro", onde a presença de Sho Fuwa nos arredores do set o deixara em um estado de alerta constante. Sua possessividade em relação a Kyoko estava no auge, e tudo o que ele queria era envolver sua pequena atriz em seus braços e esquecer o resto do mundo.
— Kyoko? — chamou ele, sentindo o cheiro familiar de sua comida.
— Estou na cozinha, Ren! — respondeu a voz doce que era seu único refúgio.
Ren caminhou até lá e a abraçou por trás, enterrando o rosto em seu pescoço.
— Você não imagina o quanto eu precisei disso hoje — murmurou ele, as mãos grandes apertando-a contra seu corpo.
— Eu imagino, sim — disse Kyoko, virando-se para beijar sua bochecha. — O jantar está quase pronto. Mas, Ren... aconteceu uma coisa engraçada hoje. Eu conheci um senhor estrangeiro na praça. Ele era tão elegante e amável, mas parecia muito preocupado com o filho.
Antes que Ren pudesse perguntar mais, a campainha tocou.
— Você está esperando alguém? — perguntou Kyoko, curiosa.
Ren franziu a testa.
— Não. Ninguém tem a senha deste andar, exceto Yashiro e o Presidente.
Ele caminhou até a porta e abriu. Parado no corredor, com um sorriso vitorioso e os braços cruzados, estava Kuu Hizuri.
— Surpresa, meu filho — disse Kuu, entrando no apartamento sem pedir licença. — O Presidente me disse que você estava precisando de uma visita familiar para colocar a cabeça no lugar.
Ren ficou estático por um segundo, a máscara de "Cavalheiro Perfeito" quase falhando diante da surpresa.
— Pai? O que você está fazendo aqui?
— Vim ver com meus próprios olhos quem é a mulher que está transformando o grande Ren Tsuruga em um homem tão... vulnerável — disse Kuu, caminhando em direção à sala de estar.
Kyoko apareceu na porta da cozinha, ainda usando seu avental, com uma espátula na mão.
— Ren, quem é... — Ela parou abruptamente ao ver o homem da praça.
Kuu Hizuri sentiu o queixo cair. Ele olhou para Kyoko, depois para Ren, que imediatamente se moveu para o lado dela, colocando um braço protetor e possessivo ao redor de sua cintura.
— Você! — exclamou Kuu, apontando para Kyoko. — A senhorita do *nikujaga*?
— O senhor... o senhor é o pai do Ren? — gaguejou Kyoko, o rosto ficando vermelho como um tomate.
Ren olhou de um para o outro, confuso.
— Vocês já se conheceram?
— Conhecemos — disse Kuu, recuperando a compostura, embora seus olhos brilhassem com uma mistura de choque e diversão. — Eu passei a tarde reclamando da namorada do meu filho para a própria namorada do meu filho. E ela me deu de comer!
Ren apertou o abraço em Kyoko, o olhar tornando-se sério.
— Pai, eu não sei o que o Presidente te disse, mas Kyoko é a pessoa mais importante da minha vida. Se você veio aqui para criticá-la...
— Calma, Ren — interrompeu Kuu, aproximando-se e olhando para Kyoko com um novo respeito. — Eu disse a ela na praça que, se a namorada do meu filho fosse metade do que ela era, eu não teria com o que me preocupar. Parece que eu subestimei você, meu filho. Você não encontrou apenas uma namorada; você encontrou um tesouro.
Kyoko, recuperando sua coragem de atriz veterana, fez uma mesura profunda.
— Hizuri-san... peço desculpas por não ter me identificado. Eu não sabia...
— Não se desculpe, querida — disse Kuu, rindo. — O erro foi meu por ouvir as fofocas dramáticas do Lory. Embora, devo admitir, ver o Ren abraçado a você desse jeito... ele realmente parece um dragão protegendo seu ouro.
Ren não relaxou o braço.
— Eu sou. E desta vez, pai, não há nada no mundo que vá me fazer deixá-la. Nós passamos por muita coisa para chegar até aqui.
Kuu percebeu a intensidade nas palavras do filho. Havia algo ali que ele não entendia completamente — uma gravidade que parecia transcender a idade de ambos. Ele olhou para Kyoko, que segurava a mão de Ren com uma força igual.
— Eu vejo isso — murmurou Kuu. — Bem, já que estou aqui e já sei que a comida é de primeira classe... vocês vão convidar um velho pai para jantar ou vou ter que implorar?
***
O jantar foi uma mistura de tensão e revelações. Kuu observava cada interação. Ele notou como Ren servia Kyoko primeiro, como ele estava atento a cada pequena mudança em sua expressão, e como Kyoko retribuía com um cuidado que era quase maternal, mas tingido de uma paixão profunda.
— Então — disse Kuu, após uma generosa porção de arroz —, Mogami-san, o Ren me disse que você é a nova estrela da LME. Como é atuar ao lado do "Grande Tsuruga"?
Kyoko olhou para Ren e sorriu, um sorriso que fez o coração de Kuu se aquecer.
— É um desafio constante, Hizuri-san. Ren é um ator incrível, mas ele também é meu maior crítico e meu maior apoio. Atuar com ele é como... como voltar para casa. Nós nos entendemos sem precisar de palavras.
Ren pegou a mão dela por cima da mesa, ignorando a presença do pai.
— Ela é melhor do que eu, pai. Ela tem uma alma que brilha no palco. Eu só tento acompanhá-la para que ela não se perca no brilho.
Kuu soltou uma risada curta.
— Você está realmente apaixonado, Ren. Nunca pensei que veria o dia em que você admitiria que alguém é melhor que você.
— Não é apenas amor, pai — disse Ren, o tom de voz tornando-se sério. — É reconhecimento. Kyoko passou por provações que ninguém deveria passar, e ela se tornou mais forte por causa delas. Eu estou aqui apenas para garantir que ninguém nunca mais tente apagá-la.
Kuu assentiu lentamente. Ele começou a entender por que Lory estava tão intrigado. Havia uma maturidade naquele casal que desafiava a lógica.
— E quanto àquele rapaz? — perguntou Kuu, mudando de assunto. — O tal Sho Fuwa? Lory mencionou que ele tem sido um incômodo.
O clima na mesa esfriou instantaneamente. A aura possessiva de Ren voltou com força total, suas unhas cravando levemente na palma da mão.
— Sho Fuwa não é nada — disse Kyoko, sua voz firme, colocando a mão sobre a de Ren para acalmá-lo. — Ele é um capítulo do passado que se recusa a ser encerrado, mas ele não tem poder sobre nós. Ele tenta me atingir porque não suporta ver que eu não sou mais a garota que ele podia pisar. E ele odeia o fato de que o Ren é tudo o que ele nunca será.
Kuu ficou impressionado com a frieza de Kyoko ao falar do rival.
— Você tem garra, Mogami-san. Eu gosto disso.
— Ela tem mais do que garra, pai — disse Ren. — Ela tem a mim. E eu não vou permitir que ele chegue perto dela novamente. Eu já deixei isso claro para a agência dele e para o próprio Fuwa.
— Ren tem sido um pouco... protetor demais — comentou Kyoko com um brilho divertido nos olhos, tentando aliviar a tensão. — Ele quase causou um incidente diplomático no estúdio outro dia.
— Eu não fui protetor demais — retrucou Ren, olhando para ela com um desejo possessivo evidente. — Eu fui o necessário.
Kuu observava a troca de olhares. Ele via a devoção de Kyoko e a possessividade de Ren, e percebeu que eles não eram apenas um casal de jovens atores. Eles eram parceiros de alma, forjados em algo que ele ainda não conseguia compreender, mas que respeitava profundamente.
— Bem — disse Kuu, levantando-se ao final da refeição —, eu vim aqui esperando encontrar uma crise e encontrei um banquete. Ren, você cresceu. E Mogami-san... Kyoko... obrigado por cuidar do meu filho. Ele sempre foi um solitário, mesmo cercado de fãs. Ver que ele tem alguém que cozinha para ele com tanto amor e que o olha com tanta clareza... isso é tudo o que um pai pode pedir.
Kyoko levantou-se e fez uma mesura.
— É uma honra, Hizuri-san. Eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para que ele nunca mais se sinta sozinho.
Ren acompanhou o pai até a porta.
— Você vai ficar por quanto tempo? — perguntou Ren.
— Apenas mais alguns dias. Tenho filmagens em Londres. Mas voltarei para a estreia da peça de vocês. Quero ver essa "sincronia" de que o Lory tanto fala no palco.
Kuu parou e olhou para o filho uma última vez.
— Ela é especial, Ren. Não a perca.
— Eu morreria antes de deixá-la ir — respondeu Ren, com uma sinceridade que fez Kuu estremecer levemente.
Quando a porta se fechou, Ren voltou para a cozinha, onde Kyoko estava começando a recolher os pratos. Ele a abraçou por trás novamente, prendendo-a contra o balcão.
— Meu pai gosta de você — murmurou ele, beijando seu ombro. — Isso é um milagre, considerando o quão exigente ele é.
— Ele é um homem maravilhoso, Ren — disse Kyoko, virando-se em seus braços. — Agora eu sei de onde você tirou esse seu lado intenso. Mas, Ren... você foi muito possessivo na frente dele.
Ren sorriu, um sorriso sombrio e sedutor, aproximando o rosto do dela.
— Eu sou possessivo porque você é minha, Kyoko. Nesta vida e em qualquer outra. E eu quero que todos saibam disso, começando pelo meu pai e terminando com aquele idiota do Fuwa.
Kyoko envolveu o pescoço de Ren, puxando-o para um beijo que carregava a promessa de um futuro que eles estavam construindo tijolo por tijolo, refeição por refeição, cena por cena.
— Eu sou sua — sussurrou ela contra os lábios dele. — Sempre.
Lá fora, a noite de Tóquio continuava vibrante, mas dentro daquele apartamento, o tempo parecia ter parado. Eles haviam vencido mais um obstáculo. O passado estava sendo reescrito, e com o apoio de Kuu e a força de seu amor, Ren e Kyoko sabiam que o palco do mundo era pequeno demais para o que eles ainda iriam conquistar juntos. E, enquanto o aroma do *nikujaga* ainda pairava no ar, a certeza de que o destino estava finalmente a favor deles era a única coisa que importava.