um recomeço
O Eco do Primeiro Encontro
O estúdio de televisão estava mergulhado em uma luz azulada e vibrante, o tipo de iluminação que fazia tudo parecer um pouco mais glamoroso e surreal. Ren Tsuruga, sentado na poltrona de couro legítimo, cruzou as pernas com a elegância inata que o tornara o homem mais desejado do Japão. À sua frente, a apresentadora Koko-san, conhecida por sua língua afiada e perguntas invasivas, sorria como um predador que acabara de encurralar sua presa.
Nos bastidores, Kyoko Mogami observava o monitor com o coração martelando contra as costelas. Ela estava ali para uma breve participação promocional de *O Labirinto de Vidro* mais tarde no programa, mas, por enquanto, era apenas a espectadora de um Ren que parecia perigosamente relaxado.
— Tsuruga-san — começou Koko-san, inclinando-se para a frente —, você é conhecido por ser o "Cavalheiro Perfeito". Nunca um escândalo, nunca uma foto comprometedora. Mas ultimamente, seus olhos parecem carregar um brilho diferente. Existe alguém especial ocupando os pensamentos do nosso ator número um?
Ren soltou uma risada baixa, um som aveludado que fez a plateia soltar suspiros audíveis. Ele sabia que deveria dar a resposta padrão, a negação educada que mantinha sua vida privada sob sete chaves. Mas, ao olhar para a câmera, ele não viu milhões de telespectadores; ele viu Kyoko, a mulher que o salvara da escuridão em duas linhas do tempo diferentes.
— Na verdade — disse Ren, e o silêncio no estúdio tornou-se absoluto —, existe sim. Eu tenho uma namorada.
O choque foi quase físico. Koko-san arregalou os olhos, e um burburinho frenético começou a se espalhar pela plateia. Nos bastidores, Yashiro, o empresário de Ren, deixou o celular cair no chão, enquanto Kyoko sentiu o rosto queimar.
— Você... você acabou de admitir isso? — gaguejou a apresentadora, recuperando o fôlego. — Podemos saber quem é a sortuda? Ela é do meio artístico?
— Prefiro manter a identidade dela protegida por enquanto — respondeu Ren, seu tom de voz tornando-se suave, mas carregado de uma possessividade latente. — Ela é alguém que eu valorizo mais do que a minha própria carreira. Mas posso dizer que nossa história não começou agora.
— Oh? Uma história antiga? — Koko-san estava radiante com o furo jornalístico. — Conte-nos mais, Tsuruga-san. Como vocês se conheceram?
Ren recostou-se na poltrona, seus olhos perdendo o foco por um momento, mergulhando nas memórias de um passado que ele e Kyoko haviam recuperado por milagre.
— Eu a conheci quando éramos crianças. Eu estava passando por um momento muito sombrio na minha vida, sentindo-me perdido e cercado por expectativas que eu não conseguia cumprir. Eu estava em um lugar onde me sentia um estranho, um pássaro ferido. E então, eu a vi.
— Ela era uma criança também? — perguntou Koko-san, fascinada.
— Sim. Ela era como um raio de sol puro — continuou Ren, e um sorriso genuíno, aquele que ele raramente mostrava às câmeras, iluminou seu rosto. — Ela não sabia quem eu era, ou o peso que eu carregava. Ela simplesmente me viu como eu era. Ela me deu algo que eu pensei ter perdido para sempre: a capacidade de sorrir. Ela me deu uma "pedra mágica" para afastar a minha tristeza e disse que eu ficaria bem. Naquela época, ela foi a minha salvação.
Kyoko, assistindo dos bastidores, sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos dourados. Ela se lembrava do pequeno Corn, do menino loiro e triste que ela tentara consolar na floresta de Kyoto. Saber que, mesmo naquela época, ela significara tanto para ele, fazia seu peito transbordar.
— E vocês se reencontraram depois de adultos? — a voz da apresentadora estava quase trêmula de emoção.
— Sim — disse Ren, a voz tornando-se mais profunda. — O destino nos separou por muitos anos, e eu mudei muito. Tornei-me alguém que ela não reconheceria facilmente. Mas, quando nossos caminhos se cruzaram novamente, percebi que ela ainda era a mesma alma luminosa, embora tivesse passado por suas próprias batalhas e dores. Vê-la novamente, ver a força que ela desenvolveu e o talento avassalador que ela possui... foi como se todas as peças do quebra-cabeça da minha vida finalmente se encaixassem.
— Isso soa como um conto de fadas moderno — comentou Koko-san, limpando o canto do olho. — O que ela significa para você hoje, Tsuruga-san?
Ren olhou diretamente para a lente da câmera, e Kyoko sentiu como se ele estivesse olhando diretamente em sua alma, atravessando as paredes do estúdio.
— Ela é a minha bússola — afirmou ele, com uma intensidade que beirava o possessivo. — Eu passei muito tempo protegendo a imagem que o mundo criou de mim. Mas, com ela, eu não preciso de máscaras. Eu sou apenas o homem que a ama. Ela me ensinou que o amor não é sobre sacrifício unilateral, mas sobre crescermos juntos, protegendo um ao outro. Eu sou extremamente grato por ela ter voltado para a minha vida. E eu não pretendo deixá-la ir nunca mais.
O programa foi para o intervalo comercial, mas a internet já estava em chamas. Em questão de segundos, a hashtag #NamoradaDoTsuruga alcançou o topo dos tópicos mundiais. Teorias começaram a surgir a uma velocidade alucinante.
"Quem é a garota da pedra mágica?", "Ela deve ser uma herdeira de Kyoto!", "Tsuruga-san disse que ela tem talento... será uma atriz veterana que ele conheceu quando era ator mirim?"
Nos bastidores, Ren saiu do palco e foi direto para onde Kyoko estava. Ele ignorou os olhares chocados da equipe técnica e de Yashiro, que ainda tentava processar o desastre — ou milagre — de relações públicas que acabara de acontecer.
Ren parou diante de Kyoko e, sem dizer uma palavra, envolveu-a em um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço dela.
— Ren... você enlouqueceu? — sussurrou Kyoko, retribuindo o abraço e sentindo o calor protetor dele. — O mundo inteiro vai tentar descobrir quem eu sou agora.
— Deixe que tentem — murmurou Ren, as mãos grandes acariciando as costas dela com uma possessividade calma. — Eu cansei de fingir que meu coração não tem dona. Eu queria que eles soubessem que eu pertenço a alguém, mesmo que não saibam o seu nome ainda.
— O Presidente vai ter um ataque cardíaco — disse ela, embora estivesse sorrindo contra o peito dele.
— Lory vai adorar o drama — rebateu Ren, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dourados dela. — Você está brava comigo?
— Como eu poderia estar brava? — Kyoko tocou o rosto dele, os dedos traçando a linha da mandíbula que ela tanto amava. — Você me chamou de sol, Ren. E disse que eu te salvei. Mas a verdade é que você me salvou muito mais, especialmente desta vez.
— Nós nos salvamos, Kyoko — corrigiu ele, inclinando-se para beijar a testa dela.
— Tsuruga-san! Mogami-san! — Yashiro aproximou-se, gesticulando freneticamente com o tablet. — Vocês viram isso? Já existem fóruns dedicados a encontrar a "Garota da Pedra". Estão analisando todas as atrizes que nasceram em Kyoto ou que têm conexões com a sua infância. Ren, você criou um monstro!
— Um monstro que vai mantê-los ocupados — disse Ren, voltando à sua postura profissional, mas mantendo uma mão firmemente pousada no ombro de Kyoko. — Deixe que criem teorias. Enquanto eles procuram por uma sombra do passado, a verdadeira Kyoko estará brilhando bem na frente deles, e eles serão cegos demais para perceber até que estejamos prontos para contar.
Nesse momento, Sho Fuwa, que também estava no prédio para uma gravação de rádio, entrou no corredor lateral. Ele parou bruscamente ao ver a cena: Ren e Kyoko em uma proximidade que exalava intimidade e proteção. Ele segurava o celular, onde o vídeo da declaração de Ren ainda estava pausado.
— O que é isso? — rosnou Sho, avançando com os olhos injetados de raiva. — Tsuruga, que história é essa de "pedra mágica" e "infância"? Kyoko, o que você tem a ver com isso?
Kyoko endireitou a postura, sentindo a aura possessiva de Ren intensificar-se ao seu lado. Ela olhou para Sho com uma indiferença que parecia doer mais do que qualquer insulto.
— Sho-san, o que o Tsuruga-san diz em suas entrevistas não é da sua conta — respondeu ela, a voz clara e firme. — E, por favor, não grite. Estamos em um ambiente profissional.
— Não é da minha conta? — Sho riu, uma risada histérica. — Eu te conheço desde que você usava fraldas, Kyoko! Você nunca me deu pedra nenhuma! Você nunca foi o "sol" de ninguém além do meu!
Ren deu um passo à frente, colocando-se como uma barreira intransponível entre Sho e Kyoko. Sua altura e a frieza em seu olhar fizeram Sho recuar um passo.
— A diferença, Fuwa — disse Ren, a voz soando como um trovão contido —, é que você nunca soube olhar para ela. Você a via como uma ferramenta, enquanto eu a via como a minha vida. O passado que você compartilha com ela é baseado em egoísmo. O passado que eu compartilho com ela... bem, é algo que você nunca seria capaz de entender.
— Você está mentindo! — gritou Sho. — Kyoko, diga a ele! Diga que você veio para Tóquio por minha causa!
Kyoko olhou para Sho, e por um breve momento, as memórias da outra vida — as lágrimas, o trabalho escravo, a traição — passaram por seus olhos. Mas então, ela sentiu o toque da mão de Ren na sua, e a escuridão se dissipou.
— Eu vim para Tóquio para encontrar o meu destino, Sho — disse ela calmamente. — E, felizmente, o meu destino não tem nada a ver com você. Agora, se nos der licença, temos um programa para terminar.
Ela e Ren passaram por Sho, deixando o cantor paralisado no corredor, fervendo em sua própria impotência.
De volta ao palco para a parte final do programa, Kyoko foi apresentada como a coestrela de Ren. A tensão no estúdio era palpável. Cada olhar que Ren lançava a ela, cada vez que ele inclinava a cabeça para ouvir o que ela dizia, era analisado pela plateia e pelas câmeras.
— Mogami-san — disse Koko-san, com um brilho malicioso —, você é muito jovem, mas já está trabalhando de perto com o Tsuruga-san. O que você acha dessa revelação bombástica sobre a namorada dele?
Kyoko sorriu, a técnica de atuação que ela e Ren haviam refinado ao longo de duas vidas brilhando intensamente.
— Eu acho que qualquer mulher seria muito sortuda em ter alguém tão dedicado quanto o Tsuruga-san — respondeu ela, com uma modéstia perfeita. — No set, ele é um profissional exemplar e um mentor incrível. Ver esse lado humano dele... apenas me faz respeitá-lo ainda mais como colega.
Ren olhou para ela com um orgulho mal disfarçado. A dualidade dela — a capacidade de ser a namorada devotada nos bastidores e a colega profissional diante das câmeras — era o que o tornava cada vez mais possessivo. Ele queria gritar para o mundo que ela era a garota da pedra, que ela era a Julieta de sua vida real, mas sabia que o segredo era o que os protegia por enquanto.
Quando o programa terminou e eles finalmente entraram no carro de vidros escurecidos de Ren, o silêncio foi preenchido pelo suspiro de alívio de Yashiro.
— Ren, as redes sociais estão implodindo — disse o empresário, olhando para o tablet. — Há três teorias principais agora. A primeira é que a namorada é uma filha de um mestre de cerimônia de chá em Kyoto. A segunda é que é uma atriz que se aposentou jovem. E a terceira... bem, a terceira é que você inventou tudo isso para afastar as fãs obsessivas.
— Deixe que pensem o que quiserem — disse Ren, puxando Kyoko para o seu lado e deixando que ela apoiasse a cabeça em seu ombro. — A verdade é muito mais preciosa do que qualquer teoria.
— Ren — disse Kyoko suavemente —, você sabe que agora o Sho não vai descansar até tentar provar que sou eu, não sabe? Ele é vingativo quando o ego dele é ferido.
— Deixe-o tentar — respondeu Ren, beijando o topo da cabeça dela, sua voz carregada de uma promessa sombria e protetora. — Ele não é mais o protagonista da sua história, Kyoko. Ele é apenas um figurante barulhento. Se ele tentar te prejudicar, ele vai descobrir que o "Cavalheiro Perfeito" pode ser muito cruel quando alguém toca no que é dele.
Kyoko sorriu, sentindo-se segura naquele abraço. Ela sabia que a estrada à frente seria cheia de flashes, rumores e desafios, mas ela não era mais a menina ingênua de Kyoto. Ela era uma atriz talentosa, uma mulher amada e, acima de tudo, a dona do coração de Ren Tsuruga.
Naquela noite, enquanto Kyoko preparava um jantar especial para comemorar a "coragem" de Ren, ela olhou para a pequena pedra de Corn que mantinha em sua mesa de cabeceira. O eco do passado havia se tornado a melodia do presente.
— Você ouviu o que ele disse, Corn? — sussurrou ela para a pedra. — Ele disse que eu sou o sol dele.
E, no apartamento de Ren, o ator olhava para a mesma cidade que antes lhe parecia fria e vazia. Agora, cada luz de Tóquio parecia refletir o brilho dos olhos dourados de Kyoko. As teorias dos fãs continuariam, a busca pela "Garota da Pedra" se tornaria uma lenda urbana da indústria do entretenimento, mas para Ren, a busca terminara. Ele havia encontrado sua luz, e desta vez, ele a manteria brilhando para sempre, protegida sob a sombra de seu amor inabalável.