um recomeço
O Labirinto de Espelhos e a Vingança do Ídolo
O burburinho nos corredores da LME após a bombástica entrevista de Ren Tsuruga era quase ensurdecedor. Funcionários, estagiários e até outros atores sussurravam nos cantos, analisando cada frame da declaração do "Cavalheiro Perfeito". Kyoko, no entanto, mantinha sua máscara de profissionalismo impecável enquanto caminhava para a sala de ensaio. Por dentro, seu coração ainda dançava ao ritmo das palavras de Ren, mas sua mente de veterana já estava calculando os próximos passos de seu nêmesis.
Sho Fuwa não era alguém que aceitava a derrota silenciosamente. E, como se o destino estivesse ansioso para testar a paciência de Kyoko, ela o encontrou bloqueando a porta de sua sala de ensaio privada. Ele parecia exausto, com olheiras profundas sob os olhos, mas a arrogância habitual ainda estava lá, distorcida por um desespero maníaco.
— Você acha que é muito esperta, não é, Kyoko? — Sho cuspiu as palavras, avançando um passo. — Acha que pode se esconder atrás da fama daquele Tsuruga? Eu vi como você olhou para ele. Eu vi a pedra no seu quarto quando éramos crianças! Eu me lembro daquela droga de pedra azul!
Kyoko parou, cruzando os braços com uma calma que parecia irritar Sho ainda mais. Ela não sentia o medo paralisante da primeira linha do tempo; sentia apenas um tédio profundo.
— Sho-san, você está perdendo o seu tempo — disse ela, sua voz soando como seda fria. — O que eu faço com a minha vida, ou com quem eu escolho estar, não é da sua conta. Você deveria estar preocupado com o seu novo single, que, ouvi dizer, está caindo nas paradas.
— Cala a boca! — gritou Sho, batendo a mão na parede ao lado da cabeça dela. — Eu vou expor você. Vou contar para todos que a "promessa da atuação" da LME não passa de uma garota do interior que fugiu de casa para ser minha empregada! Vamos ver o que os fãs do Tsuruga vão achar quando souberem que a "Garota da Pedra" dele é uma aproveitadora que me perseguia!
Kyoko inclinou a cabeça, seus olhos dourados brilhando com um desafio perigoso.
— Tente. Mas antes de abrir a boca, lembre-se de que eu tenho dezesseis anos agora, Sho. Se você admitir publicamente que me trouxe para Tóquio para trabalhar ilegalmente para você enquanto eu deveria estar na escola, quem você acha que a polícia e a imprensa vão destruir primeiro?
Sho empalideceu. Ele não esperava que a Kyoko "submissa" tivesse dentes tão afiados. Antes que ele pudesse responder, uma presença avassaladora se materializou no corredor.
— Algum problema aqui? — A voz de Ren Tsuruga era como o início de uma tempestade.
Ele não estava apenas caminhando; ele parecia estar reivindicando o espaço. Ren parou ao lado de Kyoko, sua mão pousando de forma possessiva e firme na cintura dela, puxando-a para o seu lado com uma autoridade que não deixava margem para dúvidas.
— Tsuruga... — Sho rosnou, mas recuou instintivamente diante da aura intimidadora do ator.
— Eu acredito que fui claro no estúdio, Fuwa-san — disse Ren, seus olhos escuros fixos nos de Sho com uma intensidade letal. — Se você incomodar a Mogami-san novamente, eu não vou apenas acabar com a sua carreira. Eu vou garantir que você nunca mais consiga um contrato neste país. E acredite, eu tenho influência para isso.
— Vocês não podem me ameaçar! — Sho tentou manter a pose, mas sua voz falhou.
— Não é uma ameaça — interveio Kyoko, sorrindo de forma doce e cruel ao mesmo tempo —, é um spoiler do seu futuro se você não sair daqui agora.
Humilhado e tremendo de raiva, Sho deu meia-volta e saiu pisando fundo pelo corredor. Ren soltou um suspiro pesado, relaxando a tensão nos ombros, mas não soltou a cintura de Kyoko. Pelo contrário, ele a apertou mais contra si.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz agora carregada de uma preocupação carinhosa. — Ele tocou em você?
— Estou bem, Ren — disse ela, virando-se nos braços dele e apoiando as mãos em seu peito. — Ele é apenas um latido sem mordida agora. Mas ele está começando a ligar os pontos sobre a pedra de Corn.
Ren fechou os olhos por um momento, encostando a testa na dela. A possessividade dele era palpável, um escudo invisível que ele erguia sempre que se sentia ameaçado de perdê-la.
— Eu não me importo se o mundo souber que é você, Kyoko. Meu único medo é que o ódio das fãs ou a obsessão do Fuwa te machuquem. Eu quero te proteger de tudo, mas às vezes sinto que o mundo é grande demais para eu cobrir com meus próprios braços.
— Você já faz o suficiente, meu cavalheiro — sussurrou Kyoko, ficando na ponta dos pés para beijar o canto da boca dele. — E lembre-se: eu não sou mais aquela menina indefesa. Eu sou uma atriz da LME. E hoje, eu vou cozinhar o seu prato favorito para celebrarmos nossa pequena vitória.
***
Naquela noite, o apartamento de Ren estava envolto no calor reconfortante que apenas a presença de Kyoko trazia. O som do óleo chiando na panela e o aroma de temperos frescos eram a trilha sonora da paz que eles tanto lutaram para conquistar. Kyoko estava concentrada, movendo-se pela cozinha com a graça de uma dançarina, enquanto Ren a observava da bancada, segurando uma taça de vinho e um olhar de adoração pura.
— Sabe — disse Ren, quebrando o silêncio —, o Presidente me ligou. Ele quer que façamos uma sessão de fotos conjunta para uma revista de moda de alto luxo. O tema é "Amor Proibido".
Kyoko parou de mexer o refogado e olhou para ele, surpresa.
— "Amor Proibido"? Lory-san está realmente se divertindo com os boatos, não está?
— Ele é um gênio do marketing, infelizmente — admitiu Ren, levantando-se e caminhando até ela. — Mas a ideia é usarmos a nossa química no palco para alimentar o mistério. Ele quer que o público se pergunte se a "Garota da Pedra" é você, sem nunca confirmarmos oficialmente.
Ren abraçou-a por trás, circulando sua cintura e apoiando o queixo em seu ombro, observando a comida.
— O que você acha? — perguntou ele, sua voz vibrando contra o pescoço dela. — Você se sente confortável em brincar com fogo diante das câmeras comigo?
Kyoko inclinou a cabeça, aproveitando o carinho.
— Com você, Ren, eu não tenho medo do fogo. Mas... se vamos fazer isso, eu quero que seja perfeito. Quero que cada foto mostre a eles que, não importa quem seja a garota da sua história, ela é a única que importa para você.
Ren virou-a em seus braços, seus olhos brilhando com uma intensidade possessiva que sempre fazia o coração de Kyoko disparar.
— Você é a única, Kyoko. Em todas as vidas.
Ele a beijou, um beijo que começou doce e logo se tornou profundo, carregado com a urgência de quem sabia o valor de cada segundo recuperado. Kyoko se perdeu no abraço dele, sentindo-se a mulher mais protegida e amada do mundo.
***
O dia da sessão de fotos chegou sob um céu cinzento de Tóquio, mas o estúdio estava em chamas. A equipe de estilistas havia preparado roupas que beiravam o gótico vitoriano: Kyoko usava um vestido de renda preta e seda carmesim, com o cabelo estilizado em ondas clássicas que a faziam parecer uma boneca de porcelana assombrada. Ren estava em um terno de corte impecável, todo preto, parecendo um aristocrata sombrio e perigoso.
O fotógrafo, um homem excêntrico chamado Mr. D, gritava instruções enquanto as luzes piscavam.
— Mais emoção! — exclamava ele. — Tsuruga-san, você é o guardião dela, o homem que a roubou do mundo! Mogami-san, você é a sua alma, a única coisa que o mantém humano!
Ren puxou Kyoko para perto, suas mãos grandes espalmadas nas costas dela, pressionando-a contra seu peito. A diferença de altura entre eles apenas enfatizava a aura protetora dele. Kyoko olhou para cima, encontrando os olhos de Ren, e por um momento, o estúdio desapareceu. Não havia fotógrafos, luzes ou maquiadores. Havia apenas o homem que a amava e o futuro que eles estavam construindo.
— Você é minha — sussurrou Ren, tão baixo que apenas ela ouviu, enquanto o obturador da câmera disparava freneticamente.
— E você é meu — respondeu ela, seus dedos enlaçando a nuca dele.
A sessão foi um sucesso absoluto. As fotos capturaram uma intimidade tão crua e real que até os assistentes de fotografia ficaram em silêncio, sentindo-se intrusos em um momento privado.
No entanto, nos bastidores, o clima mudou quando Yashiro entrou correndo, segurando o celular com uma expressão de pânico.
— Ren! Kyoko! Vocês precisam ver isso agora!
No vídeo que circulava nas redes sociais, Sho Fuwa aparecia em uma coletiva de imprensa improvisada na frente da agência dele. Ele parecia transtornado.
— "A Garota da Pedra"? — dizia Sho para os microfones. — Eu sei exatamente quem ela é. E eu tenho provas de que a LME está usando uma menor de idade para encobrir o comportamento obsessivo do seu ator principal! Kyoko Mogami não é uma atriz, ela é uma fugitiva que eu tentei ajudar, e agora Ren Tsuruga a mantém sob seu controle!
O estúdio ficou em silêncio sepulcral. A acusação era grave. Sho estava jogando sujo, distorcendo a verdade para transformar o amor de Ren em algo sinistro e a carreira de Kyoko em um escândalo de manipulação.
Kyoko sentiu uma onda de frio percorrer sua espinha, mas antes que a dúvida pudesse se instalar, ela sentiu a mão de Ren apertar a sua.
— Ele cruzou a linha — disse Ren, sua voz soando como gelo quebrando. Sua aura de "Cavalheiro Perfeito" havia desaparecido completamente, dando lugar ao homem possessivo e protetor que não aceitaria mais ataques à sua mulher.
— Ren, o que vamos fazer? — perguntou Yashiro, suando frio. — Se a imprensa acreditar nisso...
— A imprensa só acredita no que pode ver — disse Kyoko, recuperando sua compostura. Sua mente de atriz veterana estava trabalhando a mil por hora. — Sho acha que pode me usar como uma vítima. Ele esqueceu que eu sou a protagonista da minha própria vida agora.
Ela olhou para Ren, uma ideia brilhando em seus olhos dourados.
— Ren, o Presidente Lory ainda está no prédio?
— Sim, ele está acompanhando a edição das fotos — respondeu Ren, confuso.
— Ótimo. Vamos usar o "Amor Proibido" para destruir o Sho. Se ele quer um escândalo, vamos dar a ele uma história que ele não vai conseguir refutar.
***
Uma hora depois, uma transmissão ao vivo foi anunciada nas redes sociais oficiais da LME. O Japão parou. Milhões de pessoas se conectaram simultaneamente para ouvir a resposta ao "escândalo Fuwa".
Kyoko e Ren estavam sentados lado a lado em um sofá elegante no escritório de Lory. Eles ainda usavam as roupas da sessão de fotos, o que lhes dava uma aura de realeza e drama. Lory Takarada estava atrás deles, com as mãos nos ombros de ambos, parecendo o patriarca de uma dinastia poderosa.
— Boa noite a todos — começou Kyoko, sua voz calma e perfeitamente modulada. — Recentemente, declarações difamatórias foram feitas a meu respeito e a respeito do Tsuruga-san. Gostaria de esclarecer a verdade, não como uma "vítima", mas como uma mulher que sabe exatamente onde quer estar.
Ela olhou para a câmera com uma sinceridade avassaladora.
— Eu vim para Tóquio, sim. Mas não fugi para ser sombra de ninguém. Eu vim para buscar o meu sonho de atuar. E no caminho, reencontrei a única pessoa que sempre acreditou em mim, mesmo quando éramos apenas crianças em Kyoto.
Ren pegou a mão dela e a levou aos lábios, beijando-a diante de milhões de espectadores. O gesto foi tão natural e carregado de afeto que o argumento de "controle" de Sho começou a desmoronar instantaneamente.
— Kyoko Mogami é a minha luz — declarou Ren, olhando para a câmera com uma autoridade inabalável. — Ela não é uma menor sendo manipulada; ela é a atriz mais talentosa da sua geração e a mulher que eu tenho a honra de chamar de minha namorada. Se Sho Fuwa-san está preocupado com o bem-estar dela, ele pode ficar tranquilo. Ela está exatamente onde deveria estar: ao meu lado.
Lory Takarada deu um passo à frente, sorrindo para a câmera.
— E como Presidente da LME, gostaria de anunciar que as fotos que vocês viram hoje não são apenas para uma revista. Elas são o prelúdio da nossa nova campanha contra o bullying e a difamação na indústria. Quanto às acusações de Fuwa-san... nossos advogados já entraram com um processo por calúnia e difamação. A LME protege os seus.
A transmissão terminou, e o impacto foi imediato. A opinião pública virou-se contra Sho Fuwa em uma velocidade estonteante. O público amava uma história de amor que vencia a inveja, e a imagem de Ren e Kyoko, unidos e poderosos, tornou-se o novo padrão de "casal real" do Japão.
De volta ao silêncio do escritório, Kyoko soltou um longo suspiro de alívio.
— Você foi incrível, Kyoko — disse Lory, batendo palmas. — Essa performance... foi melhor do que qualquer drama que eu já produzi.
— Não foi uma performance, Presidente — disse Kyoko, olhando para Ren. — Foi a verdade.
Ren a puxou para um abraço, ignorando a presença de Lory e Yashiro. Ele a apertou com tanta força que ela quase perdeu o fôlego, mas Kyoko não se importou. Ela se sentia em casa.
— Acabou, não é? — perguntou ela suavemente.
— Para o Sho, sim — respondeu Ren, beijando o topo da cabeça dela. — Ele nunca mais vai conseguir te tocar. Eu garanti isso.
Naquela noite, enquanto voltavam para casa, a neve começou a cair novamente sobre Tóquio. Dentro do carro, Kyoko encostou a cabeça no ombro de Ren.
— Sabe o que eu mais gosto nesta nova vida, Ren? — perguntou ela.
— O quê?
— Que eu não precisei esperar anos para saber que você me amava. E que eu não precisei ser destruída para aprender a brilhar.
Ren entrelaçou seus dedos com os dela, levando a mão de Kyoko ao seu coração.
— Você sempre brilhou, Kyoko. Eu apenas tive a sorte de ser o homem que recebeu a sua luz. E eu prometo que, enquanto eu respirar, nada vai apagar esse brilho.
O carro seguiu pelas ruas iluminadas, deixando para trás os ecos de um passado que não tinha mais poder sobre eles. O labirinto de espelhos da fama ainda estava lá, mas agora, Ren e Kyoko caminhavam por ele de mãos dadas, refletindo apenas o amor e a proteção que haviam vencido o próprio tempo. A história deles estava apenas começando, e desta vez, o roteiro era escrito por eles, com cada palavra sendo uma promessa de eternidade.