um recomeço
O Vento de Kyoto e a Promessa sob a Neve
O escritório de Lory Takarada ainda ecoava com o silêncio triunfante após a transmissão ao vivo. O Presidente da LME, adornado com uma capa de veludo bordada com fios de ouro que faria qualquer pavão sentir inveja, observava seus dois pupilos com um brilho de satisfação paternal. Ele sabia que tinha em mãos não apenas o casal mais poderoso da indústria, mas duas almas que pareciam ter dobrado a realidade à sua vontade.
— Vocês foram magníficos — declarou Lory, fazendo um gesto dramático com as mãos. — O Japão não está apenas assistindo a uma carreira nascer; eles estão assistindo a uma lenda ser escrita. Mogami-kun, sua coragem diante das câmeras foi... transcendental.
Kyoko fez uma mesura modesta, mas seus olhos dourados brilhavam com uma confiança que não pertencia a uma jovem de dezesseis anos.
— Eu apenas disse o que precisava ser dito, Presidente. Não posso permitir que mentiras obscureçam o que o Tsuruga-san construiu.
Ren, que não havia soltado a mão de Kyoko desde o fim da transmissão, apertou os dedos dela com delicadeza. A possessividade dele, que antes era uma chama contida, agora ardia abertamente. Ele não se importava mais com quem via.
— O senhor sabe que o Sho não vai aceitar isso passivamente, Lory — disse Ren, sua voz assumindo aquele tom baixo e perigoso que ele reservava para ameaças reais. — O processo por calúnia é apenas o começo. Quero que a LME monitore cada passo dele. Se ele tentar se aproximar da Kyoko novamente, eu não responderei por mim.
Lory soltou uma risada sonora, embora seus olhos permanecessem astutos.
— Oh, Ren, meu querido filho... o Sho Fuwa agora é um pássaro com as asas cortadas. A opinião pública o transformou no vilão de um conto de fadas em menos de vinte minutos. Mas você tem razão. Segurança é prioridade. Yashiro já está coordenando uma equipe discreta para acompanhar a Mogami-kun em todos os sets de filmagem.
— Eu não preciso de guarda-costas, Ren — protestou Kyoko suavemente, olhando para o namorado. — Eu sei me cuidar.
— Eu sei que sabe — respondeu Ren, virando-a para ele e ignorando completamente a presença de Lory e Yashiro no recinto. Suas mãos subiram para o rosto dela, polegares acariciando as maçãs do rosto com uma ternura possessiva. — Mas eu não suporto a ideia de você sentir um segundo de desconforto por causa dele. Você é o meu tesouro, Kyoko. E eu protejo o que é meu.
Kyoko sentiu o calor subir pelo pescoço. Ela amava quando ele era protetor, amava a sensação de ser o centro do universo dele.
— Tudo bem — cedeu ela, com um sorriso travesso. — Mas você terá que me compensar por ter três homens de terno me seguindo até o banheiro.
Ren sorriu, um sorriso que raramente chegava aos jornais — íntimo, quente e carregado de promessas.
— Eu compensarei. Com juros.
***
Nos dias que se seguiram, a "Febre Mogami" atingiu níveis sem precedentes. As fotos da campanha "Amor Proibido" foram espalhadas por outdoors gigantes em Shibuya e Shinjuku. A imagem de Kyoko, envolta em seda carmesim e nos braços de um Ren Tsuruga que parecia pronto para queimar o mundo por ela, tornou-se icônica.
No entanto, em meio ao caos da fama, Kyoko sentia falta da simplicidade. Ela sentia falta do cheiro da floresta de Kyoto e da paz que existia antes de Sho Fuwa destruir sua primeira vida.
Em uma noite de folga rara, Ren a levou para um jantar privado em um restaurante tradicional japonês que pertencia a um velho amigo de sua família. O lugar era cercado por um jardim zen, onde a neve caía silenciosamente sobre as pedras e as lanternas de papel emitiam uma luz âmbar acolhedora.
Eles estavam sentados em uma sala privativa, o chão de tatame exalando um aroma relaxante. Kyoko observava Ren enquanto ele servia o chá com a precisão elegante de um mestre.
— Você está pensativa hoje — observou Ren, colocando a xícara diante dela.
— Eu estava lembrando de Corn — confessou ela, tocando levemente a pedra azul que agora carregava em um pingente discreto por dentro da roupa. — De como você era triste naquela época. E de como, nesta vida, conseguimos mudar tudo antes que a tristeza nos consumisse.
Ren estendeu a mão sobre a mesa, entrelaçando seus dedos com os dela.
— Nós mudamos o destino, Kyoko. Mas eu ainda sinto que estou em dívida com você. Você sacrificou sua juventude em Kyoto para me seguir na outra vida, e nesta, você se jogou aos leões da imprensa para me defender.
— Não foi um sacrifício, Ren — disse ela, os olhos dourados fixos nos dele. — Foi uma escolha. Eu escolheria você em mil vidas, em mil linhas do tempo diferentes. Cozinhar para você, atuar ao seu lado... isso é o que me faz sentir viva.
Ren sentiu aquele aperto familiar no peito, a mistura de adoração e o desejo de escondê-la do resto da humanidade. Ele se levantou e caminhou até o lado dela, sentando-se no tatame e puxando-a para o seu colo. Kyoko se acomodou naturalmente, encostando a cabeça em seu ombro.
— Eu tenho um presente para você — sussurrou ele, retirando um pequeno envelope do bolso do paletó.
Kyoko o abriu com curiosidade. Dentro, havia duas passagens para Kyoto e uma reserva em um ryokan isolado nas montanhas.
— Ren! — exclamou ela. — Mas a nossa agenda...
— Eu já resolvi com o Lory — interrompeu ele, beijando o topo da cabeça dela. — Teremos três dias. Só nós dois. Quero que você veja Kyoto não como o lugar de onde fugimos, mas como o lugar onde nossa história realmente começou. Quero criar novas memórias lá. Memórias que não envolvam o Sho ou o ryokan da família dele.
Kyoko sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos.
— Você é incrível.
— Eu sou apenas um homem tentando manter o sol ao meu lado — respondeu ele, apertando o abraço.
***
A viagem para Kyoto foi como um sonho lúcido. Eles viajaram disfarçados, com Ren usando óculos de armação grossa e um gorro, e Kyoko com uma peruca longa e castanha que mudava completamente seu perfil. Para o mundo, eram apenas um casal de estudantes universitários em férias. Para eles, era a primeira vez que podiam caminhar de mãos dadas sem o peso das câmeras.
Eles visitaram a floresta onde se conheceram pela primeira vez. A neve cobria as raízes das árvores antigas, criando um tapete branco e silencioso.
— Foi aqui — disse Kyoko, parando perto de um riacho congelado. — Você estava sentado naquela pedra, parecendo que o mundo inteiro tinha caído sobre seus ombros.
Ren olhou para o local, uma sombra de melancolia cruzando seu rosto por um segundo, antes de ser substituída pelo calor ao olhar para a mulher ao seu lado.
— Eu era apenas um menino perdido. E você apareceu com aquela energia avassaladora, me dando uma pedra e me dizendo que a dor passaria.
— E passou? — perguntou ela, sorrindo.
Ren parou de caminhar e a puxou para frente dele, segurando sua cintura com firmeza. O ar frio da montanha fazia a respiração deles criar pequenas nuvens de vapor.
— Levou tempo. E levou um acidente sobrenatural para eu perceber que a cura não era a pedra, Kyoko. A cura era você.
Ele se inclinou, selando seus lábios em um beijo que carregava o gosto do frio e o calor de uma devoção eterna. Kyoko envolveu o pescoço dele, sentindo a possessividade de Ren se manifestar na forma como ele a segurava, como se temesse que ela pudesse desaparecer no ar gélido da floresta.
— Prometa-me uma coisa — pediu Ren, afastando-se apenas alguns centímetros, seus olhos escuros fixos nos dela com uma intensidade que a fazia tremer.
— O que você quiser.
— Prometa que, não importa o quão alto sua carreira chegue, ou o quanto o mundo tente nos separar, você sempre voltará para mim. Que eu serei sempre o seu porto seguro, assim como você é o meu.
— Eu prometo, Ren — disse ela, a voz firme e cheia de emoção. — Eu sou sua. Em todas as cenas, em todos os palcos, e em todos os momentos de silêncio. Eu sou sua.
Naquela noite, no ryokan, Kyoko decidiu que era a sua vez de cuidar dele. Ela pediu permissão para usar a cozinha da estalagem e preparou um banquete de pratos tradicionais de Kyoto, mas com o toque pessoal que só ela sabia dar. O cheiro de dashi e vegetais frescos preenchia a sala privada enquanto Ren observava, fascinado pela forma como ela se movia.
— Você não precisava cozinhar, Kyoko — disse ele, embora seus olhos brilhassem de antecipação. — Estamos de férias.
— Cozinhar para você é a minha linguagem de amor, Ren — respondeu ela, colocando os pratos cuidadosamente sobre a mesa baixa. — Ver você comer o que eu fiz me dá mais satisfação do que qualquer aplauso no teatro.
Eles comeram em uma intimidade profunda, trocando histórias sobre as filmagens e planos para o futuro. Ren, movido pelo ambiente e pela presença dela, começou a falar sobre seus pais e sobre a pressão de ser o filho de Kuu Hizuri.
— Às vezes eu sinto que, se não fosse por você, eu teria me tornado apenas uma sombra do meu pai — confessou ele, servindo-se de mais um pouco do cozido de Kyoko. — Mas você me vê como Ren. Não como Tsuruga, não como o filho de Kuu. Apenas Ren.
— Porque o Ren é o homem que eu amo — disse ela simplesmente. — O ator é brilhante, mas o homem que se preocupa se eu estou com frio, o homem que fica com ciúmes quando o Sho respira perto de mim... esse é o homem por quem eu atravessei o tempo.
Ren soltou uma risada baixa, o som vibrando no peito.
— Eu sou tão óbvio assim?
— Você é extremamente possessivo, Tsuruga-san — brincou ela, embora houvesse um brilho de adoração em seus olhos. — Mas eu não mudaria nada em você.
Depois do jantar, eles foram para a varanda externa, onde um ofurô de madeira exalava vapor contra o ar frio da noite. Eles se sentaram lado a lado, envoltos em yukatas grossos, observando a lua refletida na neve.
— O que acontece agora? — perguntou Kyoko, encostando a cabeça no peito de Ren. — Sho está arruinado, nossas carreiras estão decolando... o que vem a seguir?
Ren a abraçou por trás, cruzando os braços sobre o peito dela, mantendo-a aquecida.
— Agora, nós vivemos — respondeu ele. — Sem o peso do arrependimento. Vamos atuar nos melhores filmes, vamos viajar pelo mundo, e vamos mostrar a todos que o amor não precisa ser uma tragédia para ser épico.
Ele virou o rosto dela para o dele, a luz da lua realçando a beleza etérea de Kyoko.
— Eu quero me casar com você, Kyoko — disse ele, a declaração saindo de forma natural, mas carregada de uma gravidade absoluta. — Não hoje, talvez nem este ano. Mas eu quero que você saiba que este é o meu objetivo final. Quero que você seja minha esposa, a mãe dos meus filhos e a parceira da minha vida até que a morte nos encontre de verdade.
Kyoko sentiu o coração falhar uma batida. O Ren da outra vida teria levado anos para dizer aquelas palavras. O Ren desta vida, forjado na dor e na segunda chance, não perdia tempo.
— Sim — respondeu ela, a voz em um sussurro emocionado. — Sim, Ren. Eu quero tudo isso com você.
Eles ficaram ali, sob a neve de Kyoto, dois viajantes do tempo que finalmente haviam encontrado seu destino. O passado era apenas uma sombra distante, e o futuro era um horizonte brilhante que eles caminhariam juntos.
***
No dia seguinte, antes de voltarem para Tóquio, eles fizeram uma última parada em um pequeno templo local. Kyoko comprou um *ema*, uma placa de madeira para escrever desejos.
Ren observou enquanto ela escrevia com caligrafia cuidadosa. Ele esperava algo sobre a carreira dela ou sobre o sucesso do filme. Mas, quando ela pendurou a placa, ele leu as palavras:
"Que em cada vida que tivermos, eu sempre encontre o caminho de volta para os seus braços."
Ren não disse nada. Ele apenas a puxou para um abraço, ali mesmo, no pátio do templo, sob o olhar curioso de alguns monges. Ele a beijou com uma intensidade que dizia tudo o que as palavras não podiam expressar.
A viagem de volta para Tóquio foi silenciosa, mas carregada de uma nova energia. Eles não eram mais apenas um casal enfrentando um escândalo; eram uma unidade inquebrável.
Ao chegarem na LME, Yashiro os recebeu com uma pilha de novos roteiros e uma expressão de exaustão feliz.
— Bem-vindos de volta! — exclamou o empresário. — O mundo não parou enquanto vocês estavam fora. Temos convites para festivais internacionais e... bem, parece que o Sho Fuwa finalmente se retirou da vida pública. A agência dele rescindiu o contrato esta manhã.
Kyoko olhou para Ren, e ambos sentiram um peso final sendo levantado de seus ombros. A vingança, que antes era o motor de Kyoko, havia sido substituída por algo muito mais poderoso: a felicidade.
— Ótimo — disse Ren, pegando os roteiros. — Agora, vamos trabalhar. Temos uma lenda para construir, não é, Mogami-san?
Kyoko sorriu, o brilho em seus olhos dourados mais forte do que nunca.
— Sim, Tsuruga-san. Vamos mostrar a eles do que somos capazes.
Enquanto caminhavam pelos corredores da agência, lado a lado, a aura que emanavam era de puro poder e sincronia. Eles eram os donos do palco, os mestres do tempo e, acima de tudo, os guardiões um do outro. O vento de Kyoto ainda soprava em suas memórias, mas o futuro de Tóquio pertencia inteiramente a eles. E desta vez, sob a neve ou sob o sol, a promessa que fizeram seria a única verdade eterna em um mundo de ilusões.