um recomeço
O Segredo das Estrelas e o Aroma da Redenção
O sol da manhã filtrava-se pelas janelas panorâmicas do novo apartamento de Ren, um espaço que, embora minimalista e elegante, agora exalava o calor inconfundível de um lar. Na cozinha, Kyoko Mogami movia-se com a precisão de uma maestrina. O som rítmico da faca contra a tábua de madeira e o chiado suave da panela de pressão criavam uma melodia que, para Ren Tsuruga, era mais harmoniosa do que qualquer trilha sonora de cinema.
Ele a observava da soleira da porta, ainda vestindo seu robe de seda escura, os cabelos levemente bagunçados pelo sono. Ver Kyoko ali, usando um de seus aventais que ficava visivelmente grande demais para sua estatura pequena, trazia-lhe uma paz que ele nunca julgou possível nesta ou na vida anterior. Sua possessividade, antes uma chama torturante de medo, agora era um cobertor quente e protetor.
— Você está me encarando de novo, Ren — disse Kyoko, sem desviar os olhos dos legumes que cortava. — O café está pronto na mesa.
Ren caminhou até ela, envolvendo sua cintura por trás e enterrando o rosto na curva de seu pescoço. Ele inalou o perfume dela — uma mistura de pêssegos e o leve aroma de gengibre que sempre a acompanhava.
— Eu não consigo evitar — sussurrou ele, a voz rouca pelo despertar. — Às vezes, ainda temo que, se eu piscar, acordarei naquele hospital um ano no futuro, sem você ao meu lado.
Kyoko soltou a faca e virou-se nos braços dele, passando as mãos pelo rosto esculpido do homem que amava. Seus olhos dourados brilhavam com uma determinação inabalável.
— Nós mudamos o roteiro, Ren. O destino não é mais o nosso diretor; nós somos. — Ela sorriu, dando-lhe um beijo rápido no nariz. — Agora, sente-se. Preparei um café da manhã reforçado. Temos uma reunião importante com o Presidente Lory hoje.
***
Horas depois, na sede da LME, o clima era de eletricidade pura. Kyoko, agora oficialmente reconhecida como a "Atriz Prodígio da Década", caminhava pelos corredores ao lado de Ren. Eles não escondiam mais a proximidade, embora mantivessem um profissionalismo impecável diante das câmeras. No entanto, a forma como Ren colocava a mão na base das costas de Kyoko sempre que alguém se aproximava demais era um sinal claro para todos: ela era dele.
Ao entrarem na sala de Lory Takarada, foram recebidos por uma explosão de penas e música clássica. O Presidente estava em pé sobre sua mesa, apontando para um monitor gigante.
— Meus queridos! Minhas estrelas cintilantes! — exclamou Lory, saltando da mesa com uma agilidade surpreendente. — O Japão está aos seus pés! "O Labirinto de Vidro" quebrou todos os recordes de bilheteria na primeira semana!
— Ficamos felizes com o resultado, Presidente — disse Ren, mantendo a calma habitual, embora houvesse um brilho de orgulho nos olhos ao olhar para Kyoko.
— Mas não é apenas sobre bilheteria! — Lory girou, sua capa de lantejoulas refletindo a luz. — Mogami-kun, você recebeu uma oferta que vai mudar tudo. Um diretor de Hollywood, um velho conhecido meu, viu suas cenas de antagonista e ficou obcecado. Ele quer você para o papel principal em um suspense psicológico internacional.
Kyoko sentiu o coração disparar. Na vida anterior, o caminho para o reconhecimento internacional fora longo e doloroso. Agora, aos dezesseis anos, a porta estava se abrindo.
— Hollywood? — perguntou ela, a voz falhando por um segundo.
— Sim! — Lory aproximou-se, baixando o tom para um sussurro dramático. — Mas há um porém. Eles querem você lá em duas semanas para os testes finais e ensaios. E o contrato exige exclusividade total por seis meses.
O silêncio caiu sobre a sala. Kyoko sentiu a tensão irradiar de Ren instantaneamente. A mão dele, que repousava em seu ombro, apertou-se levemente. Seis meses longe um do outro, agora que finalmente haviam se reencontrado e consolidado sua relação, parecia uma eternidade cruel.
— Seis meses? — Ren repetiu, a voz perigosamente fria. — Isso é um tempo considerável para uma atriz tão jovem estar sozinha em um país estrangeiro.
— Ela não estaria sozinha, Ren — retrucou Lory, observando a reação do ator com um olhar astuto. — Ela teria a melhor equipe. Mas entendo sua preocupação... protetora.
Kyoko olhou para Ren. Ela viu o conflito em seus olhos escuros — o desejo de vê-la brilhar e a necessidade possessiva de mantê-la sob sua proteção. Ela sabia que, se pedisse, ele moveria céus e terras para ir com ela, mas Ren também tinha seus próprios compromissos contratuais no Japão.
— Ren — disse ela suavemente, pegando a mão dele —, podemos conversar a sós por um momento?
Lory, percebendo que o drama estava atingindo seu ápice, fez um gesto magnânimo.
— Claro! Usem a minha sala de meditação anexa. O café e o chá são por conta da casa!
***
Dentro da sala pequena e silenciosa, Ren soltou um suspiro pesado. Ele caminhou até a janela, observando a linha do horizonte de Tóquio.
— Você quer ir, não quer? — perguntou ele, sem se virar.
Kyoko caminhou até ele, abraçando-o pelas costas e pressionando o rosto contra o tecido fino de seu terno.
— É uma oportunidade incrível, Ren. Mas eu odeio a ideia de ficar longe de você. Especialmente agora, quando Sho ainda está tentando se reerguer das cinzas e o mundo parece tão instável.
Ren virou-se, prendendo-a contra a parede de vidro. A intensidade em seu olhar era avassaladora.
— Eu morro de medo de te perder de novo, Kyoko. Não para a morte, mas para a distância. O que aconteceu no passado... o acidente... ele me deixou cicatrizes que a memória não apaga. A ideia de você estar do outro lado do oceano, onde eu não posso te alcançar em minutos se algo der errado...
— Eu não sou a mesma Kyoko de antes, Ren — disse ela, segurando o rosto dele com firmeza. — Eu tenho a experiência de uma mulher que já viveu essas dores. E eu tenho o seu amor me fortalecendo. Seis meses são apenas um piscar de olhos comparado à eternidade que temos pela frente.
Ren fechou os olhos, encostando a testa na dela. A possessividade dele lutava contra o orgulho que sentia pelo talento dela.
— Eu vou te ligar todos os dias — disse ele, o tom de voz tornando-se uma promessa sombria. — E se eu sentir que você não está segura, eu pego o primeiro jato para Los Angeles, contratos que se danem.
Kyoko riu, uma risada clara e doce que dissolveu parte da tensão.
— Eu esperaria nada menos do meu imperador protetor. Mas, Ren... eu tenho uma condição para aceitar esse papel.
— Qual?
— Quero que você venha comigo na primeira semana. Lory pode arranjar isso como uma "viagem de negócios" ou consultoria. Quero que você veja onde vou morar, quem vai trabalhar comigo. Quero que você deixe sua marca lá, para que todos saibam a quem eu pertenço.
Um sorriso lento e predatório surgiu nos lábios de Ren. A ideia de marcar seu território em Hollywood agradava seu lado mais possessivo.
— Isso eu posso fazer com prazer.
***
Nos dias que antecederam a viagem, Kyoko dedicou-se a uma tarefa que considerava sagrada: preparar um estoque de refeições congeladas e temperos caseiros para Ren. Ela passou horas na cozinha, garantindo que ele tivesse o sabor de seu amor em cada refeição, mesmo quando ela não estivesse lá para cozinhar pessoalmente.
— Você está exagerando, Kyoko — disse Ren, observando-a rotular o décimo pote de *nikujaga*. — Eu posso contratar um chef.
— Não é a mesma coisa — rebateu ela, selando o pote com determinação. — Um chef cozinha com técnica. Eu cozinho com a alma. Quero que, toda vez que você comer isso, lembre-se de que estou voltando para você.
Ren aproximou-se, tirando o avental dela e puxando-a para um abraço apertado.
— Eu não preciso de comida para lembrar disso. Cada batida do meu coração é um lembrete.
Naquela noite, antes da partida, eles compartilharam um momento de intimidade silenciosa na varanda do apartamento. Tóquio brilhava abaixo deles como um mar de joias.
— Kyoko — disse Ren, entregando-lhe uma pequena caixa de veludo.
Dentro, havia um anel de platina com uma pedra dourada que combinava perfeitamente com os olhos dela. Não era um anel de noivado formal — ainda era cedo demais para isso nesta linha do tempo —, mas era um símbolo inegável.
— É um rastreador? — brincou ela, embora seus olhos estivessem úmidos.
— Quase isso — admitiu Ren, deslizando o anel no dedo anelar da mão direita dela. — É uma promessa. Enquanto você estiver usando isso, você está sob minha proteção, não importa a distância. E é um aviso para qualquer um em Hollywood que ouse olhar para você com segundas intenções.
— Eu te amo, Ren — sussurrou ela, puxando-o para um beijo profundo e possessivo, devolvendo toda a intensidade que ele sempre lhe dava.
***
O aeroporto estava lotado, mas a segurança da LME garantiu que eles tivessem privacidade no terminal VIP. Lory e Yashiro estavam lá para as despedidas finais.
— Arrase com eles, Mogami-kun! — gritou Lory, agitando um lenço de seda. — Mostre a Hollywood o que é o verdadeiro talento japonês!
Yashiro entregou a Kyoko um cronograma detalhado.
— Tsuruga-san revisou isso três vezes, Kyoko. Ele incluiu horários de descanso obrigatórios e verificou o histórico de todos os membros da produção.
Kyoko sorriu para Ren, que estava parado ao seu lado, parecendo uma estátua de gelo e fogo. Ele a acompanharia no voo, cumprindo sua promessa de passar a primeira semana com ela.
Enquanto caminhavam em direção ao portão de embarque, uma figura familiar surgiu na multidão, sendo contida pelos seguranças. Era Sho Fuwa. Ele parecia desgrenhado, os olhos injetados de raiva e inveja.
— Kyoko! — gritou ele, a voz rouca. — Você acha que pode simplesmente ir embora? Você vai fracassar lá! Eles vão te comer viva!
Kyoko parou por um segundo. Ela não sentiu raiva, apenas uma profunda piedade. Ela olhou para Sho, o garoto que uma vez fora o centro de seu mundo de sofrimento, e percebeu que ele não passava de uma sombra insignificante agora.
— Sho — disse ela, a voz clara o suficiente para ser ouvida por ele. — Eu não estou indo embora para fugir de você. Estou indo porque o mundo é grande demais para a sua mediocridade me alcançar. Adeus.
Ren não disse nada, mas o olhar que lançou a Sho foi tão carregado de desprezo e ameaça que o cantor recuou, finalmente silenciado. Ren envolveu o ombro de Kyoko com o braço, guiando-a para longe.
— Você foi incrível — murmurou ele no ouvido dela.
— Eu tive um bom professor — respondeu ela, encostando a cabeça em seu ombro.
***
A primeira semana em Los Angeles foi um turbilhão. Ren agiu como um verdadeiro imperador, inspecionando o set, conversando com o diretor com uma autoridade que deixava claro que Kyoko não era apenas uma atriz novata, mas alguém com um protetor formidável.
Na última noite de Ren na cidade, eles jantaram no terraço do hotel que dava vista para o letreiro de Hollywood.
— Amanhã eu volto para o Japão — disse Ren, segurando a mão de Kyoko sobre a mesa. — A casa vai parecer vazia sem você.
— Apenas cinco meses e três semanas agora, Ren — lembrou ela, sorrindo. — E eu vou te enviar vídeos de cada prato novo que eu aprender a cozinhar aqui.
Ren levantou-se e caminhou até ela, puxando-a para uma dança improvisada sob o céu estrelado da Califórnia.
— Eu vou contar os segundos, Kyoko. E lembre-se: você é a estrela deste filme, mas você é o sol do meu sistema solar. Não deixe ninguém apagar o seu brilho.
— Ninguém poderia — respondeu ela, abraçando-o com toda a sua força. — Porque o meu brilho vem de você.
Quando o sol nasceu na manhã seguinte, Kyoko observou o avião de Ren decolar da janela de seu camarim. Ela sentiu um aperto de saudade, mas também uma força renovada. Ela tinha as memórias do futuro, o talento do presente e o amor de um homem que atravessaria dimensões por ela.
Ela respirou fundo, olhou-se no espelho e viu não a menina que chorava por Sho Fuwa, mas a mulher que conquistaria o mundo ao lado de Ren Tsuruga.
— Luzes, câmera... — sussurrou ela para si mesma, os olhos dourados brilhando com uma intensidade predatória. — Ação.
O primeiro dia de filmagem foi um sucesso absoluto. A equipe americana ficou boquiaberta com a capacidade de Kyoko de alternar entre uma vulnerabilidade doce e uma força aterrorizante em segundos. Nos intervalos, ela recebia mensagens de Ren — fotos da comida que ela deixara, mensagens de voz curtas e possessivas dizendo o quanto sentia sua falta.
À noite, de volta ao seu apartamento temporário, Kyoko abriu um pequeno caderno que Ren colocara em sua mala sem que ela percebesse. Na primeira página, ele escrevera:
"Para a minha Kyoko. O mundo verá o que eu sempre soube: você é única. Brilhe intensamente, minha querida. Eu estarei aqui, esperando para te receber de volta nos meus braços, onde você pertence."
Kyoko sorriu, as lágrimas de felicidade molhando o papel. Ela sabia que a jornada em Hollywood seria desafiadora, mas com Ren como sua âncora e seu próprio talento como sua espada, ela não era apenas uma atriz. Ela era uma força da natureza, reescrevendo a história, um take de cada vez.
A distância era apenas um teste físico para um vínculo que já havia vencido a morte e o tempo. E, enquanto o aroma do chá japonês que ela preparara preenchia o quarto em Los Angeles, Kyoko Mogami sabia que, não importa onde estivesse, ela sempre estaria em casa, pois o coração de Ren Tsuruga era o seu verdadeiro destino.