Um romance entre livros e óculos
O Banquete do Coração e o Caos da Família Silva
O trajeto até a casa de Igor parecia ser o mais longo da vida de Júlia. Embora ela já tivesse estado no carro de Vanessa e conversado brevemente com ela, a ideia de um "jantar oficial" como namorada era algo que fazia suas mãos suarem frio contra o tecido do vestido que escolhera com tanto cuidado. Ela ajeitava os óculos a cada cinco minutos, sentindo o estômago dar voltas.
— Juli, se você continuar apertando a alça da bolsa desse jeito, ela vai acabar virando pó — Igor brincou, esticando a mão para cobrir a dela. — Relaxa. Minha família é um circo, mas é um circo legal. Prometo que ninguém morde, exceto talvez a Maitê se ela estiver com fome.
Júlia soltou um riso nervoso, sentindo o calor da mão dele acalmá-la um pouco.
— Eu só quero causar uma boa impressão, Igor. É diferente agora. Ontem eu era apenas a "amiga inteligente", hoje eu sou... bem, você sabe.
— Você é a garota que me faz sorrir feito um bobo no meio do corredor — ele disse, estacionando o carro em frente a uma casa aconchegante, com um jardim bem cuidado e luzes quentes saindo pelas janelas. — E isso é tudo o que eles precisam saber.
Vanessa abriu a porta antes mesmo de eles tocarem a campainha. Ela usava um avental colorido e tinha um brilho de triunfo no olhar.
— Entrem, entrem! — ela exclamou, puxando Júlia para um abraço caloroso. — Que bom que vocês chegaram. O cheiro da lasanha já está dominando a casa e o Roberto finalmente conseguiu domar as crianças.
Ao entrar na sala, Júlia foi recebida por uma cena que parecia ter saído de um comercial de família feliz, mas com um toque de caos autêntico. Um homem alto, de cabelos levemente grisalhos e um sorriso que era a cópia fiel do de Igor, levantou-se do sofá.
— Então esta é a famosa Júlia? — perguntou o pai de Igor, aproximando-se com a mão estendida. — Sou o Roberto. Igor não para de falar de você. Na verdade, acho que agora eu sei mais sobre suas notas de química do que sobre o boletim do meu próprio filho.
— É um prazer conhecer o senhor, Seu Roberto — Júlia respondeu, sentindo as bochechas corarem instantaneamente.
— Nada de "senhor", por favor, me faz sentir que eu deveria estar usando uma cartola — ele riu, sendo interrompido por um vulto que passou correndo entre suas pernas.
— Igor! Você trouxe ela! — um menino de cerca de nove anos parou abruptamente na frente deles. Ele usava uma camiseta de super-herói e tinha o mesmo olhar esperto de Igor. — Eu sou o Pietro. O Igor disse que você é mais inteligente que o Google. É verdade?
Igor revirou os olhos, mas com carinho, e bagunçou o cabelo do irmão.
— Quase isso, baixinho. Júlia, esse é o Pietro, meu empresário oficial para assuntos de videogame.
— Oi, Pietro — disse Júlia, agachando-se para ficar na altura dele. — Eu não sou mais inteligente que o Google, mas sou muito boa em encontrar as respostas certas.
— Legal! — Pietro exclamou. — Depois você me ajuda a passar da fase do deserto? O Igor é péssimo, ele sempre cai nos buracos.
— Ei! Eu não sou péssimo, eu só jogo com... estilo — Igor se defendeu, fazendo Júlia rir de verdade pela primeira vez naquela noite.
Foi então que uma figura pequena, de cachos morenos e um vestido rosa cheio de babados, apareceu timidamente atrás da poltrona. Maitê, de apenas três anos, segurava um urso de pelúcia sem uma das orelhas e observava Júlia com olhos curiosos.
— E essa princesinha deve ser a Maitê — sussurrou Júlia.
Igor pegou a irmãzinha no colo, dando um beijo estalado em sua bochecha.
— Diga oi para a Júlia, Tetê. Ela é a menina dos contos de fada que o mano te contou.
A pequena Maitê estendeu os bracinhos para Júlia, que a pegou com cuidado. O peso leve da criança e o cheiro de shampoo de bebê fizeram o nervosismo de Júlia evaporar quase por completo.
— Você é bunitu — Maitê disse, tocando a armação dos óculos de Júlia com um dedinho gordo.
— Você também é linda, Maitê — respondeu Júlia, sentindo o coração derreter.
O jantar foi uma sinfonia de risadas, barulho de talheres e histórias embaraçosas. Vanessa e Roberto faziam questão de incluir Júlia em cada conversa, enquanto Pietro tentava demonstrar suas habilidades de "ninja" com os palitos de dente. Igor, sentado ao lado de Júlia, mantinha a mão sobre o joelho dela por baixo da mesa, um lembrete constante de que ele estava ali por ela.
— Então, Igor — começou Roberto, limpando o canto da boca com o guardanapo e lançando um olhar cúmplice para Vanessa —, você nos trouxe a Júlia hoje para um jantar especial. Alguma novidade que queira compartilhar com a mesa, ou vamos ter que adivinhar por que você está com essa cara de quem ganhou na loteria?
O silêncio caiu sobre a mesa, mas era um silêncio expectante e divertido. Igor olhou para Júlia, pedindo permissão com o olhar. Ela sorriu e assentiu levemente.
— Bom — Igor começou, ajeitando os óculos e assumindo aquela postura de "cavalheiro nerd" que Júlia tanto amava —, na verdade, eu queria dizer que a Júlia não é mais apenas a minha colega de estudos.
Pietro parou de brincar com a lasanha e olhou para cima, interessado.
— Ela aceitou o cargo mais difícil da escola — Igor continuou, segurando a mão de Júlia e levantando-a para que todos vissem. — Ela é minha namorada oficial. E eu sou o cara mais sortudo do East High.
Vanessa soltou um gritinho de alegria e bateu palmas.
— Eu sabia! Eu disse para você, Roberto, que esses dois eram o par perfeito desde que vi os dois estudando na biblioteca!
— Finalmente, meu filho! — Roberto exclamou, levantando seu copo de suco. — Um brinde ao novo casal. Júlia, seja muito bem-vinda à família. Você claramente tem muito bom gosto, embora eu questione um pouco a sanidade de quem escolhe o Igor.
— Ei! — Igor protestou, rindo. — Eu sou um ótimo partido. Eu sei trocar lâmpadas e contar piadas sobre átomos.
— Ela é sua namolada? — Maitê perguntou, com a boca suja de molho de tomate.
— É sim, Tetê — Igor respondeu, olhando para Júlia com uma ternura que fez os olhos dela brilharem.
— Então ela pode morar aqui? — Pietro perguntou, esperançoso. — Ela pode me ajudar com o dever de casa e a gente pode expulsar o Igor do quarto dele.
— Calma aí, garotão — Igor riu —, um passo de cada vez.
Depois do jantar, enquanto Vanessa e Roberto insistiam em arrumar a cozinha sozinhos para dar "espaço aos jovens", Igor levou Júlia até o jardim dos fundos. O céu estava estrelado, e o ar da noite era fresco e agradável. Eles se sentaram em um balanço de madeira que ficava sob uma grande árvore.
— Sobreviveu? — ele perguntou, passando o braço pelos ombros dela e puxando-a para o seu peito.
— Eu adorei — confessou Júlia, encostando a cabeça no ombro dele. — Sua família é incrível, Igor. Eles são tão... reais. É como se eu estivesse em um dos meus livros, mas sem o drama da madrasta malvada.
— Eu te disse. Eles já te amavam antes mesmo de você chegar. Especialmente a minha mãe. Acho que ela já está planejando o nosso casamento para daqui a dez anos, só para garantir que você não escape.
Júlia riu, sentindo-se em paz.
— Eu não pretendo escapar para lugar nenhum.
Igor virou-se um pouco, ficando de frente para ela no balanço. A luz da lua refletia nos óculos de ambos, criando pequenos pontos de brilho. Ele tocou o queixo de Júlia, levantando o rosto dela para que seus olhares se encontrassem.
— Sabe, Juli, eu estava nervoso também. Porque você é tão inteligente, tão centrada... eu tive medo de que minha família fosse barulhenta demais para você.
— Igor — ela disse, com a voz suave —, o barulho da sua casa é a música mais bonita que eu já ouvi. É cheia de vida. É exatamente o que eu imaginava quando pensava em como seria estar com você.
Ele sorriu, aquele sorriso que começava nos lábios e terminava nos olhos.
— Você é perfeita, sabia?
Ele se aproximou lentamente. Desta vez, não havia o nervosismo da primeira vez na lanchonete, nem a grandiosidade do auditório. Era apenas eles dois, no silêncio do jardim, cercados pelo som dos grilos e pelo cheiro de grama molhada. Quando seus lábios se encontraram, foi um beijo calmo, profundo e cheio de uma certeza reconfortante. Era o selo de um novo capítulo, um que não precisava de roteiros complicados, apenas da verdade que compartilhavam.
Quando se separaram, Igor abraçou-a com força, enterrando o rosto em seus cabelos.
— Eu te amo, Juli — ele sussurrou. Foi a primeira vez que as palavras foram ditas em voz alta, e elas flutuaram no ar como se tivessem sido feitas para aquele momento.
Júlia sentiu uma lágrima de felicidade escapar e molhar a bochecha.
— Eu também te amo, Igor. Mais do que todos os contos de fada do mundo.
Eles ficaram ali por um longo tempo, balançando-se devagar, perdidos no universo que haviam criado juntos. Lá dentro, podiam ouvir o som abafado de Pietro rindo e de Maitê pedindo mais uma história antes de dormir. O East High podia ser um lugar de competições, musicais e cliques, mas ali, naquele jardim, eles eram apenas Igor e Júlia — o nerd engraçado e a garota inteligente que descobriram que, às vezes, a realidade pode superar qualquer ficção.
Quando finalmente decidiram entrar, encontraram Pietro esperando por eles na porta de vidro.
— O papai disse que vocês estavam "namorando no escuro" — disse o menino, fazendo aspas com os dedos. — Mas agora que vocês terminaram, Júlia, você prometeu me ajudar no videogame!
Igor riu e olhou para Júlia.
— Acho que você foi oficialmente adotada pelo meu irmão. Boa sorte, ele não aceita "não" como resposta.
— Eu aceito o desafio — Júlia disse, piscando para Igor.
Enquanto ela seguia Pietro para a sala, Igor ficou parado por um segundo, observando-a. Ele ajeitou os óculos, deu um suspiro de satisfação e sorriu. O ritmo do seu coração estava em perfeita sintonia com o dela, e ele sabia que, não importa o que o roteiro do ensino médio trouxesse a seguir, eles enfrentariam tudo juntos, nota por nota, beijo por beijo.