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Um romance entre livros e óculos

Sussurros de Coração e a Magia da Madrugada

A porta da frente se fechou suavemente, deixando para trás o silêncio da noite estrelada após Igor deixar Júlia em sua casa. O motor do carro de Vanessa ainda emitia um calor sutil na garagem enquanto mãe e filho caminhavam para dentro da residência dos Silva. A casa, que antes transbordava com a energia caótica de Pietro e Maitê, agora estava mergulhada em uma quietude acolhedora. Roberto já havia subido para colocar os pequenos na cama e provavelmente acabara pegando no sono junto com eles.

Vanessa pendurou as chaves no gancho da parede e olhou para o filho. Igor estava com as mãos nos bolsos, um sorriso bobo ainda brincando em seus lábios, e o olhar perdido em algum ponto do tapete da sala. Ela conhecia aquele olhar; era o mesmo que Roberto tinha quando eles começaram a namorar, anos atrás.

— Ela é especial, não é? — perguntou Vanessa, quebrando o silêncio com uma voz doce.

Igor despertou de seus pensamentos e ajeitou os óculos, sentindo as bochechas esquentarem.

— É sim, mãe. Muito. Eu não sei explicar, mas parece que com a Júlia tudo faz mais sentido. Até as piadas ruins ficam melhores quando ela ri.

Vanessa caminhou até a cozinha e começou a preparar um chá de camomila, fazendo sinal para que Igor se sentasse ao balcão. Ele obedeceu, observando os movimentos ágeis da mãe.

— Sabe, Igor — começou ela, enquanto a água fervia —, eu sempre me preocupei um pouco com você. Você sempre foi o "cara engraçado", aquele que usa o humor como um escudo para não mostrar quando está nervoso ou inseguro. Mas hoje, vendo vocês dois juntos, eu vi um Igor diferente.

— Diferente como? — ele perguntou, curioso.

— Um Igor que não precisa de piadas para se sentir aceito — explicou Vanessa, colocando uma xícara fumegante na frente dele. — Você estava sendo apenas você. E a forma como ela te olha... meu filho, aquela menina te enxerga de um jeito que pouca gente consegue. Ela vê o gênio, o cavalheiro e o menino doce que existe por trás dessa armação de óculos.

Igor deu um gole no chá, sentindo o calor aquecer seu peito.

— Eu tive medo de estragar tudo hoje. Sabe como é, o Pietro sendo o Pietro, e a Maitê... bem, ela quase batizou a Júlia com molho de tomate.

Vanessa riu baixinho e sentou-se ao lado dele, segurando sua mão.

— Família é isso, querido. E a Júlia não se assustou porque ela busca o que é real, não o que é perfeito. O meu conselho para você é: nunca deixe de ser esse cavalheiro que você foi hoje. O mundo vai tentar dizer que ser "nerd" ou ser sensível não é legal, mas para uma mulher como a Júlia, isso é o que realmente importa.

— Eu quero cuidar dela, mãe — confessou Igor, a voz mais baixa. — Ela é tão inteligente e forte, mas às vezes ela fica tão quietinha no mundo dela... eu só quero ser o lugar onde ela se sinta segura para falar tudo o que pensa.

— E você será — afirmou Vanessa, dando um beijo na testa do filho. — Apenas lembre-se de que o amor é como as notas que você tira na escola: não adianta apenas ter o talento, é preciso dedicação diária. Cultive os detalhes. As mensagens de bom dia, o apoio nos dias de prova, o ouvir sem julgar. Se você fizer isso, esse conto de fadas que ela tanto imagina vai ser a vida real de vocês.

Igor abraçou a mãe, sentindo uma gratidão imensa.

— Obrigado, mãe. Por tudo. Por ter insistido para ela vir hoje e por ser quem você é.

— Agora vá para o quarto — Vanessa disse, piscando para ele. — Eu sei que você está morrendo de vontade de checar o celular para ver se ela já mandou notícias.

Igor deu uma risada curta, confessando a derrota, e subiu as escadas pulando de dois em dois degraus.

No silêncio do seu quarto, iluminado apenas pelo brilho azulado do computador e por um abajur de luz quente, Igor se jogou na cama. Ele trocou de roupa rapidamente, vestindo uma calça de moletom e uma camiseta velha, mas seu foco estava inteiramente no aparelho celular sobre o criado-mudo.

Eram quase duas da manhã quando o visor acendeu.

*Mensagem de Júlia (01:58): "Acho que as rosas ainda estão perfumando o meu quarto inteiro... ou talvez seja só a memória de hoje que não me deixa dormir. Você já chegou bem?"*

Igor sorriu instantaneamente. Ele se ajeitou nos travesseiros e começou a digitar, os dedos voando pela tela.

— Já cheguei sim, minha Juli — escreveu ele. — Na verdade, estou aqui olhando para o teto e tentando processar como eu tive tanta sorte de você não ter fugido correndo depois que o Pietro tentou te recrutar para o exército de ninjas dele.

A resposta veio quase que imediatamente, como se ela estivesse esperando com o celular nas mãos.

— Fugir? — Júlia respondeu. — Eu estava pensando em como pedir para ser contratada como assistente oficial do Pietro. Sua família é o que os meus livros chamariam de 'lar'. Foi o melhor jantar da minha vida, Igor. De verdade.

— Fico feliz em ouvir isso — ele digitou, sentindo o coração acelerar. — Minha mãe não para de falar de você. Ela disse que eu finalmente fiz algo certo na vida. E eu concordo com ela. Ter você do meu lado hoje, segurar sua mão na frente deles... foi como se todas as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixassem.

— Eu senti o mesmo — Júlia enviou, junto com um emoji de coração timidamente escondido no final da frase. — Sabe, Igor... eu passei tanto tempo imaginando como seria ter alguém. Eu criava esses cenários na minha cabeça, como nos musicais que a gente vê na escola. Mas nenhum deles chega perto do jeito que você me faz sentir.

Igor sentiu um nó na garganta. Ele sempre soube que Júlia era uma romântica incurável, mas ser o objeto desse romance era algo que ainda o deixava sem fôlego.

— Juli? — ele enviou.

— Sim? — ela respondeu prontamente.

— Às vezes eu acho que ainda sou aquele garoto de óculos tortos que se esconde atrás de piadas de química para não mostrar que está nervoso perto da garota mais brilhante da sala. Eu ainda não acredito que você é minha namorada. Parece que eu mudei o roteiro do East High e ganhei o prêmio principal sem nem saber como.

— Você não mudou o roteiro, Igor — escreveu Júlia, e ele podia quase imaginar o tom de voz suave dela. — Você apenas escreveu a sua própria música. E eu amo cada nota dela. Eu não quero um príncipe de armadura brilhante que não saiba rir de si mesmo. Eu quero o cara que limpa os óculos na camiseta quando está nervoso e que me defende dos meus próprios silêncios.

— Então estamos combinados — ele respondeu. — Eu prometo ser esse cara todos os dias. E prometo que, mesmo quando a gente estiver velhinho e meus óculos forem ainda mais grossos, eu ainda vou tentar te fazer rir até você perder o fôlego.

— Eu conto com isso — disse ela. — Agora eu realmente deveria tentar dormir, ou a aula de história amanhã vai ser um desastre. Mas eu não queria fechar os olhos sem dizer que... eu estou muito feliz por ser 'nós'.

— Durma bem, minha princesa nerd — Igor digitou, com um sorriso que não cabia no rosto. — Sonhe com os nossos próximos capítulos. Eu estarei neles, com certeza.

— Boa noite, meu príncipe — ela finalizou. — Até amanhã, nos corredores.

Igor bloqueou o celular e o colocou sobre o peito, fechando os olhos. O silêncio da madrugada não parecia mais vazio; estava preenchido pelas palavras dela, pelo calor do jantar e pela promessa de um amanhã onde ele não precisaria mais apenas imaginar contos de fada. Ele tinha a Júlia. E, no grande palco do East High, aquela era a única performance que realmente importava.

Enquanto o sono finalmente o vencia, sua última imagem mental foi o brilho dos óculos de Júlia sob a luz da lua, um reflexo perfeito de tudo o que ele sempre quis e de tudo o que agora, finalmente, era seu.