Um romance entre livros e óculos
O Eco do Primeiro Amor nos Corredores do East High
O sol de quarta-feira entrou pelas janelas do East High com uma intensidade que parecia refletir o estado de espírito de Júlia. Ela não era mais apenas a garota quieta do fundo da sala; ela era a garota que tinha um buquê de rosas guardado em um vaso de cristal ao lado da cama e uma promessa de amor vibrando no peito. Ao caminhar pelo corredor principal, ela sentiu que cada passo tinha um ritmo diferente, como se a trilha sonora da sua vida tivesse finalmente encontrado a melodia certa.
Perto do armário de Igor, ela o viu. Ele estava cercado por alguns colegas, mas sua atenção não estava na conversa. Ele olhava para o relógio, ajeitava os óculos e buscava alguém na multidão. Quando seus olhos encontraram os de Júlia, o mundo ao redor pareceu entrar em câmera lenta. Igor abriu um sorriso radiante, aquele que fazia pequenas rugas surgirem nos cantos de seus olhos, e caminhou apressado até ela.
— Bom dia, minha princesa nerd — disse ele, sem se importar com quem estivesse olhando. — Você está ainda mais bonita hoje, se é que isso é cientificamente possível.
Júlia sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar. Ela se aproximou e, em um gesto de coragem que surpreendeu a si mesma, ajeitou a gola da camisa dele.
— Bom dia, meu príncipe — respondeu ela em um sussurro doce. — Dormiu bem ou ficou pensando em novas piadas de química para me impressionar?
— Dormi pensando em você, o que é muito mais produtivo para a minha felicidade do que qualquer tabela periódica — ele confessou, pegando a mão dela e entrelaçando seus dedos. — Pronta para enfrentar mais um dia de roteiros e ensaios, mas agora com o bônus de ser o casal mais invejado de Albuquerque?
Eles caminharam de mãos dadas, um gesto simples que, no ecossistema do ensino médio, equivalia a um anúncio oficial. Alguns alunos sussurravam, outros sorriam, e Júlia sentiu que, pela primeira vez, não tinha medo de ser notada. Com Igor ao seu lado, o East High não parecia mais um labirinto intimidador, mas sim o cenário perfeito para a história deles.
As aulas passaram voando, preenchidas por trocas de bilhetes escondidos e olhares cúmplices por cima dos livros. Quando o sinal final tocou, o plano já estava traçado: eles iriam para a casa de Igor terminar o projeto de história, mas Júlia sabia que o "trabalho" era apenas um pretexto para passarem mais tempo juntos.
Ao chegarem à residência dos Silva, a porta foi aberta num estrondo antes mesmo de Igor tirar as chaves do bolso.
— Júlia! — gritou Pietro, pulando nos degraus da varanda. — Você voltou! Trouxe o seu controle de videogame? O Igor disse que você ia me ensinar o truque do deserto hoje!
— Calma, pequeno gafanhoto — brincou Igor, colocando o braço sobre os ombros de Júlia de forma protetora. — Primeiro temos dever de casa. A Júlia não é só uma jogadora de elite, ela é uma acadêmica séria.
— Deixa ela, Igor! — Vanessa apareceu logo atrás, com um sorriso acolhedor e segurando a pequena Maitê no colo. — Júlia, querida, que bom ter você aqui de novo. Entre, fiz biscoitos de aveia e mel.
Maitê esticou os bracinhos assim que viu Júlia, balbuciando algo que soava como "Juju". Júlia pegou a menina no colo, sentindo o carinho imediato daquela família.
— É muito bom estar de volta, Dona Vanessa — disse Júlia, sentindo-se genuinamente em casa.
— Eu já disse para me chamar de Vanessa, nada de formalidades agora que você é da família — insistiu a mulher, piscando para o filho.
Eles se acomodaram na mesa da sala de jantar, espalhando livros e mapas antigos. No entanto, a concentração era um desafio constante. Pietro aparecia a cada dez minutos com uma "emergência" que envolvia desde uma dúvida sobre dinossauros até a necessidade de mostrar um desenho novo.
— Pietro, se você não nos deixar terminar esse capítulo sobre a Revolução Industrial, eu vou contar para a mamãe que foi você quem escondeu o controle da TV no freezer — ameaçou Igor, embora o tom fosse de pura diversão.
O menino fez uma careta e saiu correndo, mas não antes de gritar do corredor:
— O Igor só quer ficar sozinho com a namorada porque ele fica olhando para ela com cara de peixe morto!
Júlia caiu na gargalhada, escondendo o rosto atrás do livro de história.
— Cara de peixe morto, Igor? — perguntou ela, provocando-o.
— Ele não entende nada de romance — defendeu-se Igor, aproximando sua cadeira da dela até que seus ombros se tocassem. — O que ele chama de "peixe morto", os poetas chamam de "olhar de admiração profunda". Mas, falando sério, Juli... como você consegue ser tão paciente com eles?
— Eu adoro isso, Igor — admitiu ela, deixando o livro de lado por um momento. — Minha casa é tão silenciosa. Estar aqui, com essa bagunça gostosa e esse carinho todo... faz eu me sentir parte de algo maior.
Igor tirou os óculos por um momento, limpando-os na camiseta, um gesto que Júlia agora sabia ser sinal de que ele estava prestes a dizer algo importante.
— Você é parte de algo maior, Juli. Você é o centro do meu mundo agora.
Ele se inclinou e depositou um beijo suave na ponta do nariz dela. Júlia fechou os olhos, aproveitando a proximidade. O cheiro de biscoitos saindo do forno, o som longínquo da televisão e a presença constante de Igor criavam uma bolha de felicidade que ela nunca quis que estourasse.
— Sabe — começou Júlia, brincando com a caneta —, eu sempre imaginei como seria o meu príncipe. Nos meus contos de fada, ele sempre chegava em um cavalo branco e tinha um castelo.
— E eu chego de carro prata e moro em uma casa com um irmão que esconde controles no freezer — Igor riu, um pouco autodepreciativo. — Acho que falhei na missão.
— Não — interrompeu ela, segurando o rosto dele com as duas mãos. — Você é muito melhor. Porque o príncipe do castelo não saberia me fazer rir quando eu estou nervosa com a prova de química, e ele certamente não teria esse brilho nos olhos que você tem quando olha para mim. Você é o meu príncipe, Igor. Do seu jeito nerd, cavalheiro e engraçado.
Igor sentiu o coração bater mais forte. Ele a puxou para um abraço apertado, sentindo o encaixe perfeito de seus corpos.
— E você é a minha princesa nerd — sussurrou ele contra o cabelo dela. — A única que tem a chave do meu castelo de livros e videogames.
A tarde avançou entre risadas e pequenos progressos no trabalho escolar. Vanessa trazia lanches e observava os dois de longe, trocando olhares cúmplices com Roberto, que chegara do trabalho e se juntara à "vigilância silenciosa" dos pais corujas.
— Eles formam um belo par, não formam? — comentou Roberto na cozinha, enquanto observava Júlia explicando algo com entusiasmo para um Igor totalmente hipnotizado.
— O melhor que já vi — concordou Vanessa. — Ela trouxe uma calma para ele, e ele trouxe um brilho para ela.
Mais tarde, quando o sol começou a se despedir, tingindo o céu de tons de pêssego e violeta, Igor e Júlia foram para o jardim para uma pausa necessária. Eles se sentaram na grama, sob a mesma árvore onde haviam conversado na noite anterior.
— Às vezes eu tenho medo de acordar e descobrir que ainda estou na aula de biologia, sonhando acordada com você — confessou Júlia, deitando a cabeça no ombro de Igor.
— Se for um sonho, estamos compartilhando o mesmo travesseiro — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela. — Mas eu te garanto, Juli, isso é o mais real que eu já senti na vida. O East High pode ter seus dramas, mas o que temos aqui... isso é para sempre.
Ele se virou para ela, segurando suas mãos.
— Eu prometo que, não importa quantas peças de teatro ou jogos de basquete aconteçam naquela escola, eu sempre vou ser o cara que vai te esperar no armário. Eu sempre vou ser o seu príncipe.
— E eu sempre vou ser a sua princesa — prometeu ela, com os olhos brilhando.
Eles se aproximaram lentamente. O beijo que se seguiu foi doce e longo, um selo de compromisso que ia além de um simples namoro de escola. Era o encontro de duas almas que se encontraram entre fórmulas e piadas, entre óculos e livros, e que decidiram que o mundo era muito mais bonito quando compartilhado.
Quando se separaram, Pietro apareceu na porta de vidro, batendo no vidro com força.
— Já terminaram o "momento nojento"? A pizza chegou e o papai disse que se vocês não vierem agora, eu posso comer o pedaço do Igor!
Igor soltou um suspiro fingido de frustração, mas Júlia apenas riu, levantando-se e puxando-o junto com ela.
— Melhor irmos, meu príncipe. Não queremos que o exército ninja vença esta batalha.
— Você tem razão, minha princesa nerd — disse Igor, abraçando-a pela cintura enquanto caminhavam de volta para a luz e o calor da casa.
Naquela noite, Júlia voltou para casa com o coração transbordando. Ela sabia que os desafios da escola continuariam, que haveria provas difíceis e dias cansativos, mas nada disso importava. Ela tinha encontrado o seu lugar. Ela tinha encontrado o seu ritmo. E, acima de tudo, ela tinha encontrado o amor que transformava o cotidiano do East High no mais belo dos musicais.