Um romance entre livros e óculos
Sinfonia de Queijo, Risadas e o Brilho de um Primeiro Amor
— Ei, baixinho! Nem pense em encostar na borda da minha fatia de calabresa! — exclamou Igor, fingindo uma indignação dramática enquanto corria para a mesa da sala de jantar.
— Quem dorme no ponto, perde o pepperoni, Igor! — Pietro rebateu, já com a boca suja de molho, enquanto tentava equilibrar um pedaço gigante de pizza de mussarela no prato.
Júlia observava a cena da entrada da sala, sentindo uma leveza que raramente experimentava. O ambiente na casa dos Silva era o oposto do silêncio quase solene da sua própria casa. Ali, a vida acontecia em volume alto, com cheiro de orégano e o som constante de risadas.
— Venha, Júlia, sente-se logo antes que esses dois decidam que a pizza é um território de guerra — convidou Roberto, rindo enquanto puxava uma cadeira para ela ao lado de Igor.
— Obrigada, Roberto. Acho que vou precisar de reflexos rápidos para garantir meu pedaço — brincou ela, ajeitando os óculos que insistiam em escorregar pelo nariz devido ao calor da comida fumegante.
Vanessa trouxe os copos com refrigerante e suco, instalando-se na cabeceira.
— Nada disso, Pietro. A Júlia é nossa convidada de honra. Se você pegar a fatia dela, vai ficar sem videogame por uma semana — Vanessa sentenciou, com um olhar que misturava autoridade materna e diversão.
O jantar seguiu em um ritmo caótico e maravilhoso. Igor, entre uma mordida e outra, não soltava a mão de Júlia por baixo da mesa. Era um contato discreto, mas que enviava ondas de choque de felicidade por todo o corpo dela. Ele fazia piadas sobre como a pizza de frango com catupiry era a prova definitiva de que a humanidade tinha alcançado o ápice da evolução, e Júlia retrucava com fatos históricos sobre a origem da massa na Itália, o que fazia Igor olhar para ela com uma admiração que beirava a adoração.
— Viu só, pai? — Igor disse, apontando para Júlia. — Além de ser a garota mais linda da escola, ela é uma enciclopédia ambulante. Eu sou o cara mais sortudo do Novo México.
— Você é um exagerado, Igor — disse Júlia, as bochechas corando no mesmo tom do molho de tomate.
— Exagerado não, realista — ele rebateu, dando um beijo rápido na têmpora dela.
Quando as caixas de pizza ficaram vazias e a energia de Pietro finalmente começou a baixar, a pequena Maitê, que estivera concentrada em comer apenas o queijo da sua fatia, engatinhou para fora da cadeira e puxou a barra do vestido de Júlia.
— Juju... brinca? — a pequena pediu, com os olhos castanhos brilhando de sono e expectativa.
— Claro que brinco, princesa — Júlia respondeu prontamente, levantando-se e pegando a menina no colo.
Igor acompanhou as duas até o tapete felpudo da sala de estar, onde uma pilha de brinquedos aguardava. Vanessa e Roberto ficaram na mesa, conversando em voz baixa, mas Júlia podia sentir o olhar carinhoso deles sobre o trio.
Maitê espalhou um conjunto de blocos de montar coloridos e uma boneca que parecia ter visto dias melhores.
— Aqui é a casinha — explicou Maitê, colocando um bloco azul sobre um amarelo. — O mano é o monstro e a Juju é a fada.
— Eu sou o monstro? — Igor perguntou, fazendo uma careta engraçada e rugindo baixinho, o que fez Maitê gargalhar. — Tudo bem, eu aceito ser o monstro, desde que a fada me transforme em príncipe no final.
Júlia sorriu, sentando-se no chão com as pernas cruzadas. Ela começou a ajudar Maitê a construir uma torre, enquanto Igor fazia vozes diferentes para os bonecos. Ver Igor daquela forma — sem a necessidade de ser o engraçadinho da escola, sendo apenas o irmão mais velho amoroso e paciente — fazia Júlia sentir que o conhecia há séculos.
— Você leva muito jeito com ela — sussurrou Igor, enquanto Maitê estava distraída tentando equilibrar a boneca no topo da torre de blocos.
— Eu sempre quis ter irmãos — confessou Júlia, tocando delicadamente nos cachos de Maitê. — É como se o coração ficasse mais cheio, sabe?
— O meu ficou muito mais cheio desde que você entrou por aquela porta hoje — ele respondeu, a voz carregada de uma sinceridade que desarmou Júlia.
Eles ficaram ali por quase uma hora, imersos no mundo de faz-de-conta de uma criança de três anos. Júlia contava histórias de dragões que preferiam comer flores em vez de cavaleiros, e Igor fazia os efeitos sonoros de vento e magia. Em certo momento, Maitê, vencida pelo cansaço, acabou encostando a cabeça no colo de Júlia e fechou os olhos, o urso de pelúcia apertado contra o peito.
— Acho que a fada ganhou a batalha contra o sono — sussurrou Júlia, fazendo carinho na testa da menina.
Igor observava a cena em silêncio por alguns segundos. A imagem de Júlia, com seus óculos de nerd e seu olhar doce, cuidando de sua irmãzinha, era algo que ele queria emoldurar na memória.
— Ela adorou você — disse Igor, levantando-se com cuidado para não acordar a pequena. — Meus pais também. E eu... bom, eu já sou caso perdido.
Vanessa se aproximou silenciosamente e pegou Maitê dos braços de Júlia.
— Obrigada, querida. Ela raramente dorme tão rápido com alguém que não seja eu ou o Roberto. Você tem mãos de anjo.
— Foi um prazer, Vanessa. Ela é um doce — Júlia respondeu, levantando-se com a ajuda de Igor.
Roberto apareceu logo atrás, com as chaves do carro na mão.
— O dever me chama. Preciso levar nossa convidada para casa antes que os pais dela achem que a sequestramos para sempre — ele brincou, embora houvesse um brilho de aprovação em seus olhos.
— Eu vou com vocês — Igor anunciou prontamente.
A despedida na sala foi calorosa. Vanessa abraçou Júlia novamente, prometendo que o próximo jantar teria a famosa torta de maçã da família. Pietro, já meio sonolento no sofá, apenas acenou com um "tchau, tia inteligente".
O caminho até a casa de Júlia foi curto, mas repleto de uma tensão doce. Roberto dirigia em silêncio, respeitando o espaço dos dois no banco de trás, enquanto o rádio tocava uma balada suave que parecia ter sido tirada diretamente da trilha sonora de um filme do East High. Igor segurava a mão de Júlia, fazendo círculos com o polegar na palma dela, um gesto que a fazia sentir que estava flutuando.
Quando o carro estacionou em frente à casa de Júlia, Roberto desligou o motor, mas permaneceu no banco do motorista, olhando pelo retrovisor com um sorriso discreto.
— Pode ir lá, filho. Eu espero aqui — disse o pai de Igor, dando-lhes a privacidade necessária, ou pelo menos o máximo de privacidade que se pode ter com um pai a dois metros de distância.
Igor saiu do carro e abriu a porta para Júlia. Eles caminharam até o pequeno alpendre da casa dela, onde a luz da varanda criava sombras longas e românticas. O ar da noite estava fresco, trazendo o perfume das flores do jardim.
— Então... — começou Júlia, sentindo o coração martelar contra as costelas. — Foi uma noite perfeita.
— Foi melhor do que perfeita — Igor corrigiu, ficando de frente para ela. — Obrigado por ter vindo, Juli. Eu sei que minha família pode ser um pouco... intensa.
— Eu não mudaria nada neles, Igor. Nem em você.
Igor deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles. Ele colocou as mãos na cintura de Júlia, sentindo a delicadeza de sua silhueta. Com um movimento firme e ao mesmo tempo protetor, ele a puxou para mais perto, fazendo com que o corpo dela se colasse ao dele. Júlia instintivamente colocou as mãos nos ombros de Igor, sentindo o calor que emanava dele.
— Juli — ele sussurrou, a voz rouca de emoção —, eu passei o jantar inteiro querendo fazer isso.
— E por que não fez? — ela provocou, a voz trêmula.
— Porque eu queria que fosse especial. Só nós dois.
Igor inclinou a cabeça, os óculos deles se aproximando perigosamente, mas ele já era um mestre na arte de evitar colisões de armações. Ele selou seus lábios nos dela em um beijo que começou doce e exploratório, mas que rapidamente se transformou em algo muito mais profundo e intenso. Foi um "beijão" de cinema, daqueles que fazem os pés perderem o contato com o chão. Igor a segurava pela cintura com uma possessividade carinhosa, enquanto Júlia se perdia na sensação de ser amada daquela forma.
No carro, Roberto observava a cena, tentando disfarçar o sorriso de orgulho. Vanessa, que insistira para que Roberto mandasse uma foto ou um sinal de que tudo estava bem, ficaria radiante quando soubesse. Roberto pegou o celular e mandou uma mensagem rápida para a esposa: "Missão cumprida. O herói finalmente conquistou a princesa. Prepare a torta de maçã, porque essa menina não vai a lugar nenhum".
Quando Igor e Júlia finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes. Igor manteve a testa encostada na dela, os olhos fechados, apenas aproveitando o momento.
— Uau — foi tudo o que Júlia conseguiu dizer.
— É — Igor riu baixinho, ainda sem soltá-la. — Definitivamente melhor do que qualquer roteiro que eu pudesse escrever.
— Boa noite, Igor — ela disse, dando um último selinho nele.
— Boa noite, meu amor. Te vejo amanhã no nosso lugar de sempre?
— No nosso lugar de sempre — ela confirmou.
Júlia entrou em casa, fechando a porta e encostando as costas na madeira, com um sorriso que provavelmente duraria a semana inteira. Do lado de fora, Igor caminhou até o carro com um passo leve, quase dançando.
Ao entrar no veículo, ele encontrou o olhar divertido do pai.
— Então? — perguntou Roberto, ligando o motor. — O beijo foi aprovado pela crítica especializada?
— Pai! — Igor reclamou, ficando vermelho, mas logo abrindo um sorriso de orelha a orelha. — Foi o melhor dia da minha vida.
— Eu sei, filho. Eu sei — Roberto respondeu, dando um tapinha no ombro do filho. — Agora vamos para casa. Sua mãe está esperando o relatório completo, e eu suspeito que o Pietro ainda esteja acordado esperando você para a revanche no videogame.
Enquanto o carro se afastava sob o luar de Albuquerque, Igor olhou para trás e viu a luz do quarto de Júlia se acender. Ele sabia que, no grande teatro do ensino médio, eles poderiam ser apenas dois nerds de óculos, mas ali, naquela noite, eles eram os protagonistas de uma história que estava apenas começando a ser escrita, verso por verso, beijo por beijo, em uma sinfonia perfeita de amor e pizza.