Voltar ao resumo

Um romance entre livros e óculos

O Brilho Ofuscado e a Melodia Desafinada

O céu de Albuquerque parecia ter perdido um pouco do seu azul vibrante naquela tarde de sexta-feira. No East High, a atmosfera estava carregada com a expectativa do final de semana, mas para Júlia, o dia tinha um sabor agridoce. Igor estava mergulhado nos ensaios para a pequena apresentação de talentos do clube de ciências e os dois mal tinham se visto entre as aulas.

Júlia estava sentada em um dos bancos do pátio central, revisando suas anotações de literatura. Ela se sentia radiante com o namoro, mas a saudade de Igor, mesmo que tivessem se falado por mensagens dez minutos antes, era uma constante. Foi quando uma sombra se projetou sobre seu caderno.

— Júlia? Oi! Não sabia que você também gostava de realismo fantástico — disse uma voz masculina e animada.

Ela levantou os olhos e sorriu ao ver Lucas, um garoto do terceiro ano, capitão do time de debate e conhecido por ser extremamente comunicativo e gentil. Eles haviam feito um trabalho em grupo no semestre passado e mantinham uma amizade cordial.

— Oi, Lucas! Pois é, estou tentando terminar essa análise para a aula da senhora Darbus — respondeu Júlia, fechando um pouco o livro para dar atenção ao colega.

— A Darbus é exigente, mas você é a pessoa mais inteligente que eu conheço, deve ser fácil para você — Lucas comentou, sentando-se na ponta do banco, mantendo uma distância respeitosa, mas inclinando-se para ver as anotações. — Sabe, eu estava lendo algo parecido e pensei justamente em te perguntar uma coisa sobre a estrutura narrativa...

Os dois engataram em uma conversa animada sobre livros. Lucas era expressivo, gesticulava muito e, em certo momento, riu de um comentário de Júlia, tocando levemente no ombro dela enquanto ria. Para Júlia, era apenas uma interação entre amigos que compartilhavam o mesmo interesse acadêmico. Mas, para quem via de longe, a perspectiva era outra.

Igor estava saindo do auditório, com o cabelo bagunçado e os óculos levemente sujos de poeira do palco. Ele estava exausto, mas ansioso para encontrar Júlia. Seus olhos varreram o pátio e pararam nela. O sorriso que ele estava ensaiando morreu instantaneamente.

Ele viu Lucas. Viu o toque no ombro. Viu Júlia sorrindo de volta.

Uma onda de insegurança, alimentada por anos de se sentir o "nerd que ninguém nota", subiu pelo peito de Igor como um incêndio. O medo de que Júlia percebesse que um cara como Lucas — popular, articulado, sem óculos e sem piadas bobas — era "melhor" do que ele, nublou seu julgamento.

Ele caminhou em direção ao banco com passos pesados.

— Júlia — a voz de Igor saiu ríspida, quase um rosnado.

Os dois se viraram assustados. Júlia abriu um sorriso, que logo murchou ao ver a expressão no rosto do namorado.

— Igor! Você terminou o ensaio? Este é o Lucas, ele estava me ajudando com...

— Eu sei quem ele é — interrompeu Igor, ignorando Lucas completamente. — Eu não sabia que precisava de "ajuda" para ler um livro de literatura, Júlia. Achei que a gente ia passar o intervalo juntos.

Lucas, percebendo o clima pesado, levantou-se rapidamente.

— Ei, cara, a gente só estava conversando sobre o livro... — tentou explicar Lucas, com as mãos levantadas em sinal de paz.

— Ninguém te perguntou nada, Lucas! — Igor explodiu, a voz ecoando pelo pátio e atraindo olhares de outros estudantes. — Por que você não vai debater com outra pessoa e deixa a minha namorada em paz?

— Igor! O que é isso? — Júlia se levantou, o rosto queimando de vergonha. — Você está sendo grosseiro!

— Grosseiro? Eu chego aqui e vejo você toda cheia de sorrisinhos com esse cara, e eu sou o grosseiro? — Igor gritou, o ciúme distorcendo sua voz. — Talvez você prefira o estilo dele, não é? O cara perfeito do debate!

— Para com isso agora! — Júlia sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ela nunca tinha visto esse lado de Igor. O garoto fofo e divertido tinha sumido, dando lugar a alguém agressivo e irracional. — Você está me envergonhando e sendo injusto. O Lucas é só um amigo!

— Amigo que fica te tocando? — Igor ironizou, a respiração ofegante. — Se é assim que você trata seus "amigos", talvez o nosso namoro não seja o que eu pensava!

O silêncio que se seguiu foi cortante. Lucas já tinha se afastado, preferindo não piorar a situação, mas o estrago estava feito. Júlia olhou para Igor com uma mistura de mágoa e decepção que o atingiu como um soco.

— Eu não acredito que você pensa isso de mim — disse Júlia, a voz falhando. — Você não confia em mim, Igor. E o pior é que você me tratou como se eu fosse um objeto no meio de uma briga de egos.

— Júlia, eu... — Igor tentou dar um passo à frente, percebendo o erro assim que as palavras saíram, mas era tarde demais.

— Não. Me deixa em paz, Igor. Vá terminar seu ensaio — ela pegou seus livros com as mãos trêmulas e saiu apressada, as lágrimas finalmente rolando por trás das lentes de seus óculos.

Igor ficou parado no meio do pátio, sentindo o peso dos olhares de reprovação dos outros alunos. O fogo do ciúme tinha se apagado, deixando apenas o frio gélido do arrependimento.

***

Horas depois, na casa dos Silva, o ambiente estava sombrio. Igor tinha se trancado no quarto desde que chegara da escola. Ele não desceu para o lanche e não respondeu aos chamados de Pietro.

Vanessa, sentindo que algo estava muito errado, subiu as escadas e bateu suavemente na porta.

— Igor? Querido, abri a porta. Trouxe um pouco de suco.

Não houve resposta, apenas um som abafado que parecia um soluço. Preocupada, Vanessa usou a chave reserva e entrou.

O quarto estava na penumbra. Igor estava sentado no chão, encostado na lateral da cama, com os joelhos abraçados. Seus óculos estavam jogados sobre o tapete e seu rosto estava inchado e vermelho. Ele estava chorando silenciosamente, as lágrimas molhando a calça de moletom.

— Oh, meu filho... — Vanessa colocou o copo na mesa e sentou-se no chão ao lado dele, puxando-o para um abraço.

Igor desabou. Ele escondeu o rosto no ombro da mãe e chorou como se fosse uma criança pequena, o corpo todo tremendo.

— Eu estraguei tudo, mãe — ele conseguiu dizer entre soluços. — Eu sou um idiota. Eu gritei com ela... eu gritei com a Júlia na frente de todo mundo.

Vanessa acariciou o cabelo dele, esperando que a primeira onda de dor passasse.

— Me conta o que aconteceu, Igor. Por que você fez isso?

— Eu vi ela com outro cara... o Lucas. Eles estavam rindo, ele tocou nela... — Igor soluçou, a voz embargada. — Eu senti um medo tão grande, mãe. Um medo de que ela visse que ele é melhor que eu. Ele é popular, ele fala bem, ele não é um nerd esquisito que só sabe contar piada de átomo. Eu achei que ia perder ela e acabei atacando. Eu fui um monstro.

Vanessa suspirou profundamente, segurando o rosto do filho para que ele olhasse para ela.

— Igor, escute bem. O que você fez foi errado, e você sabe disso. Gritar com ela e desconfiar da integridade dela foi um erro grave. Mas esse medo que você sentiu... é a insegurança falando. Você passou tanto tempo se escondendo atrás de piadas que agora que tem algo precioso, tem pavor de que alguém o tire de você.

— Ela me olhou com tanto desprezo, mãe — Igor limpou o rosto com a manga da blusa, os olhos brilhando de dor. — Eu vi o brilho dela sumir por minha causa. Eu machuquei a pessoa que eu mais amo. Ela nunca vai me perdoar. Ela vai terminar comigo, eu sei que vai.

— Você não sabe disso — disse Vanessa com firmeza. — A Júlia é uma menina especial, mas ela também se respeita. Ela ficou chateada porque você não honrou a confiança que existe entre vocês.

— O que eu faço? — ele perguntou, a voz trêmula. — Eu tentei mandar mensagem, mas ela não visualiza. Eu quero morrer de vergonha. Eu não sou aquele cara que gritou no pátio, mãe. Eu juro que não sou.

— Eu sei que não é, querido. Mas agora você precisa provar isso para ela. Não com mensagens, mas com atitudes. Você precisa dar espaço para ela respirar e, depois, pedir perdão do fundo do seu coração. Sem desculpas, sem tentar culpar o Lucas ou o ciúme. Apenas assumindo sua responsabilidade.

Igor encostou a cabeça na cama, fechando os olhos.

— Eu sinto que o meu mundo acabou, mãe. Se eu perder a Júlia, o East High vai ser só um lugar vazio de novo. Eu prefiro ser o nerd invisível do que o namorado que a fez chorar.

— Então use esse sentimento para mudar — aconselhou Vanessa. — O amor de verdade não é posse, Igor. É parceria. Você precisa acreditar que é o suficiente para ela, porque ela escolheu você, com óculos, com piadas e com tudo mais.

Igor ficou em silêncio por um longo tempo, sentindo o carinho da mãe. O peso no peito ainda estava lá, uma dor aguda de quem sabe que feriu o que tinha de mais sagrado.

Naquela noite, Igor não dormiu. Ele ficou olhando para a foto de Júlia no seu celular — ela sorrindo na lanchonete, com os óculos levemente embaçados. Ele se lembrou do brilho nos olhos dela quando ele a pediu em namoro e sentiu uma nova onda de lágrimas.

Do outro lado da cidade, Júlia também não dormia. Ela olhava para o buquê de rosas secas sobre a mesa, sentindo o coração apertado. Ela amava Igor, mas a ferida daquela tarde ainda ardia. Ela se perguntava se o "felizes para sempre" que eles tinham começado a escrever tinha acabado de ser rasgado por um acesso de fúria.

A melodia do East High estava desafinada, e caberia a Igor encontrar a nota certa para consertar o que o medo tinha quebrado. Mas, naquela madrugada, o único som que se ouvia no quarto do garoto moreno era o sussurro de um pedido de desculpas que ele ainda não tinha coragem de dizer em voz alta.