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Uma dama e seis vagabundos

O Pacto da Serpente e o Trem para o Inferno

A manhã de embarque no Expresso de Hogwarts sempre tinha um gosto agridoce, mas no dormitório dos meninos da Sonserina, o sabor era de caos puro e absoluto. O ambiente estava impregnado com o cheiro de café forte que Lorenzo conjurara e a fumaça onipresente de Theodore, que parecia determinado a defumar cada peça de roupa antes de guardá-la no malão.

— Hanna, se você colocar mais um par de sapatos no meu lado do armário, eu juro que vou enfeitiçá-los para morderem seus calcanhares durante as férias inteiras — Draco resmungou, lutando para fechar seu malão de couro de dragão, que parecia prestes a explodir.

— Deixe de ser dramático, Draco — respondi, terminando de prender meu cabelo em um rabo de cavalo alto enquanto me olhava no espelho. — Se você não tivesse trazido sete tipos diferentes de loção pós-barba, sobraria espaço para as minhas coisas.

— São essenciais para a manutenção da minha imagem — ele rebateu, empinando o nariz. — Coisa que você, com essa franja sempre torta, claramente não entende.

Senti uma almofada voar em direção à cabeça de Draco, atingindo-o em cheio. Matteo, ainda jogado na minha cama com os braços atrás da cabeça, ria abertamente.

— Deixa a garota em paz, Malfoy. Ela está perfeita — Matteo disse, sua voz rouca de quem acabara de acordar. — E, aliás, hoje é terça-feira. Theodore, é sua vez de ser o "guarda-costas" noturno. Tente não ser tão estranho quanto você é durante o dia.

Theodore soltou uma nuvem de fumaça azulada e deu um sorriso de lado.

— Eu sou um cavalheiro, Matteo. Ao contrário de você, que parece um Poltergeist possuído quando dorme. Hanna, querida, prepare-se para o melhor sono da sua vida. Eu não ronco e não tento roubar o cobertor a cada cinco minutos.

— Vocês falam como se eu fosse um objeto de revezamento — comentei, pegando minha mochila. — Mas admito que a ideia de não ter o Matteo me chutando a noite toda parece um sonho.

— Eu não te chutei! — Matteo protestou, sentando-se abruptamente. — Eu estava apenas... garantindo que você estivesse presente.

— Sei bem o seu "garantindo" — Tom interveio, fechando seu malão com um movimento seco da varinha. Ele estava impecável, como sempre, sem um único fio de cabelo fora do lugar. — Vamos. O trem não vai esperar pela incompetência de vocês em organizar as malas.

Saímos das masmorras em um grupo barulhento. No caminho pelos corredores de pedra, Régulos caminhava ao meu lado, mantendo uma mão protetora no meu ombro sempre que algum aluno do primeiro ano passava correndo.

— Você está nervosa para voltar para casa, Hanna? — Régulos perguntou em voz baixa, longe dos ouvidos provocadores dos outros.

— Um pouco — confessei. — Vai ser estranho não ter vocês gritando no meu ouvido o tempo todo. Acho que vou sentir falta até dos insultos do Draco.

— Não se preocupe — ele sorriu, um sorriso genuíno que raramente mostrava aos outros. — Vamos te mandar tantas corujas que seus pais vão achar que você abriu um santuário de aves.

Ao chegarmos à plataforma 9 ¾, o caos de Hogwarts foi substituído pela fumaça branca da locomotiva e pelo choro de despedida das famílias. Nós sete formávamos uma visão intimidadora: seis dos rapazes mais cobiçados e perigosos da escola, cercando uma única garota de olhos cor de mel que parecia ser o centro de gravidade de todos eles.

Conseguimos uma cabine privativa no final do trem. Tom, é claro, sentou-se na janela, abrindo um pergaminho longo, provavelmente com planos para o próximo semestre. Matteo e Theodore sentaram-se de um lado, enquanto Draco, Lorenzo e Régulos se espremeram do outro. Eu acabei ficando no meio, entre Draco e Lorenzo, sentindo o calor de ambos.

— Então — Lorenzo começou, abrindo uma caixa de Feijõezinhos de Todos os Sabores —, o que vamos fazer a respeito do nosso "acordo" durante as férias? Não podemos exatamente revezar a cama da Hanna por correio coruja.

— Eu proponho visitas — Draco sugeriu, cruzando as pernas. — Minha mãe adora receber visitas, e o solar dos Malfoy tem espaço de sobra. Poderíamos levar a Hanna para lá por uma semana.

— Nem pensar — Matteo cortou, os olhos brilhando. — Se ela for para a sua casa, você vai tentar dar uma de pavão o tempo todo. Ela vai para a minha casa.

— Sua casa? — Theodore riu. — Matteo, sua casa é um mausoléu sombrio. Ela morreria de tédio em dois dias.

— Parem com isso — eu disse, batendo no joelho de Lorenzo para que ele parasse de balançar a perna. — Eu tenho planos com a minha família. Mas podemos nos encontrar no Beco Diagonal antes do Natal. O que acham?

— Aceitável — Tom disse, sem desviar os olhos do pergaminho. — Desde que vocês não se comportem como animais no meio da rua. Tenho uma reputação a zelar.

— Sua reputação de "geladeira ambulante"? — Draco provocou.

Tom levantou os olhos lentamente. O silêncio que se seguiu foi pesado, até que Tom deu um sorriso mínimo e quase imperceptível.

— Pelo menos eu não choro quando perco um jogo de Quadribol, Draco.

A cabine explodiu em risadas, e até Draco teve que esconder o rosto atrás de uma revista de vassouras para disfarçar o constrangimento.

Conforme o trem avançava pelas colinas escocesas, o cansaço do fim do semestre começou a bater. A conversa diminuiu de tom, substituída pelo som rítmico dos trilhos. Senti minha cabeça pesar e, sem perceber, acabei encostando no ombro de Draco. Ele ficou tenso por um segundo, mas logo relaxou, apoiando a cabeça contra a minha.

— Ela apagou — sussurrou Lorenzo.

— Shh — Theodore murmurou. — Se acordarem ela, eu juro que lanço um Silencio em todo mundo.

Mesmo meio dormindo, eu sentia a presença deles. Sentia o cheiro de tabaco de Theodore, o perfume caro de Draco e a aura intensa de Tom, que agora observava a paisagem lá fora. Eu era a "mascote" deles, a garota que eles humilhavam para esconder que não sabiam como lidar com o que sentiam. Mas ali, naquele cubículo fechado, eu era a única pessoa que conseguia desarmar todos eles.

Acordei horas depois com o trem parando na estação de King's Cross. A luz do entardecer filtrava-se pelas janelas, dando a tudo um tom dourado e nostálgico.

— Chegamos, dorminhoca — Matteo disse, cutucando minha bochecha com o dedo. — Seus pais já devem estar lá fora.

— Já? — bocejei, esfregando os olhos.

Ajudamos uns aos outros com as malas. Na plataforma, o clima era de despedida real. Lorenzo me deu um abraço apertado, quase me tirando do chão. Draco beijou minha mão com uma reverência exagerada, mas seus olhos mostravam uma suavidade rara. Theodore apenas piscou para mim, murmurando algo sobre "nos vemos na escala de janeiro".

Régulos me deu um beijo na testa, demorado e protetor.

— Cuide-se, Hanna. Se algum trouxa te incomodar, mande uma coruja. Eu resolvo.

— Eu sei que resolve, Rég — sorri.

Por último, restaram apenas Tom e Matteo. Tom deu um passo à frente, sua presença comandando o espaço ao redor.

— Hanna — ele disse, sua voz baixa e magnética. Ele estendeu a mão e ajeitou uma mecha rebelde do meu cabelo preto por trás da minha orelha. O toque foi frio, mas eletrizante. — Não esqueça de ler os capítulos de Poções que eu marquei. Não quero que você volte para Hogwarts com o cérebro atrofiado pelas férias.

— Eu vou ler, Tom. Prometo.

Ele assentiu, um olhar profundo cruzando o meu antes de ele se afastar com sua elegância habitual.

Matteo foi o último. Ele não disse nada a princípio. Apenas me puxou para um canto, longe do fluxo de pessoas. Seus olhos cor de tempestade estavam fixos nos meus.

— Segunda-feira que vem — ele sussurrou. — Eu vou te mandar um presente. Fique atenta à sua janela.

— Um presente? O que é?

— Você vai ver — ele sorriu, aquele sorriso torto que sempre fazia meu coração errar uma batida. Ele se inclinou e sussurrou no meu ouvido: — E tente não sentir muita falta de dormir acompanhada. Eu sei que a sua cama vai parecer enorme agora.

— Convencido — murmurei, mas meu rosto estava pegando fogo.

Ele me deu um beijo rápido no canto da boca e desapareceu na multidão, seguindo os outros.

Fiquei ali parada por um momento, observando as capas verdes e pretas sumirem entre os trouxas. Minha vida em Hogwarts era um turbilhão de emoções, insultos carinhosos e uma proteção possessiva que às vezes me sufocava, mas que eu não trocaria por nada no mundo.

— Hanna! — Ouvi a voz da minha mãe chamando ao longe.

Respirei fundo, ajeitei minha mochila e comecei a caminhar. As férias seriam longas, mas eu sabia que, em algum lugar da Inglaterra, seis sonserinos estavam contando os dias para me verem de novo. E, secretamente, eu também estava contando os meus.

Afinal, quem mais me faria sentir tão viva quanto aqueles idiotas?

Enquanto caminhava em direção aos meus pais, senti um pequeno peso no bolso do meu casaco. Coloquei a mão lá dentro e puxei um pequeno anel de prata com o brasão da Sonserina. Não era meu. Olhei para trás, mas eles já haviam partido.

Sorri, colocando o anel no dedo. O jogo estava apenas começando, e eu mal podia esperar pelo próximo semestre naquele dormitório. Se eu terminasse o ano em uma cadeira de rodas, como havíamos brincado, pelo menos eu teria as melhores histórias para contar e os seis melhores — e mais perigosos — enfermeiros que o mundo bruxo já viu.