Voltar ao resumo

Uma dama e seis vagabundos

O Pacto do Toque e o Calor da Serpente

O retorno a Hogwarts após as férias de inverno trouxe consigo o ar gélido das Terras Altas, mas dentro das masmorras da Sonserina, a atmosfera era tudo menos fria. O cheiro de lenha queimada, pergaminho e o aroma metálico da água do lago que batia contra as janelas submersas faziam com que eu me sentisse, finalmente, de volta ao meu lugar. O dormitório masculino não havia mudado nada: o malão de Draco continuava aberto e transbordando roupas de seda, as cinzas do cigarro de Theodore decoravam o parapeito e Tom mantinha sua poltrona como um trono inalcançável.

Eu estava sentada ao lado de Tom, na beirada da cama dele, observando Matteo e Lorenzo tentarem enfeitiçar um par de botas para que elas dançassem sozinhas. A ironia do destino, ou talvez a minha própria organização meticulosa, ditava que hoje era terça-feira. E terça-feira, de acordo com a nossa escala, era a noite de Theodore Nott.

— Você está muito calada, Hanna — comentou Tom, sem tirar os olhos do livro grosso que segurava. — O silêncio da sua casa trouxa atrofiou sua capacidade de falar ou você está apenas planejando como sobreviver ao sono agitado do Nott?

Eu ri, balançando as pernas e sentindo o tecido da minha saia roçar no joelho dele.

— Eu estava apenas pensando em como senti falta dessa bagunça — respondi, olhando para Draco, que reclamava da iluminação enquanto tentava ler uma carta. — Lá em casa ninguém me chama de tonta a cada cinco minutos. É estranhamente entediante.

— Podemos resolver isso agora mesmo, sua tonta — disparou Draco, lançando um olhar de soslaio, mas com um sorriso de canto que o traía.

— Vejam só, ela está nostálgica — Matteo zombou, parando de mexer nas botas e se aproximando. — Admita, Hanna, você sentiu falta mesmo foi do meu charme. O Tom é muito sem graça para uma garota como você.

— O "sem graça" aqui pode transformar você em um furão em menos de dois segundos, Matteo — Tom disse, sua voz calma carregada de uma ameaça velada que sempre me fazia arrepiar.

A energia no quarto estava leve, cheia daquela camaradagem ácida que só os sonserinos entendiam. Em um impulso de alegria por estar de volta, levantei-me da cama e, antes que Tom pudesse reagir, pulei em suas costas. Ele soltou um ruído de surpresa, quase deixando o livro cair, mas suas mãos agiram por instinto, segurando minhas coxas para que eu não escorregasse.

— Hanna! — ele exclamou, embora não houvesse raiva em sua voz, apenas uma nota de choque contido.

— Vamos, Tom! Você é muito rígido — eu disse, rindo e apoiando o queixo no ombro dele. — Cadê o espírito de boas-vindas?

Os meninos explodiram em assobios e provocações.

— Olhem só o nosso Lorde das Trevas servindo de montaria! — Lorenzo gargalhou, jogando um travesseiro na nossa direção. — Hanna, você é a única pessoa no mundo bruxo que não tem medo de morrer, obviamente.

— Ela sabe que ele é um gatinho nas mãos dela — Theodore comentou, encostado na coluna de pedra da cama dele, observando a cena com um brilho divertido nos olhos.

Tom suspirou, mas não me jogou no chão. Pelo contrário, ele se levantou comigo ainda em suas costas, mantendo uma postura impecável enquanto caminhava dois passos apenas para me mostrar que conseguia me carregar sem esforço. Eu ria, sentindo-me segura, sentindo o calor que emanava dele através da túnica preta.

— Já chega — Tom disse, embora houvesse um traço de diversão em seus lábios. — Você é pesada para alguém tão pequena.

— Mentiroso! — exclamei, escorregando das costas dele e voltando para o chão.

Assim que meus pés tocaram o tapete, senti mãos rápidas e ágeis me alcançarem. Theodore, que estava quieto até então, avançou como uma serpente pronta para o bote. Seus dedos começaram a atacar minhas costelas com uma precisão cirúrgica.

— Não! Theo, para! — eu gritava entre gargalhadas, tentando me desvencilhar, mas ele era mais forte e conhecia todos os meus pontos fracos.

— Você estava muito saidinha nas costas do Tom, Hanna — ele disse, com um sorriso travesso enquanto continuava a tortura das cócegas. — Precisa de um pouco de disciplina.

— Eu... eu vou... te azarar! — tentei dizer, mas o fôlego me faltava.

Os outros apenas assistiam, divertidos com o meu sofrimento. Draco comentava sobre como eu parecia um peixe fora d'água se debatendo, enquanto Régulos apenas sorria balançando a cabeça. Finalmente, Theodore parou, soltando-me e dando um passo para trás com um ar de vitória.

Eu fiquei ali, ofegante, com as bochechas coradas e o coração disparado. Mas havia um efeito colateral que todos naquele quarto conheciam muito bem: depois de ser alvo de brincadeiras brutas ou cócegas, eu entrava em um estado de carência absoluta. Era como se meu corpo precisasse compensar o agito com o máximo de afeto possível.

Olhei para Theodore. Ele estava parado, limpando as mãos na calça, com aquele jeito desleixado e charmoso dele. Sem pensar duas vezes, dei dois passos rápidos e pulei no colo dele.

Desta vez, não foi nas costas. Pulei de frente, passando minhas pernas em volta da cintura dele e prendendo meus braços ao redor do seu pescoço. Theodore soltou um "oof" de surpresa, mas seus braços circularam minha cintura instantaneamente, segurando-me com firmeza contra ele.

Escondi meu rosto na curva do pescoço dele, sentindo o cheiro de tabaco e sândalo que era tão característico de Theodore Nott. Eu estava completamente entregue, agindo como uma criança manhosa que acabara de ser assustada e buscava refúgio.

— Mas o que é isso? — Lorenzo perguntou, a voz cheia de deboche. — A fera foi domada?

— Olhem para ela — Draco zombou, cruzando os braços. — Um minuto atrás estava montada no Tom como se fosse uma guerreira, agora está aí, grudada no Nott como um filhote de pelúcio. Que manhosa.

— Ela está carente — Matteo disse, aproximando-se e puxando levemente uma das minhas tranças. — Hanna, você não tem vergonha? No colo dele, na frente de todo mundo?

Eu não respondi. Apenas apertei mais o abraço, sentindo o peito de Theodore vibrar enquanto ele soltava uma risada baixa e rouca bem perto do meu ouvido.

— Deixem ela — Theodore disse, sua voz soando protetora. — É terça-feira, esqueceu? Ela sabe quem manda hoje.

— Você não manda em nada, Nott — Tom interveio, embora o tom de sua voz tivesse uma ponta de algo que parecia muito com ciúme. — Ela só está usando você como um aquecedor humano.

— Pode ser — rebateu Theodore, começando a caminhar pelo quarto comigo ainda pendurada nele, como se eu não pesasse absolutamente nada. — Mas ela escolheu o meu colo.

Eu me afastei apenas o suficiente para olhar para os outros, sem descruzar as pernas da cintura de Theo.

— Vocês são todos uns idiotas — eu disse, com a voz abafada pela preguiça e pelo conforto. — Eu estou ótima aqui. O Theo é muito mais macio que a poltrona do Tom.

— Macio? — Draco fingiu indignação. — Eu gasto galeões em sedas e cremes, e você diz que o Nott, que dorme em cima de livros e cinzas, é macio?

— É o calor, Draco — Lorenzo explicou, sentando-se na cama de Matteo. — A Hanna é movida a temperatura e atenção. Dê a ela um pouco de carinho e ela esquece que somos os "bruxos perigosos" que os pais dela temem.

Theodore sentou-se na sua própria cama, mantendo-me em seu colo. Ele se encostou na cabeceira e eu me acomodei, deitando a cabeça em seu ombro e fechando os olhos. O barulho do dormitório continuava ao redor — o som de pergaminhos sendo rasgados, a discussão sobre a próxima partida de quadribol, o estalo das brasas na lareira — mas, para mim, tudo parecia distante.

— Você está muito manhosa hoje, pequena — sussurrou Theodore, passando a mão pelo meu cabelo de forma surpreendentemente gentil.

— É culpa sua — murmurei. — Você começou com as cócegas. Agora aguente as consequências.

— Eu não estou reclamando — ele respondeu, baixando a voz para que apenas eu ouvisse. — Você sabe que eu prefiro quando você está assim. Menos rude, mais... minha.

Senti um frio na barriga que não tinha nada a ver com as masmorras. Theodore sempre fora o mais imprevisível do grupo. Ele podia ser frio e sarcástico em um momento e, no próximo, tratar-me com uma delicadeza que me desarmava completamente.

— Ei, pombinhos! — a voz de Matteo cortou o momento. — Não se esqueçam de que ainda estamos no quarto. Hanna, se você dormir agora, não vai conseguir comer nada no jantar.

— Eu não estou com fome — menti, embora meu estômago desse um leve sinal de protesto.

— Ela está mentindo — disse Tom, levantando-se e fechando seu livro com o estalo final de quem encerra um assunto. — Hanna, desça do colo do Theodore. Vamos descer para o Salão Principal. Todos nós.

Eu soltei um resmungo de insatisfação, apertando ainda mais o pescoço de Theo.

— Não quero. Estou confortável.

— Hanna — a voz de Tom agora era aquela que ele usava quando queria obediência imediata, mas havia uma suavidade nela que ele só usava comigo. — Agora.

Theodore riu, dando um tapinha leve na minha cintura.

— É melhor ir, pequena. Se o Tom ficar com fome, ele começa a planejar assassinatos, e eu estou com preguiça de esconder corpos hoje.

Com muita relutância, descruzou minhas pernas e escorreguei do colo dele. Senti falta do calor instantaneamente. Theodore se levantou, ajeitando a túnica e bagunçando meu cabelo enquanto passava por mim.

— Não se preocupe — ele piscou. — A noite ainda é longa. E a escala é clara.

Caminhamos em direção à porta do dormitório. Draco ia na frente, reclamando que o jantar de Hogwarts nunca era tão bom quanto o da Mansão Malfoy; Lorenzo e Matteo vinham logo atrás, empurrando-se e tentando derrubar um ao outro; Régulos caminhava ao meu lado, oferecendo-me o braço com sua elegância silenciosa de Black.

Tom e Theodore vinham por último, flanqueando-me como sombras protetoras.

Enquanto descíamos as escadas em direção ao Salão Principal, o burburinho dos outros alunos começou a preencher o ar. Muitos se afastavam quando nos viam passar. O grupo de sonserinos mais temidos da escola, e eu, a garota que muitos consideravam uma "vítima" ou uma "intrusa". Se eles soubessem que, minutos atrás, eu estava pendurada no pescoço de Theodore Nott como se ele fosse meu porto seguro, as fofocas de Hogwarts explodiriam.

— Por que está sorrindo? — perguntou Régulos, inclinando a cabeça para me olhar.

— Só estou pensando em como a vida é estranha — respondi, apertando o braço dele. — E em como eu tenho sorte por vocês serem tão idiotas.

— Sorte? — Draco se virou, caminhando de costas por um momento. — Você é a pessoa mais sortuda do mundo bruxo, Hanna. Você tem o Malfoy como consultor de moda, o Tom como guarda-costas e o Nott como travesseiro. O que mais você poderia querer?

— Talvez um pouco de paz? — sugeri, rindo.

— Paz é para a Lufa-Lufa — Matteo declarou, passando o braço pelo meu ombro e me puxando para o lado dele. — Na Sonserina, nós preferimos o caos. E você, pequena bússola, é o centro do nosso caos.

Entramos no Salão Principal sob os olhares de sempre. Sentamos na mesa da Sonserina, ocupando nosso lugar de direito. O jantar foi farto, cheio de conversas sobre as férias e os planos para os exames de N.I.E.M.s que se aproximavam para os mais velhos. Mas, durante todo o tempo, eu sentia o olhar de Theodore em mim.

Quando finalmente terminamos e voltamos para as masmorras, o cansaço era real. O frio da noite de Hogwarts parecia penetrar até os ossos. Entramos no dormitório e, um por um, os meninos começaram a se preparar para dormir.

Tom foi o primeiro a se recolher, fechando as cortinas de sua cama após me dar um "boa noite" curto e direto. Draco e Lorenzo ainda ficaram conversando em voz baixa sobre uma nova marca de vassouras, enquanto Matteo e Régulos revisavam um mapa estelar.

Eu fui para o meu lado do quarto, troquei-me rapidamente pelo meu pijama de flanela verde — que atraiu um comentário sarcástico de Draco sobre eu parecer um elfo doméstico festivo — e me enfiei debaixo das cobertas.

O colchão afundou ao meu lado.

Não precisei abrir os olhos para saber quem era. Theodore entrou debaixo do edredom, trazendo consigo aquele calor que eu buscara o dia todo. Ele se deitou de lado, puxando-me para perto, de modo que minhas costas ficassem coladas ao seu peito.

— Você ainda está carente? — ele sussurrou perto do meu ouvido, sua voz vibrando contra a minha nuca.

— Um pouco — admiti, relaxando em seu abraço. — Foi um dia longo.

— É — ele concordou, passando o braço por cima da minha cintura e me prendendo firmemente. — Mas você está de volta. E é isso que importa.

— Theo? — chamei baixinho.

— Hum?

— Obrigada por não me deixar cair hoje. No colo, quero dizer.

Ele soltou uma risada curta, o som abafado pelo travesseiro.

— Eu nunca deixaria você cair, Hanna. Nem hoje, nem nunca. Agora durma, antes que o Matteo comece a reclamar que estamos fazendo barulho.

— Eu ouvi isso, Nott! — a voz de Matteo veio do outro lado do quarto. — E eu só não reclamo porque sei que a Hanna é insuportável quando não dorme o suficiente!

— Calem a boca, todos vocês! — a voz de Tom soou por trás das cortinas, fria e autoritária. — Se eu ouvir mais uma palavra, vou transformar este dormitório em um cemitério silencioso.

O silêncio caiu instantaneamente. Sorri no escuro, sentindo o aperto de Theodore aumentar levemente, como se ele estivesse rindo silenciosamente.

Ali, protegida pelo calor de Theodore, cercada pela presença vigilante de Tom, Draco, Matteo, Lorenzo e Régulos, eu finalmente deixei o sono me levar. As férias haviam acabado, as aulas começariam amanhã e o mundo lá fora continuava perigoso. Mas dentro daquelas paredes de pedra, sob o lago, eu era a rainha de um reino de serpentes. E não havia nenhum outro lugar no mundo onde eu preferisse estar.