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Uma dama e seis vagabundos

A Dança das Sombras e o Peso do Sangue

O retorno às rotinas de Hogwarts após o feriado de Natal sempre trazia uma melancolia cinzenta, mas nas masmorras da Sonserina, a melancolia era substituída por uma eletricidade estática que fazia os pelos dos meus braços se arrepiarem. A escala que eu havia criado para as noites de sono estava funcionando, surpreendentemente, mas a dinâmica entre os rapazes estava cada vez mais tensa. O ar no dormitório parecia saturado de segredos que eles não queriam que eu soubesse, e olhares que Tom lançava para os outros quando pensava que eu não estava vendo.

Eu estava sentada no chão, entre as camas de Draco e Matteo, tentando traduzir um texto complexo de Runas Antigas. A lareira estalava, lançando sombras longas que dançavam nas paredes de pedra úmida. O cheiro de tabaco mágico de Theodore, agora misturado com um aroma cítrico de uma poção que Lorenzo estava preparando, criava uma névoa baixa no tapete.

— Hanna, você está franzindo a testa de novo — comentou Draco, largando o Profeta Diário e se inclinando para fora da cama. — Se continuar fazendo isso, vai ficar com rugas antes dos dezesseis. E eu me recuso a ser visto com uma amiga que parece uma uva passa.

— Se eu ficar com rugas, Draco, vai ser de tanto tentar entender por que vocês são tão irritantes — respondi, sem levantar os olhos do pergaminho.

— Irritantes? — Matteo interveio, soltando uma risada seca enquanto polia sua varinha com um pedaço de veludo. — Somos a única coisa que mantém a sua vida minimamente interessante, pequena bússola. Sem a gente, você seria apenas mais uma aluna medíocre da Sonserina que passa o tempo na biblioteca falando sozinha.

— Eu não falo sozinha — retruquei, finalmente olhando para ele. — Eu estudo. Algo que você deveria tentar, considerando que suas notas em Transfiguração estão no fundo do Lago Negro.

Matteo se levantou em um movimento fluido, como uma pantera, e caminhou até mim. Ele se agachou, ficando na altura dos meus olhos, e puxou suavemente uma das mechas do meu cabelo preto.

— Minhas notas são o menor dos meus problemas, Hanna. E deveriam ser o menor dos seus também.

Houve uma pausa pesada. Tom, que estava sentado em sua poltrona habitual, fechou o livro com um estrondo. O som ecoou pelo quarto, silenciando até o borbulhar do caldeirão de Lorenzo.

— Matteo, chega — a voz de Tom era um sussurro perigoso. — Deixe-a em paz. Ela tem trabalho a fazer.

— Ela sempre tem trabalho a fazer, Tom — Matteo rebateu, sem desviar o olhar de mim. — Mas talvez ela devesse saber o que está acontecendo. Talvez ela devesse saber por que o Régulos não sai daquele canto há duas horas.

Olhei para o canto do quarto. Régulos Black estava sentado em sua cama, as cortinas meio fechadas, olhando fixamente para uma carta que parecia ter sido queimada nas bordas. Ele estava pálido, mais do que o normal, e suas mãos tremiam levemente.

— Régulos? — chamei, sentindo um aperto no peito. — Está tudo bem?

Ele não respondeu. Foi Tom quem se levantou, caminhando com sua elegância predatória até o centro do quarto.

— Nada está bem, Hanna — disse Tom, sua voz fria e calculista. — Mas isso não é assunto seu. Volte para suas runas.

Senti o sangue subir ao meu rosto. Eu odiava quando ele me tratava como uma criança que precisava ser protegida ou, pior, como alguém irrelevante para o grupo.

— Não — eu disse, levantando-me e limpando a poeira da saia. — Se um de vocês está mal, é assunto meu. Vocês não podem me usar como travesseiro à noite e me descartar como uma estranha durante o dia.

Caminhei até a cama de Régulos, ignorando o olhar de advertência que Tom me lançou. Sentei-me ao lado do Black, sentindo o frio que parecia emanar dele. Sem dizer uma palavra, coloquei minha mão sobre a dele. Ele deu um pulo, assustado, mas não se afastou.

— É da sua família, não é? — perguntei baixinho.

Régulos finalmente olhou para mim. Seus olhos estavam cheios de um medo que ele tentava desesperadamente esconder sob a máscara de nobreza dos Black.

— Eles querem que eu faça algo, Hanna — sussurrou ele, a voz tão baixa que eu mal conseguia ouvir. — Algo que não tem volta.

Senti um calafrio. Eu sabia o que estava acontecendo no mundo bruxo. Sabia que as sombras estavam se movendo e que Tom estava no centro de muitas delas, embora ele nunca admitisse abertamente para mim.

— Você não precisa — eu disse, apertando sua mão. — Você tem uma escolha.

Uma gargalhada amarga veio de Theodore, que estava encostado na parede oposta.

— Escolha? Hanna, você é tão doce que às vezes me dá cáries. Famílias como as nossas não dão escolhas. Elas dão ordens. E se você não as segue, você é cortado. Ou coisa pior.

— Theodore, cale a boca — Draco ordenou, embora sua própria expressão fosse de pura ansiedade.

A tensão no quarto era sufocante. Era como se as paredes estivessem se fechando. Eu olhei para aqueles seis rapazes. Draco, com o peso do nome Malfoy; Theodore e Matteo, marcados pela violência de seus pais; Lorenzo, que tentava esconder sua dor atrás de piadas; Régulos, sendo esmagado pela tradição; e Tom... Tom, que queria ser o mestre de todos eles.

— Eu não me importo com o que as famílias de vocês dizem — eu declarei, minha voz ganhando força. — Aqui, neste dormitório, vocês são apenas vocês. E eu não vou deixar ninguém levar o Régulos para algum lugar que ele não queira ir.

Tom caminhou até mim, parando a centímetros de distância. O cheiro de pergaminho antigo e poder emanava dele.

— E como você pretende nos impedir, Hanna? — perguntou ele, inclinando a cabeça. — Com sua gentileza? Com suas notas altas? Você é uma sonserina, deveria saber que o mundo é movido por força, não por sentimentos.

— Eu sou uma sonserina, Tom — respondi, encarando-o de frente. — E a minha força é que eu sou a única coisa que mantém vocês humanos. Sem mim, vocês são apenas monstros em ternos caros. E monstros acabam se destruindo.

Houve um silêncio absoluto. Matteo e Lorenzo trocaram olhares nervosos. Draco parecia estar prendendo a respiração. Tom me observou por um longo tempo, seus olhos escuros vasculhando minha alma em busca de fraqueza. Ele não encontrou nenhuma.

Subitamente, a tensão quebrou. Tom deu um passo atrás e soltou um suspiro curto, quase imperceptível.

— Régulos, queime a carta — ordenou Tom. — Vamos lidar com isso de outra forma.

Régulos olhou para Tom, uma faísca de esperança surgindo em seus olhos. Com um movimento rápido da varinha, o pergaminho em suas mãos se transformou em cinzas antes mesmo de tocar o chão.

— Obrigado, Tom — murmurou Régulos.

— Não me agradeça — Tom respondeu, voltando para sua poltrona. — Agradeça à Hanna. Ela parece ter decidido que é nossa guardiã hoje.

Matteo soltou um assobio longo e caminhou até mim, passando o braço pelo meu ombro e me puxando para longe da cama de Régulos.

— Guardiã, é? — ele provocou, mas desta vez não havia malícia em sua voz, apenas um alívio disfarçado. — Acho que isso merece uma recompensa. Theodore, que dia é hoje?

Theodore consultou um calendário imaginário no ar.

— Quarta-feira. Noite do Lorenzo. Mas acho que a Hanna precisa de algo mais reforçado depois desse discurso de heroína.

Lorenzo se levantou, com um sorriso radiante.

— Eu concordo totalmente. Hoje, abro mão da minha exclusividade. Proponho uma noite de cinema e doces contrabandeados. E a Hanna fica no meio, para garantir que nenhum de nós se transforme em monstro durante o filme.

— Eu apoio — disse Draco, já se acomodando no chão com várias almofadas. — Mas se o filme for um romance trouxa, eu vou lançar um Cruciatus na televisão.

— Vai ser um filme de terror — Matteo declarou, pegando uma caixa de sapos de chocolate. — Para vermos se a nossa bússola é tão corajosa quanto parece.

Em poucos minutos, o dormitório foi transformado. Almofadas e cobertores foram espalhados pelo chão, criando um ninho gigante de veludo verde e prata. A pequena televisão mágica foi ligada, e o brilho da tela começou a iluminar os rostos dos rapazes.

Eu me sentei no centro, como Lorenzo sugerira. À minha esquerda, Matteo se acomodou, usando meu ombro como apoio. À minha direita, Lorenzo se aninhou, segurando uma tigela de pipocas mágicas que mudavam de sabor a cada mordida. Draco e Theodore ficaram aos meus pés, e Régulos sentou-se logo atrás de mim, encostado na base da cama, parecendo muito mais calmo agora.

Tom, surpreendentemente, não ficou em sua poltrona. Ele se aproximou e sentou-se na extremidade do grupo, mantendo sua dignidade, mas permitindo-se fazer parte do círculo.

O filme era sobre uma casa assombrada, cheio de sustos repentinos e música tensa. A cada vez que algo pulava na tela, eu sentia o corpo de Matteo ou de Lorenzo se tencionar contra o meu. Eles fingiam que não estavam com medo, mas a possessividade com que me seguravam dizia o contrário.

— Isso é ridículo — comentou Draco, embora estivesse segurando a ponta do meu cobertor com força. — Por que os trouxas entram na casa? É óbvio que há um espírito maligno ali.

— Nem todo mundo tem uma varinha para detectar maldições, Draco — respondi, rindo.

— Se eu fosse o espírito, eu já teria matado todos eles nos primeiros dez minutos — murmurou Tom, com um tom de voz que me fez pensar que ele realmente estava analisando a estratégia do fantasma.

Lá pela metade do filme, senti o peso da cabeça de Theodore no meu joelho. Ele havia pegado no sono, a fumaça de seu último cigarro ainda pairando levemente sobre ele. Lorenzo estava ocupado demais tentando roubar os doces de Matteo, o que resultou em uma briga silenciosa de empurrões que eu tive que interromper com um olhar severo.

— Parem, vocês dois — sussurrei. — Vão acordar o Theo.

— Ele dorme como um morto — Matteo disse, mas parou de empurrar Lorenzo. Ele se virou para mim, seus olhos brilhando no escuro. — Hanna, você falou sério? Sobre sermos monstros?

O quarto ficou silencioso novamente, apenas com o som abafado do filme ao fundo. Eu olhei para Matteo, depois para Tom, que me observava com uma intensidade renovada.

— Eu acho que todos têm um monstro dentro de si — respondi com sinceridade. — Especialmente quem cresce em lugares como este. Mas vocês não precisam ser apenas isso. Vocês são meus amigos. E eu vejo coisas em vocês que o resto do mundo ignora.

— Como o quê? — perguntou Régulos, sua voz vindo de trás de mim.

— Como o fato de o Draco fingir que é egoísta, mas ter trazido o doce favorito do Lorenzo nas férias — eu disse, fazendo Draco desviar o olhar, corado. — Ou o fato de o Matteo agir como um bruto, mas sempre garantir que eu tenha o melhor travesseiro. Ou como o Tom... que apesar de querer governar o mundo, ainda se senta no chão para ver um filme bobo só porque eu pedi.

Tom soltou um suspiro nasalado, algo que poderia ser uma risada contida.

— Você é uma observadora perigosa, Hanna.

— Eu sou uma sonserina — repeti, sorrindo.

O filme terminou, mas ninguém se moveu. O conforto do ninho de almofadas era tentador demais para ser abandonado. Lorenzo, que deveria ser o dono da noite, acabou dormindo encostado no braço do sofá. Draco estava jogado por cima das pernas de Régulos.

— Acho que a escala foi para o espaço hoje — sussurrou Matteo, fechando os olhos e se aconchegando mais em mim.

— Só por hoje — eu disse, sentindo o sono me envolver também.

Senti uma mão fria tocar a minha. Era Tom. Ele não disse nada, apenas entrelaçou seus dedos nos meus por um breve momento antes de soltá-los, como um pacto silencioso de que ele ouvira o que eu dissera.

Naquela noite, sob as águas escuras do Lago Negro, não houve pesadelos. Não houve cartas queimadas ou promessas de poder. Houve apenas o calor de sete pessoas que, contra todas as probabilidades, haviam encontrado um santuário umas nas outras.

Eu sabia que as sombras voltariam. Sabia que as escolhas difíceis estavam apenas começando e que o mundo lá fora tentaria nos despedaçar. Mas enquanto eu sentia a respiração rítmica dos meus meninos ao meu redor, eu sabia que a bússola ainda estava apontando para o norte. E o norte, por enquanto, era exatamente ali, naquele dormitório barulhento e caótico, onde monstros e humanos dormiam em paz, protegidos pelo brilho da prata e pelo peso do afeto que nenhum deles ousava nomear.

— Boa noite, meus monstros — sussurrei, antes de mergulhar no sono.

E, no silêncio que se seguiu, tive a nítida impressão de ouvir a voz de Tom responder, quase inaudível:

— Boa noite, bússola.