Uma fada que ficou obcecado por uma humana
O Dente do Lobo e a Flor da Gratidão
O outono pintava a floresta com uma paleta de mel e ferrugem. O ar, invulgarmente quente para a estação, era espesso e cheirava a folhas em decomposição e à promessa distante da chuva. Caminhavas pela vegetação rasteira, com o teu mapa secreto de madeira debaixo do braço e uma bolsa de lona a tiracolo, o teu passo suave e deliberado. Cada som, cada cheiro, cada vislumbre de movimento era catalogado, uma nota mental adicionada ao teu crescente compêndio de diplomacia com o invisível.
A tua determinação em mapear a floresta, em compreender as suas fronteiras e os seus habitantes, tornara-se o eixo central dos teus dias. Não era uma busca por poder ou conhecimento pelo conhecimento. Era um ato de proteção. A imagem das crianças da aldeia, dos teus pais, tão vulneráveis na sua ignorância das marés mágicas que fluíam a poucos metros das suas casas, era o combustível que te impulsionava para o coração do desconhecido.
— Não, não podes comer o carvão, seu biltre. — A tua voz era um sussurro divertido.
Skitter, empoleirado no teu ombro, tentava surripiar o pedaço de carvão que usavas para fazer as tuas marcações no mapa de madeira. Ele soltou um estalido de frustração quando afastaste o mapa do seu alcance, os seus dedos finos a agarrarem o vazio. A sua presença era um zumbido constante de energia ao teu lado, uma mistura de ajuda e estorvo que se tornara tão familiar como a tua própria respiração. Por vezes, ele apontava com o seu chocalho para um círculo de cogumelos que não tinhas notado ou desenterrava uma pedra com veios de quartzo, oferecendo-a como um tesouro para a tua coleção. Noutras, ele tentava dar nós nos teus atacadores ou esconder as tuas ferramentas em buracos de árvores.
— Se te comportares, talvez partilhe o bolo de mel contigo mais tarde — subornaste, e ele respondeu com um chilreio que soava suspeitosamente a um acordo.
Continuaste a andar, a cantarolar uma melodia antiga e sem palavras, a mesma que acalmava os cavalos e fazia os bebés adormecer. Aqui, na companhia silenciosa de Skitter, a tua voz não era um segredo a ser guardado, mas uma extensão de ti mesma, um fio de som que se entrelaçava com o farfalhar das folhas e o zumbido dos insetos.
Avançaram mais do que o habitual, para além do território do Gnomo rabugento e do riacho onde as Nixies gostavam de entrançar os cabelos umas das outras. Chegaram a uma área que não reconhecias, um prado aberto e ondulante, salpicado de flores silvestres tardias e rochas cobertas de líquenes. Era um lugar de uma beleza tranquila e exposta, diferente das sombras densas a que estavas habituada.
Tiraste o mapa e ajoelhaste-te, pronta para adicionar esta nova clareira ao teu mundo. A tua mão movia-se com a certeza de quem encontrou o seu ofício.
Foi então que o silêncio se quebrou.
Primeiro, um rosnado baixo e gutural que fez os pelos da tua nuca se arrepiarem. Depois, um guincho agudo, um som de puro terror que não era humano nem animal, mas algo intermédio, como o som de vidro a estilhaçar-se.
Levantaste-te num instante, o teu corpo tenso. Skitter saltou do teu ombro para o chão, o seu corpo agachado, as suas orelhas achatadas contra a cabeça. Os seus olhos dourados varreram a clareira, o seu sorriso habitual substituído por uma expressão de alerta predatório.
E então viste.
Na outra extremidade do prado, um lobo. Era grande, mas magro, as suas costelas a desenharem-se sob o pelo ralo e cinzento. A sua postura era a de um caçador desesperado, os seus olhos de um amarelo febril fixos na sua presa.
E a presa… o teu coração deu um salto doloroso. Encurralada contra uma grande rocha, estava uma fada. Não um Pixie robusto e terreno como Skitter, mas algo muito mais delicado. Uma Pillywiggin, talvez, uma fada das flores. Era pequena, com a pele do brilho perolado do interior de uma concha e cabelo que parecia feito de estames de açafrão. As suas asas, como as de uma borboleta-monarca, mas translúcidas, tremiam tão violentamente que mal se conseguiam focar. Estava paralisada pelo medo, os seus grandes olhos violeta fixos no lobo, um pequeno som de lamento a escapar dos seus lábios.
O lobo rosnou de novo, mostrando dentes amarelados, e preparou-se para saltar.
Naquele instante, o mundo abrandou. O teu cérebro não processou um pensamento consciente. A tua timidez, a tua cautela, a tua aversão a sair da tua zona de conforto — tudo se evaporou. O que restou foi o instinto primordial, a fúria protetora da mãe-urso que fervia sob a tua superfície calma. Alguém pequeno e indefeso estava em perigo mortal.
— NÃO!
O grito saiu de ti, surpreendendo-te com a sua força. E começaste a correr.
— [Y/N]! — O guincho de Skitter atrás de ti era de alarme, não pela outra fada, mas por ti.
Ignoraste-o. Corrias através do prado, o teu vestido a prender-se nas ervas altas, os teus olhos fixos na cena à tua frente. Não tinhas um plano. Tinhas apenas um imperativo: ficar no meio.
Chegaste lá no momento em que o lobo saltava. Sem hesitar, atiraste-te para a frente, colocando o teu corpo entre a besta faminta e a fada aterrorizada.
Um relâmpago de dor.
Sentiste os dentes a rasgarem a carne da tua coxa, um impacto quente e húmido, seguido de uma dor aguda que te roubou o fôlego. Caíste de joelhos, um gemido a escapar por entre os teus dentes cerrados.
O lobo recuou, surpreendido pela tua intervenção, o teu cheiro a encher-lhe as narinas. Rosnou, confuso, o sangue a pingar do seu focinho.
Atrás de ti, a pequena fada soltou um soluço de choque. Skitter, que chegara um segundo depois de ti, estava a vibrar de uma fúria impotente. Ele sibilou para o lobo, os seus pequenos dentes à mostra, o seu corpo tenso como uma corda de arco, pronto para se atirar a um inimigo cem vezes o seu tamanho.
Mas tu levantaste uma mão.
— Pára, Skitter — ofegaste, a tua voz trémula de dor.
Olhaste para o lobo. E o teu coração, em vez de se encher de medo ou raiva, encheu-se de uma empatia avassaladora. Viste a sua fome, o desespero nos seus olhos amarelos. Ele não era mau. Era apenas uma criatura a tentar sobreviver, tal como a fada, tal como tu.
— Shhh… está tudo bem — sussurraste, a tua voz a tentar encontrar o tom calmo e suave que usavas com os animais assustados. — Está tudo bem, meu pobre amigo. Estás com fome, não estás?
O lobo inclinou a cabeça, a sua agressão a dar lugar a uma desconfiança cautelosa. Ele nunca encontrara uma presa que falasse com ele daquela maneira, especialmente depois de a ter mordido.
Lentamente, ignorando a dor lancinante na tua perna, estendeste a mão para a tua bolsa de lona. Skitter soltou um som de protesto, pensando que estavas a render-te.
As tuas mãos tremiam, não de medo, mas de dor e perda de sangue. Remexeste na bolsa, passando pelo teu kit de primeiros socorros — uma adição recente, um lembrete da tua última lesão e da tua promessa a ti mesma de não depender mais de ninguém —, e encontraste o que procuravas.
Um pedaço de carne seca.
O cheiro atingiu o ar, forte e salgado. Os olhos do lobo fixaram-se instantaneamente na tua mão. A sua barriga roncou, um som audível na quietude tensa.
— Vês? — murmuraste. — Eu tenho comida. Não precisas de a magoar. Eu dou-te comida.
Com um movimento lento e deliberado, atiraste a carne seca para o chão, a uma distância segura entre ti e ele.
O lobo hesitou, o seu instinto a lutar com a sua cautela. Olhou para ti, para a fada a tremer, e depois para a carne. A fome venceu. Ele avançou, farejou a oferenda e devorou-a num instante.
— Bom rapaz — encorajaste, a tua voz a ganhar força. Tiraste outro pedaço, e depois uma maçã do teu bolso. Atiraste-lhos também.
Ele comeu tudo, a sua cauda a descer de uma posição agressiva para uma de incerteza. Skitter observava, paralisado, a sua fúria a transformar-se em puro espanto. Ele não compreendia. A violência devia ser respondida com mais violência, o caos com mais caos. Esta… esta calma, esta estranha generosidade perante um ataque, era uma magia que ele não conhecia.
Quando o lobo terminou, olhou para ti. A febre da fome nos seus olhos tinha diminuído. O que restava era uma curiosidade profunda. Ele deu um passo na tua direção.
Skitter sibilou de novo, mas tu fizeste-lhe um gesto para se calar.
O lobo parou a poucos metros de ti. Lambeu o sangue do seu focinho — o teu sangue — e depois, com uma estranha solenidade, lambeu a sua própria pata. Olhou para ti uma última vez, como se estivesse a memorizar o teu rosto e o teu cheiro, e depois virou-se e desapareceu silenciosamente na floresta.
O perigo passara.
A adrenalina abandonou-te, e a dor voltou com força total. Olhaste para a tua perna. O tecido do teu vestido estava rasgado e encharcado de um vermelho escuro. O sangue escorria lentamente pela tua pele.
— Absurdo — resmungaste para ti mesma, uma onda de irritação a sobrepor-se à dor. Ser ferida de novo. Ser um estorvo. Odiavas aquilo. Odiavas a ideia de preocupar os teus pais, de seres o centro das atenções por causa da tua fraqueza. *Não sou especial*, pensaste amargamente. *Não quero ser inútil.*
Com uma determinação sombria, abriste a tua bolsa e tiraste o teu kit de primeiros socorros. Um pequeno rolo de linho contendo panos limpos, um frasco de tintura de calêndula e ligaduras. Uma prova da tua nova independência.
Atrás de ti, a pequena fada finalmente moveu-se. Aproximou-se hesitantemente, os seus pés mal tocando na relva. As suas asas ainda tremiam, mas os seus olhos violeta estavam fixos em ti, cheios de uma admiração estupefacta.
Ignoraste-a por um momento, focada na tua tarefa. Limpaste a ferida com um pano embebido em tintura, um silvo de dor a escapar por entre os teus dentes. Por sorte, a mordida não era tão profunda como parecera. Os dentes do lobo tinham rasgado mais do que perfurado. Ainda assim, doía como o inferno.
Skitter estava agora ao teu lado, a sua fúria anterior substituída por uma ansiedade frenética. Ele apontava para a ferida, para a floresta, para a direção da aldeia, a sua mensagem clara: "Precisas de ajuda! Vamos para casa!"
— Não — disseste com firmeza, a tua voz tensa de dor. — Eu consigo tratar disto.
Começaste a enrolar a ligadura à volta da tua coxa, as tuas mãos a tremerem de esforço.
Foi então que a pequena fada se ajoelhou à tua frente. Ela não disse nada. A sua espécie raramente usava palavras da mesma forma que os humanos. Em vez disso, estendeu as suas mãos delicadas. Na sua palma, uma pequena semente começou a brilhar com uma luz suave e prateada.
Observaste, fascinada, enquanto a semente germinava na sua mão. Um caule verde e fino cresceu em segundos, e no seu topo, um botão desabrochou numa flor de cinco pétalas, cada uma da cor do céu ao amanhecer. A flor pulsava com uma luz suave.
A fada colheu a flor e, com uma reverência, ofereceu-ta.
Hesitaste. Aceitar um presente de uma fada era um contrato. Mas a sinceridade nos seus olhos era inconfundível. Com a tua mão boa, pegaste na flor.
Assim que os teus dedos tocaram nas pétalas, sentiste-o. Uma frescura calmante espalhou-se da tua mão para o teu braço e por todo o teu corpo. A dor aguda na tua perna não desapareceu, mas foi envolvida numa névoa suave e distante, como um eco. A náusea recuou. A tua cabeça ficou mais clara.
— Obrigada — sussurraste, olhando para a fada com espanto.
Ela sorriu, um sorriso pequeno e luminoso, e apontou para a ferida. Compreendeste. Pressionaste a flor mágica contra a ligadura, sobre o local da mordida. A frescura intensificou-se, um bálsamo de gelo e luar.
Skitter observava toda a interação com uma hostilidade crescente. Ele recuou um passo, os seus olhos a dardejarem entre ti e a nova fada. Ele não gostava disto. Não gostava do seu presente, não gostava da sua proximidade contigo. Ela era a causa da tua dor. Na sua mente, a lógica era simples e brutal. Se ela não estivesse ali, não terias sido mordida. Ele sibilou baixo, um som de aviso dirigido não ao lobo ausente, mas à fada das flores.
A Pillywiggin encolheu-se ao som do sibilo de Skitter, as suas asas a tremerem de novo. Ela olhou para ti, depois para o Pixie ciumento, e pareceu compreender que a sua presença já não era bem-vinda. Ela deu um passo atrás, juntou as mãos numa pequena vénia de gratidão e, com um movimento rápido, mergulhou num canteiro de flores silvestres e desapareceu, como se nunca tivesse estado ali.
Ficaste sozinha com Skitter e a dor agora abafada na tua perna. Terminaste de apertar a ligadura, o teu trabalho agora mais fácil graças à magia da flor.
— Ela só estava assustada, Skitter — repreendeste suavemente.
Ele respondeu com um estalido de língua zangado e apontou para a tua perna enfaixada, como se dissesse: "E olha o que o medo dela te custou!"
Suspiraste. Lidar com o ciúme dele era como tentar acalmar uma tempestade. Requereria paciência e uma linguagem que só vós os dois partilháveis.
— Eu sei. Eu sei que estás preocupado. — Remexeste na tua bolsa de novo e tiraste o pequeno bolo de mel, embrulhado num pano. Desembrulhaste-o e partiste-o ao meio. Estendeste-lhe uma metade. — Para o meu protetor corajoso.
Ele olhou para o bolo, depois para ti. A sua expressão suavizou-se um pouco. Ele pegou no bolo com uma delicadeza relutante e começou a mordiscá-lo, os seus olhos nunca deixando o teu rosto.
Enquanto comias a tua própria metade, o sabor doce do mel a espalhar-se na tua língua, olhaste para a clareira. O teu mapa de madeira jazia esquecido na relva. A tua missão de mapear a floresta parecia, de repente, muito mais complicada. Não se tratava apenas de marcar árvores e riachos. Tratava-se de compreender as criaturas que aqui viviam. O lobo faminto, a fada aterrorizada, o Pixie ciumento. Cada um era uma força da natureza, com as suas próprias regras, medos e lealdades.
Levantaste-te com cuidado, usando o tronco de uma árvore como apoio. A tua perna estava dorida, mas aguentava o teu peso. A flor mágica, o seu poder gasto, murchara na tua mão, deixando apenas um aroma a ozono e madressilva. Guardaste-a no teu bolso, um memento do dia.
Skitter terminou o seu bolo e saltou para o teu ombro, a sua posição habitual. Mas em vez de se empoleirar de forma irrequieta, ele ficou quieto, a sua mão pequena e ossuda a pousar protetoramente no teu pescoço. Era o seu pedido de desculpas, a sua reafirmação de lealdade.
Acariciaste a sua mão com o teu dedo.
— Vamos para casa, meu amigo.
A caminhada de volta foi lenta e silenciosa. Cada passo era um lembrete da tua fragilidade, mas também da tua força. Não tinhas gritado, não tinhas desmaiado, não tinhas precisado de ser carregada. Tinhas enfrentado o perigo, acalmado a besta, e tratado da tua própria ferida. A satisfação sombria de não teres sido um fardo era um bálsamo quase tão potente como a flor da fada.
Quando chegaste à orla da floresta, olhaste para trás. O prado parecia novamente pacífico sob o sol da tarde, como se nada tivesse acontecido. Mas tu sabias que não era verdade. O teu mapa interior fora alterado para sempre. Tinhas adicionado um novo ponto: um prado onde a fome e o medo se encontravam. E tinhas aprendido uma nova lição. Proteger a tua aldeia não significava construir muros mais altos ou ter mais medo da floresta. Significava compreendê-la. Significava ter a coragem de oferecer um pedaço de carne a um lobo e a coragem de aceitar uma flor de uma fada.
Olhaste para a tua perna enfaixada. O dente do lobo deixaria uma cicatriz, outra marca para juntar à do teu braço. Eram os teus próprios mapas, histórias escritas na tua pele. Histórias de dor, sim, mas também de uma empatia tão feroz que se recusava a fazer distinções entre humano, besta e fada. E essa, percebeste com uma clareza serena, não era uma fraqueza. Era a tua maior e mais perigosa força. E na quietude do teu coração, sabias que a usarias de novo.