Uma fada que ficou obcecado por uma humana
O Riso que Despertou a Floresta
O outono chegara, mas o sol persistia, teimoso, derramando uma luz dourada e quente que desmentia a estação. Hoje era o dia. O teu coração batia uma melodia de ansiedade e excitação. A excursão com as crianças. A ideia fora tua, nascida de uma necessidade crescente de lhes dar as ferramentas que tu mesma estavas a aprender a usar: as ferramentas da observação, do respeito, da sobrevivência não pela força, mas pela compreensão.
A preparação fora meticulosa, um ritual que acalmava os teus nervos. O teu mapa de madeira, agora gravado com dezenas de símbolos secretos — um círculo para o território do Gnomo, uma onda para o riacho das Nixies, uma marca de dente para o prado do lobo —, estava enrolado e preso com uma tira de couro. A tua bolsa de lona estava mais pesada do que o habitual. Para além dos pães de queijo e das maçãs, continha agora o teu kit de primeiros socorros, um lembrete permanente das tuas próprias cicatrizes, e pequenos presentes para a floresta: um punhado de grãos para os pássaros, um novelo de lã colorida que as fadas gostavam de usar para os seus ninhos.
— Tens a certeza disto, minha filha? — A voz da tua mãe, vinda da porta da cozinha, estava carregada de uma preocupação que ela tentava disfarçar. O seu olhar pousou por um instante no teu braço, onde a cicatriz da queda ainda era um traço rosado, e depois desviou-se, como se a visão fosse demasiado dolorosa.
— Tenho, mãe. — Viraste-te e deste-lhe um abraço, inalando o seu cheiro a pão e segurança. — Mapeei um caminho seguro. Não iremos longe. E as crianças precisam de aprender a amar a floresta, não a temê-la.
O teu pai, que afiava uma faca junto ao fogo, apenas grunhiu em concordância. Ele compreendia, à sua maneira silenciosa, esta tua nova determinação. Vira a mudança em ti, a forma como a tua timidez se transformava numa autoridade tranquila quando o bem-estar dos outros estava em jogo.
As crianças esperavam por ti junto ao poço da aldeia, um bando ruidoso e irrequieto de dez pequenos seres humanos, as suas idades variando entre os seis e os dez anos. Os seus rostos iluminaram-se quando te viram. Para eles, tu eras um porto seguro, uma fonte de histórias, canções e um carinho inesgotável. Cuidaras de cada um deles desde que eram bebés, e o laço que vos unia era mais profundo do que a simples amizade.
— [Y/N]! [Y/N]! — Anya, a mais velha, com os seus olhos curiosos e tranças a saltitar, correu para te abraçar as pernas. — Vamos ver os esquilos falantes hoje?
Riste, afagando-lhe o cabelo.
— Talvez não os falantes, querida. Mas vamos aprender a seguir as suas pegadas.
A viagem começou, uma procissão caótica e alegre que se dirigia para a linha das árvores. Mantinhas um ritmo lento, parando a cada poucos metros para apontar algo: o musgo que crescia mais espesso no lado norte das árvores, a forma como as teias de aranha brilhavam com o orvalho da manhã, o som de um pica-pau a trabalhar à distância.
— A floresta está sempre a falar connosco — explicaste, a tua voz baixa e calma, mas que captava a atenção de todos. — Só precisamos de aprender a ouvir.
Eles ouviam, maravilhados. Para eles, isto não era uma lição; era um jogo, uma aventura guiada pela sua pessoa favorita.
Não estavas sozinha, claro. Mal puseram o pé sob a primeira sombra das árvores, sentiste-o. Um formigueiro familiar no teu pescoço, o vislumbre de um movimento rápido na periferia da tua visão. Skitter estava lá.
Ele não se mostrou. Sabia que não podia. A visão de um Pixie a saltitar à tua volta teria causado um pânico que nem tu conseguirias controlar. Mas ele estava lá, um observador ciumento e invisível. Sentias a sua presença como uma mudança na pressão do ar, um zumbido de energia irritada que só tu conseguias detetar.
A sua frustração manifestava-se em pequenas e irritantes travessuras. Um ramo baixo que de repente se balançava e quase acertava no chapéu do pequeno Tomas. Uma raiz que parecia erguer-se do chão, fazendo tropeçar a pequena Elara, que salvaste no último segundo com um braço rápido. Uma rajada de vento súbita que espalhava as folhas que estavas a usar para lhes ensinar as diferentes árvores.
Cada vez, lançavas um olhar de advertência para as sombras, um franzir de sobrancelhas que dizia: "Pára com isso." E, por um tempo, a floresta acalmava-se. Mas a sua inveja era uma fonte de energia inesgotável. Ele odiava partilhar-te, especialmente com este bando de humanos barulhentos e desajeitados.
Chegaram a uma pequena clareira que tinhas marcado no teu mapa como "O Círculo de Pedras Solares". Era um lugar seguro e aberto, banhado pela luz do sol, onde a vegetação rasteira era baixa e não havia esconderijos para grandes predadores.
— Muito bem, exploradores! — anunciaste, batendo as palmas. — Hora da nossa primeira lição de sobrevivência. Quem sabe como encontrar água se estiver perdido?
As mãos dispararam para o ar, acompanhadas de palpites entusiásticos.
— Procuramos um poço! — gritou um.
— Seguimos as vacas! — sugeriu outro.
Sorriste.
— Boas ideias. Mas e se não houver poços nem vacas? — Ajoelhaste-te e apontaste para uma planta de folhas largas. — A natureza dá-nos pistas. Vêm este orvalho, preso nas folhas? De manhã cedo, podemos recolher esta água com um pano. Não é muita, mas pode salvar a vossa vida.
Mostraste-lhes como fazê-lo, a tua voz a explicar pacientemente, os teus movimentos gentis. Estavas no teu elemento. O medo, a timidez, a ansiedade social — tudo desaparecia quando estavas a ensinar, a cuidar. Eras uma rocha, um centro de calma no meio do seu caos infantil.
A manhã passou num borrão feliz de descobertas. Aprenderam a identificar as amoras comestíveis (as mesmas que te levaram a conhecer Skitter), a seguir as pegadas de um coelho, e a ficar em silêncio absoluto por um minuto inteiro para ouvir os "segredos" da floresta.
Skitter, aborrecido e enciumado, observava de um ramo alto. Ele via a forma como os teus olhos brilhavam quando uma criança fazia uma pergunta inteligente. Via a forma como os teus braços se estendiam instintivamente para amparar, para guiar, para abraçar. Eras a mãe-urso em plena exibição, e cada gesto de afeto para com eles era uma pequena facada no seu coração possessivo.
A hora do almoço foi um alívio. As crianças sentaram-se em círculo, a devorar os pães e as maçãs que trouxeras. A sua tagarelice enchia o ar, misturando-se com o canto dos pássaros.
Foi então que aconteceu.
Tomas, um rapaz robusto de oito anos com uma imaginação fértil, estava a tentar imitar os sons da floresta que tinham aprendido. Ele coaxou como um sapo, piou como um pássaro, e depois tentou imitar o uivo de um lobo.
O som que saiu da sua boca não se parecia em nada com um uivo. Foi um guincho agudo e desafinado que terminou num som borbulhante quando ele engoliu ar da forma errada. Os seus olhos arregalaram-se, e ele ficou vermelho como um tomate.
As outras crianças ficaram em silêncio por um segundo, e depois explodiram em gargalhadas.
Tomas, em vez de ficar envergonhado, achou a situação hilariante. Ele tentou de novo, e o mesmo som ridículo ecoou pela clareira, fazendo-o rir tanto que caiu para trás, agitando os braços e as pernas no ar como um escaravelho virado de costas.
A cena era de um absurdo tão puro, de uma alegria tão contagiante, que algo dentro de ti se partiu. Não algo mau, mas uma represa. A represa que continha a tua compostura, o teu controle, a tua voz pública.
E tu riste.
Não foi um riso pequeno e contido. Foi um riso que veio do fundo da tua alma, um som que não tinhas libertado em público desde que eras uma menina. Começou como um borbulhar no teu peito e explodiu, uma cascata de som cristalino e melodioso. Inclinaste-te para a frente, a segurar a tua barriga, as lágrimas a brotarem dos teus olhos. O ridículo da situação, a alegria pura das crianças, a beleza daquele momento perfeito — tudo se fundiu numa onda de felicidade tão avassaladora que não conseguiste contê-la.
O teu riso não era como o das crianças, alto e caótico. Era uma melodia. Tinha o calor do sol, a clareza da água de um riacho, a profundidade da terra fértil. Vibrava com um amor tão incondicional, uma alegria tão pura e sem artifícios, que parecia uma força da natureza por si só. O som encheu a clareira, derramou-se pelas árvores e espalhou-se pela floresta como uma onda.
E então, o mundo ficou em silêncio.
O teu riso parou, terminando num soluço ofegante. Limpaste as lágrimas dos olhos, ainda a sorrir, e foi então que o notaste. O silêncio.
Os pássaros tinham-se calado. O zumbido dos insetos cessara. O vento, que antes sussurrava nas copas das árvores, prendera a respiração. As crianças, contagiadas pela estranheza do momento, também se calaram, os seus olhos grandes e redondos a olharem para ti.
Naquele silêncio absoluto, o teu riso ecoou, não como um som, mas como um sentimento. A floresta inteira tinha parado para ouvir.
Empoleirado no seu ramo, Skitter estava petrificado. Ele ouvira-te cantarolar, ouvira a tua voz baixa a acalmar animais. Mas nunca ouvira isto. Este som era diferente. Era cru, sem filtros, uma explosão de pura essência vital. Era a tua alma a cantar. E era a coisa mais bela e aterradora que ele já ouvira. Uma parte dele sentiu uma onda de orgulho possessivo — *esta é a minha humana, olhem para o poder que ela contém* —, mas outra parte sentiu um pavor frio. Um som como aquele não passaria despercebido. Um som como aquele era um convite. Ou um desafio.
A magia respondeu.
A primeira a responder foi a gratidão. De um canteiro de flores silvestres, algo moveu-se. A pequena Pillywiggin, a fada que salvaste do lobo, espreitou, atraída pelo som de pura vida. Ela não se mostrou, mas, no caminho à tua frente, uma única flor, uma campainha-azul de uma cor impossivelmente profunda, desabrochou instantaneamente, a sua cabeça a inclinar-se na tua direção.
Depois, veio a curiosidade. De debaixo de uma pedra coberta de musgo, um chapéu vermelho pontiagudo emergiu, seguido de um nariz bulboso e de um par de olhos pequenos e brilhantes. O Gnomo, cujo território evitavas cuidadosamente, estava a espreitar, a sua expressão rabugenta a dar lugar a uma perplexidade atordoada. O teu riso interrompera a sua contagem de raízes ou o seu polimento de minerais, e ele queria saber que tipo de fenómeno geológico produzia tal som.
A seguir, veio o reconhecimento. Longe, nas profundezas da floresta, um lobo cinzento levantou a cabeça. Os seus ouvidos contraíram-se, captando a vibração distante. Ele não compreendeu o som, mas reconheceu a essência por trás dele. Era a mesma essência da criatura que lhe dera comida em vez de luta. Ele abanou a cauda uma vez, um movimento lento e confuso, e deitou a cabeça de novo sobre as patas.
Mas nem toda a magia é feita de luz.
Nas partes mais escuras e húmidas da floresta, onde o sol nunca tocava e o lodo borbulhava lentamente, algo mais despertou. O teu riso, uma manifestação de pura alegria e vida, era o oposto direto da sua existência. Era como um sino de igreja a tocar no covil de um vampiro. Era uma afronta. Nas sombras sob as raízes de um teixo antigo, algo que não tinha olhos virou-se na direção do som. Não sentia curiosidade, mas uma aversão fria, uma necessidade de silenciar aquela luz dissonante. Uma sombra desprendeu-se da escuridão e começou a deslizar silenciosamente através da vegetação rasteira.
Tu, ignorante de tudo isto, sentiste apenas o silêncio e o peso de todos os olhares sobre ti. O rubor subiu-te pelo pescoço até às orelhas. A mãe-urso desaparecera, e a rapariga tímida que se escondia se alguém a elogiasse estava de volta com força total.
— Bem! — disseste, a tua voz um pouco mais alta e estridente do que pretendias. Levantaste-te e começaste a recolher os restos do piquenique com uma agitação desnecessária. — Acho que já nos divertimos o suficiente. Está na hora de começar a viagem de volta. Vamos, todos em fila!
As crianças, sentindo a tua mudança de humor, obedeceram em silêncio. A magia do momento quebrara-se, e elas estavam prontas para a segurança familiar da aldeia.
A caminhada de volta foi diferente. O silêncio da floresta persistia, mas era um silêncio expectante, vigilante. Sentias olhos em ti, mais do que apenas os de Skitter. Sentias a floresta a observar-te, a avaliar-te.
Skitter saltou para o teu ombro assim que as crianças se adiantaram um pouco, a sua presença invulgarmente quieta e pesada. Ele não tentou roubar nada. Apenas ficou lá, a sua mão pequena a agarrar uma madeixa do teu cabelo, como se precisasse de se ancorar a ti. Ele estava a processar o que acontecera, e a sua mente feérica, normalmente um turbilhão de caos, estava estranhamente focada.
Foi ele quem te fez notar. Ele soltou um pequeno clique e apontou com o queixo. Olhaste para onde ele indicava. No meio do caminho, estava a campainha-azul solitária, a sua cor a brilhar contra o castanho da terra. As crianças passaram por ela sem a notar. Tu paraste. Sabias o que era aquilo. Um presente. Um agradecimento. Um reconhecimento.
Ajoelhaste-te e tocaste numa pétala com a ponta do dedo. Era fresca e macia como veludo.
— Obrigada — sussurraste para o ar.
Continuaste a andar, o teu coração um tumulto de emoções. Vergonha pela tua perda de controlo. Espanto pelo efeito que causara. E um novo e inquietante sentido de responsabilidade. As tuas ações, as tuas emoções, até mesmo a tua alegria, tinham consequências neste mundo que se sobrepunha ao teu. Não eras apenas uma observadora ou uma diplomata. Eras uma participante ativa, quer quisesses, quer não.
Quando finalmente saíram da floresta e avistaram os telhados de colmo da aldeia, soltaste um suspiro de alívio que não te apercebeste que estavas a prender. Entregaste cada criança aos seus pais, recebendo abraços e agradecimentos.
— Foi o melhor dia de todos! — declarou Anya. — O riso da [Y/N] assustou os pássaros todos!
Sorriste, um sorriso cansado, e afagaste-lhe a cabeça.
— Talvez da próxima vez eu tente rir mais baixo.
Naquela noite, sentada na tua cama, olhavas pela janela para a linha escura das árvores. A flor da Pillywiggin estava num pequeno copo de água na tua mesa de cabeceira, a sua cor a encher o quarto de uma luz azulada e suave.
Skitter não te deixara na orla da floresta como de costume. Ele seguira-te até casa, uma sombra silenciosa, e agora estava enroscado no parapeito da tua janela, a dormir — ou a fingir que dormia. A sua necessidade de estar perto de ti, de te guardar, intensificara-se.
Sentias-te exausta, mas o teu cérebro não parava. O teu riso. Um som tão simples, tão humano. E, no entanto, abalara a floresta. Fora um farol, a atrair tanto a gratidão como, talvez, uma atenção indesejada.
Olhaste para as tuas mãos. Mãos que cuidavam, que curavam, que mapeavam. Mas hoje, aprendeste que o teu poder mais perigoso e imprevisível não estava nas tuas mãos. Estava no teu coração. A tua empatia, a tua fúria protetora, e agora, a tua alegria. Eram todas formas de magia, tão potentes como qualquer feitiço de fada.
Uma onda de medo percorreu-te. E se a sombra que sentiste te seguir fosse real? E se a tua alegria, em vez de proteger a tua aldeia, a tivesse colocado em perigo, atraindo algo que não conseguias acalmar com uma canção ou uma oferenda de comida?
Mas então, olhaste para a flor. Um símbolo de que a tua alegria também podia inspirar beleza e gratidão.
Fechaste os olhos. Não podias viver com medo da tua própria luz. A excursão fora um sucesso. As crianças estavam seguras e felizes. Tinhas partilhado o teu amor pela floresta, e a floresta, à sua maneira estranha e terrível, respondera.
O teu riso não fora um erro. Fora uma declaração. Uma declaração de que, mesmo num mundo de dentes de lobo e ciúme de fada, a alegria existia. A vida existia. O amor existia.
E tu, a tímida e desajeitada cuidadora, eras a sua voz.
Um pequeno sorriso tocou os teus lábios. Talvez, afinal, não precisasses de rir mais baixo. Talvez, só precisasses de estar pronta para quem viesse responder à chamada. E com Skitter a guardar o teu sono e uma flor mágica a iluminar o teu quarto, sentias que, fosse o que fosse, não o enfrentarias sozinha.