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Uma fada que ficou obcecado por uma humana

O Silêncio da Melodia Quebrada

O verão chegou não como um visitante, mas como um rei a reclamar o seu trono. Instalou-se sobre a aldeia e a floresta com um peso dourado e sonolento, abrandando o ritmo da vida até se tornar um pulsar lento e preguiçoso. As tardes eram longas, o ar espesso com o zumbido das abelhas e o cheiro a feno cortado e a terra seca. Para ti, estes meses tinham sido uma tapeçaria tecida com fios de confiança e compreensão.

A floresta já não era um território a ser mapeado com cautela, mas uma extensão do teu próprio quintal. O Gnomo rabugento, que antes te olhava como se fosses um fungo particularmente irritante, agora deixava ocasionalmente uma batata perfeitamente redonda ou um cristal de quartzo na tua passagem, o seu equivalente a um aceno de cabeça amigável. As Nixies, no seu riacho, já não se escondiam, mas observavam-te com os seus olhos de peixe, por vezes imitando as tuas canções com melodias aquáticas e borbulhantes. Até o lobo, cuja marca ainda levavas na coxa, se tornara uma presença familiar. Visitava-lo não com medo, mas com um respeito silencioso, deixando-lhe pedaços de carne seca e observando à distância enquanto ele comia, uma trégua tácita entre dois predadores de mundos diferentes.

E Skitter… Skitter era o fio de ouro que atravessava toda a tapeçaria. A vossa amizade aprofundara-se para além das palavras, para além até da compreensão. Era um ritmo partilhado, uma dança de silêncios e gestos. Ele conhecia o som dos teus passos, o significado de cada um dos teus suspiros. Tu conhecias a diferença entre o seu chilreio de excitação e o seu estalido de frustração. Ele era a tua sombra, o teu confidente, a tua constante fonte de caos e alegria. A sua possessividade, antes uma fonte de conflito, abrandara para um zumbido protetor, uma certeza de que eras a sua rocha, o seu centro. Brigas tornaram-se uma memória distante, substituídas por uma harmonia tão natural como a mudança das estações. Pareciam, de facto, duas metades de uma mesma alma estranha e improvável.

Numa tarde particularmente quente, quando até as folhas pareciam suar, encontraste-o. Um pequeno pisco-de-peito-ruivo, não maior que o teu polegar, caído no chão da tua clareira, o teu "ninho". As suas pernas finas estavam emaranhadas, o seu bico aberto num pio silencioso e desesperado. Olhaste para cima e viste o ninho desfeito no alto de um carvalho, provavelmente vítima do vento da noite anterior. Os seus irmãos tinham desaparecido. Só restava ele.

O teu coração, como sempre, não hesitou.

— Oh, meu pobre pequenino — sussurraste, ajoelhando-te.

Com uma delicadeza infinita, pegaste nele. Era um peso insignificante de penas e pânico na tua palma. O seu coração minúsculo batia descontroladamente contra a tua pele. Levaste-o para o teu trono de musgo e fizeste-lhe um pequeno ninho improvisado com a tua manta de lã e folhas macias.

Skitter, que até então estivera a tentar equilibrar uma pinha no nariz, parou e observou-te com a cabeça inclinada. A sua curiosidade inicial era divertida. Ele aproximou-se, espreitou para o pássaro com os seus olhos dourados e cutucou-o gentilmente com um dedo. O pisco encolheu-se, e Skitter soltou um pequeno guincho de surpresa, recuando.

Passaste o resto da tarde dedicada à tua nova enfermaria. Esmagaste algumas amoras e, com a ponta de um galho, alimentaste o passarinho, que, após alguma hesitação, começou a aceitar a comida com pios fracos. Cantaste para ele, a tua voz um sussurro baixo e tranquilizador, a mesma melodia que usavas para acalmar os póneis e que se tornara o hino não oficial da tua amizade com Skitter.

E foi aí que a harmonia começou a quebrar.

Skitter tentou chamar a tua atenção. Primeiro, trouxe-te um presente: uma joaninha particularmente brilhante. Agradeceste-lhe com um sorriso distraído e voltaste a tua atenção para o pássaro. Depois, ele tentou fazer-te rir, executando uma série de cambalhotas desajeitadas que terminaram com ele a bater com a cabeça num cogumelo. Deste-lhe uma risadinha, mas os teus olhos voltaram imediatamente para o teu paciente emplumado.

A sua frustração começou a crescer, um zumbido baixo de energia irritada. Ele sentou-se do outro lado da clareira, os braços cruzados, a observar-te. Na sua mente, a lógica era simples e brutal. Aquela pequena coisa barulhenta e frágil roubara a tua atenção. Roubara a tua voz. Roubara o teu toque. Ele olhava para a forma como os teus dedos acariciavam as penas macias, a forma como os teus lábios se curvavam num sorriso terno, e sentia uma pontada fria e azeda no seu peito. Era ciúme, puro e sem diluição, a mesma emoção que sentira com Liam, mas agora focada num alvo muito menor e mais vulnerável.

— Precisas de água, meu amigo — murmuraste para o pisco, que agora olhava para ti com olhos brilhantes e confiantes. — Vou buscar um pouco ao riacho. Já volto. Não saias daí.

Afastaste-te, deixando a clareira sob o olhar atento e sombrio de Skitter. A tua ausência não durou mais de cinco minutos. Voltaste com uma grande folha em forma de concha, cheia de água fresca e límpida.

— Voltei, pequenino. Vês? Eu disse que…

As palavras morreram na tua garganta. O ninho improvisado estava vazio.

O pânico, frio e imediato, apoderou-se de ti.

— Piu? — chamaste, a tua voz a tremer. Olhaste à tua volta, para o chão, para os ramos baixos. Nada. — Onde estás?

Skitter estava sentado no mesmo lugar, mas a sua postura mudara. Já não estava amuado. Estava ereto, quase orgulhoso. E tinha um sorriso nos lábios. Não o seu sorriso habitual, rasgado e malicioso. Este era um sorriso satisfeito, o sorriso de quem resolveu um problema complicado.

— Skitter? — perguntaste, o medo a transformar-se numa suspeita horrível. — Onde está o pássaro?

Ele não respondeu. Apenas se levantou e caminhou na tua direção. Estendeu a mão, fechada. Com um movimento lento e deliberado, abriu os dedos.

Na sua palma, repousava um único objeto. Uma pequena pena. Perfeita, imaculada, de um escarlate profundo e vibrante, do peito do pisco-de-peito-ruivo.

O mundo parou. O zumbido dos insetos, o calor do sol, o ar nos teus pulmões — tudo desapareceu. A única coisa que existia era aquela pequena pena escarlate na sua mão.

Ele estava a oferecer-ta. Um presente. Um tesouro.

Não o assustara. Não o afugentara. Na sua lógica alienígena, possessiva e terrivelmente literal, ele fizera algo muito mais eficiente. Ele vira o teu afeto derramado sobre o pássaro. Vira a tua obsessão. E, para te agradar, para resolver o problema da sua própria inveja, ele "resolvera" o pássaro. Removera o rival e transformara-o num tesouro para ti. Um pedaço da coisa que amavas, para que pudesses guardá-lo para sempre. Na sua mente, era um ato de amor.

O entendimento atingiu-te não como um relâmpago, mas como o peso esmagador de uma montanha. A pena não era apenas um símbolo da morte do pássaro. Era um símbolo da vasta e intransponível ravina que existia entre as vossas almas. Ele não compreendia. Ele nunca compreenderia. A tua empatia, a tua necessidade de cuidar, o teu amor pela vida em todas as suas formas — para ele, eram apenas um conjunto de comportamentos estranhos a serem observados e, por vezes, manipulados.

Levantaste a mão, a tremer, e tocaste na pena. Era macia. Estava quente. Ainda tinha a vida nela.

E então, o teu coração partiu-se.

Uma lágrima. Depois outra. Escorreram pelas tuas bochechas, silenciosas e quentes. Não soluçaste. Não gritaste. A dor era demasiado profunda para o som. Era um colapso silencioso, a ruína de algo que pensavas ser inabalável.

Skitter observou as tuas lágrimas, e o seu sorriso satisfeito vacilou, substituído por uma confusão absoluta. Ele não entendia. Tinha-te dado um presente. Um tesouro. Porque estavas a derramar água dos olhos? Ele inclinou a cabeça, um pequeno som interrogativo a escapar do seu peito.

Recuaste um passo, afastando-te dele como se ele estivesse em chamas. Depois outro. O seu rosto confuso, a sua ignorância inocente do crime que cometera, era a coisa mais dolorosa de todas.

Viraste-te e começaste a correr.

Corrias sem ver, as lágrimas a toldarem-te a visão, os ramos a arranharem-te o rosto e os braços. O som do seu chilreio confuso e alarmado atrás de ti apenas te fez correr mais depressa. Não paraste quando chegaste à orla da floresta. Continuaste a correr, através dos campos, até tropeçares e caíres nos degraus da tua própria casa.

Ficaste lá, o rosto enterrado nos braços, o teu corpo a ser abalado por soluços silenciosos. A melodia quebrara-se. A confiança fora pulverizada. E o silêncio que se instalou na tua alma era ensurdecedor.

Nos dias que se seguiram, tornaste-te um fantasma na tua própria vida. A tua luz apagara-se. Movias-te pela casa e pela aldeia, a cumprir as tuas tarefas com uma eficiência vazia. O teu sorriso não chegava aos teus olhos. A tua voz, quando falavas, era um murmúrio monocórdico.

— Estás doente, minha flor? — perguntou a tua mãe, a sua mão fresca na tua testa.

— Não, mãe. Estou apenas cansada.

O teu pai observava-te em silêncio, o seu olhar preocupado a seguir-te por todo o lado. Eles não compreendiam a natureza da tua doença. Era uma ferida que nenhum curativo podia fechar, uma febre que nenhuma erva podia arrefecer.

Evitavas a floresta como se fosse uma praga. A simples visão da linha das árvores enviava uma onda de dor pelo teu peito. A tua amizade com os outros seres, os teus mapas, as tuas visitas ao lobo — tudo parou. O teu mundo encolheu até às fronteiras da aldeia, um refúgio seguro da memória daquela pequena pena escarlate.

Skitter não compreendia, mas sentia a tua ausência como uma dor física. Ele ia até à orla da floresta todos os dias, esperando. Quando não aparecias, a sua confusão transformava-se em desespero. Ele aventurou-se até à tua casa, algo que raramente fazia. Deixava presentes no parapeito da tua janela. Um escaravelho com a carapaça iridescente. Um cogumelo que brilhava no escuro. Um seixo liso com um buraco perfeito. Tesouros. Os seus melhores tesouros.

Vias os presentes e o teu coração contraía-se. Cada um era um lembrete da sua incompreensão, uma faca a torcer na ferida. Empurravas-los para o lado, sem lhes tocar.

Por vezes, vias-o. Um vislumbre de movimento no limite do campo. Um par de olhos dourados a observar-te à distância. Viravas-lhe as costas, o coração a doer tanto que mal conseguias respirar. Não conseguias falar com ele. Não conseguias sequer olhar para ele. Como explicar a um furacão porque não deve destruir? Como ensinar a cor do céu a um cego de nascença? A tua mágoa era uma muralha de silêncio entre vós.

Ele tentou chamar a tua atenção de outras formas. Atirou pequenas pinhas contra a tua janela à noite. Fez com que o portão do teu jardim guinchasse numa melodia desafinada. Escondeu a colher de madeira favorita da tua mãe, esperando que fosses à sua procura. Cada tentativa era um grito de solidão no vazio, e cada uma apenas te fazia recuar mais para dentro da tua concha de dor.

Uma semana passou. Depois duas. A tua ausência deixou um vácuo na floresta. O Gnomo saiu da sua toca e olhou para o caminho, esperando pela tua passagem. O lobo uivou para a lua com uma nota de solidão que não estava lá antes. A floresta sentia a tua falta. Mas tu não conseguias voltar.

Numa tarde, estavas sentada junto ao riacho, nos limites da aldeia, a lavar roupa. As tuas mãos moviam-se mecanicamente, os teus pensamentos um turbilhão sombrio. Foi quando Liam se aproximou, o seu passo silencioso na relva.

— [Y/N]?

Levantaste a cabeça. Ele sentou-se ao teu lado, não muito perto, respeitando o teu espaço.

— Não te tenho visto muito ultimamente. Está tudo bem?

Deste de ombros, os teus olhos fixos na água a correr.

— Apenas… ocupada.

Ele não pressionou. Apenas ficou ali sentado, em silêncio, a sua presença sólida e tranquila. Depois de um longo momento, ele disse:

— Sabes, o meu cão, o velho Cobre, morreu no inverno passado. Eu fiquei… partido. As pessoas diziam: "É só um cão." Mas não era. Ele era… família. Levei muito tempo até conseguir voltar aos lugares onde costumávamos ir juntos.

Olhaste para ele, surpreendida pela sua vulnerabilidade.

— Sinto muito, Liam.

— Eu também. — Ele olhou para a floresta distante. — O que quer que tenhas perdido lá, vai doer. E está tudo bem que doa. Mas não podes deixar que a dor te roube os lugares que amas. A dor passa. A floresta fica.

As suas palavras simples, a sua empatia humana e direta, atingiram-te de uma forma que não esperavas. Ele não sabia de Skitter, não sabia da pena. Mas ele sabia da dor da perda.

Naquela noite, não conseguiste dormir. As palavras de Liam ecoavam na tua mente. *A floresta fica.* A tua dor estava a roubar-te não apenas o teu amigo, mas o teu santuário, a tua paixão, o teu propósito.

Com o coração a bater descontroladamente, levantaste-te. Calçaste os sapatos, envolveste-te num xale e saíste para a noite enluarada. Não ias para te reconciliares. Não ias para o confrontar. Ias porque precisavas de respirar o ar da floresta de novo, mesmo que doesse.

Entraste sob as árvores. O ar estava fresco e cheirava a terra húmida e a noite. Cada som era familiar. Cada sombra, uma velha amiga. Sentias-te como se estivesses a voltar a casa depois de uma longa e terrível viagem.

Caminhaste até à tua clareira. Estava vazia. A tua manta, o teu kit de costura, tudo estava como tinhas deixado. No centro, o ninho improvisado desfazia-se lentamente, as folhas a secar e a enrolar-se.

Sentaste-te no teu trono de musgo e, pela primeira vez em semanas, deixaste a dor vir. Choraste. Choraste pelo pássaro, pela tua confiança quebrada, pela inocência perdida. Soluçaste abertamente, os teus lamentos a serem absorvidos pelo silêncio da noite.

— Eu sei que estás aí.

A voz dele não estava na tua cabeça. Era um farfalhar nos arbustos. Ele emergiu para a luz da lua, uma pequena silhueta de desespero. Estava mais magro. A sua pele parecia mais baça. Os seus olhos dourados, normalmente brilhantes e maliciosos, estavam fundos e cheios de uma miséria que espelhava a tua.

Ele parou a uma distância segura, a observar-te a chorar. Não se aproximou. Parecia ter aprendido, pelo menos, isso.

— Porque é que fizeste aquilo? — sussurraste para a noite, as palavras a rasgarem a tua garganta. — Ele era tão pequeno. Ele confiava em mim. E tu… tu tiraste-o de mim.

Ele não respondeu com palavras, claro. Apenas ficou ali, a absorver a tua dor, a sua própria confusão a irradiar dele em ondas.

— Tu não entendes, pois não? — soluçaste, mais para ti mesma do que para ele. — Para ti, era só… um problema. Uma coisa. Mas ele estava vivo. Ele tinha uma canção por cantar. E tu silenciaste-a.

Ele deu um passo na tua direção, a sua mão a estender-se num gesto suplicante.

— Não! — gritaste, e a força na tua voz surpreendeu-vos a ambos. — Fica longe de mim.

Ele encolheu-se como se o tivesses atingido.

O silêncio caiu de novo, pesado e sufocante, quebrado apenas pelos teus soluços a diminuir. Olhaste para ele, para aquela criatura que amavas mais do que a maioria dos humanos, e que te causara a maior dor da tua vida. A raiva, a mágoa, o amor, a empatia — tudo se misturava num nó impossível no teu peito.

E então, ele moveu-se. Não na tua direção. Ele virou-se e caminhou até ao seu esconderijo secreto, uma reentrância na base de um velho carvalho. Remexeu lá dentro e voltou.

Nas suas mãos, segurava os seus tesouros mais preciosos. A asa de libélula iridescente. O dente de raposa perfeitamente branco. A tua pedra de fada, o teu primeiro presente para ele. Ele segurava-os com uma reverência que nunca tinhas visto antes.

Ajoelhou-se no centro da clareira, no local onde o ninho do pássaro estivera. Com as suas garras afiadas, começou a cavar um pequeno buraco na terra macia.

Observaste, sem compreender.

Quando o buraco estava fundo o suficiente, ele pegou no seu primeiro tesouro: a asa de libélula. Segurou-a contra a luz da lua por um momento, a sua beleza a brilhar. Depois, com uma solenidade que te cortou a respiração, colocou-a no buraco.

A seguir, o dente de raposa. Ele esfregou-o na sua bochecha, um último adeus, e colocou-o ao lado da asa.

Por fim, ele pegou na pedra de fada. O teu presente. O símbolo do início de tudo. Ele olhou para ela, e depois para ti. Os seus olhos dourados brilhavam com lágrimas não derramadas. Ele hesitou.

E depois, colocou-a no buraco com os outros.

Com as suas mãos, ele empurrou a terra de volta, cobrindo os seus tesouros, enterrando a sua história, a sua identidade de colecionador. Ele realizou um funeral.

Quando terminou, ele pousou a sua testa contra a terra remexida, o seu corpo pequeno a tremer.

O ar ficou preso nos teus pulmões. Ele não podia trazer o pássaro de volta. Ele não podia desfazer o que fizera. Mas podia mostrar-te que compreendia. Não a santidade da vida, talvez não ainda. Mas ele compreendia a dor da perda. Ele compreendia o que era ter algo precioso e vê-lo desaparecer para sempre. Tu perdeste a tua criatura. Então, ele enterrou as suas. Era a única forma que ele tinha de dizer: "Eu sinto muito." Era um pedido de desculpas na sua própria língua, um ato de sacrifício que falava mais alto do que qualquer palavra humana.

Levantaste-te, as tuas pernas a tremer. Atravessaste a clareira e paraste atrás dele. Ele não se moveu.

Lentamente, ajoelhaste-te. Estendeste a tua mão, ainda a tremer, e pousaste-a nas suas costas. Ele estremeceu ao teu toque, mas não se afastou.

— Skitter — sussurraste, a tua voz rouca de tanto chorar.

Ele levantou a cabeça e olhou para ti. A miséria nos seus olhos era avassaladora.

Inclinaste-te para a frente e, pela primeira vez, iniciaste tu o gesto. Encostaste a tua testa na dele. Pele quente contra pele fria. Humana e Pixie. Duas almas partidas a encontrarem consolo na escuridão.

Ficaram assim por um longo, longo tempo, no silêncio da floresta enluarada. O perdão não era uma palavra dita, mas um calor que começava a espalhar-se lentamente pelo teu peito, a derreter o gelo à volta do teu coração. A melodia ainda estava quebrada. A cicatriz ficaria para sempre. Mas ali, na escuridão, partilhando a dor do luto, encontraram a primeira nota, frágil e hesitante, de uma nova canção. Uma canção mais triste, talvez, mas também mais sábia. Uma canção que reconhecia que o amor, por vezes, era aprender a perdoar o imperdoável.