Uma fada que ficou obcecado por uma humana
O Primeiro Tesouro da Nova Estação
A culpa tinha um sabor a cinzas e um peso de pedra húmida. Era a primeira coisa que sentias ao acordar e a última a abandonar-te antes de um sono agitado. Nas duas semanas que se seguiram à vossa reconciliação silenciosa na clareira enluarada, um novo tipo de dor instalara-se no teu peito. Não era a mágoa aguda da traição, mas a dor surda e roedora da tua própria falha.
Ele matara o pássaro. Sim. Fora um ato de uma crueldade inocente e incompreensível, um rasgão no tecido da tua alma. Mas tu, no teu sofrimento, tinhas-lhe virado as costas. Tinhas-lhe negado a tua presença, a tua voz, a tua luz. E tinhas visto o resultado nos seus olhos fundos, na forma como a sua energia crepitante se apagara até se tornar uma brasa moribunda. O seu ato de enterrar os seus tesouros não fora apenas um pedido de desculpas; fora um grito de dor, um reflexo da desolação que lhe tinhas imposto. A tua fúria protetora, que se estendia a todas as criaturas vulneráveis, falhara em proteger a mais vulnerável de todas à tua dor: ele.
Essa constatação impelia-te agora. O perdão que lhe estenderas naquela noite precisava de ser materializado, transformado de um sentimento frágil num ato sólido e inabalável. Precisavas de lhe mostrar, na sua própria língua, que o silêncio terminara. Que a melodia, embora para sempre alterada, voltaria a tocar.
Por isso, reservaste o dia. Não haveria recados na aldeia, nem aulas com as crianças, nem reparos na cerca do pasto. Hoje, o dia pertenceria a Skitter.
Começaste na cozinha, o coração da tua casa, enquanto o sol da manhã ainda pintava o céu de pêssego e lavanda. Sobre a mesa de madeira, espalhaste os teus materiais. Não eram ingredientes para um ensopado ou para um bolo. Eram os componentes de um pedido de desculpas. Uma pequena caixa de madeira de bétula, lixada até ficar macia como seda, que passaras as últimas noites a entalhar com um padrão de videiras e folhas. Um frasco de barro contendo uma infusão de camomila e calêndula, ainda morna. E, na tua bolsa de lona, uma coleção de objetos que normalmente não teriam qualquer valor: um novelo de fio brilhante roubado do cesto de costura da tua mãe, um pedaço de vidro do mar polido, e um pequeno sino de latão que perdera o seu badalo. Eram iscas. Oferendas para uma caça ao tesouro.
— Vais para a floresta de novo? — A voz do teu pai, vinda da porta, era neutra, mas sentiste o peso da sua preocupação não dita.
— Sim, pai. — Viraste-te, oferecendo-lhe um sorriso que, pela primeira vez em semanas, sentias que alcançava os teus olhos. — Tenho… assuntos a tratar. Prometo ter cuidado.
Ele assentiu, o seu olhar a deter-se por um instante na tua bolsa cheia de bugigangas. Não compreendia, mas confiava em ti. Essa confiança silenciosa era um bálsamo.
A caminhada até à floresta foi diferente. Não havia hesitação no teu passo. A dor ainda lá estava, um eco no fundo do teu coração, mas por cima dela, havia propósito. Entraste sob o dossel de folhas como quem entra num templo para reparar um altar profanado.
Ele já te esperava na vossa clareira. Estava enroscado no teu trono de musgo, a fingir que dormia, mas a tensão no seu corpo pequeno traía-o. Parecia um animal que fora espancado e que ainda não tinha a certeza se a mão que se aproximava trazia um afago ou outro golpe.
— Bom dia, meu amigo — disseste suavemente.
Os seus olhos dourados abriram-se de imediato. Ele não saltou. Não fez qualquer som. Apenas te observou, a avaliar cada movimento, cada inflexão na tua voz.
Ajoelhaste-te a uma distância respeitosa e começaste a desempacotar as tuas coisas. Primeiro, colocaste a pequena caixa de madeira entalhada sobre uma pedra plana. Depois, tiraste o novelo de fio brilhante.
— Pensei que hoje podíamos ser caçadores de tesouros — disseste, a tua voz leve e convidativa. — Mas caçadores de tesouros precisam de um mapa.
Desenrolaste um longo pedaço do fio, a sua cor de arco-íris a brilhar contra o chão da floresta. Prendeste uma ponta a um galho perto de ti e começaste a caminhar pela clareira, deixando o fio desenrolar-se atrás de ti, criando um caminho sinuoso e colorido entre as árvores e os arbustos.
A curiosidade de Skitter finalmente venceu a sua apreensão. Ele desenrolou-se e seguiu o rasto do fio com os olhos, a cabeça a inclinar-se.
Ao longo do caminho, "escondeste" os teus tesouros. Enrolaste o pedaço de vidro do mar num tufo de musgo, deixando apenas um brilho a espreitar. Penduraste o pequeno sino de latão num ramo baixo, onde o vento o fazia tilintar suavemente.
Quando terminaste, voltaste para o início do fio.
— O mapa está feito — anunciaste. — Queres seguir o rasto e ver o que encontras?
Ele olhou para ti, depois para o fio, e uma faísca da sua antiga energia voltou aos seus olhos. Com uma hesitação que era comovente, ele deu um passo, depois outro, e começou a seguir o caminho colorido. Observaste-o, o coração a bater forte.
Ele encontrou o vidro do mar primeiro. Soltou um pequeno guincho de prazer, pegando no objeto e virando-o na luz, fascinado pela forma como as cores dançavam na sua superfície. Olhou para ti, como se pedisse permissão, e tu acenaste com um sorriso.
— É teu! Um tesouro para o caçador!
Encorajado, ele continuou, agora com um saltinho no seu passo. Quando encontrou o sino, a sua alegria foi audível. Ele abanou-o, deleitando-se com o som metálico e oco, mesmo sem o badalo. Amarrou-o à sua bolsa de couro com um nó rápido e perito.
A caça ao tesouro continuou por quase uma hora. Não se tratava dos objetos, mas do ato. Estavas a mostrar-lhe que não só toleravas a sua paixão por colecionar, como a incentivavas ativamente. Estavas a reconstruir o seu mundo, um tesouro de cada vez.
Quando ele regressou, a sua bolsa a tilintar e a brilhar com as suas novas aquisições, o seu sorriso rasgado estava de volta, embora ainda um pouco trémulo nos cantos. Ele despejou o seu saque aos teus pés, oferecendo-to.
— Não, meu caro — disseste, ajoelhando-te à sua frente. — São teus. Mas… — Pegaste na caixa de madeira que tinhas trazido. — Talvez precises de um novo lugar para os guardar.
Abriste a tampa. O interior era liso e cheirava a bétula e a sol.
Ele olhou da caixa para ti, e o seu sorriso vacilou. A memória do seu funeral improvisado pairou no ar entre vós, pesada e fria.
— Não é para substituir — apressaste-te a dizer, a tua voz suave. — É para começar de novo. Uma nova estação. Um novo começo.
Ele estendeu uma mão trémula e tocou na madeira polida. Depois, com uma solenidade que espelhava a daquela noite terrível, ele pegou no seu primeiro novo tesouro, o vidro do mar, e colocou-o dentro da caixa. Fechou a tampa com um clique suave. Era um começo.
A segunda parte do teu plano era apelar à sua natureza caótica. A repressão não funcionaria com um ser como ele; precisavas de lhe dar uma saída segura.
— O que me dizes de construirmos a torre mais alta do mundo? — propuseste, os teus olhos a brilhar com uma malícia fingida.
Ele inclinou a cabeça, intrigado.
Levaste-o até um trecho do riacho onde a margem estava coberta de pedras de xisto, planas e cinzentas.
— As regras são simples — explicaste. — Construímos a torre mais alta que conseguirmos. E depois… — Fizeste uma pausa dramática. — Vemos quem a consegue derrubar primeiro.
Os seus olhos arregalaram-se. A ideia de destruição sancionada, de caos com um propósito, era-lhe irresistível.
Começaram a trabalhar. Foi um exercício de paciência e equilíbrio. Tu escolhias as pedras maiores para a base, enquanto ele, com a sua agilidade e dedos finos, colocava as mais pequenas e instáveis no topo. Trabalharam em silêncio, a vossa concentração a criar um novo tipo de harmonia. A torre cresceu, precária e bela, uma escultura de gravidade e esperança.
Quando atingiu a altura da tua cintura, declaraste:
— Acho que é o mais alto que conseguimos.
Recuaram e admiraram a vossa obra. Skitter estava a vibrar, o seu corpo a zumbir com a antecipação da destruição.
— Muito bem — disseste, com um sorriso largo. — À tua honra, meu amigo.
Ele não precisou de mais incentivo. Com um grito de guerra estridente, atirou-se contra a torre. As pedras desabaram com um estrondo glorioso, espalhando-se por todo o lado. Skitter rolou no meio da destruição, a rir, um som agudo e crepitante de pura alegria.
E tu riste com ele. Um riso genuíno e partilhado, que curou mais uma pequena fissura no teu coração.
Foi no caminho de volta para a clareira, o teu coração mais leve do que estivera em semanas, que o universo decidiu testar-vos. Um som agudo e repetido, um ganido de dor, cortou o ar da tarde.
Paraste instantaneamente, o teu corpo a ficar tenso. Skitter, ao teu lado, também congelou, o seu riso a morrer nos lábios. Os seus olhos dourados varreram a floresta, a sua postura a mudar de brincalhona para a de um predador alerta.
Seguiram o som com cautela. Levou-vos a um denso matagal de espinheiros, um lugar que normalmente evitarias. E lá, viram-no. Um jovem texugo, com o pelo ainda macio de cria, tinha a pata traseira presa numa armadilha de laço, um pedaço cruel de arame deixado por um caçador furtivo. Quanto mais lutava, mais o arame se apertava, cortando-lhe a pele.
A tua fúria protetora acendeu-se, quente e imediata. Mas desta vez, estava temperada pela memória.
— Shhh, calma, pequeno — sussurraste, a tua voz a tentar encontrar o tom tranquilizador.
O texugo rosnou para ti, os seus olhos pequenos e negros cheios de dor e medo.
Skitter, ao teu lado, sibilou. A sua primeira reação foi a violência. Ele olhou para o arame, para o texugo, e viste a sua mente a trabalhar. Ele podia roer o arame, talvez. Ou assustar o animal para que ficasse quieto. As suas soluções eram, como sempre, diretas e potencialmente desastrosas.
Ele olhou para ti, à espera de uma ordem, de uma reação. E o seu olhar encontrou o teu. Naquele momento, ele viu a memória do pássaro nos teus olhos. Viu a dor, a mágoa, o aviso silencioso. E ele parou.
A compreensão, lenta e difícil, atravessou o seu rosto. Desta vez, seria diferente.
Viraste-te para ele, a tua decisão tomada.
— Skitter, eu preciso de ti — disseste, a tua voz firme. — Não o consigo acalmar e chegar perto ao mesmo tempo. Ele vai morder-me.
Não era totalmente verdade. Provavelmente conseguirias. Mas precisavas que ele fosse teu parceiro, não teu servo ou teu problema.
— Eu vou cantar para ele. Vou distraí-lo. Enquanto isso, vês se consegues soltar aquele nó. Os teus dedos são mais pequenos e mais ágeis que os meus.
Ele olhou para o texugo a debater-se, depois para o nó complicado do arame, e depois para ti. Um aceno de cabeça, rápido e sério. Ele compreendia a sua missão.
Aproximaste-te lentamente do animal, nunca quebrando o contacto visual.
— Está tudo bem — murmuraste. — Ninguém te vai magoar mais. Eu prometo.
E começaste a cantar. A tua canção de embalar. A melodia fluiu de ti, não alta, mas clara e ressonante, uma onda de calma a espalhar-se pela clareira.
O texugo parou de lutar. O seu rosnado transformou-se num gemido baixo. Os seus olhos, ainda assustados, focaram-se em ti, hipnotizados pelo som.
Foi o sinal de Skitter. Movendo-se com um silêncio e uma furtividade que te surpreenderam, ele contornou o matagal e aproximou-se da armadilha por trás. O texugo, a sua atenção completamente cativa pela tua canção, não o notou.
Observaste-o pelo canto do olho enquanto cantavas. Ele não hesitou. Os seus dedos finos e ossudos, normalmente usados para pregar partidas e dar nós em crinas de cavalo, trabalharam com uma concentração feroz. Ele puxou, torceu, investigou o mecanismo do laço com uma perícia de ladrão. O metal raspou, mas a tua canção encobriu o som.
Por um momento, o nó emperrou. Skitter soltou um estalido de frustração. Olhou para ti, os seus olhos a pedir ajuda.
Mudaste a tua canção. Aumentaste o volume, a melodia a tornar-se mais complexa, mais cativante, puxando toda a atenção do texugo para ti.
Deu-lhe o tempo de que precisava. Com um último puxão, Skitter desfez o laço. O arame soltou-se.
Por um segundo, o texugo ficou imóvel, confuso com a súbita liberdade. Depois, com um ganido, levantou-se e desapareceu na vegetação rasteira, deixando para trás apenas o cheiro a medo e algumas gotas de sangue no chão.
O silêncio desceu sobre a clareira, quebrado apenas pela última nota da tua canção a desvanecer-se no ar.
Ficaste de pé, o teu corpo a tremer com a adrenalina que passara. Skitter saiu de trás do matagal, o laço de arame partido na sua mão. Ele olhou para ele, e depois atirou-o para longe com um gesto de desdém.
Olhou para ti. Não havia triunfo no seu rosto. Havia algo novo. Orgulho. Não orgulho no seu próprio feito, mas orgulho em *vosso* feito.
— Nós conseguimos — sussurraste, e a enormidade daquelas duas palavras encheu-te os olhos de lágrimas. Desta vez, lágrimas de alívio.
Ele caminhou na tua direção, parou à tua frente e estendeu a mão. Não para te dar um tesouro, mas para que a pegasses. Ajoelhaste-te e pegaste na sua mão pequena e áspera.
— Obrigada — disseste, e a tua gratidão era tão profunda que te deixou sem fôlego. — Foste tão corajoso. E tão inteligente.
Ele apertou a tua mão com força. Ele não salvara o texugo por empatia pelo animal. Salvara-o por empatia por *ti*. Ele aprendera a prever a tua dor e a agir para a evitar. Era um passo monumental, um salto quântico na sua evolução emocional.
A última parte do teu dia de cura estava planeada para ser um momento de quietude. De volta à vossa clareira, enquanto o sol começava a sua descida dourada, pegaste no frasco de barro com a infusão de ervas.
— Senta-te — pediste suavemente.
Ele obedeceu, sentando-se no tronco de musgo, observando-te com uma confiança que não sentias nele há muito tempo.
Molhaste um pano macio na infusão morna e, com uma hesitação, estendeste a mão para o seu cabelo de musgo seco.
— Posso? — perguntaste.
Ele fechou os olhos, um gesto de submissão e confiança absolutas.
Com uma delicadeza infinita, começaste a limpar o seu cabelo, desembaraçando os pequenos nós, removendo os pedaços de folha e terra. O cheiro a camomila e calêndula misturava-se com o seu aroma a terra e a ozono. Ele suspirou, um som de puro contentamento, e inclinou-se para o teu toque.
Era um ato de uma intimidade profunda, quase animal. Estavas a cuidar dele, a remover as impurezas, a marcá-lo com o teu cheiro, a reafirmar o vosso laço da forma mais primária possível. O silêncio entre vós não era vazio, mas cheio de uma compreensão que transcendia as palavras.
Quando terminaste, o seu cabelo estava macio e cheirava a verão. Ele não abriu os olhos. Apenas ficou ali, a absorver o momento.
Deixaste-o estar e foste buscar a caixa de madeira. Ele abrira-a e colocara todos os seus novos tesouros lá dentro. Agora, estava fechada, o seu primeiro cofre.
Quando ele finalmente abriu os olhos, sentaste-te ao seu lado.
— Foi um bom dia — disseste, a tua voz pouco mais que um sussurro.
Ele assentiu, os seus olhos dourados a brilhar com uma luz suave e nova.
Olhou para a sua caixa de tesouros, e depois para ti. Remexeu na sua bolsa de couro e tirou algo. Não era um dos seus novos tesouros brilhantes. Era uma pedra. Uma pedra de rio, cinzenta, lisa e perfeitamente vulgar.
Abriu a caixa, tirou o vidro do mar cintilante, e colocou a pedra cinzenta no seu lugar. Depois, fechou a caixa.
Olhaste para ele, confusa.
Ele pegou na pedra cinzenta e colocou-a na tua mão. Depois, pegou na tua mão e fechou os teus dedos à volta dela.
Compreendeste. A caixa não era para os tesouros que encontravam. Era para os tesouros que *partilhavam*. A pedra cinzenta, sólida, fiável, comum, era um símbolo do vosso dia. Do trabalho em equipa. Da confiança reconstruída. O vidro do mar era um tesouro dele. A pedra era um tesouro *vosso*.
O sol desapareceu por detrás das árvores, mergulhando a clareira numa luz púrpura e suave. Ficaram sentados em silêncio, lado a lado, a tua mão a segurar a pedra quente, a dele a descansar perto da tua perna. O ar entre vós estava finalmente limpo. A culpa fora lavada pela alegria, a dor fora curada pela confiança.
Skitter estendeu a mão e, com um dedo, tocou na cicatriz no teu braço, o traço da tua primeira queda. Depois, olhou para a tua coxa, onde a marca do lobo estava escondida sob o teu vestido. E depois, olhou para o teu rosto. Ele não compreendia o conceito de beleza humana, mas compreendia o conceito de força. E para ele, tu, com as tuas cicatrizes e o teu coração teimoso e sangrento, eras a criatura mais forte que ele conhecia.
Ele bocejou, um pequeno estalar da sua mandíbula, e encostou a cabeça ao teu braço, o seu corpo finalmente a relaxar completamente.
Acariciaste o seu cabelo agora macio, o teu coração cheio de um amor tão feroz e complicado que te roubou o fôlego. A nova estação começara. E o seu primeiro tesouro não era um objeto que se pudesse guardar numa caixa. Era aquele momento. Aquele silêncio. Aquela paz duramente conquistada. E era mais valioso do que todas as joias do mundo.