Uma fada que ficou obcecado por uma humana
O Som do Ferro e da Carne
O riso das crianças era a verdadeira melodia do verão. Saltitava pelas paredes de taipa das casas, enroscava-se nos beirais de colmo e ecoava pelo poço da aldeia como um punhado de sinos de prata atirados à água. E tu, como sempre, eras a maestrina daquela sinfonia de alegria. Corrias com elas no centro da praça poeirenta, o teu vestido a rodopiar, os teus pés descalços a levantarem pequenas nuvens de pó dourado. O jogo era o pega-pega, mas as regras eram fluidas, mudando a cada guincho de excitação, a cada nova ideia que brotava daquelas mentes férteis.
— Não me apanhas, [Y/N]! Sou um falcão! — gritou o pequeno Tomas, os braços abertos como asas, a correr em círculos desajeitados.
— Um falcão muito lento! — provocaste, rindo, e com uma investida rápida, tocaste-lhe levemente nas costas. — Apanhei-te!
Ele caiu na relva seca, a rir-se tanto que mal conseguia respirar. Sentias o teu coração leve, a flutuar naquela bolha de felicidade pura e descomplicada. Os últimos meses tinham sido um bálsamo. A ferida no teu peito, deixada pela morte do pisco, cicatrizara, transformada numa compreensão mais profunda e melancólica do teu amigo feérico. A vossa parceria florescera, forjada no fogo do perdão e cimentada por atos de confiança mútua. A floresta, a tua floresta, tornara-se um santuário de paz.
Mas a paz, como bem sabias, era uma criatura tímida, facilmente assustada.
O som chegou primeiro. Um troar baixo e rítmico, diferente do passo do gado ou do galope solto de um cavalo da aldeia. Era o som de muitos cascos, pesados e ferrados, a martelarem a terra seca. Um som de propósito, de poder.
As crianças pararam de correr. As suas risadas morreram nos lábios. Os aldeões que trabalhavam nos seus jardins ou remendavam redes à sombra ergueram a cabeça, os rostos subitamente tensos. O som do ferro.
Eles surgiram no topo da colina que levava à aldeia, silhuetas escuras contra o sol ofuscante. Cavaleiros. Quatro deles, montados em cavalos de guerra enormes, cujos flancos suados brilhavam como metal polido. A sua armadura, embora gasta e amolgada pelas viagens, refletia a luz do sol em clarões cegantes. O brasão do rei — um leão a segurar uma espada — estava gravado nos seus peitorais. Atrás deles, numa montaria mais leve, vinha um homem vestido de veludo escuro, o seu rosto pálido e desdenhoso. Um nobre. O coletor de impostos.
A bolha de alegria rebentou. O ar ficou pesado, denso com um medo antigo e resignado. As crianças, que momentos antes eram falcões e coelhos, correram para as saias das suas mães, os seus olhos grandes e assustados fixos nos homens de ferro.
Sentiste uma mão pequena a agarrar a tua saia. Era Anya. Olhaste para o seu rosto e viste o teu próprio medo de infância refletido ali. Acariciaste-lhe o cabelo, o teu coração a bater forte contra as tuas costelas.
— Vão para dentro, todos vocês — disseste, a tua voz um sussurro urgente para o pequeno bando à tua volta. — Vão para junto dos vossos pais. Agora.
Eles obedeceram sem uma palavra, dispersando-se como pardais assustados.
Os cavaleiros entraram na aldeia, os seus cavalos a bufarem e a pisarem o chão com uma arrogância impaciente. Não olhavam para os aldeões. Os seus olhos varriam as casas, os celeiros, a avaliar, a calcular. Eram uma força alienígena, um pedaço do mundo duro e implacável dos homens e das suas leis, a invadir o vosso pequeno enclave de vida simples.
O nobre desmontou, entregando as rédeas a um dos cavaleiros com um gesto desdenhoso. Ele trazia um livro de couro e uma pena.
— Povo de Valescondido! — A sua voz era fina e cortante, desprovida de qualquer calor. — Em nome de Sua Majestade, o Rei Alaric, venho recolher o imposto da estação. A proteção do reino e o uso destas terras exigem a vossa lealdade e o vosso ouro. Formem uma fila. Sem atrasos.
Uma resignação sombria apoderou-se da aldeia. As pessoas começaram a sair das suas casas, os rostos fechados, as mãos a apertarem as poucas moedas que tinham conseguido juntar. Os teus pais juntaram-se a ti, a tua mãe a segurar um pequeno saco de linho, o teu pai com os ombros tensos, a sua expressão uma máscara de pedra.
— Não é justo — sussurrou a tua mãe. — A colheita foi fraca. Mal temos o suficiente para nós.
— A justiça não tem nada a ver com isto, querida — respondeu o teu pai, a sua voz baixa e amarga.
A fila formou-se lentamente. O nobre sentou-se numa cadeira que um dos cavaleiros lhe trouxera, e um a um, os teus vizinhos aproximaram-se, depositando as suas moedas numa caixa de madeira e ouvindo o arranhar da pena do nobre a riscar o seu nome do livro. A humilhação era palpável. Era a rendição silenciosa dos fracos perante os fortes.
Enquanto esperavas na fila, o teu olhar vagueou para a orla da floresta. E, por um instante, viste-o. Um brilho dourado nos olhos, um vislumbre de movimento rápido por detrás do tronco de um carvalho. Skitter. Ele estava a observar. A sua curiosidade atraída pelo barulho e pela comoção. Sentiste uma pontada de pânico. Rezaste para que ele ficasse escondido, para que não decidisse que aquilo era um novo jogo interessante.
O teu foco foi quebrado por uma voz elevada, carregada de um desprezo cruel.
— É tudo o que tens, mulher? Estás a gozar com a coroa?
Um dos cavaleiros, um homem corpulento com uma cicatriz a atravessar-lhe o lábio, estava a pairar sobre a senhora Gable, uma viúva idosa cujas mãos tremiam de artrite. Ela encolhia-se sob o seu olhar, o seu rosto enrugado uma máscara de terror.
— É tudo o que tenho, senhor — disse ela, a sua voz um fio trémulo. — O meu filho está doente, e a colheita…
— Não quero saber das tuas desculpas de camponesa! — cuspiu o cavaleiro. O seu cavalo, sentindo a sua agitação, deu um passo nervoso, quase pisando o pé da velha senhora. — És uma ladra e uma inútil. Talvez uma noite nos calabouços do castelo te ensine a respeitar os teus superiores. Ou talvez devêssemos simplesmente levar o teu filho doente. Ele pode servir de isco para os cães.
A crueldade das suas palavras era tão física como um golpe. Um murmúrio de horror percorreu a multidão, mas ninguém se moveu. O medo era uma corrente que os prendia ao chão.
Mas não a ti.
Naquele instante, a rapariga tímida que corava com um elogio morreu. A diplomata cautelosa que pesava cada palavra desapareceu. A única coisa que restou foi a mãe-urso, a protetora dos fracos, a força da natureza que enfrentara um lobo por uma fada assustada.
O teu corpo moveu-se antes que o teu cérebro pudesse processar o perigo. Saíste da fila, a tua bolsa de lona a bater contra a tua anca, e atravessaste o espaço vazio que separava a multidão dos cavaleiros.
— Parem com isso.
A tua voz, embora não alta, cortou o ar tenso com uma autoridade inesperada.
O cavaleiro virou-se, surpreendido pela interrupção. Os seus olhos pequenos e suínos pousaram em ti, primeiro com confusão, depois com um desdém divertido.
— E quem és tu, ratinha? A defensora das velhas inúteis?
Ignoraste-o. Colocaste-te entre ele e a senhora Gable, o teu corpo pequeno a formar um escudo improvável. Estendeste a mão e ajudaste a velha a levantar-se, a sua pele fria e pegajosa de medo contra a tua.
— Ela deu-vos o que tinha — disseste, virando-te para o cavaleiro, o teu olhar firme e direto. — Não há necessidade de crueldade. Somos gente de bem. Por favor, deixem-na em paz.
— [Y/N]! — O grito da tua mãe foi um som de puro pânico.
O cavaleiro riu, um som feio e gutural.
— "Por favor"? — troçou ele, desmontando do seu cavalo com um baque pesado de metal. Ele era enorme, uma montanha de ferro e músculos. A sua sombra engoliu-te. — Uma camponesa com modos. Que adorável. Talvez devesses ensinar-me uma lição de bondade, ratinha.
Ele deu um passo na tua direção, o seu rosto contorcido numa máscara de desprezo. O cheiro a suor, couro e metal encheu-te as narinas.
— Por favor, senhor — repetiste, a tua voz a tremer ligeiramente, mas recusando-se a quebrar. — Ela é uma mulher idosa. Não há honra em atormentar os fracos.
As tuas palavras, destinadas a apelar a um código de conduta que ele talvez já tivesse conhecido, tiveram o efeito oposto. A sua expressão divertida transformou-se numa fúria fria. Quem eras tu para lhe falar de honra?
— Honra? — sibilou ele. — Vou ensinar-te o teu lugar.
A sua mão, enluvada em couro grosso, ergueu-se. O movimento foi rápido, brutal, desprovido de qualquer hesitação.
O som.
Foi o som que todos se lembrariam. Não um estalido abafado. Foi um som agudo, como um chicote a estalar, o som de couro a colidir violentamente com carne. Um som que ecoou pela praça silenciosa, que saltou das paredes das casas e viajou, nítido e claro, até à orla da floresta onde um par de olhos dourados observava.
A força do tapa atirou-te para o lado como se fosses uma boneca de trapos. A tua cabeça estalou para trás, e o mundo girou num borrão de céu azul e pó castanho. A dor foi um clarão branco e ofuscante, uma explosão de estrelas por detrás dos teus olhos. Aterraste com força no chão duro, o teu ombro e anca a absorverem o impacto com um baque surdo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, mais profundo do que qualquer silêncio que a floresta já conhecera. Era um silêncio de choque, de horror. O zumbido dos insetos, o farfalhar das folhas, a própria respiração da aldeia — tudo parou.
Ficaste deitada no pó, atordoada, o sabor a sangue a encher-te a boca onde tinhas mordido o interior da tua bochecha. A tua face ardia com uma dor lancinante, uma dor que parecia irradiar de cada poro. Mas a dor física não era nada comparada com a humilhação. Ser derrubada. Ser tratada como um animal. Ali, em frente de todos. Em frente das crianças que te admiravam. Em frente dos teus pais.
O cavaleiro olhou para o teu corpo caído com um desdém satisfeito. Cuspiu no chão, a um centímetro do teu rosto.
— Que isto sirva de lição para todos vós — rosnou ele para a multidão paralisada. — Conheçam o vosso lugar.
Na orla da floresta, Skitter não viu uma lição. Ele não viu um ato de disciplina ou a imposição da lei do rei. O seu cérebro feérico, que funcionava numa lógica de instinto, território e laços, processou a cena com uma clareza terrível.
Ele viu a criatura de ferro. A criatura barulhenta, fedorenta, que representava tudo o que era antinatural. E viu-a a erguer a sua pata e a golpear a sua humana. A sua rocha. O seu centro. A fonte de canções, de calor, de bolos de mel, de paciência infinita. A única coisa no mundo que importava.
O som do tapa não foi apenas um som para ele. Foi uma vibração que percorreu o chão, subiu pelas suas pernas e explodiu no seu crânio. Foi uma declaração de guerra. Uma violação.
A sua mente, normalmente um turbilhão de curiosidade e caos, tornou-se subitamente fria, clara e afiada como um caco de gelo. O Pixie brincalhão, o colecionador de tesouros, o parceiro em jogos de destruição, dissolveu-se como névoa ao sol. O que restou foi algo muito mais antigo. Algo que pertencia à Corte Unseelie, ao inverno, à escuridão sob as raízes. Um espírito da natureza cuja casa fora invadida e cujo totem sagrado fora profanado.
Os seus lábios finos recuaram sobre os seus dentes de agulha, não num sorriso, mas num esgar de pura e gélida fúria. Os seus olhos dourados, normalmente quentes como âmbar, tornaram-se duros e brilhantes como pirite. Ele não se moveu. Não guinchou. Não se atirou num ataque suicida. A sua raiva era demasiado profunda para uma libertação tão rápida. Era uma raiva que se acomodava, que esperava, que planeava.
Ele observou a criatura de ferro a voltar para o seu cavalo. Memorizou o seu cheiro, a sua voz, a cicatriz no seu lábio, a forma como se movia. Gravou cada detalhe na sua mente com a precisão de um predador a estudar a sua presa.
Na praça, o feitiço do silêncio foi quebrado por um grito de angústia. A tua mãe. Ela correu na tua direção, seguida de perto pelo teu pai, o seu rosto uma máscara de fúria impotente.
— [Y/N]! Minha filha!
O nobre, que observara tudo com uma indiferença aborrecida, fez um gesto impaciente.
— Já terminámos aqui. Vamos embora.
Os cavaleiros começaram a virar os seus cavalos, prontos para partir, o seu trabalho feito. A humilhação da aldeia era completa.
Liam, que estivera na fila a poucos metros de ti, deu um passo em frente, os seus punhos cerrados, o seu rosto pálido de raiva.
— Seu…!
Mas antes que pudesse dizer mais, o velho ferreiro, um homem sábio e cansado, agarrou-lhe o braço com uma força surpreendente.
— Não, rapaz — murmurou ele, a sua voz um aviso urgente. — Não podes ganhar. Só vais fazer com que se virem contra nós todos.
Liam lutou por um momento, o seu olhar a saltar do teu corpo no chão para as costas do cavaleiro que se afastava. A sua impotência era um veneno no seu sangue. Mas o ferreiro tinha razão. Ele viu a verdade nos olhos assustados dos seus vizinhos. Com um som de frustração e dor, ele relaxou, o seu corpo a curvar-se sob o peso da sua própria inutilidade.
Os teus pais ajoelharam-se ao teu lado. A tua mãe soluçava, as suas mãos a pairarem sobre ti, com medo de te tocar. O teu pai, com uma delicadeza que desmentia as suas mãos calejadas, passou um braço por baixo das tuas costas.
— Vamos, minha estrela. Vamos levar-te para dentro.
A tua bochecha estava a inchar rapidamente, uma mancha vermelha e roxa a espalhar-se pela tua pele. Quando tentaste sentar-te, uma vertigem avassaladora atingiu-te, e o mundo inclinou-se perigosamente.
— Cuidado — disse o teu pai, a sua voz tensa. Ele ergueu-te nos seus braços como se não pesasses nada.
Enquanto ele te carregava para casa, a tua cabeça encostada ao seu ombro, olhaste por cima do seu ombro para a praça. Os cavaleiros estavam a partir, um rasto de pó a marcar a sua retirada. Os teus vizinhos observavam em silêncio, os seus rostos uma mistura de alívio e vergonha. A senhora Gable chorava silenciosamente, o seu corpo a tremer.
O teu olhar encontrou o de Liam. A dor e a raiva nos seus olhos eram um reflexo das tuas. Ele deu um passo na tua direção, como se quisesse dizer algo, mas as palavras não vieram. Ele apenas ficou ali, uma testemunha impotente da tua dor.
Viraste a cabeça, a dor a latejar em cada pulsação do teu coração. O teu olhar foi para a floresta. Para o lugar onde sabias que ele estava.
E ele ainda estava lá.
A sua silhueta era quase invisível nas sombras, mas tu sentias o seu foco. Não era um olhar de preocupação ou de pânico. Era um olhar de intenção. Frio. Calculista. Mortal.
A floresta à sua volta parecia ter mudado. As sombras pareciam mais profundas, mais famintas. O ar parecia mais frio. Era como se a sua raiva estivesse a infiltrar-se na própria terra, a envenenar a luz do sol. Ele não era mais apenas Skitter, o teu amigo Pixie. Ele era o ressentimento da terra. A vingança do musgo. A fúria silenciosa de uma raiz a quebrar pedra.
Os cavaleiros afastavam-se, confiantes no seu poder, na sua armadura, na sua distância do mundo selvagem. Não sabiam que o som da sua crueldade tinha despertado algo. Não sabiam que um deles acabara de se marcar, não com tinta, mas com um ato de violência que o ligava a um destino que ele não podia sequer imaginar.
Não sabiam que, quando se entra na floresta das fadas, não se pode simplesmente sair. Leva-se sempre um pouco dela consigo. E, por vezes, a floresta vem reclamar a sua dívida.
Fechaste os olhos, o rosto enterrado no ombro do teu pai, o cheiro a fumo de lenha e a segurança a envolver-te. Mas não havia segurança. Uma guerra fora declarada sem que uma única palavra fosse dita. Uma guerra entre o mundo do ferro e o mundo do musgo.
E tu, com o teu coração partido e o teu rosto a arder, estavas no centro de tudo.