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Uma família fora dos planos

O Brilho do Vinho e as Verdades Não Ditas

O silêncio na mansão Waraha-Austin após as nove da noite era algo raro, quase precioso. Sonya finalmente havia se rendido ao cansaço, abraçada a um urso de pelúcia que Engfa havia "ganhado" em uma barraca de tiro ao alvo (após quase ser banida do parque por sua pontaria profissional). Charlotte, no entanto, não conhecia a palavra descanso. Para ela, o fim do dia era apenas o momento em que os ruídos externos silenciavam para que o barulho dos números em sua cabeça ficasse mais alto.

Charlotte estava sentada em sua poltrona de couro no escritório, a luz de um abajur de luz quente era a única coisa que iluminava as planilhas de exportação e os contratos de lavagem de ativos. Seus óculos de leitura estavam na ponta do nariz, e seu semblante era de uma concentração absoluta.

A porta se abriu com um rangido suave, mas Charlotte não precisou olhar para saber quem era. O cheiro de perfume amadeirado e o som dos passos desleixados eram marcas registradas.

— Você sabia que, segundo estudos científicos que eu acabo de inventar, olhar para números após as dez da noite causa rugas precoces? — Engfa entrou na sala, segurando uma garrafa de um tinto caro e duas taças de cristal.

— Engfa, eu estou ocupada — Charlotte respondeu sem desviar os olhos do monitor. — Os Austin estão questionando a margem de lucro do último carregamento que passou pelo seu porto. Eu preciso de respostas, não de estatísticas falsas sobre beleza.

— Os Austin reclamam de tudo. É de família — Engfa caminhou até a mesa, apoiando o quadril na borda da madeira de carvalho, bem em cima de uma pilha de documentos que Charlotte estava prestes a ler. — Relaxa, Lottie. O carregamento foi seguro. Eu mesma verifiquei. O que eles querem é atenção, e você está dando isso a eles em vez de dar para sua esposa legítima, ainda que por contrato.

Charlotte suspirou, tirando os óculos e massageando a ponte do nariz. Ela levantou o olhar para Engfa. A mulher de 32 anos parecia irritantemente confortável. Engfa tinha os cabelos levemente bagunçados e a camisa social com os dois primeiros botões abertos, revelando o início de uma tatuagem no peito.

— Você é impossível — Charlotte murmurou. — O que você quer?

— Eu quero que você pare de ser uma calculadora humana por cinco minutos — Engfa serviu o vinho, o som do líquido caindo no cristal ecoando no escritório silencioso. — A Sonya já dormiu. O mundo criminoso está, milagrosamente, em paz por esta hora. E eu estou aqui, com um vinho que custa o preço de um dos meus turbos, sendo ignorada. É um crime contra a minha dignidade.

— Você não tem dignidade, Waraha. Você tem audácia — Charlotte estendeu a mão e pegou a taça que Engfa lhe oferecia.

— Prefiro chamar de "charme irresistível" — Engfa deu um gole no seu vinho, observando Charlotte por cima da borda da taça. — Você está tensa. Seus ombros estão quase tocando as orelhas. Se continuar assim, vai virar uma estátua de gelo permanente. E eu prefiro você... levemente derretida.

Charlotte sentiu o rosto esquentar, mas disfarçou com um gole longo do vinho. O sabor era intenso, terroso, exatamente como ela gostava.

— Foi um dia longo — admitiu Charlotte, recostando-se na poltrona. — A escola, os investidores, os carros de reconhecimento... e você sendo uma idiota impulsiva.

— Ei, eu fui uma heroína hoje! — Engfa protestou com um brilho brincalhão nos olhos. — Eu fiz tranças! Você tem noção do nível de coordenação motora necessário para não puxar o cabelo de uma criança de seis anos enquanto se faz manobras de evasão no trânsito? Eu deveria ganhar uma medalha. Ou, no mínimo, um beijo de agradecimento.

Charlotte soltou uma risada curta, a primeira do dia que não era carregada de sarcasmo.

— Você não ganha medalhas por cumprir obrigações básicas de paternidade, Engfa.

— Mas e pelo meu desempenho contra a professora de artes? — Engfa provocou, inclinando-se mais para perto, o sorriso de lado desafiador. — Você ficou tão brava que eu quase achei que ia me jogar contra o capô do carro. O que, para constar, seria uma forma interessante de terminar a tarde.

— Você se acha o centro do universo — Charlotte colocou a taça sobre a mesa e cruzou os braços, tentando retomar sua postura defensiva. — Eu só não gosto de desordem. E você é a personificação da desordem.

— E você é a personificação do controle — Engfa rebateu, sua voz baixando um tom, tornando-se mais rouca. — Mas sabe o que dizem sobre os opostos, Austin? Eles não apenas se atraem. Eles se incendeiam.

Engfa deixou sua taça de lado e contornou a mesa lentamente. Charlotte ficou imóvel, observando o movimento da outra mulher como uma presa observa um predador, mas sem qualquer intenção de fugir. Quando Engfa parou atrás da poltrona de Charlotte, ela colocou as mãos nos ombros da mais nova, começando uma massagem firme.

— O que você está fazendo? — perguntou Charlotte, embora sua cabeça tivesse pendido levemente para frente sob o toque.

— Shhh. Menos auditoria, mais relaxamento — as mãos de Engfa eram quentes e experientes. — Você carrega o mundo nas costas, Charlotte. Mas aqui dentro, nestas quatro paredes, você não precisa ser a administradora da máfia Austin. Você pode ser apenas a minha esposa.

— Nós temos um contrato, Engfa. Não esqueça disso — Charlotte tentou manter a voz firme, mas um suspiro de prazer escapou quando os polegares de Engfa pressionaram um nó de tensão em seu trapézio.

— O papel diz que somos sócias. O anel diz que somos casadas — Engfa inclinou-se, sussurrando perto do ouvido de Charlotte, sua respiração roçando a pele sensível do pescoço dela. — Mas o jeito que você olha para mim quando acha que eu não estou vendo... isso diz outra coisa totalmente diferente.

Charlotte fechou os olhos. Ela odiava o quanto Engfa conseguia ler através de suas barreiras.

— Você é uma convencida — Charlotte sussurrou.

— E você é uma mentirosa — Engfa parou a massagem e virou a poltrona de Charlotte, forçando-a a encará-la.

Engfa se ajoelhou entre as pernas de Charlotte, apoiando as mãos nos braços da poltrona, cercando-a. A luz do abajur criava sombras dramáticas no rosto de Engfa, destacando a cicatriz na bochecha e o brilho intenso por trás das lentes dos óculos.

— Admita, Charlotte — desafiou Engfa, a voz agora apenas um fio de som. — Admita que você não me odeia tanto quanto diz aos seus investidores.

Charlotte olhou para Engfa, descendo os olhos para os lábios curvados em um sorriso presunçoso e depois voltando para os olhos castanhos que pareciam queimar. A tensão que vinha se acumulando durante semanas — entre brigas por Sonya, discussões sobre dinheiro e olhares trocados em festas de gala — finalmente atingiu o ponto de ruptura.

— Eu odeio o fato de que você me conhece tão bem — Charlotte disse, sua voz falhando.

— Então para de lutar — Engfa estendeu a mão e tirou os óculos de Charlotte, colocando-os sobre a mesa, e logo em seguida retirou os seus próprios. — Só por hoje à noite.

Charlotte não esperou mais. Ela avançou, segurando o colarinho da camisa de Engfa e puxando-a para um beijo. Não foi um beijo calmo ou planejado. Foi uma colisão. Tinha o gosto do vinho tinto, da urgência e de anos de negação.

Engfa soltou um som baixo na garganta, uma mistura de surpresa e triunfo, enquanto correspondia com a mesma intensidade. Suas mãos subiram para o rosto de Charlotte, os dedos se perdendo nos cabelos ondulados e macios. O beijo era exigente, uma disputa de poder onde nenhuma das duas queria realmente vencer, apenas sentir.

Charlotte soltou um suspiro contra os lábios de Engfa quando sentiu as mãos da outra apertarem sua cintura, puxando-a para mais perto, eliminando qualquer espaço que ainda restasse entre elas. O escritório, antes um lugar de frieza e cálculos, agora parecia pequeno demais para a eletricidade que as consumia.

Afastaram-se por apenas um segundo, as testas coladas, as respirações curtas e pesadas.

— Isso não estava no contrato — Charlotte ofegou, seus olhos brilhando com uma vulnerabilidade que ela raramente permitia que alguém visse.

— Então vamos considerar uma cláusula extra — Engfa sorriu, mas desta vez não era um sorriso sarcástico. Era algo mais suave, quase terno. — Uma cláusula de exclusividade emocional.

Charlotte soltou uma risada fraca, acariciando a cicatriz na bochecha de Engfa com o polegar.

— Você é uma idiota, Engfa Waraha.

— E você é minha, Charlotte Austin. De papel passado e agora... de alma também.

Engfa voltou a beijá-la, desta vez de forma mais lenta, explorando cada curva dos lábios de Charlotte com uma possessividade que fazia a mais nova estremecer. Ela levantou Charlotte da poltrona, sentando-a na mesa de carvalho, espalhando os documentos importantes pelo chão sem a menor cerimônia.

— Engfa! Meus relatórios! — Charlotte protestou fracamente, mesmo enquanto suas pernas se envolviam na cintura de Engfa.

— Esqueça os relatórios. Amanhã eu contrato dez contadores novos para você se for preciso — Engfa disse entre beijos no pescoço de Charlotte. — Hoje, a única coisa que eu quero administrar é o tempo que eu perdi não fazendo isso.

Charlotte jogou a cabeça para trás, sentindo as mãos de Engfa subirem por suas coxas sob a saia do terno. O mundo exterior, as guerras entre os Austin e os Waraha, os perigos do submundo... tudo parecia irrelevante. Ali, no santuário do escritório, elas não eram chefes da máfia ou esposas de conveniência. Eram apenas duas mulheres que haviam encontrado, em meio ao caos e ao ódio, um motivo para baixar as armas.

Horas depois, quando a garrafa de vinho já estava vazia e o silêncio da noite era absoluto, elas estavam sentadas no sofá de couro do escritório. Charlotte estava encostada no peito de Engfa, que acariciava seus cabelos de forma distraída.

— Sabe que a Sonya vai perguntar por que os papéis estão todos no chão amanhã, não é? — Charlotte comentou, a voz sonolenta.

— Eu digo que foi um terremoto — Engfa respondeu, beijando o topo da cabeça de Charlotte. — Ou que o fantasma de um investidor insatisfeito veio assombrar a sala. Ela adora histórias de fantasmas.

— Você é uma péssima influência — Charlotte sorriu, fechando os olhos.

— E você adora isso — Engfa retrucou.

Charlotte não respondeu, pois já estava caindo no sono, sentindo-se, pela primeira vez em anos, verdadeiramente segura. Engfa ajustou o abraço, olhando para a porta do escritório. Elas tinham um longo caminho pela frente, cheio de inimigos e contratos complicados, mas enquanto tivessem Sonya e aquele fogo que as unia, o submundo que se cuidasse. As rainhas estavam finalmente em sintonia.