Uma família fora dos planos
Sombras no Espelho e o Caos de Faye
A manhã seguinte ao "terremoto" no escritório começou com uma calmaria enganosa. O sol entrava pelas janelas da sala de jantar, iluminando Charlotte, que revisava documentos em seu tablet com uma postura impecável, e Engfa, que tentava convencer Sonya de que brócolis eram, na verdade, "árvores de força" usadas por ninjas.
— Eu não sou ninja, Mama Engfa. Eu sou uma Austin-Waraha — sentenciou a garotinha de seis anos, cruzando os braços com a mesma autoridade que Charlotte usava em reuniões de cúpula.
— Ela te pegou nessa — comentou Charlotte, sem desviar os olhos da tela. — Engfa, não se esqueça de que o jato sai às dez. A reunião em Chiang Mai com os fornecedores de tecnologia militar é inadiável.
Engfa suspirou, abandonando a tática das árvores de força e roubando um pedaço da torrada de Charlotte.
— Eu sei, eu sei. Mas temos um problema logístico, querida esposa. A babá ligou dizendo que está com uma gripe que derrubaria um elefante. Não podemos levar a Sonya para um galpão cheio de mercenários e cheiro de pólvora.
Charlotte finalmente levantou o olhar, a preocupação vincando sua testa.
— Eu não vou deixar minha filha com qualquer segurança. P’Nam é ótimo com armas, mas ele deu chocolate para ela no jantar da última vez.
— Eu tenho a solução perfeita — Engfa sorriu de forma travessa, pegando o celular. — Faye Peraya.
Charlotte arqueou uma sobrancelha, o ceticismo evidente em seu rosto.
— Faye? A mulher que quase explodiu o cassino de Macau porque "queria ver se os fogos de artifício funcionavam dentro de casa"? Você quer deixar nossa filha com a pessoa mais caótica do submundo?
— Faye é minha melhor amiga e seu braço direito, Charlotte. Ela mataria e morreria pela Sonya. Além disso, a pequena adora ela. Vamos, faça a chamada de vídeo.
Charlotte hesitou, mas a falta de opções a obrigou a ceder. Segundos depois, o rosto de Faye apareceu na tela. Ela parecia estar em um estande de tiro, usando abafadores de som cor-de-rosa e um sorriso maníaco.
— Fala, casal maravilha! Planejando um assassinato ou apenas ligaram para admirar minha beleza? — gritou Faye por cima do som de alguns disparos ao fundo.
— Faye, precisamos de um favor — começou Engfa, puxando Sonya para perto da câmera. — Temos uma reunião fora da cidade e a babá furou. Você pode ficar com a sua sobrinha favorita por hoje?
O rosto de Faye iluminou-se instantaneamente. Ela largou a pistola sobre a mesa e arrancou os abafadores.
— A mini-Engfa? Comigo? Óbvio! Vou ensinar para ela como hackear o sistema de tráfego da cidade e como escolher o melhor calibre para defesa pessoal básica.
— Faye Peraya, se você ensinar qualquer coisa que envolva armas de fogo ou crimes cibernéticos, eu mesma farei a auditoria das suas contas pessoais e deixarei você na miséria — interveio Charlotte, sua voz gélida e autoritária.
— Relaxa, patroa! — Faye piscou. — Vai ser um dia de princesas. Princesas que sabem se defender, claro. Tragam a pequena, eu cuido de tudo.
***
Horas depois, o clima em Chiang Mai era drasticamente diferente da energia caótica de Faye. O evento ocorria em uma mansão colonial isolada, frequentada pela elite do crime organizado e fornecedores de alto escalão. Engfa e Charlotte entraram no salão principal como uma força da natureza.
Engfa usava um terno sob medida em tom de vinho, sem gravata, com os óculos de grau conferindo-lhe um ar de intelectual perigosa. Charlotte, ao seu lado, era a personificação da elegância letal em um vestido de seda esmeralda que abraçava suas curvas, o cabelo castanho-claro ondulado perfeitamente posicionado.
— Mantenha o foco, Engfa — sussurrou Charlotte, sentindo o peso dos olhares sobre elas. — Este contrato é vital para a expansão da máfia Austin no norte.
— Eu estou focada, Charlotte. Mas é difícil quando você está tão bonita que eu sinto vontade de cancelar a reunião e voltar para o hotel — Engfa respondeu com um sorriso de lado, a ironia habitual mascarando a proteção possessiva que sentia.
— Controle seus hormônios, Waraha. Temos negócios a tra...
Charlotte parou de falar abruptamente quando uma figura se desprendeu das sombras perto do bar. Era um homem alto, de sorriso cínico e olhos que carregavam uma malícia antiga. Sulax. O líder da facção rival e o homem que Engfa mais desprezava no mundo.
— Mas vejam só... se não é o casal do ano — a voz de Sulax era como seda sobre vidro quebrado. — Engfa, você continua usando esses óculos de bibliotecária? Achei que o submundo exigisse uma visão mais apurada.
Engfa tensionou os ombros instantaneamente, a mão movendo-se por instinto para a lateral do terno, onde sua arma estava escondida.
— Sulax. Achei que você estivesse ocupado demais lambendo as feridas daquela carga que "perdeu" no mês passado — retrucou Engfa, sua voz gélida, a pequena cicatriz na bochecha parecendo pulsar.
Sulax soltou uma risada seca e, ignorando Engfa completamente, deu um passo em direção a Charlotte. Ele pegou a mão da mulher mais jovem antes que ela pudesse reagir e depositou um beijo demorado nos nós de seus dedos, mantendo o contato visual.
— Charlotte Austin... cada vez que a vejo, me pergunto como uma mulher tão meticulosa e brilhante acabou presa a uma impulsiva como a Waraha. Você é o cérebro da operação, Charlotte. Merece alguém que saiba apreciar a sofisticação, não alguém que prefira corridas de rua a jantares de gala.
Engfa sentiu o sangue ferver. O ciúme, que ela costumava esconder sob camadas de sarcasmo, explodiu em seu peito. Ela deu um passo à frente, colocando-se entre Sulax e Charlotte, forçando o homem a soltar a mão de sua esposa.
— Tire suas mãos sujas de cima dela, Sulax. Ou eu juro que a próxima coisa que você vai beijar é o asfalto do estacionamento.
— Ora, Engfa, não seja tão territorial — Sulax sorriu, ajeitando a lapela do próprio terno. — Charlotte é uma mulher de negócios. Ela sabe reconhecer uma proposta melhor quando vê uma. E eu tenho muitas propostas para ela... algumas que não envolvem contratos de máfia.
Charlotte, que até então mantinha sua máscara de gelo, sentiu a mão de Engfa tremer levemente de fúria ao seu lado. Ela sabia que Engfa estava a um segundo de causar um incidente internacional.
— Sulax — disse Charlotte, sua voz calma, mas com um peso que fez o sorriso do homem vacilar. — Minha lealdade e meu contrato estão com a família Waraha. Se você tem propostas de negócios, envie-as para o meu escritório. Se as propostas forem de outra natureza, sugiro que guarde para alguém que se impressione com clichês de vilão de segunda categoria.
Engfa soltou uma risada vitoriosa, embora seus olhos ainda brilhassem com ódio.
— Ouviu a moça? Agora saia da frente antes que eu decida que sua cara ficaria melhor com uma cicatriz igual à minha.
Sulax estreitou os olhos, lançando um último olhar faminto para Charlotte antes de se retirar.
— Isso ainda não acabou, Engfa. O norte é um lugar perigoso para quem não sabe cuidar do que tem.
Quando ele se afastou, Engfa virou-se para Charlotte, a respiração ainda acelerada.
— Eu vou matar esse cara, Charlotte. Eu juro por tudo que é mais sagrado, eu vou acabar com ele.
— Engfa, respire — Charlotte colocou a mão no peito de Engfa, sentindo o coração da esposa batendo freneticamente. — Ele só queria te desestabilizar. E você caiu como uma amadora.
— Ele tocou em você! — Engfa exclamou, a voz baixa e rouca. — Ele flertou com você na minha cara! Eu não me importo com os negócios, Charlotte. Ninguém olha para você daquele jeito e sai ileso.
Charlotte olhou nos olhos de Engfa, vendo a mistura de raiva e uma vulnerabilidade possessiva que a surpreendeu.
— Eu sei me cuidar, Engfa. E eu deixei claro de que lado eu estou. Agora, recomponha-se. Temos uma reunião e eu não quero que pensem que a líder dos Waraha perde a cabeça por causa de um flerte barato.
— Não foi um flerte barato. Foi um desafio — Engfa ajeitou os óculos, tentando recuperar a compostura, mas seus olhos ainda seguiam os movimentos de Sulax pelo salão. — Mas você tem razão. Vamos terminar isso. Mas depois... eu quero que você me lembre exatamente por que o contrato diz que você é minha esposa.
Charlotte deu um sorriso imperceptível.
— Talvez eu lembre. Se você se comportar.
***
Enquanto isso, de volta à mansão em Bangkok, o cenário era de guerra — ou quase isso. Faye Peraya estava sentada no chão da sala de estar, cercada por caixas de pizza, três laptops abertos e Sonya, que usava uma bandana na cabeça e pintava o rosto com batom escuro.
— Certo, sobrinha. Agora, preste atenção — dizia Faye, apontando para uma das telas. — Se você quiser entrar no sistema de câmeras da escola para ver onde as professoras escondem os doces, você precisa contornar o firewall usando este protocolo aqui.
— Mama Charlotte disse que hackear é errado, Tia Faye — disse Sonya, embora estivesse digitando freneticamente no teclado de brinquedo que Faye havia conectado a um dos computadores reais.
— Só é errado se te pegarem, pequena — Faye riu, abrindo uma lata de energético. — E nós somos as melhores. Ninguém pega uma Waraha-Austin.
— A Mama Engfa disse que você é doida — comentou Sonya, olhando para Faye com seus grandes olhos castanhos, que no momento brilhavam com pura diversão.
— Eu não sou doida, eu sou incompreendida — Faye fingiu estar ofendida. — Agora, chega de computadores. Vamos para o jardim. Eu montei um circuito de obstáculos. Se você completar em menos de dois minutos, eu te ensino a fazer um nó de fuga que nem o P’Nam consegue desatar.
— Eba! — Sonya pulou, correndo em direção à porta.
Faye a seguiu, rindo. Ela sabia que Charlotte a mataria se visse o estado da sala, mas Faye via em Sonya o futuro. A menina tinha a inteligência afiada de Charlotte e a audácia destemida de Engfa. Ela era a fusão perfeita de duas das mentes mais perigosas do país.
De repente, o rádio no cinto de Faye chiou. Era um dos seguranças do portão principal.
— Faye, temos um veículo não identificado rondando o perímetro. Placa de Chiang Mai.
O sorriso de Faye desapareceu instantaneamente, sendo substituído por um olhar frio e calculista. Ela olhou para Sonya, que estava tentando subir em um pneu pendurado.
— Sonya, querida — chamou Faye, sua voz agora suave, mas firme. — Lembra da brincadeira de "esconde-esconde de elite" que a Mama Engfa te ensinou?
— Sim! Eu tenho que ir para o quarto de pânico e não sair até ouvir a senha! — respondeu a menina, percebendo a mudança de tom da tia.
— Exatamente. Vá agora. A Tia Faye tem que brincar de "expulsar os intrusos" e pode fazer um pouco de barulho.
Sonya assentiu e correu para dentro da casa com uma agilidade impressionante. Faye sacou sua pistola automática do coldre escondido nas costas, verificando o carregador.
— Central, aqui é Faye. Fechem o perímetro. Se o carro tentar entrar, não perguntem quem é. Só parem o motor. Com balas.
***
De volta ao evento em Chiang Mai, a reunião havia terminado. Charlotte havia conseguido o contrato, mas o clima entre ela e Engfa ainda estava carregado. Elas caminhavam pelo jardim da mansão em direção ao estacionamento quando o celular de Engfa tocou.
Era um sinal prioritário da mansão.
— Faye? O que aconteceu? — perguntou Engfa, sua voz subitamente séria, o que fez Charlotte parar e prestar atenção.
— Tentativa de incursão, Engfa — a voz de Faye soou pelo viva-voz, calma mas letal. — Um carro dos homens do Sulax. Eles acharam que a casa estaria vulnerável com vocês duas fora.
Charlotte sentiu o coração falhar uma batida.
— A Sonya... onde ela está? — a voz de Charlotte era um sussurro de puro pavor.
— Ela está segura no quarto de pânico, Charlotte. Eu cuidei dos ratos. Dois estão detidos no porão, os outros fugiram. Mas achei que vocês gostariam de saber que o Sulax não joga limpo.
Engfa olhou para Charlotte e depois para o salão onde Sulax ainda estava, bebendo champanhe como se nada tivesse acontecido. A fúria que Engfa sentiu antes não era nada comparada ao gelo que agora corria em suas veias.
— Charlotte — disse Engfa, entregando o celular para ela. — Vá para o carro. Chame o P’Nam e prepare o jato. Agora.
— O que você vai fazer? — perguntou Charlotte, vendo o brilho assassino nos olhos da esposa.
— Eu vou dar ao Sulax a única resposta que um Waraha sabe dar quando alguém toca na sua família.
Charlotte hesitou por um segundo. Sua mente analítica dizia para irem embora e planejarem uma vingança fria e financeira. Mas, ao olhar para Engfa, ela viu algo mais. Viu a mulher que, apesar de odiar contratos e regras, daria a vida por aquela criança e por ela.
— Não deixe rastros — disse Charlotte, sua voz tão fria quanto a de Engfa. — E não demore. Temos uma filha esperando por nós.
Engfa assentiu, um sorriso sombrio surgindo em seu rosto. Ela ajustou os óculos, caminhando de volta para o salão com a calma de quem caminha para um acerto de contas inevitável.
Naquela noite, o submundo de Chiang Mai aprendeu uma lição valiosa: você pode tentar quebrar o contrato de Engfa Waraha e Charlotte Austin, mas nunca, sob hipótese alguma, deve ameaçar o que elas construíram juntas. Porque, no fim das contas, o ódio que elas sentiam uma pela outra era apenas uma faísca perto do incêndio que elas causariam para proteger o que era delas.