Vida
O Refúgio na Calmaria e o Caos no Parque
A noite havia caído sobre São Paulo, trazendo consigo um silêncio que raramente visitava o triplex de Emanuel. Após o jantar tenso e as discussões sobre bolsas destruídas, o cansaço parecia ter vencido até mesmo o espírito combativo de Sara, que se recolhera cedo com Valentina. Emanuel, no entanto, não conseguia dormir. Ele caminhou pelo corredor mal iluminado e parou diante da porta de Eduarda.
Ao entrar, encontrou-a sentada na beira da cama, observando Arthur dormir no berço acoplado. Ela parecia exausta; as olheiras leves sob os olhos grandes denunciavam as noites em claro cuidando do pequeno furacão e os dias tentando equilibrar a faculdade com a pressão de viver sob o mesmo teto que Sara.
— Você precisa descansar, Duda — sussurrou Emanuel, aproximando-se e colocando as mãos nos ombros dela.
Eduarda inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos ao sentir o toque dele.
— Eu estou bem, Manu... Só estou um pouco sobrecarregada. O Arthur está numa fase tão intensa.
Emanuel não disse nada. Ele apenas a puxou para cima, guiando-a para a cama com uma ternura que raramente demonstrava ao mundo exterior. Naquela noite, o sexo não foi sobre poder ou controle, como muitas vezes acontecia com Sara. Foi uma entrega mútua, um encontro de silêncios e carinhos lentos. Emanuel a amou com paciência, explorando cada curva do corpo esguio de Eduarda, sentindo a maciez de sua pele e a doçura de seus gemidos baixos.
Depois, enquanto ela dormia profundamente em seus braços, Emanuel ficou observando o teto. Ele percebia o quanto exigia dela. Eduarda era sua paz, o porto seguro onde ele ancorava após um dia lidando com o ego de artistas e a agressividade de Sara. Ele decidiu, naquele momento, que a protegeria mais.
Na manhã seguinte, o sol entrou pelas janelas de vidro do triplex, anunciando o passeio planejado. Emanuel já estava de pé, servindo o café, quando Sara apareceu, impecável em um conjunto de moletom de luxo branco, com os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo perfeito.
— Espero que esse parque tenha uma área VIP, Emanuel — reclamou ela, ajeitando as joias. — Não quero a Valentina sentada na terra com plebeus.
Eduarda entrou na cozinha logo em seguida, carregando Arthur. Ela parecia mais radiante após a noite de descanso, embora ainda mantivesse sua aura tímida. Valentina, que já estava sentada em seu cadeirão comendo frutas picadas, viu Eduarda e, para a surpresa de todos, esticou os bracinhos gorduchos.
— Duda! Colo! — pediu a menina, ignorando a mãe que estava ao seu lado.
Sara congelou com a xícara de café a meio caminho da boca. Seus olhos faiscaram.
— Valentina, a mamãe está aqui. Venha com a mamãe.
A menina, porém, começou a chorar, balançando o corpo em direção a Eduarda.
— Não! Duda! — insistiu Valentina.
Sara abriu a boca para protestar, pronta para iniciar uma nova guerra matinal, mas Emanuel interveio antes que o primeiro insulto fosse lançado. Sua voz era calma, mas carregada de uma autoridade inquestionável.
— Deixe, Sara. A Eduarda pega ela.
— Emanuel, isso é um absurdo! Ela está desautorizando a minha figura materna! — Sara exclamou, batendo a xícara na mesa.
— Ela está apenas dando carinho a uma criança que pediu — Emanuel respondeu, olhando fixamente para a loira. — Eduarda, pegue a Valentina. Nós vamos sair em dez minutos.
Eduarda, um pouco receosa, mas encorajada pelo olhar de Emanuel, entregou Arthur para o pai e pegou Valentina. A menina imediatamente se calou, aninhando-se no pescoço de Eduarda e brincando com uma mecha de seu cabelo castanho.
Arthur, no colo de Emanuel, franziu a testa pequena. Ele olhou para a mãe, depois para a "irmã" ocupando o seu lugar favorito, e fez um bico de choro.
— Minha mamãe! — protestou o menino, tentando empurrar Valentina com a mãozinha.
— Arthur — Emanuel disse severamente, mas com um toque de diversão —, a mamãe tem dois braços. E a Valentina é sua irmã. Aprenda a dividir.
Arthur olhou para o pai, depois para Eduarda, que lhe deu um beijo na testa enquanto ainda segurava a menina. O ciúme do menino era evidente, mas ele era louco pela mãe e, ao ver que ela ainda sorria para ele, acabou cedendo, aceitando o abraço de Emanuel e se contentando em puxar a orelha do pai.
O passeio ao Parque Ibirapuera foi uma experiência sensorial completa. Emanuel, vestindo uma camiseta preta simples que deixava suas tatuagens à mostra, caminhava carregando a cesta de piquenique e vigiando Arthur, que parecia ter sido libertado de uma jaula.
Arthur corria pela grama como se o mundo fosse pequeno demais para ele.
— Olha, papai! Cachorro! — gritava o menino, correndo atrás de um Golden Retriever que passava, quase tropeçando nas próprias pernas.
— Arthur, não corra tanto! Você vai cair! — Eduarda chamava, sentada em uma toalha estendida sob uma árvore frondosa.
Ao lado dela, Valentina brincava calmamente com um conjunto de chaves de brinquedo, ocasionalmente olhando para Arthur com uma expressão de julgamento que era a cópia fiel de Sara.
Sara, por sua vez, estava sentada em uma cadeira de praia portátil que trouxera, usando óculos escuros gigantes e passando protetor solar a cada dez minutos.
— Emanuel, aquele pombo olhou para a Valentina de um jeito estranho — comentou Sara, séria. — Eles transmitem doenças, sabia?
Emanuel soltou uma risada curta, sentando-se na grama ao lado de Eduarda.
— É só um pombo, Sara. Relaxa um pouco. Olha para o seu filho, ele está se divertindo.
— Ele está se sujando, isso sim — retrucou ela, mas havia menos veneno em sua voz. O sol e o ar livre pareciam estar drenando um pouco de sua agressividade.
Arthur, vendo que todos estavam reunidos, decidiu que era hora de uma performance. Ele pegou um graveto no chão e começou a "tatuar" a perna de Emanuel.
— Vou fazer um dragão, papai! — disse o menino, concentrado, passando o graveto na pele do pai com uma seriedade cômica.
— Está ficando ótimo, campeão — incentivou Emanuel, trocando um olhar cúmplice com Eduarda.
— Eu quero tatu também! — Valentina anunciou, levantando-se e caminhando até o irmão.
Pela primeira vez, os dois brincaram sem brigas. Arthur "tatuou" o braço da irmã com o graveto, e Valentina ria das cócegas. Eduarda observava a cena com os olhos marejados. Para ela, aqueles momentos de paz valiam cada humilhação que sofria de Sara.
— Eles ficam bem juntos quando a gente não interfere, não é? — sussurrou Eduarda para Emanuel.
Ele passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para perto.
— Eles são crianças, Duda. O mundo deles é simples. Nós é que complicamos tudo.
Sara, observando a cena de longe, sentiu uma pontada de algo que não conseguia identificar. Talvez fosse solidão, ou talvez fosse a percepção de que, apesar de todo o seu silicone, suas roupas de marca e sua atitude defensiva, a felicidade genuína estava naquelas coisas simples que Eduarda valorizava.
— Ei — chamou Sara, levantando-se e caminhando até eles. — Se esse piquenique não tiver champanhe, eu vou embora agora mesmo.
Emanuel sorriu e tirou uma garrafa de espumante gelada da cesta.
— Eu conheço você, Sara. É claro que tem champanhe.
A tarde seguiu entre risadas e pequenas confusões. Arthur tentou comer uma flor, sendo impedido por uma Eduarda desesperada e um Emanuel rindo da situação. Valentina acabou sujando o vestido de renda com grama, o que gerou um pequeno drama de Sara, logo resolvido quando a menina deu um beijo na bochecha da mãe.
Enquanto o sol começava a se pôr, pintando o céu de laranja, Emanuel olhou para as duas mulheres e os dois filhos. O triplex continuaria sendo um campo de batalha na maioria dos dias, Sara continuaria sendo vulgar e provocadora, e Eduarda continuaria sendo manhosa e sensível. Mas ali, naquele pedaço de grama, eles eram apenas uma família, com todas as suas cicatrizes e cores vibrantes.
— Vamos para casa? — perguntou Emanuel, pegando Arthur no colo, que já bocejava.
— Vamos — concordou Eduarda, pegando a mão de Valentina.
Sara caminhou na frente, balançando os quadris e reclamando que o vento estava estragando sua escova, mas, ao chegar ao carro, ela segurou a mão de Eduarda por um breve segundo para ajudá-la com a bolsa da bebê. Foi um gesto rápido, quase imperceptível, mas que não escapou aos olhos observadores de Emanuel.
A tinta daquela família ainda estava fresca, e o desenho era complexo, mas, pela primeira vez em muito tempo, Emanuel sentiu que a obra estava ficando bonita.