Vida
O Sangue e as Cicatrizes da Culpa
O luxuoso triplex de Emanuel, com suas superfícies de vidro e mármore impecáveis, era um monumento ao sucesso, mas para Eduarda, às vezes parecia uma caixa de ressonância para os gritos de Sara e a energia inesgotável de Arthur. Naquela tarde de terça-feira, o ar estava excepcionalmente abafado.
Valentina, sentada em seu tapete de atividades de grife, brincava com um chocalho de prata. A menina, mesmo com apenas dois anos, já demonstrava uma postura que lembrava a de Sara: olhava para os próprios brinquedos com um ar de superioridade, descartando aqueles que não a interessavam com um empurrãozinho enfadonho. Ela era uma bebê fácil, desde que suas vontades fossem atendidas e o ambiente estivesse em perfeita ordem.
— Olha como ela é fina, Emanuel — comentou Sara, retocando o batom vermelho enquanto se olhava no espelho da sala. — Valentina nasceu para o luxo. Diferente daquele seu pequeno bárbaro que está tentando escalar a estante de livros.
Emanuel, que revisava alguns contratos de seus novos estúdios em Tóquio, nem levantou a cabeça.
— Ele só tem energia, Sara. É um menino.
— É um perigo, isso sim — retrucou ela, guardando o batom na bolsa. — Eduarda, você não vai tirar ele de lá? Ele vai acabar quebrando um desses seus vasos de cerâmica que custam o olho da cara.
Eduarda, que estava sentada no chão perto de Valentina tentando ler um catálogo de exposição, levantou-se rapidamente. Sua expressão era de um cansaço doce, mas constante.
— Arthur, vem com a mamãe, querido. Vamos desenhar no papel, não na estante.
Arthur, no entanto, herdara a teimosia do pai e a impulsividade que parecia vibrar em seu sangue. Ele deu uma risada travessa e, em vez de descer com cuidado, tentou dar um salto para o sofá. O pé escorregou na borda de mármore da lareira desativada.
O som foi seco. Um baque abafado seguido por um microssegundo de silêncio absoluto que parecia congelar o tempo dentro do apartamento.
— Arthur! — Eduarda gritou, a voz saindo como um rasgo de agonia.
O menino não chorou imediatamente. Ele ficou caído, o rosto contra o chão frio. Quando Emanuel se levantou em um salto, derrubando os papéis, e virou o filho, o horror se instalou.
Havia sangue. Muito sangue.
O lábio superior de Arthur estava aberto em um corte profundo e feio, e o sangue escorria rapidamente, manchando a camiseta branca do menino e o tapete claro. Foi então que o grito de dor do garoto explodiu, um som agudo que fez Valentina começar a chorar por reflexo e Sara recuar, tapando a boca com uma expressão de nojo e choque.
— Meu Deus! Emanuel, olha o sangue! — Sara exclamou, desviando o rosto. — Ele vai manchar tudo! Eduarda, como você deixou isso acontecer?
Eduarda estava de joelhos, as mãos tremendo tanto que ela não conseguia nem tocar no filho. Suas lágrimas caíam sobre o rosto de Arthur, misturando-se ao sangue dele.
— Eu... eu tentei... Arthur, meu amor, a mamãe está aqui... — Ela soluçava, em um estado de choque que a impedia de agir.
Emanuel, movido pelo instinto prático e pela adrenalina, empurrou Eduarda para o lado com mais força do que pretendia. Ele pegou o filho no colo, pressionando a própria mão contra o corte para estancar a hemorragia.
— Pega uma toalha limpa! Agora! — Emanuel rugiu, a voz carregada de uma fúria fria que raramente usava com Eduarda.
Ela correu para o banheiro, tropeçando nos próprios pés, e voltou com uma toalha de rosto. Emanuel a pegou bruscamente.
— Como você pode ser tão desligada, Eduarda? — Emanuel disparou, os olhos fixos no ferimento do filho. — Eu estava trabalhando, você estava do lado dele! Você não consegue cuidar de uma criança por cinco minutos sem que ela se desfigure?
As palavras foram como facas no peito de Eduarda. Ela recuou, encostando-se na parede, as mãos pálidas apertadas contra o peito.
— Eu não vi... ele pulou... Emanuel, eu sinto muito...
— Sentir muito não fecha o lábio dele! — Emanuel gritou, já caminhando em direção à porta com o menino nos braços. — Sara, cuida da Valentina. Eduarda, pega a bolsa dele e entra no carro. Agora!
O trajeto até o hospital foi um pesadelo de silêncio interrompido apenas pelos soluços de Arthur e o choro contido de Eduarda no banco de trás. Emanuel dirigia como um louco, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ele estava apavorado, e para Emanuel, o medo sempre se transformava em irritação e controle.
No pronto-socorro, a espera pareceu durar séculos. Arthur precisou de quatro pontos. O choro do menino durante o procedimento era algo que Eduarda sentia em seus próprios ossos. Ela queria segurá-lo, mas Emanuel permanecia firme ao lado da maca, bloqueando o espaço, como se a presença dela fosse o motivo de todo o mal.
Quando finalmente voltaram para casa, já era noite profunda. Arthur, dopado por um analgésico leve, dormia no colo de Emanuel. O triplex estava silencioso. Sara já havia se retirado com Valentina para o andar de cima.
Emanuel colocou o filho no berço com uma delicadeza extrema, ajeitando a manta e beijando a testa do pequeno antes de sair do quarto. Eduarda o esperava no corredor, com os olhos vermelhos e inchados, parecendo uma sombra da mulher que era.
— Ele está bem? — ela sussurrou, a voz quase inaudível.
Emanuel passou por ela sem responder, indo direto para a cozinha e servindo-se de um copo de água. Ele sentia a tensão saindo de seu corpo, e com ela, a percepção do que havia feito.
— Emanuel, por favor, fala comigo... — Eduarda se aproximou, tocando timidamente o braço dele.
Ele se virou. O rosto de Eduarda estava desolado. Ela parecia pequena, frágil e completamente destruída pela culpa.
— Eu fui um idiota — Emanuel disse finalmente, a voz rouca. — Eu descontei em você o meu pavor de ver ele sangrando daquele jeito.
— Você estava certo — disse ela, as lágrimas voltando a cair. — Eu deveria ter sido mais rápida. Eu sou uma mãe terrível... a Sara tem razão, eu sou uma tonta.
Emanuel largou o copo e envolveu Eduarda em seus braços, puxando-a para um abraço apertado. Ele sentiu o corpo dela tremer contra o dele.
— Não diga isso. Nunca mais diga isso. Você é a melhor mãe que o Arthur poderia ter. Ele é um furacão, Duda. Ele é igual a mim, impulsivo e teimoso. Nem dez pessoas vigiando impediriam aquele pulo.
— Mas você gritou comigo... você me culpou...
— Eu sei. E eu vou me arrepender disso todas as vezes que olhar para você hoje — Emanuel afastou-se um pouco, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Eu estava com medo, Eduarda. Ver o sangue dele nas minhas mãos... eu perdi o controle. Me perdoa?
Eduarda assentiu, escondendo o rosto no peito dele. O perdão dela era sempre fácil, sempre doce, e isso fazia Emanuel se sentir ainda mais culpado por sua dureza.
— Escuta — disse ele, beijando o topo da cabeça dela —, a Sara levou a Valentina para dormir e disse que não quer ser incomodada porque o "estresse" do acidente acabou com a beleza dela. A babá está de sobreaviso no quarto ao lado do Arthur. Você vai tomar um banho, colocar aquele vestido que eu comprei em Milão e nós vamos sair.
Eduarda levantou o rosto, confusa.
— Sair? Agora? Mas o Arthur...
— O Arthur está sob efeito de remédio, vai dormir até amanhã cedo. Nós precisamos de um momento, Duda. Só nós dois. Longe dessa loucura, longe das brigas da Sara, longe da culpa. Eu quero levar você para jantar.
— Mas eu não acho que consigo comer nada, Manu...
— Você vai tentar. Por mim.
Uma hora depois, eles estavam sentados em um restaurante exclusivo nos Jardins. O ambiente era à meia-luz, com música suave e o som discreto de talheres de prata. Eduarda usava um vestido de seda azul marinho que realçava sua pele clara e a delicadeza de seus traços.
Emanuel segurava a mão dela sobre a mesa, os dedos traçando padrões sobre a pele macia de Eduarda.
— Você está linda — ele disse, olhando-a com uma intensidade que sempre a fazia corar.
— Obrigada por me trazer aqui — disse ela, dando o primeiro sorriso sincero da noite. — Eu estava me sentindo sufocada naquele apartamento.
— Eu sei. Viver com a Sara é como viver dentro de um vulcão em erupção constante. E eu sei que ela te ataca para se sentir melhor. Mas você precisa saber, Eduarda, que você é o que mantém aquela casa de pé.
— Eu? — ela riu baixinho. — Eu sinto que sou a que menos tem voz lá.
— Ter voz não é gritar mais alto — Emanuel disse, inclinando-se para frente. — A Sara é o barulho, mas você é a música. O Arthur te adora. Eu te adoro. E hoje, no hospital, quando eu vi você desmoronando, eu percebi que não posso deixar a minha brutalidade apagar a sua luz.
— Às vezes eu acho que não sou forte o suficiente para esse nosso... arranjo — confessou ela, olhando para o vinho em sua taça. — Ver a Valentina pedindo meu colo e a Sara ficando furiosa, ver o Arthur se machucando e você me culpando... é muito peso.
— Eu vou carregar mais desse peso daqui para frente — prometeu Emanuel. — Eu vou colocar limites na Sara. Ela não pode usar o acidente do nosso filho para te humilhar.
O jantar transcorreu em uma bolha de intimidade que eles raramente conseguiam desfrutar. Eles falaram sobre a faculdade de Eduarda, sobre os planos de Emanuel para uma nova galeria de arte que unisse tatuagem e pintura clássica, e sobre o futuro de Arthur e Valentina.
— Você acha que eles vão se dar bem quando crescerem? — perguntou Eduarda.
— Eles vão ser o equilíbrio um do outro — respondeu Emanuel. — Valentina vai dar a Arthur a estrutura que ele precisa, e Arthur vai ensinar a ela que a vida é muito mais do que bolsas caras e aparências. Exatamente como nós.
Ao voltarem para casa, o triplex estava mergulhado no silêncio. Emanuel acompanhou Eduarda até o quarto dela. Antes de entrar, ela parou e o olhou.
— Obrigada por hoje, Manu. Por me defender... e por me ver.
Emanuel a puxou para um beijo profundo, um beijo que carregava todo o arrependimento do dia e a promessa de proteção.
— Durma bem, Duda. Amanhã o nosso pequeno furacão vai acordar querendo aprontar de novo, e nós vamos estar lá para segurá-lo. Juntos.
Eduarda entrou no quarto e foi até o berço. Arthur dormia tranquilamente, o lábio inchado e com os pontos escuros, mas a respiração era rítmica. Ela acariciou o cabelo do filho e sentiu, pela primeira vez naquele dia, que a tempestade havia passado.
No andar de cima, em seu quarto luxuoso, Sara ouviu o som da porta de Eduarda se fechando e o silêncio que se seguiu. Ela sabia onde Emanuel estivera. Sabia que, por mais que ela gritasse, por mais que ela ostentasse e por mais que Valentina fosse a "herdeira perfeita", havia uma conexão entre Emanuel e Eduarda que o sangue e as feridas só faziam fortalecer.
Sara apertou o travesseiro, os olhos fixos na escuridão. A guerra estava longe de terminar, mas naquela noite, a paz de Eduarda havia vencido a sua vulgaridade. E no silêncio do triplex, as cicatrizes de Arthur começavam a fechar, enquanto novas linhas eram desenhadas no destino daquela família improvável.