Vida
Ouro, Glacê e o Caos nos Jardins
O sol da manhã batia nas janelas de vidro do triplex, refletindo-se no mármore italiano de forma quase cegante. Para Emanuel, aquele brilho era o prenúncio de mais um dia tentando equilibrar o império que construíra com as mãos tatuadas e o hospício doméstico que chamava de lar. Ele terminava de ajustar o relógio no pulso quando ouviu o primeiro som de discórdia vindo da área de lazer das crianças.
Valentina estava sentada em sua poltrona de veludo miniatura, um presente importado que Sara insistira em comprar. A menina, com seus cachos loiros perfeitamente alinhados, olhava para um castelo de blocos de montar espalhado pelo tapete persa com uma expressão de profundo desdém.
— Tina, vamos brincar no chão com o Arthur? — sugeriu Eduarda, que estava sentada sobre os calcanhares, tentando incentivar a interação entre os meio-irmãos.
A pequena Valentina cruzou os bracinhos sobre o vestido de algodão egípcio e balançou a cabeça negativamente, fazendo um bico que era a cópia fiel do de Sara.
— Não, Duda. Chão é pobre — declarou a menina, com a convicção de quem anunciava uma verdade universal.
Eduarda arregalou os olhos, chocada, e olhou para Emanuel, que acabara de entrar na sala.
— Emanuel, você ouviu isso? — sussurrou Eduarda, a voz carregada de preocupação. — De onde ela tirou essa ideia?
Emanuel franziu a testa, observando a filha. Ele sabia que Sara era fútil, mas ouvi-lo da boca de uma criança de dois anos era um soco de realidade.
— Sara! — Emanuel chamou, a voz ecoando pelo apartamento.
A loira apareceu no topo da escada, vestindo um robe de seda transparente e segurando uma máscara de gel nos olhos.
— O que foi agora, Emanuel? Eu estou tentando reduzir o inchaço matinal.
— A Valentina acabou de dizer que não brinca no chão porque "é pobre". Você anda ensinando essas coisas para ela? — questionou ele, com o tom de voz subindo perigosamente.
Sara soltou uma risada ríspida e desceu os degraus com a elegância de uma rainha de passarela.
— Eu nunca disse isso diretamente, querido. Mas a menina tem instintos. Ela sabe reconhecer o que é de baixo nível. Olhe para ela, Emanuel, ela tem o sangue de uma herdeira. Não é como... certas pessoas que parecem se sentir em casa no meio da poeira.
Ela lançou um olhar venenoso para Eduarda, que se encolheu levemente, abraçando Arthur. O menino, alheio à tensão social, tentava comer um dos blocos de montar.
— Isso é ridículo — Emanuel rosnou, massageando as têmporas. — Ela é uma criança. O chão deste apartamento custa mais do que a casa da maioria das pessoas no mundo.
— Exatamente — retrucou Sara, pegando Valentina no colo e dando um beijo estalado em sua bochecha. — Por isso ela deve ser tratada como a joia que é. Deixe o chão para o pequeno selvagem da Eduarda.
Emanuel não teve tempo de responder, pois Arthur decidiu que aquele era o momento perfeito para demonstrar sua "selvageria". O menino se soltou de Eduarda e começou a correr em círculos, rindo e batendo as mãos nas pernas de Emanuel.
— Banho, papai! Água! — gritava Arthur, cujos cabelos castanhos estavam grudados na testa pelo suor da brincadeira anterior.
— Ele está precisando mesmo — disse Eduarda, tentando recuperar o fôlego. — Ele passou a manhã inteira tentando "pintar" as paredes com os dedos sujos de geleia. Vem, Arthur, vamos tomar um banho calmo.
Eduarda levou o filho para o banheiro principal, esperando que a rotina de água morna e brinquedos de borracha pudesse acalmar o pequeno furacão. Emanuel, sentindo-se exausto antes mesmo de sair para o estúdio, decidiu acompanhá-los, deixando Sara e Valentina sozinhas com seus preconceitos de luxo.
No banheiro, no entanto, a "calmaria" de Eduarda provou ser uma ilusão. Assim que Arthur foi colocado na banheira, ele não viu um lugar para relaxar, mas sim um oceano particular pronto para ser explorado.
— Arthur, devagar... — pediu Eduarda, já sentindo os primeiros respingos em seu rosto.
O menino deu um tapa vigoroso na superfície da água, criando uma onda que atingiu em cheio o peito de Eduarda.
— Água! Muita água! — Arthur ria, os olhos brilhando com uma malícia adorável.
Emanuel, que observava da porta, não conseguiu conter o riso ao ver Eduarda tentando, sem sucesso, manter a dignidade enquanto o filho transformava o banheiro numa enchente.
— Precisa de ajuda, Duda? — perguntou ele, retirando o paletó e dobrando as mangas da camisa social.
— Por favor! Ele está impossível hoje! — exclamou ela, tentando segurar o menino, que escorregava como um peixe ensaboado.
Emanuel se ajoelhou ao lado da banheira, mas Arthur foi mais rápido. O menino pegou um balde de brinquedo, encheu-o até a borda e, com uma mira surpreendente, despejou o conteúdo diretamente na cabeça de Emanuel.
Houve um segundo de silêncio absoluto. Eduarda prendeu a respiração, esperando uma explosão de irritação do homem que controlava empresas internacionais com mão de ferro. Mas Emanuel apenas limpou a água dos olhos, olhou para o filho e, para a surpresa de Eduarda, pegou o chuveirinho e disparou de volta.
— Ah, é assim? Guerra de água então? — Emanuel riu, entrando no jogo.
Em poucos minutos, o banheiro de mármore estava completamente alagado. Emanuel e Eduarda estavam encharcados, as roupas grudadas ao corpo, enquanto Arthur gargalhava como um pequeno demônio vitorioso no centro da banheira.
— Você está horrível, Manu — disse Eduarda, rindo entre os soluços, enquanto tentava tirar o cabelo molhado dos olhos.
— Você também, Duda — respondeu ele, olhando para ela com uma suavidade que só ela conseguia despertar. — Mas acho que o objetivo foi alcançado. Ele está limpo.
— E nós estamos prontos para um naufrágio — completou ela.
Eles terminaram de secar o menino, que agora parecia finalmente exausto, e o vestiram com um pijama de algodão macio. Emanuel precisou trocar de roupa completamente, amaldiçoando o atraso para sua reunião, mas mantendo um sorriso discreto no rosto.
No entanto, a paz durou pouco. Arthur, que recentemente descobrira como girar maçanetas e alcançar trincos, havia desenvolvido um talento especial para a infiltração. Enquanto Eduarda secava o chão do banheiro e Emanuel terminava de se vestir no closet, o menino aproveitou a distração para iniciar sua missão secreta.
Arthur caminhou pelo corredor com seus passos silenciosos de quem sabe que está fazendo algo proibido. Ele parou diante da porta dupla que levava à suíte master de Sara, um território que ele sabia ser vigiado como uma fortaleza. A porta, por um descuido de uma das empregadas que acabara de sair com as roupas para a lavanderia, estava apenas encostada.
Com um empurrãozinho determinado, Arthur entrou.
O quarto de Sara era um santuário de excessos. Perfumes caros, espelhos dourados e uma penteadeira que parecia o altar de uma deusa da cosmética. Valentina estava sentada em seu tapetinho rosa no canto do quarto, folheando uma revista de moda infantil, quando viu o irmão entrar.
Arthur não estava interessado na irmã ou nas roupas. Seus olhos foram atraídos pelo brilho. Sobre a penteadeira de Sara, havia um frasco grande, aberto, de um pó corporal iluminador de edição limitada — puro glitter dourado, fino e extremamente volátil.
— Ouro! — sussurrou Arthur.
Ele subiu na banqueta de veludo e, com a curiosidade típica de sua idade, puxou o frasco. O resultado foi instantâneo. Uma nuvem dourada explodiu no ar, cobrindo Arthur da cabeça aos pés. O menino, achando aquilo a coisa mais maravilhosa que já vira, começou a passar as mãos no rosto e no cabelo, espalhando o pó cintilante por cada centímetro de sua pele.
Eduarda, percebendo o silêncio repentino e a ausência do filho, começou a chamá-lo pelo corredor.
— Arthur? Arthur, onde você está?
Ela seguiu o rastro de pequenas pegadas úmidas que levavam à suíte de Sara. Ao abrir a porta, a cena que encontrou a fez querer desaparecer.
Arthur estava no centro do tapete branco de pele de carneiro de Sara, brilhando como uma estátua de ouro viva. Ele estava coberto de glitter, e o pó dourado agora decorava também os móveis, o espelho e o próprio tapete. Valentina observava tudo de longe, com os olhos arregalados e uma expressão de puro horror, como se estivesse presenciando o fim da civilização.
— Arthur! Meu Deus, o que você fez? — Eduarda correu até ele, mas parou a poucos centímetros, com medo de tocar no menino e espalhar ainda mais o brilho.
— Sou rei, mamãe! — Arthur anunciou, orgulhoso, com o rosto tão brilhante que refletia a luz do lustre.
— O que é esse barulho no meu... — A voz de Sara cortou o ar como uma navalha.
Ela entrou no quarto vinda do closet lateral e parou abruptamente. O grito que ela soltou foi tão agudo que Valentina começou a chorar instantaneamente.
— MINHA PENTEADEIRA! MEU TAPETE! — Sara avançou, as unhas longas apontando para Arthur como garras. — Eduarda, olha o que esse seu monstrinho fez! Esse pó custou quinhentos dólares! É ouro de verdade triturado!
— Eu sinto muito, Sara! Eu vou limpar, eu juro... — Eduarda tentava pegar Arthur, que agora achava que a reação de Sara era parte de uma brincadeira e tentava abraçar as pernas da loira.
— NÃO ME TOQUE! — gritou Sara, pulando para trás para evitar o contato com o "menino dourado". — Emanuel! EMANUEL! Venha ver o que o seu filho fez!
Emanuel apareceu na porta, já pronto para sair, mas congelou ao ver a cena. Ele olhou para o filho, que brilhava como uma joia, para o tapete arruinado e para a histeria de Sara.
— Ele entrou sozinho, Emanuel! — Sara vociferava, gesticulando freneticamente. — Ele é um vândalo! Valentina está traumatizada! Olhe para ela, ela está vendo o próprio quarto ser destruído por esse... esse bárbaro!
Emanuel suspirou, sentindo a dor de cabeça retornar com força total.
— Foi um acidente, Sara. Ele é uma criança de dois anos.
— Um acidente? — ela retrucou, a voz carregada de veneno. — É falta de educação! É o que acontece quando a mãe passa o dia lendo livrinhos de arte em vez de ensinar o filho a não ser um selvagem!
Eduarda, com os olhos cheios de lágrimas, pegou Arthur no colo, ignorando o fato de que agora ela também estava ficando coberta de ouro.
— Eu já disse que vou limpar, Sara. Não precisa falar assim.
— Limpar? Você vai precisar de uma equipe de mineração para tirar isso do meu tapete! — Sara se virou para Emanuel. — Eu quero esse menino longe do meu quarto. Eu quero travas em todas as portas! Isso é insuportável!
Emanuel caminhou até Eduarda e o filho. Ele passou a mão pelo rosto de Arthur, e seus dedos ficaram imediatamente dourados.
— Você está brilhando, campeão — disse ele, com um tom de voz que não era de bronca, mas de um cansaço resignado. — Leva ele para o banho de novo, Duda. Eu resolvo o resto aqui.
— Você resolve? — Sara cruzou os braços, bufando. — Você vai comprar outro tapete e outra maquiagem, Emanuel. E vai dar um jeito de controlar essa criatura.
— Eu vou comprar tudo o que você quiser, Sara, só para você parar de gritar na frente das crianças — Emanuel respondeu, a voz fria e cortante. — E quanto ao Arthur, ele vai aprender, sim. Mas ele não é um monstro. Ele é curioso.
Eduarda saiu do quarto apressadamente, carregando o pequeno tesouro dourado em seus braços. Enquanto caminhava para o banheiro, ela ouviu a continuação da discussão entre Emanuel e Sara.
— Você mima demais a Valentina, Sara — dizia Emanuel. — Ensinar a ela que o chão é "coisa de pobre" é o caminho mais rápido para criar uma mulher amarga e vazia.
— E você deixa o seu filho destruir a casa porque vê nele a rebeldia que você não tem mais coragem de ter! — Sara rebateu.
No banheiro, Eduarda colocou Arthur novamente na água. O glitter dourado começou a flutuar na superfície, criando um redemoinho brilhante. Arthur batia as mãos na água, fascinado pela forma como o ouro se movia.
— Mamãe está triste? — perguntou o menino, notando o silêncio de Eduarda.
Ela olhou para o filho, para o brilho que ainda restava em seus cílios, e sentiu um aperto no peito.
— A mamãe só quer que você cresça sendo bom, Arthur. Não importa se você brilha ou se está sujo de terra.
Emanuel apareceu na porta do banheiro alguns minutos depois. Ele se sentou no chão, ignorando a umidade que ainda restava ali, e observou os dois.
— A Sara saiu — disse ele. — Levou a Valentina para o shopping. Disse que precisa de "terapia de compras" para superar o trauma.
Eduarda soltou um riso nervoso.
— Sinto muito por tudo isso, Manu. Eu me distraí por um segundo...
— Não se desculpe, Duda. A vida neste apartamento é um campo minado. Às vezes, a gente só precisa de um pouco de glitter para ver onde estão as armadilhas.
Ele estendeu a mão e tocou a face de Eduarda, deixando um rastro dourado em sua bochecha.
— Nós vamos dar um jeito — continuou ele. — Mas, por favor, da próxima vez que ele decidir se tornar um rei, tente fazer com que ele escolha prata. É mais fácil de limpar.
Eduarda riu, o som ecoando pelo banheiro alagado, enquanto Arthur continuava sua dança dourada na banheira. No triplex de Emanuel, o luxo e a vulgaridade de Sara podiam gritar alto, mas era na calmaria resiliente de Eduarda e no caos vibrante de Arthur que o verdadeiro brilho daquela família disfuncional residia. Ouro ou não, a vida ali nunca seria opaca.