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Vida

Sombras de Ausência e Desejos de Veludo

O loft de Emanuel parecia vasto demais, silencioso demais e estranhamente frio sem a presença imponente do seu dono. Emanuel havia partido para uma convenção internacional de tatuagem em Londres, e o eco de seus passos firmes fora substituído pelo zumbido constante do ar-condicionado central. Com as crianças passando a semana na casa da avó — um refúgio de grama e silêncio que Arthur certamente estava tentando transformar em um campo de batalha —, o apartamento se tornara um território de tensões latentes e desejos represados.

No andar de baixo, a iluminação era baixa, composta apenas por fitas de LED em tons de roxo e âmbar que Sara insistira em instalar. Ela não lidava bem com a solidão. Para Sara, o silêncio era um insulto à sua beleza e a ausência de Emanuel era um vácuo que precisava ser preenchido com adrenalina e toque.

Ela estava na sala, vestindo apenas um robe de seda preta que mal cobria suas curvas esculpidas. Ao seu lado, sentada no sofá de couro italiano, estava Rebeca, uma amiga de longa data que compartilhava do mesmo desdém pelas convenções sociais e da mesma fome por luxo. Rebeca era morena, de traços marcantes, e olhava para Sara com uma admiração que beirava a devoção.

— Ele realmente não se importa? — perguntou Rebeca, a voz baixa, enquanto observava Sara servir duas taças de um vinho tinto encorpado.

— Emanuel é um homem prático, querida — respondeu Sara, com um sorriso felino. — Ele sabe que eu sou demais para um homem só, mesmo para ele. Desde que não haja outros homens no meio, ele me deixa explorar o que eu quiser. Ele chama isso de "liberdade estética".

Sara sentou-se ao lado de Rebeca, a proximidade fazendo o perfume caro de ambas se misturar em uma fragrância inebriante. O toque começou de forma sutil, os dedos de Sara traçando o contorno do maxilar de Rebeca, descendo pelo pescoço até encontrar a alça da blusa de cetim da amiga.

— E você está com saudades dele? — Rebeca sussurrou, sentindo o hálito quente de Sara contra seu rosto.

— Estou com saudades do que ele faz comigo — admitiu Sara, a voz ficando mais rouca. — Mas hoje... hoje eu quero algo diferente. Quero algo que só outra mulher entende.

Sem mais palavras, Sara puxou Rebeca para um beijo ávido. Não havia a timidez que emanava de Eduarda; ali havia apenas fome. As mãos de Sara, acostumadas a comandar, logo se perderam nos cabelos de Rebeca, enquanto a amiga correspondia com a mesma intensidade, puxando o robe de seda de Sara para baixo, revelando a pele bronzeada e os seios firmes, marcados pelo silicone que ela ostentava como um troféu.

Enquanto isso, no andar de cima, o cenário era oposto em forma, mas idêntico em essência. Eduarda estava trancada em seu quarto, a luz apagada, apenas a claridade da lua entrando pela fresta da cortina. Ela se sentia pequena naquela cama enorme. Sem o peso do corpo de Emanuel sobre o seu, sem o calor de suas tatuagens roçando sua pele, ela se sentia desprotegida.

Eduarda tentara ler um livro sobre o Renascimento, mas as palavras pareciam embaralhadas. Sua mente voltava obsessivamente para a última noite que passaram juntos, para a forma como Emanuel a segurava, chamando-a de sua "Cereja" e prometendo voltar logo. O desejo nela era algo silencioso, uma brasa que queimava devagar, ao contrário do incêndio de Sara.

Com as mãos trêmulas, ela abriu a gaveta do criado-mudo e retirou um objeto que Emanuel havia lhe dado de presente há alguns meses, rindo da timidez dela ao recebê-lo. Era um consolo de silicone realista, pesado e morno ao toque.

— Manu... — sussurrou ela, fechando os olhos e imaginando que era ele quem estava ali.

Eduarda se despiu lentamente, sentindo o ar frio do quarto arrepiar sua pele sensível. Ela se deitou, as pernas se abrindo em um convite solitário. Enquanto seus dedos começavam a explorar seu próprio corpo, sua mente desenhava o rosto de Emanuel, a expressão séria dele no momento do ápice, a força de suas mãos.

Lá embaixo, na sala, o clima havia escalado para um frenesi de pele e suor. Sara e Rebeca estavam agora no tapete persa, os corpos entrelaçados em uma dança de luxúria pura. Sara estava por cima, suas mãos explorando cada centímetro do corpo da amiga com uma agressividade que Emanuel conhecia bem.

— Mais... — pediu Rebeca, a respiração entrecortada.

Sara desceu o corpo, seus lábios encontrando o pescoço, os seios e, finalmente, descendo para o ventre de Rebeca. A loira não tinha pressa, mas agia com uma precisão cirúrgica. Quando suas línguas se encontraram em um beijo úmido e profundo, Sara sentiu a efervescência que só a quebra de regras proporcionava.

— Você é deliciosa — murmurou Sara, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos da amiga.

Elas se posicionaram de forma que seus corpos se encaixassem perfeitamente. O movimento era rítmico, o atrito das peles suadas produzindo um som abafado que ecoava pelo loft vazio. Sara fechou os olhos, entregando-se à sensação do "colar velcro", como ela mesma costumava brincar com Emanuel. O prazer entre duas mulheres era algo contínuo, uma onda que não parecia ter fim, e Sara se perdia naquela simetria de formas.

No andar de cima, Eduarda soltou um gemido baixo, abafando o som contra o travesseiro. O brinquedo de plástico agora se movia dentro dela em um ritmo urgente, imitando a estocada firme de Emanuel que ela tanto ansiava. Suas costas se arquearam, o suor brilhando em sua testa. Ela imaginava as mãos tatuadas de Emanuel prendendo seus pulsos acima da cabeça, a voz dele comandando seu prazer.

— Por favor, Manu... volta logo — ela ofegava, o ápice se aproximando como uma tempestade.

Eduarda era toda emoção e entrega, mesmo sozinha. Sua masturbação era um ato de devoção ao homem que a transformara de uma garota tímida em uma mulher que conhecia os próprios limites. Quando a onda finalmente a atingiu, seu corpo estremeceu violentamente, e ela sussurrou o nome dele uma última vez antes de desabar contra os lençóis, exausta e saciada, mas ainda sentindo o vazio da ausência física dele.

No andar de baixo, o clímax de Sara foi barulhento e triunfante. Ela e Rebeca desabaram uma sobre a outra, os pulmões lutando por ar, os corpos ainda vibrando com a intensidade do encontro. Sara se afastou, limpando o canto da boca com as costas da mão, um sorriso de satisfação plena no rosto.

— Nada mal para uma terça-feira sem o mestre da casa — disse Sara, esticando-se como uma leoa que acabara de caçar.

— Você é incrível, Sara — disse Rebeca, ainda tentando recuperar o fôlego. — O Emanuel é um homem de sorte.

— Ele sabe disso — Sara levantou-se, pegando seu robe e vestindo-o sem se preocupar em se cobrir totalmente. — Ele sabe que eu preciso de fogo. E se ele não está aqui para me queimar, eu encontro minhas próprias chamas.

Ela olhou para o teto, sabendo que Eduarda estava lá em cima. Sara sentia um prazer quase perverso em saber que, enquanto ela explorava a liberdade que Emanuel lhe concedia, a "santinha" provavelmente estava lá, choramingando de saudades e se escondendo sob as cobertas.

— O que será que a Eduarda está fazendo? — perguntou Rebeca, seguindo o olhar de Sara.

— Provavelmente rezando para o altar do Emanuel ou chorando por causa de algum livro de arte — debochou Sara, servindo-se de mais um pouco de vinho. — Ela não tem coragem de viver, Rebeca. Ela só existe através dele.

Sara não sabia, e talvez nunca entendesse, que a entrega de Eduarda, mesmo na solidão, tinha uma profundidade que a loira jamais alcançaria com todas as suas aventuras. Enquanto Sara buscava o choque e a novidade, Eduarda buscava a conexão, mesmo que fosse através de um objeto de plástico e de memórias vívidas.

A noite avançou sobre o loft. Rebeca partiu pouco depois, deixando Sara sozinha com seus pensamentos e o resto do vinho. A loira subiu as escadas, passando pela porta do quarto de Eduarda. Ela parou por um segundo, ouvindo o silêncio absoluto que vinha de lá de dentro.

— Boa noite, Cereja — murmurou Sara, com um tom carregado de ironia, antes de seguir para sua própria suíte.

No quarto ao lado, Eduarda já estava em um sono leve, a mão ainda repousando sobre o travesseiro de Emanuel. Ela sonhava com o barulho das máquinas de tatuagem e com o toque áspero das mãos dele em sua pele.

A distância de Londres parecia menor agora que o desejo fora aplacado, mas o loft continuava sendo um palco de contrastes. De um lado, a vulgaridade libertina de Sara, que usava o corpo como uma ferramenta de prazer e poder. Do outro, a timidez sensual de Eduarda, que transformava a ausência em um ritual de adoração silenciosa.

Emanuel, a milhares de quilômetros de distância, olhava para o celular no hotel, vendo as fotos que Sara lhe enviara — imagens provocantes de seu encontro com Rebeca — e as mensagens curtas e doces de Eduarda, dizendo que o amava e que sentia sua falta.

Ele sorriu, guardando o aparelho. Ele conhecia suas mulheres. Sabia que Sara precisava do caos para se sentir viva e que Eduarda precisava da paz para florescer. E ele, o tatuador que marcava a pele para que o tempo não apagasse as memórias, sabia que, ao voltar, teria o melhor dos dois mundos esperando por ele: o fogo que o desafiava e a doçura que o curava.

O loft, finalmente, mergulhou na escuridão total. O desejo, satisfeito de formas tão distintas, deu lugar ao descanso, enquanto o rastro do perfume de Rebeca na sala e o brinquedo escondido na gaveta de Eduarda permaneciam como testemunhas silenciosas de uma noite onde a ausência de Emanuel fora, paradoxalmente, a presença mais forte de todas.