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Violence

O Lamento do Aço e o Sacrifício de Sangue

O relógio de madeira na parede da sala parecia zombar do tempo. O tique-taque era lento, pesado, como se cada segundo fosse uma gota de chumbo caindo em um balde vazio. Eram 2:57 da manhã. O grupo estava amontoado no centro do cômodo, cercado por móveis empilhados que, agora, pareciam feitos de papelão diante do horror que espreitava do lado de fora.

O silêncio foi subitamente devorado.

*Vrum-vrum-VRUMMMMM!*

O rugido da motosserra explodiu tão perto que as janelas vibraram nos batentes. Não vinha do celeiro, nem do mato. Vinha da varanda. O som metálico e estridente de dentes de aço girando em alta rotação encontrou a madeira da porta principal. Lascas de carvalho voaram para dentro da sala como projéteis, e a lâmina fumegante atravessou a barreira, rasgando o sofá que usavam como escudo.

— Pelos deuses, ele está entrando! — gritou Hyuna, a voz subindo uma oitava em puro desespero.

— Corram! Para a cozinha, agora! — Luka comandou, empurrando os amigos em direção ao corredor estreito que levava aos fundos da casa.

Eles tropeçaram uns nos outros na penumbra. O corredor era um labirinto de sombras. No meio do caminho, entre a sala de jantar e a despensa, a figura monumental do assassino surgiu, bloqueando a passagem. Ele não viera pela porta; de alguma forma, o monstro havia contornado a casa e estourado a janela lateral com a força de um touro.

A máscara de couro cru brilhava com o suor e a graxa, o sorriso costurado parecendo ainda mais largo sob a luz fraca da lanterna de Luka. O homem avançou, a motosserra levantada como uma extensão de seu braço deformado.

— Sai de perto deles! — Acorn, movido por um instinto de proteção cego e desesperado, agarrou um busto de bronze pesado que decorava um móvel lateral e investiu contra o gigante.

O golpe atingiu o ombro do assassino com um som seco de osso encontrando metal. O homem cambaleou, o peso do corpo o fazendo pender para o lado por um breve segundo, mas ele não caiu. Pelo contrário, a dor pareceu apenas focar sua fúria.

— Acorn, não! — Sua gritou, estendendo a mão para o namorado.

O assassino girou o corpo com uma agilidade sobrenatural para o seu tamanho. Ele não mirou em Acorn primeiro; ele avançou com a lâmina giratória na direção de Sua. O tempo pareceu desacelerar. O brilho do aço estava a centímetros do rosto pálido da garota, o vento da rotação soprando seus cabelos pretos.

— Sua! — Acorn não hesitou.

Ele se lançou na frente dela, os braços abertos em um último abraço protetor. O som que se seguiu não foi humano. Foi o som da carne sendo desintegrada, de ossos sendo moídos por engrenagens implacáveis. A motosserra rasgou o peito de Acorn, descendo diagonalmente até sua cintura.

O sangue jorrou em uma cascata quente e rubra, atingindo o rosto de Mizi e o peito de Till. O corpo de Acorn foi praticamente partido ao meio, caindo no chão de madeira como um fardo de carne inútil.

Sua ficou paralisada, o rosto salpicado com o sangue do homem que a amava. Ela não gritou. Seus olhos roxos apenas se arregalaram em um choque catatônico, enquanto o resto do grupo entrava em colapso.

— Corram! Se separem! — Ivan berrou, agarrando o braço de Till e o empurrando para a escada, mas a confusão era total.

No pânico cego, o grupo se fragmentou. Luka agarrou Till pelo colarinho e o puxou para o andar de cima, subindo os degraus dois a dois. Hyuna, em um ato de desespero, puxou Sua pelo braço, arrastando a amiga em direção ao porão, enquanto Ivan e Mizi foram empurrados pelo fluxo do movimento para o lado oposto do corredor, em direção à lavanderia.

O assassino desligou a motosserra por um momento. O silêncio que se seguiu ao rugido do motor era preenchido apenas pelo som do sangue de Acorn pingando pelas frestas do assoalho. O monstro olhou para o corredor dividido. Ele parecia estar escolhendo.

Ivan e Mizi estavam encurralados no fim da lavanderia. Ivan procurava por uma saída, qualquer coisa, mas a porta estava emperrada. Ele olhou para Mizi, esperando ver o mesmo terror que sentia, mas a garota estava estranhamente imóvel, limpando uma mancha de sangue da bochecha com o polegar.

Antes que Ivan pudesse dizer qualquer coisa, o assassino avançou. Mas ele não usou a serra. Ele agarrou Mizi pelo pescoço com uma mão imensa e a suspendeu do chão.

— Mizi! — Ivan tentou avançar, mas o homem o chutou no peito com tanta força que o garoto voou contra as máquinas de lavar, perdendo o fôlego e a consciência por alguns instantes.

Luka, Till, Hyuna e Sua assistiram à cena do patamar da escada e da fresta da porta do porão. Eles viram quando o assassino, em vez de finalizar Mizi ali mesmo, jogou-a sobre o ombro como um troféu e caminhou calmamente para fora da casa, desaparecendo na escuridão do matagal que cercava a propriedade.

— MIZI! — o grito de Luka ecoou pela casa vazia, mas não houve resposta.

A madrugada arrastou-se como um pesadelo sem fim. O grupo, agora reduzido e quebrado, reuniu-se no segundo andar, trancados no quarto que fora do avô de Luka. Eles estavam em choque. Hyuna soluçava baixinho em um canto; Sua permanecia sentada no chão, olhando para as próprias mãos manchadas de vermelho, o livro que tanto prezava esquecido em algum lugar da carnificina lá embaixo.

Ivan acordou com uma dor latejante nas costelas e subiu para se juntar aos outros. Ele estava em silêncio, seus olhos pretos mais sombrios do que nunca.

— Ele levou ela — murmurou Luka, andando de um lado para o outro. — Ele levou a minha irmã. A gente tem que ir atrás dela.

— Luka, olha o que ele fez com o Acorn — disse Hyuna, a voz trêmula. — Ele cortou ele como se fosse nada. Se formos lá fora agora, vamos todos morrer. Temos que esperar o sol e correr para a rodovia, buscar a polícia!

— Eu não vou deixar a minha irmã para trás! — Luka explodiu, as lágrimas finalmente caindo. — Eu não sei se ela está viva, se ele está... eu não posso!

— O Luka está certo — disse Till, levantando-se. Seus olhos verdes brilhavam com uma determinação feroz. Ele ainda conseguia sentir o cheiro da voz de Mizi em sua mente, o toque dela na beira da piscina. — Eu não vou deixar ela lá.

— Vocês são loucos — Ivan disse, encostado na porta. — É uma missão suicida.

— Então fique aqui e morra de medo sozinho, Ivan — retrucou Till.

Ivan olhou para Till. Havia algo naquela briga constante entre os dois que, naquele momento, se transformou em uma dependência mútua distorcida. Ele suspirou, pegando um pé de cabra que Luka havia encontrado no armário de ferramentas do quarto.

— Se você for, eu vou, seu idiota. Alguém tem que garantir que você não morra antes de eu te irritar mais uma vez.

Hyuna olhou para Sua. Ela sabia que não podia ficar sozinha na casa. O cheiro da morte de Acorn ainda subia pelas frestas do chão.

— Se vocês vão, nós vamos também — disse Hyuna, puxando Sua para cima. — É mais seguro ficarmos juntos do que esperar aqui para sermos abatidos como gado.

Quando os primeiros raios de um sol pálido e doentio começaram a filtrar através da névoa da manhã, o grupo se preparou. Eles tinham apenas um pé de cabra, uma lanterna de pilhas gastas e a coragem desesperada de quem não tem mais nada a perder.

Eles desceram as escadas, evitando olhar para o que restara de Acorn na sala de jantar. A porta da frente estava escancarada, um convite mudo para o inferno verde que era a floresta da fazenda.

— Mizi... eu estou indo — sussurrou Luka, apertando a lanterna contra o peito.

Eles entraram na mata seguindo os rastros de galhos quebrados e gotas de sangue que marcavam o caminho do monstro. A floresta era densa, as árvores parecendo se fechar sobre eles. O silêncio da manhã era pior que o barulho da motosserra; era o silêncio da expectativa.

— Fiquem atentos — sussurrou Till, ficando na vanguarda com o pé de cabra. — Qualquer som, qualquer movimento...

Eles caminharam por cerca de vinte minutos até chegarem a uma clareira onde o mato era mais alto. No centro, havia uma estrutura de madeira velha, uma espécie de cabana de caça que não constava no mapa da propriedade que Luka vira.

— Ali — apontou Ivan.

A porta da cabana estava entreaberta. Do lado de fora, a motosserra estava fincada em um tronco de árvore, a corrente suja de fios de tecido rosa e azul e restos orgânicos.

Luka correu em direção à cabana, ignorando os avisos de Till. Ele escancarou a porta.

— Mizi!

O interior da cabana era escuro e cheirava a mofo e ferro. Mizi estava amarrada a uma cadeira no centro do cômodo. Suas roupas estavam rasgadas e ela parecia inconsciente, a cabeça pendida para a frente.

— Graças a Deus... — Luka soltou um suspiro de alívio e avançou para desamarrá-la.

— Espera, Luka! — Till gritou, sentindo que algo estava errado. Onde estava o assassino?

Sua, que permanecera em silêncio absoluto desde a morte de Acorn, olhou para os cantos da cabana. Seus olhos roxos captaram algo que os outros não viram: não havia sinais de luta no chão empoeirado, apenas as marcas de arrasto de Mizi. E as cordas... as cordas que prendiam Mizi pareciam frouxas demais.

— Luka, afasta! — Sua gritou, mas era tarde.

Mizi levantou a cabeça. Não havia terror em seus olhos dourados. Havia apenas uma diversão cruel e uma lucidez assustadora. Ela cuspiu um pouco de sangue que mantinha na boca e sorriu para o irmão.

— Você demorou, Luka — a voz dela saiu suave, sem nenhum traço do soluço de antes. — Eu já estava ficando entediada.

Antes que Luka pudesse processar as palavras, um vulto imenso surgiu de trás da porta. O homem da máscara de couro levantou o braço, mas desta vez não segurava a motosserra. Ele segurava um gancho de metal imenso.

— Mizi, o que é isso? — Luka gaguejou, recuando.

— Isso, maninho? — Mizi se soltou das cordas com uma facilidade irritante e levantou-se, limpando o pó do short. Ela caminhou até o assassino e encostou a mão no braço manchado de sangue do monstro. — Isso é a nossa herança. O vovô não deixou apenas terra para nós. Ele deixou um legado. Ele me ensinou que o mundo é dividido entre quem corta e quem é cortado.

O grupo recuou, horrorizado. Hyuna sentiu as pernas fraquejarem.

— Você... você matou o Acorn? — perguntou Sua, sua voz saindo como um sussurro mortal.

Mizi olhou para Sua e seu sorriso se tornou mais doce, quase carinhoso.

— Eu não puxei o gatilho, Sua, mas eu dei a direção. Ele era um peso morto, não era? Você mesma sentia isso. Agora você está livre.

— Sua vadia louca! — Till avançou com o pé de cabra, mas o assassino foi mais rápido, desferindo um golpe com o gancho que abriu um rasgo profundo no braço de Till, jogando-o contra a parede de madeira.

— Till! — Ivan gritou, correndo para o lado dele, a máscara de sarcasmo finalmente caindo para revelar um pavor genuíno.

Mizi suspirou, como se estivesse lidando com crianças teimosas.

— O vovô Arthur sempre disse que a fazenda precisa de sangue novo para continuar produtiva. Silas já estava velho, os olhos falhando. O Acorn foi apenas o aperitivo.

Ela olhou para o grupo, seus olhos dourados brilhando sob a luz que entrava pelas frestas.

— Agora, temos um problema. Eu gosto de vocês. Sério, eu gosto. Mas a herança do vovô exige que apenas os fortes sobrevivam. Luka, você é meu irmão, eu posso te dar uma chance. Mas os outros...

O assassino deu um passo à frente, a respiração pesada ecoando por trás da máscara de couro. Ele pegou a motosserra que estava na porta e a ligou com um único puxão violento. O rugido metálico preencheu a cabana, abafando os gritos de horror.

— Corram — Mizi sussurrou, o tom de voz dando aquele "tesão" mórbido que Till sentira na primeira noite, mas que agora era o som da sua sentença de morte. — Eu vou dar a vocês cinco minutos de vantagem. Adoro uma boa caçada pela manhã.

Luka olhou para a irmã como se nunca a tivesse visto antes. O "nerd bonito" e responsável estava morto; em seu lugar, havia apenas um jovem traído. Ele agarrou o braço de Till, que sangrava profusamente, e olhou para Ivan, Hyuna e Sua.

— Vamos. Agora!

Eles saíram da cabana em disparada, entrando novamente na floresta densa. Mas agora, o medo não era apenas de um monstro desconhecido. Era o medo da traição, do sangue que compartilhavam e da garota de cabelos rosa que, do alto da colina, observava-os partir com um sorriso de quem sabe que, naquela fazenda, ninguém jamais consegue realmente fugir.

A caçada havia começado de verdade, e o sol da manhã apenas iluminava o caminho para o matadouro.