Violence
O Labirinto de Espelhos e o Sangue da Verdade
A floresta, que antes parecia apenas um cenário bucólico e isolado, transformou-se em um organismo vivo e hostil. O som da motosserra, um rugido mecânico que não parava, parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo, ricocheteando nos troncos das árvores centenárias. O grupo corria em desespero, os pulmões queimando com o ar gélido da manhã, mas o pânico era um guia cego.
Luka liderava o caminho, ou tentava, mas o terreno era acidentado e a névoa dificultava a visão. Eles estavam correndo em círculos. A cada clareira que cruzavam, a sensação de *déjà vu* os atingia como um soco. Eles já tinham passado por aquela árvore caída. Já tinham cruzado aquele riacho seco. Eles estavam presos no domínio do monstro.
— Por aqui! — gritou Ivan, puxando Sua pelo braço quando o som da serra pareceu se aproximar pela direita.
Eles se separaram momentaneamente no meio da folhagem densa. Ivan e Sua acabaram se chocando contra um barranco de terra, caindo um sobre o outro. O silêncio que se seguiu durou apenas três segundos, o tempo exato para que a figura colossal do assassino surgisse das sombras de um carvalho. A máscara de couro estava ensopada de suor e sangue alheio, e a lâmina da motosserra começou a descer na direção dos dois, que estavam encurralados contra a terra úmida.
— Ivan! — Sua gritou, fechando os olhos e esperando o impacto que desintegraria sua carne.
O rugido da máquina foi interrompido por um baque seco. Till, surgindo do nada como um espectro vingativo, desferiu uma pedrada violenta na parte de trás da cabeça do assassino. O gigante cambaleou, o motor da serra morrendo por um instante enquanto ele caía de joelhos, a massa bruta de seu corpo fazendo o chão tremer.
— Levanta! — Till berrou para Ivan e Sua, aproximando-se para chutar o homem caído. — Saiam daí agora!
No entanto, antes que o pé de Till atingisse o assassino, um zunido cortou o ar. Algo passou voando a milímetros da cabeça de Till, cravando-se em uma árvore logo atrás dele com um impacto surdo. Era um machado de mão.
— Ora, ora... o passarinho tentou bicar o lobo — a voz de Mizi ecoou, doce e venenosa.
Ela emergiu da névoa, caminhando com uma leveza que contrastava com o horror ao redor. Ela não parecia mais a garota preguiçosa que gostava de dormir; seus olhos dourados estavam dilatados, brilhando com uma euforia maníaca. Ela correu na direção de Till, recuperando o machado da árvore com um movimento fluido.
— Mizi, para com isso! — Hyuna surgiu lateralmente, usando todo o peso do seu corpo para empurrar a garota de cabelos rosa.
Luka aproveitou a distração e agarrou Mizi por trás, envolvendo seus braços ao redor dela e tentando desarmá-la.
— Mizi, acorda! Sou eu, seu irmão! O que você está fazendo? — Luka implorava, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Você não entende, Luka — Mizi ria, debatendo-se com uma força surpreendente. — Você sempre foi o fraco. O vovô sabia disso!
Enquanto eles lutavam, o assassino se levantou. O golpe de Till apenas o deixara mais furioso. Ele ignorou os homens e fixou seu olhar em Hyuna, que estava caída após o empurrão. Ele ergueu a motosserra, puxando a corda de ignição.
Luka, vendo o perigo iminente para a garota que amava, soltou Mizi por um segundo e cravou o machado que conseguira tomar dela nas costas do gigante. O metal penetrou fundo na carne, mas o homem mal reagiu. Ele soltou um rosnado baixo, girando o corpo lentamente, o machado ainda enterrado em seu ombro como se fosse um detalhe irrelevante.
O grupo estava encurralado. De um lado, o gigante com a motosserra voltando à vida; do outro, a garota que acreditavam ser Mizi, levantando-se com um olhar de puro ódio, pronta para avançar novamente. Eles estavam no centro de um cerco mortal, sem armas, sem saída e cercados por quem deveriam confiar.
— Acabou para vocês — disse a garota de cabelos rosa, ajeitando a postura. — Foi divertido enquanto durou. Pai, termine com isso.
O gigante levantou a serra. O som era ensurdecedor.
*POW!*
O disparo de um rifle ecoou pela floresta, silenciando os pássaros e fazendo o tempo parar.
A garota de cabelos rosa tropeçou para trás. Um buraco vermelho e perfeito havia surgido em sua testa, entre os olhos dourados. Ela não teve tempo de gritar. Seu corpo caiu para trás como uma boneca de pano, o sangue sujando as pontas azuis de seu cabelo.
O grupo ficou em choque, olhando para o corpo caído e depois para a direção do tiro.
Saindo de trás de um arbusto espesso, uma figura apareceu. Ela estava coberta de sujeira, fuligem e sangue seco. Suas roupas eram trapos e ela mancava levemente, mas em suas mãos segurava um rifle de caça antigo com uma firmeza inabalável.
Era Mizi.
A verdadeira Mizi. Os cabelos rosa e azul estavam opacos, o rosto bonito estava marcado por hematomas e cortes, mas os olhos amarelos eram cheios de uma humanidade sofrida que a impostora nunca possuiu.
— O quê... — Luka balbuciou, alternando o olhar entre o cadáver no chão e a garota armada.
— Aquela coisa... não era eu — disse a verdadeira Mizi, a voz rouca e cansada. — Ela e o pai dela... eles me pegaram na estrada antes de eu chegar à fazenda. Eles sabiam de tudo. Sabiam do testamento, sabiam do vovô.
O gigante mascarado, ao ver a garota morta no chão, soltou um grito de agonia desumana. Ele largou a motosserra, que continuou funcionando no chão, e arrancou a máscara de couro. O rosto por baixo era o de um homem de cerca de trinta e poucos anos, com feições deformadas pelo ódio e pela dor.
— Minha filha! — ele urrou, caindo sobre o corpo da impostora. — Minha pequena!
Mizi não hesitou. Ela tentou recarregar o rifle, mas o mecanismo travou. O homem, percebendo que a arma estava inútil, pegou a motosserra novamente e, com um olhar de pura loucura, partiu para cima dela.
— Mizi, corre! — gritou Till.
Mizi deu as costas e disparou floresta adentro, usando o pouco de energia que lhe restava para despistar o gigante. O assassino a seguiu, derrubando arbustos e cortando galhos em seu caminho, o som da serra se afastando gradualmente até se tornar um zumbido distante.
O grupo ficou para trás, no meio da clareira, diante do cadáver da impostora. O silêncio que se seguiu era pesado, carregado de uma confusão que beirava a loucura.
— Então... aquela não era a sua irmã? — perguntou Ivan, limpando o sangue do rosto, a voz carregada de uma incredulidade cínica.
— Não — Luka sussurrou, aproximando-se do corpo. Ele viu que a garota morta usava uma peruca de alta qualidade e lentes de contato. — Ela era uma estranha. Uma completa estranha.
— A Mizi de verdade está viva — Till disse, sentindo uma mistura de alívio e pavor. — Mas aquele monstro está atrás dela.
— A gente precisa ajudar ela! — Hyuna exclamou, mas ao olhar ao redor, percebeu que eles não tinham ideia de onde estavam. A perseguição os levara para uma parte da propriedade que nenhum deles reconhecia.
Sua, que permanecia em silêncio, olhou para o rifle descartado por Mizi. Ela o pegou, examinando a câmara. Estava vazia.
— Estamos perdidos — disse Sua, a voz plana e desprovida de emoção. — Sem carro, sem armas e sem saber quem é quem neste lugar.
— O homem... ele disse que odiava o vovô — Luka lembrou-se, tentando conectar os pontos. — Ele disse que era uma vingança. O meu avô... ele não era apenas um fazendeiro, era?
Ninguém respondeu. A floresta parecia ter se tornado um túmulo a céu aberto. Eles estavam sozinhos novamente, perdidos no coração de uma herança que cheirava a sangue e segredos antigos. O sol agora estava alto, mas a luz não trazia conforto; apenas revelava a extensão do horror que ainda tinham que enfrentar para sair vivos daquela fazenda.
— Temos que nos mover — disse Till, assumindo a liderança. — Se ficarmos aqui, ele volta para terminar o serviço.
Eles começaram a caminhar na direção oposta ao som da motosserra, cinco amigos e o fantasma de uma traição que quase os destruiu. A caçada continuava, mas agora, a verdade era a arma mais perigosa de todas.